Redentor
17 Gólgota - Ato III : Inferno Branco
Notas iniciais
Se ao menos ele pudesse sangrar...
Se ao menos ele pudesse sangrar, quebrantaria a hegemonia cruel daquele branco perene, inquisidor. Aquele branco que penetrava sua mente, alargando-se em dolorosas imensidões de nada...
Antes, espalhara seus longos cabelos sobre o piso luzidio, maculando-lhe a déspota brancura. Aliviara-se por breves instantes, chegara a sorrir. Brincou de separar e dispor as mechas na superfície, desafiando-lhe a hórrida monotonia, que já o atormentava consideravelmente. Não durou muito: entraram no “quarto branco” e trançaram-lhe os cabelos de forma firme, tão firme que repuxava-lhe o couro cabeludo. A princípio doeu, mas, longe de se ressentir disso, agradeceu mentalmente: a dor distraiu-o do vazio.
Chão branco, paredes brancas, teto branco, roupa branca, comida branca, talheres brancos, garrafa branca, latrina branca, cama branca, lençóis brancos, manta branca, mente branca, horas brancas, dias brancos, noites brancas, vida branca, uma eternidade...
Quanto passara?
Quanto tempo passaria?
E o pior... o que teria acontecido a Albior? Antes de ser levado ao “quarto branco”, vira o Arauto ser levado pelos irmãos. Torceu as mãos, rogando a Deus que não deixasse aquele homem morrer.
Ele, que viera “para que os homens tivessem vida, e vida em abundância”, temia ser a causa da perdição de um dos seus.
Onde foi que errara?
Fizera tudo conforme as leis. Do Pai Celestial e do pai terreno. O Grande Pai. Dera-se por inteiro. Derramara seu sangue, por tantas e tantas vezes! Fora seviciado, martirizado, humilhado... de nada adiantara.
Continuava errando.
Continuava pecando.
Continuava pagando.
Não.
Seu sofrimento não era NADA, perto daquele que se abateria sobre o Arauto, que lhe permitira tão preciosos momentos, momentos dos quais jamais se esqueceria.
Pagariam um alto preço por tais momentos. Ele e Albior. Soubera-o no instante em que o olhar do Grande Pai caiu como uma sombra sobre o Arauto, enquanto este assistia, estarrecido, às imagens no telão do escritório de Hades.
Não poderia imaginar o que se sucederia, ao ouvir os pesados passos em seus aposentos na manhã daquela fatídica terça-feira. O som desviou-lhe a atenção do céu, que observava fazia horas, da varanda do modesto apartamento. Evocava os olhos de Mikael naquele azul sem fim... ansiava pelo dia seguinte, quando o veria novamente. Um delicado sorriso nasceu-lhe nos lábios ante a recordação da quarta anterior. Permitiu-se viajar no bem estar conferido pelas cenas que desfilaram em sua mente.
As mãos de Mikael nas suas. Os olhos de Mikael nos seus. Os braços de Mikael ao redor de seu... de seu corpo.
Não.
Não de seu corpo.
De sua... cintura... sim.
Por que seu coração disparara de repente? Sentiu as faces queimarem, entreabriu os lábios, concentrando-se na acelerada palpitação de seu coração.
Foi quando ouviu os passos.
Pesados. Dir-se-ia impacientes.
Virou-se, quase em um sobressalto. Seu peito, aquecido pela doce rememoração do mais doce dos dias, foi trespassado ao perceber quem adentrara o quarto.
— Senhor meu pai?
— Como vai, Camus?
Inconscientemente, o ruivo tornou-se boquiaberto ao fitar o pai. Hades sorriu, e Camus não pôde deixar de estremecer. Qual o motivo...?
— Não vai responder a seu pai?
Puxando o ar de súbito, o jovem disse:
— Bem. Muito bem, senhor meu pai.
— É? Não é o que a sua cara me diz.
— Perdoe-me. Achei que o senhor só voltaria na sexta-feira.
— As coisas saíram melhores do que eu imaginei. Tudo se resolveu perfeitamente, graças ao Altíssimo; mais uma vez, Ele não desamparou este Seu servo. – Com as mãos para trás, Hades, ainda trajando o terno com que viajara de volta para o lar, caminhou pelo recinto, considerando ao redor. Tornou o semblante sombrio para o filho. – Ele NUNCA me desampara.
— Sim. Fico feliz em saber que tudo se resolveu... perfeitamente. – Imitou as palavras, em um eco inexpressivo.
— Hum. Mas você não parece satisfeito em ver seu pai, Camus. Alguma razão para isso?
Incapaz de mentir, o “messias” mordeu o lábio inferior durante o silêncio, o que foi resposta mais que suficiente para o líder religioso.
— Pelo menos ao pecado da mentira você não sucumbiu. AINDA.
As sobrancelhas rubras se contraíram.
— Acompanhe-me. – Ordenou Hades, secamente, já dando as costas para o filho.
— Aonde vamos?
O Grande Pai mirou-o; algo de impenetrável nas feições rígidas.
— Você costumava me obedecer sem pestanejar. Palavra alguma saía de sua boca; você apenas OBEDECIA.
Eles encararam-se por segundos que pareceram horas. Por mais que procurasse, Hades não encontrou um traço de temor sequer nos olhos quase escarlates. Respeito, sim. No entanto...
— Acompanhe-me e saberá. – Voltou-se, rumo à saída.
Sem mais nada proferir, o jovem seguiu-o.
Percorreram o longo corredor que ligava o apartamento do Redentor ao salão central do primeiro pavimento. Alguns seguranças esperavam por eles. Dali tomaram caminho para uma escada de mármore clara. Acessaram o segundo andar, onde ficava o escritório particular de Hades. E foi justamente para lá que foram. Assim que entraram no vasto local, decorado com suntuosidade, Camus deparou-se com os irmãos. Algol levantou-se imediatamente do sofá de couro negro, exclamando:
— Camus, meu irmão! Que saudade!!!
De braços abertos e com um largo sorriso no rosto álacre, dirigiu-se para o irmão emudecido. De repente, estacou diante do ruivo. O sorriso do caçula desvaneceu-se. Os olhos índigo cobriram-se de sombras. Toda sua expressão metamorfoseou-se. Àquilo Camus assistiu, intrigado. Algol voltou para o sofá. Radamanthys, por sua vez, foi até o Redentor e o abraçou. Quando o mais novo ia corresponder-lhe ao abraço, sussurrou-lhe ao ouvido:
— Seja forte, Camus.
Confuso, o rapaz encarou o mais velho, sem contudo obter explicação alguma para aquela admoestação. O primogênito afastou-se, nitidamente pesaroso.
— Vamos até a sala de reuniões. – Anunciou o Grande Pai. Rumou para lá, seguido por seus assessores. Os filhos seguiram-no logo depois.
Uma imensa mesa de tampo de vidro, com diversos lugares em cadeiras ricamente estofadas, encontrava-se defronte a um telão.
— Por favor, tomem assento. Há algo a que gostaria que assistissem.
Todos obedeceram. Nenhuma indagação foi feita. Camus apertou os dedos nas palmas, ligeiramente ansioso. O que significava aquela reunião repentina? Seu pai e seus irmãos haviam acabado de chegar de viagem! E quase nunca lhe fora requisitada a presença em reuniões daquele jeito...
— Assim que os Vigias e os Arautos chegarem, daremos início. – Hades falou, sem dar mostras de que revelaria seu intento antes de que todos estivessem presentes.
Havia de ser algo muito, muitíssimo sério... um encontro no escritório central do Grande Pai, com o próprio, seus filhos, o Redentor incluído, assessores, Vigias e Arautos... um tremor sacudiu o corpo de Camus, malgrado ele conservasse aparência tranquila.
Cinco minutos depois, os oito homens mais próximos de Hades chegaram ao recinto. Findas as saudações, tomaram lugar à mesa como os que por eles esperaram.
— Agradeço a pronta presença de todos nesta reunião extraordinária. Antes de entrar no assunto que a demandou, informo acerca do sucesso de nossa recente incursão ao território dos mundanos. Deus nos concedeu, outra vez, prova de Seu cuidado para com os que guardam a Fé. Os infiéis fracassaram em sua nova tentativa de manchar o sagrado nome da Aurora do Novo Porvir. Foram, mais uma vez, derrotados nos tribunais!
— Glória a Deus!!!
— Aleluia!!!
— Deus é conosco!
— Que poderá a lei dos homens contra as Leis de Deus?!?
— Sim, sim... – Continuou o líder, em meio aos murmúrios jubilosos. – Devo ressaltar os valorosos préstimos de meus filhos. Radamanthys, como habitual, honrou a confiança em que sempre lhe deposito. E Algol tampouco decepcionou-me; saiu-se bem nesta sua primeira missão em terras profanas.
O caçula sorriu orgulhoso, saboreando o primeiro elogio que recebia do pai em público. Recebeu com um delicioso calor na alma os olhares admirativos dos presentes.
Menos daquele que mais amava. Este continuava absorto. Distante.
“Pensando no maldito, aposto!”, supôs em pensamento amargo. A amargura tornava-se ódio, era inevitável. Desviou o olhar úmido de Camus, fustigado pelo ardente desejo de maltratá-lo.
Teria sua chance... estava aprendendo com Radamanthys!
Sem arroubos.
Sem demonstrações.
Teria seu quinhão. Não colocaria tudo a perder. O pai o aceitava, enfim! Glória a Deus!
— O sucesso dos justos é doloroso para os maus. E dele também não se agrada o Inimigo. Este veio para roubar, matar e destruir, conforme bem elucidam as Escrituras.
Calaram-se apreensivos com a mudança no tom e na expressão do Grande Pai. Sobretudo com o rumo que tomou seu pronunciamento:
— Mesmo Jesus, no deserto, foi pelo Inimigo sondado. Bem, eis que estamos nós aqui, em nossa santa comunidade, sendo alvo de seus insidiosos assédios. Tal qual o foi o Salvador...
Os homens entreolharam-se, perturbados. Camus sentiu o coração disparar. O desconforto que oprimia seu peito intensificou-se.
— Ciente do misericordioso Novo Plano de Salvação, eis que o Mal estende seus braços pretensamente convidativos para nós.
— “Para nós”?
— Correto, Aiacos.
— Quando diz “nós”, presumo que seja uma maneira geral de se referir ao Vale, não?
— Não, Minos. Não é uma generalização. Tampouco uma figura de linguagem.
Novos murmúrios correram a sala.
— Influências malignas esgueiram-se entre nós... nós AQUI presentes, entre as quatro paredes deste lugar.
— Senhor Hades, o que quer dizer? – Indagou um intrigado Chrysaor.
— Já entenderão. Mais uma vez louvo os préstimos de meus filhos Radamanthys e Algol. Foram usados por Deus para abrir os olhos deste servo, cerrados pela imprudente confiança nos homens. – Virou-se para o telão detrás de si. – Comece, Eliah.
O aparelho de vídeo foi ligado. Diante de todos, distinguiam-se as montanhas verdejantes que cercavam a cidadela, sob o céu de um esplendoroso azul.
— A Bíblia diz que “maldito é o homem que confia no homem”... – Murmurou o líder da seita, enquanto imagens familiares a Camus e Albior surgiram na imensa tela.
A Cachoeira do Profeta!
— Uma queda d’água! Mas o que...
— Vejam... tem gente ali. Quem é?
— Mas... mas é o Redentor! E também...
— SILÊNCIO. – Rosnou o Grande Pai. – Observem.
Sob silêncio esmagador, assistiram à insólita cena de um certo novato, já conhecido entre eles, conduzindo o “messias” da nova era pela mão. Atrás deles, o homem que deveria zelar pelo Redentor. Deixavam a descida coberta de vegetação e chegaram às margens das águas esverdeadas.
Aflitos, Camus e Albior encararam-se, conscientes de que estavam com sérios problemas.
Minutos de estupor se seguiram, até...
— O que é que Albior está fazendo? – Quis saber Asterion.
— Não é o que estou pensando, é? – Fez Bian, pasmado. Não podia acreditar que um Arauto como ele...!
— É EXATAMENTE o que estão pensando. É o que estão VENDO, meus caros. – Assegurou Hades, cravando um olhar de fria reprovação sobre Camus. Este sequer saberia dizer como seu coração ainda batia.
— Ele... ele... TIROU a tornozeleira do Redentor!
— Albior! Como você cometeu um ato de rebeldia desses?
— Vejam! O novato... Mikael...
Contemplaram, aturdidos, as imagens, inegavelmente belas porém condenáveis, de uma reles Ovelha mantendo contato tão próximo do Santo. Levaram as mãos às bocas ao presenciarem Mikael fechando os braços em torno da cintura do “messias”.
— Vão me dizer que NÃO É um ato SUJO E IMORAL? – Questionou Algol, batendo o punho com força na mesa. Não doeu tanto quanto lhe doía rever aquelas cenas.
O “messias” não se furtou a tentar se explicar:
— Eu escorreguei em uma pedra, e Mikael apenas me segurou para que eu não caísse e me machucasse...!
Hades caminhou resoluto para o jovem; desferiu-lhe um violento tapa na face. Prontamente Albior ergueu-se, dizendo:
— NÃO! Não é a ele que deve punir, e sim A MIM!
— Albior, NÃO! – o ruivo clamou, indiferente à dor.
Furioso, o líder religioso bradou:
— CALEM-SE! OS DOIS! CALEM-SE TODOS VOCÊS!!!! TOOOODOOOOS!
Nem mesmo o som das respirações seria ouvido agora. Jamais ousariam desobedecer.
Bufando, o Grande pai afastou uma mecha negra que caíra-lhe por sobre os olhos, quando da bofetada que dera no filho. Olhou para cada um dos que ali estavam. Proferiu, com voz grave:
— O Mal já fincou raízes em nossa Terra Santa. É mister arrancá-las. Comecemos pelas que temos neste recinto.
Radamathys e Algol levantaram-se. Foram até onde estava Albior.
— Venha conosco, Arauto. – Ordenou o primogênito de Hades.
Nenhuma hesitação se distinguiu no loiro; ergueu-se imediatamente, queixo erguido e olhar firme.
— Albior... por que você foi... – Murmurou Chrysaor, sentido pelo amigo.
— Não, não é a ele que devem punir! Fui eu quem...
— Não, Camus, você não desobedeceu ao Grande Pai em nenhum instante. – Interrompeu Albior, corajosamente decidido. – Quem recebe a ordem de JAMAIS remover a tornozeleira de seu corpo somos NÓS, Vigias e Arautos. Fui EU quem traiu a confiança de todos.
— Albior!... – Camus cerrou os punhos, contendo a custo a ira que aflorava. – Sabe que só fez isso porque percebeu que eu...
— BASTA, MESSIAS, não fale mais nada!!!
— Como ousa se dirigir assim ao Messias? – Indignou-se Kapela. – Além de traidor, é insolente!...
— Eu PRECISO falar! Albior só tirou a tornozeleira de mim porque...
— Eu SEI por quê, Camus. – Interrompeu o pai, em tom seco. – Não precisa falar. Ambos serão punidos. Você, para voltar ao caminho do qual está sendo desviado pelas forças contrárias. Albior, por ter desacatado minha autoridade. Por ter jogado minha confiança no lodo.
O Arauto abaixou a cabeça em uma última reverência.
Sabia que o era.
— Peço-lhe perdão, senhor Hades. Não clemência. Aceito meu castigo. Mas imploro pelo seu perdão.
— Deus é quem me revelará se devo te perdoar ou não. A Ele pertence o verdadeiro perdão. Enquanto isso, você ficará no Seol.
— Não! No Seol NÃO, meu pai! Por favor, ele não merece!!!
— Quanto a você, Camus... Minos, Capella! Levem-no para o “quarto branco”. Ficará lá uns dias para refletir sobre seu erro. Um erro que pode custar as almas de MILHÕES.
— Senhor, e quanto ao rapaz loiro? O tal Mikael? – Quis saber Dante.
Camus preparou-se para berrar e berrar a plenos pulmões: não, aceitaria tudo, TUDO, mas não tocassem em Mikael!
— Não o molestem. O povo tem-no como “o Anjo do Redentor”. Por ora, cuidemos dos que em nossa cúpula se encontram.
— Eu acho que ele deveria ser castigado também, pai... – Algol opinou, esperançoso de ver logo aquele bastardo bem longe do irmão.
— Tenho outros planos para ele.
— Que quer dizer?
— Mikael é popular. Será um trunfo para nós. Futuramente deixarei vocês a par do que pretendo para ele.
O ruivo arregalou os olhos, amedrontado com aquela declaração, muito mais, oh, MUITO MAIS, do que com a iminência de ser trancafiado no detestável “quarto branco”. Lançou um compungido e derradeiro olhar para Albior, que era levado pelos Vigias. Abaixou a cabeça, mortificado. Sabia que tormentos indizíveis esperavam pelo Arauto. Ouvira falar do Seol: era uma prisão reservada aos traidores da Sagrada Ordem, tais como fugitivos, blasfemadores, adúlteros, revoltosos, pessoas pegas em graves faltas na terra onde não se podia pecar. Ficava ao pé de um monte conhecido como Murta, distante do Tabernáculo e das áreas povoadas e cultiváveis. Dizia-se que de lá muitas vezes não se retornava... os castigos eram particularmente severos... homens havia que não resistiam...
Cerrou as pálpebras, sentindo algo arder por dentro delas. Viu-se diminuto e frágil como um floco de neve que se precipita.
*************
—Meu Deus – Murmurou Milo, aterrado com o que June lhe contara. – Mas como é que você soube de tudo que aconteceu nessa maldita reunião? Pelo que me disse, somente Hades, os filhos e os assessores mais próximos estavam presentes.
— Algol não perderia mais essa chance de me ferir. – Ela respondeu em meio a um sorriso amargo. – Ele não apenas me contou tudo o que se deu na reunião, como fez questão de que eu fosse ao Seol limpar as feridas de Albior.
— Cristo! Por que ele faria isso? Mandar você para...
— Você mesmo já deu a resposta, Mikael, minutos atrás.
O policial fitou-a com profunda compaixão.
— Você ama Albior.
— É mais do que isso. – A loira abaixou a cabeça. – Desde a infância, convivemos como irmãos. Com o passar dos anos, percebemos que o que nos unia era diferente de amizade fraternal. Era como se fôssemos predestinados... mas... enfim, tudo nos foi arrancado. Algol me escolheu como esposa. Dentre centenas e centenas de moças, fui EU a escolhida... melhor dizendo... a CONDENADA.
— Sendo ele o filho do líder da igreja, você nem pôde recusar, imagino...
— O Grande Pai já havia consentido em minha união com Albior. Estávamos tão felizes! Mas... bem na celebração do noivado, Algol... o desgraçado foi dizer ao pai que me queria. Que havia sentido no coração que eu era destinada não a um simples Arauto, mas a ele...
Ela segurou as lágrimas com bravura. Não interessava mais chorar. Prosseguiu o relato. Não tinha muito tempo.
— Bem... apanhei bacias, sal grosso, panos e um galão de água. Imaginava que tivessem açoitado Albior. Que suas feridas precisassem ser lavadas para não infeccionarem. Só que o que vi... era... era muito pior do que imaginava...
Àquela pausa, Milo pensou em levantar-se do sofá e ir buscar mais água para a moça. Contudo, ele próprio se encontrava paralisado de tensão, ansioso por continuar a ouvir a terrível história. Incapaz de se mover, apenas esperou que June retomasse seu testemunho.
*************
Levada por Algol ao interior das catacumbas, já se preparava psicologicamente para o que iria encontrar. Rogava a Deus que a ajudasse a não demonstrar desespero, isso apenas traria mais prazer a Algol... e dor a Albior.
As celas se enfileiraram cavadas na rocha fria. O chão de terra batida era precariamente iluminado por tochas. Um ou outro gemido ecoava no funesto local. De quando em quando, Algol assobiava pelo caminho. Ela tremia de ódio, entretanto, continuava firme no intuito de não deixar nada transparecer.
Chegaram diante de uma das portas de ferro, devidamente guardadas por dois seguranças. O lugar era escuro e fétido, mesmo do lado de fora... como não havia de ser no interior das celas?
— DEUS, PERDÃO, SENHOR, MEU DEEEEUS!!! ME SALVAAA!!!
Em um sobressalto, a jovem virou-se na direção da voz, assustada. Algol deu uma risada. Sem se importar com o que os guardas ouviam, ironizou:
— Relaxe, minha querida! Não foi o seu amado Albior... esses gritos são do tolo que foi pego tentando atravessar a floresta, há umas três semanas. Planejava fugir, veja só! O canalha ainda ousou roubar um dos cavalos do estábulo onde trabalhava... heh, aposto que ele nunca mais conseguirá montar um cavalo novamente...
Deu uma gargalhada hedionda aos ouvidos da esposa. Ainda aos risos, ordenou aos guardas:
— Vamos, vamos, abram a porta para a madame... ela veio cuidar desse pecador que aí está...
Assim fizeram. Um odor indescritível golpeou as sensíveis narinas da loira. Poucos archotes ardiam, iluminando precariamente o cativeiro. Passo a passo ela adentrou o ambiente tenebroso, procurando com olhos mais atentos do que nunca o amado aprisionado. Acabou cedendo ao impulso de chamar baixinho:
—Albior…?
Ouviu o tilintar de correntes. Um vulto moveu-se na penumbra, deixando as sombras. Soube que aquilo era Albior.
June sufocou um grito.
*************
June parou de falar. Seu olhar esgazeou-se. Milo percebeu que os lábios da moça tremiam. Separaram-se por um momento, como se se algo por eles fosse sair. No entanto, no lugar de palavras, tão apenas um gemido rouco de quem luta por reaver o fôlego.
— June?... – Milo sussurrou, tocando-lhe de leve o ombro.
— Eu não podia... simplesmente não podia acreditar que.. q-que aquela massa disforme e ensanguentada... f-fosse o rosto do homem que eu... e-eu...
O policial rangeu os dentes em franca agonia.
— ... bateram MUITO nele... com o quê, eu não sei. Não consegui sequer fazer o que fui fazer ali. Eu... – Hesitou, como se daquilo se envergonhasse terrivelmente. – ... eu desmaiei. Algol disse que soltei um grito e caí sem sentidos... eu nem me lembro de ter gritado...
— Você disse que ele... que ele chegou a perder a visão de um olho.
— Sim. Eu soube mais tarde, por Chrysaor, que implorou por ir atender Albior, depois de ver o estado de nervos em que fiquei. Ele conseguiu permissão para tratar-lhes as feridas, mas... mas... o olho esquerdo... a visão foi afetada permanentemente.
— Meu Deus.
Milo teve ganas de morder a própria língua.
Não.
Deus não tinha NADA a ver com aquilo. Deus não tinha NADA a ver com o Vale da Aurora Dourada!
Absolutamente NADA!
Rendendo-se às lágrimas, June prosseguiu:
— Infelizmente os apelos de Chrysaor para que Albior deixasse a masmorra a fim de receber tratamento adequado... foram ignorados.
— Maldição... – Praguejou o agente. – Por que tanta brutalidade?
— Por quê? Você... – Tencionou acusá-lo, mas o tom lamentoso diluiu a intenção. – ... você sabe por quê.
— Tá, ele tirou a tornozeleira do Redentor! Desde quando isso o faz merecedor de ser TORTURADO?
Ela balançou a cabeça com um triste desdém.
— Vê-se logo que você é um novato. Ainda não entendeu onde se meteu... como são as LEIS por aqui.
— Neste caso, ajude-me a entender, June.
— Por que você quer tanto “entender”? Não deveria estar apenas preocupado com a sua salvação?
O questionamento saiu propositalmente ácido, a Milo não passou despercebido. Viu a desconfiança que a moça já não se importava em disfarçar.
— Porque eu não gosto de ver pessoas sofrendo. Você está sofrendo, Albior está sofrendo, há tantas pessoas que estão sofrendo, neste que deveria ser um refúgio de paz na Terra! Até mesmo o Redentor...
— Qualquer fiel sabe que é DEVER dele. É a MISSÃO de Camus. – June agora estava testando-o.
— Sim, eu sei...
— Você não é uma simples Ovelha... não é, Mikael?
Ele afastou-se dela, atônito.
— O que... que quer dizer?
— Diga a verdade. – Pediu, em voz sumida.
— Que verdade quer ouvir? Sinceramente não a entendo...
June suavizou a expressão. Voltou a abaixar a cabeça. Para que pressionar a única pessoa que se dispunha a ouvi-la? A se compadecer dela? A ajudá-la? Ainda que isso fosse impossível... bem... era algo inédito.
Jamais alguém se dispusera a fazer o mesmo. Jamais.
—Não importa. O que quero ouvir é o que você disse antes para mim.
— E o que foi que eu disse antes?
Os olhos translúcidos voltaram a encontrar aqueles de azul celeste.
— Que poderia ajudar Camus. Albior. A mim.
Milo assentiu.
— A ajuda que ofereço não é imediata. Mas será permanente, quando for a hora. Mais eu não posso te dizer...
— É mais que suficiente para quem só via saída na morte.
— Que quer dizer, June?
—Se Albior morrer… eu acabarei com a minha vida. A bem dizer... NÃO É, exatamente, MINHA VIDA. – Riu tristemente.
Desta vez o policial segurou-a firmemente pelos braços. Ela chegou a gemer de dor; Milo soltou-a. Tinha se esquecido das agressões do maldito Algol. Contudo, não se incomodou em pedir desculpa alguma.
— Não se atreva a dizer isso! E o seu filho, June? E quanto a Jacó? – O rostinho de Hyoga veio-lhe à mente. – Teria coragem de abandoná-lo desse jeito?
— M-mas eu...
— E quanto a Camus? Não quer ajudá-lo?
—E como é que uma desgraçada como eu pode ajudar o Redentor? Ele foi escolhido para...
— Você acredita que Deus iria querer que Camus tivesse uma vida como a que ele leva? Acredita que o Jesus em quem tantos creem há séculos iria mandar outro sofrer MAIS do que Ele sofreu?
Sabia que se arriscava. Sabia que falas como aquela poderiam condená-lo. No entanto, sua perspicácia fê-lo distinguir uma fenda aberta na dor de June.
Era mais que dor. Era REVOLTA.
— Não. Se havia um Plano no início... penso que algo saiu do controle. – Admitiu a cunhada do “messias”.
— E, se saiu do controle, não é mais Deus quem está no comando aqui.
— Não. – Balbuciou. – Penso que nunca foi.
Milo resistiu à urgência de comemorar internamente. Decidido, demandou:
—Fale-me da “Santa Ceia”.
As desconfianças da jovem foram reforçadas àquela ordem. Entretanto... que tinha ela a perder? Sua vida sequer lhe pertencia. A bem dizer, nem mesmo seu filhinho estava a salvo da violência... quantas vezes o pobre menino não sofrera agressões por parte daquele que deveria ser seu porto seguro?
— É o mais importante Cerimonial do Ano. É o que mais propicia donativos à nossa Igreja. Somente os membros mais abastados, e selecionados após longas filas de espera, podem participar.
— Camus me pareceu bem apreensivo quanto à aproximação desse... rito.
— É muito... muito difícil para ele.
— Que lhe fazem?
—É como o nome diz... “Santa Ceia”...
— Hã?
—… CAMUS É A SANTA CEIA.
Um estranho arrepio percorreu os membros do policial.
— Acho que não estou compreendendo – Confessou, temeroso pelo que ouviria.
— Ele...
Um barulho do lado de fora chamou-lhes à atenção. Milo fez um sinal para que a moça se calasse.
“Demoraram até demais”, pensou, consciente de que não era Aldebaran. O brasileiro teria simplesmente entrado na cabana, ao invés de se esgueirar pelo alpendre.
— Onde é realizado o cerimonial? – Indagou o policial em um sussurro, bem junto à visitante.
— No Tabernáculo. No Salão da Consagração, no subsolo. – Ela respondeu do mesmo jeito.
— Me diz quando e a que horas é isso.
— Que vai fazer?
—O que acha? – Retrucou, atento à movimentação do lado de fora. Puxou June para a cozinha. – Vou entrar lá.
— Impossível! Como eu disse, somente os membros selecionados terão acesso... e estarão trajando vestes especiais...
— De que tipo?
—Mantos brancos com capuzes. São enviados aos convidados pela organização do Cerimonial.
— Ora... seria perfeito se eu conseguisse uma dessas touquinhas de Ku Klux Klan – Milo deu um sorriso de canto, já traçando estratégias. – a questão é descobrir COMO?
Como falavam muito baixo, na certa haviam instigado mais ainda o espia: o policial pôde ver-lhe parte da silhueta na janela da sala. Tornava-se descuidado no afã de ouvir o que conversavam. Melhor seria despachar a mulher. Foi quando...
— Mikael, você se lembra de quem são os Sentinelas?
— Sim... é o pessoal que trabalha no Tabernáculo, alguns diretamente na assistência ao Redentor.
— Eles também são responsáveis pela confecção de trajes cerimoniais. As mulheres, no caso. E também pela entrega. E da coordenação dos eventos.
— Hum... disso eu não sabia.
— Há outra coisa que você não sabe, Mikael.
— Hum?
—Eu sou a supervisora geral dos Sentinelas.
— É sério, June?!?
Ela sorriu de leve ao assentir. Milo não estava certo de que interpretara corretamente aquela informação bem naquele ponto da conversa. Seria possível que uma das noras de Hades sugeria-lhe...
— Eu lhe arranjarei uma veste cerimonial. Poderá averiguar o que se passa lá, sem ser descoberto. Contanto que não faça nenhuma besteira.
O agente não cabia em si de euforia.
— June... pode mesmo fazer isso?
Torcendo nervosamente as mãos, a jovem confirmou:
— Só posso te arrumar a roupa. Terá de entrar no Tabernáculo por si mesmo. Não terei como...
— Isso não deve ser tão difícil. Deixa comigo.
— Lá é muito bem guardado, Mikael.
— Darei um jeito.
— Não duvido... ainda mais se você for o que acho que é...
Um minuto de tenso silêncio foi o resultado daquela fala. Eles se encararam, incertos sobre como prosseguir a conversa. A Mikael não interessava nada nada que June inferisse que ele era um policial. Contudo...
— Por favor, tome cuidado. Os dois últimos que vieram com a mesma intenção que a sua... estão debaixo desta terra impiedosa.
Boquiaberto, o loiro fitou-a longamente. Como a garantir a integridade daquele segredo, June fez um gesto de “silêncio”. Não podiam perder tempo com negativas, promessas, explicações. Compreendendo-a, Milo meneou a cabeça em muda concordância. Bem, agora ninguém mais ninguém menos que uma integrante da família de Hades SABIA que ele era um policial. Deveria confiar nela?
Parecia não existir outra opção.
— Se garante que consegue entrar no Tabernáculo, procure o depósito de limpeza do primeiro pavimento. A partir da entrada frontal, fica no segundo corredor à esquerda. Verá funcionários circulando por ali, fica perto da cozinha. Deixarei a túnica guardada dentro de um balde coberto por um pano vermelho. Os demais estarão cobertos por panos brancos.
— Mas... e se alguém pegar justamente esse balde?
— Não vão pegar, esse depósito estará trancado. Apenas o que fica anexo à cozinha estará aberto. Vou cuidar pessoalmente disso.
— June...
— Até lá, darei um jeito de fazer a chave chegar até você.
— Não gosto da ideia de te envolver nisto. Você já tem problemas demais...
— Meu maior problema é estar aprisionada neste INFERNO, vendo os que amo sofrerem. Se ajudá-lo fizer com que um dia tudo isto tenha um fim... eu darei minha vida de bom grado.
Engolindo em seco, Milo disse com voz sumida:
— Imagino que já saiba O QUE sou, então.
— Como eu disse, houve outros antes de você. Foram descobertos e MORTOS.
Malgrado não se surpreendesse verdadeiramente com aquela afirmação, foi inevitável certa expressão de pasmo no rosto do agente. Confessou:
— A informação que recebi é de que haviam se convertido.
— Foram forçados a anunciar isso. Semanas depois, estavam no cemitério do Vale.
— Então... de fato ocorrem assassinatos aqui.
Sem hesitar, a loira fez um sinal afirmativo com a cabeça. Continuou, quase inaudível, ao ouvido do homem:
— Mikael, não tente IMPEDIR nada que estiver acontecendo na Santa Ceia. Você seria executado em três tempos. E isso acabaria não apenas com as suas chances, mas com as minhas... de meu filho... de Albior e do próprio Camus.
— Não farei isso, eu prometo.
— Lembre-se dessa promessa. O que vai presenciar lhe dará VONTADE de interferir.
— E o que eu vou...
Novo ruído. Uma tábua da varanda estalava sob as pisadas do espião.
— Será no domingo da próxima semana. Os convidados começarão a chegar às 23 horas. – Sussurrou June, apressadamente.
— Lembre-se do que você veio fazer aqui. – Disse o agente, tão baixo que June teve que ler-lhes os lábios.
— O que eu vim...? – Não concluiu; bastou acompanhar o olhar do rapaz para a janela da sala. Ela assentiu, compreendendo o plano do policial. Pôs-se a gritar – É TUDO CULPA SUA! VOCÊ pôs Albior naquela prisão horrenda!!!
“Muito bem, garota”, pensou o loiro, sorrindo satisfeito para ela. Sustentou a cena:
— Calma aí, moça, eu não sabia que aquilo traria problemas para ele!
— “Problemas”? Albior perdeu a visão de um olho! Pode estar à beira da morte agora!Para você isso é apenas “problemas”? Seu inconsequente!
— E-eu sinto muito! Sinto muito mesmo!
— Eu deveria matar você, seu maldito... mas sou uma filha de Deus! Não posso sujar minhas mãos com seu sangue imundo!
Dirigiu-se ruidosamente à saída. Perceberam que os estalos no alpendre se intensificaram. O espião afastava-se.
— Por favor, senhora, me perdoe! Nunca imaginei que minhas ações resultariam nisso! – Suplicou o policial, dramaticamente.
— Tudo que posso fazer é amaldiçoá-lo, Mikael. Você há de PAGAR por tudo que Albior está sofrendo!!!
Dito isso de modo pretensamente iracundo, a esposa de Algol deixou a cabana de forma intempestiva. Fingindo que queria impedi-la de se ir, Milo correu para fora, implorando:
— Por favor, me deixe explicar! Me perdoe! Eu não queria que isso acontecesse!
Ouviu barulho de folhas secas partindo-se sob pés apressados. O enviado de Algol fugia, antes de ser pelo novato flagrado. Milo manteve a farsa da inocência: permaneceu na frente da casa com expressão consternada, vendo a mulher se afastar.
Vários minutos depois ouviu a voz animada de Aldebaran:
— Olá, Mika!
Vinha trazendo tanta lenha quanto a carroceria de um pequeno caminhão poderia transportar.
— Olá, Debas! Pelo visto, tá querendo antecipar o inverno, hã?
— Um homem precavido é um homem tranquilo. De mais a mais, eu precisava dar bastante tempo para você e sua visita ficarem a sós, conforme solicitado por ela.
— Ah, sim – Levou a mão para trás da nuca. – Bem... na verdade... não foi exatamente uma visita amigável...
— Não? Como assim? Que aconteceu?
— Eu vou te contar. Por Deus, até quando vai ficar aí parado segurando essas toneladas de madeira?!?
O brasileiro gargalhou e retrucou:
— Vejo que é uma visão agoniante para um fracote como você!
— Bah, não fica aí se exibindo!
Parando de rir, o ex pastor perguntou:
— E o homem que vi saindo daqui do sítio? Era algum visitante também?
Milo engoliu em seco. Não obstante, disfarçou, somo sempre:
— Bom... pode-se dizer que sim. Era um segurança da senhora June. Ela é nora de Hades, afinal.
— Verdade... então, me diga o que houve. Do que a dama veio tratar contigo, que “não foi uma conversa amigável”?
— Entra de uma vez que eu te conto. Mas sem essa floresta debaixo dos braços, por favor!
*************
Camus desistira de pensar.
Tudo começou quando ele decidiu parar de tentar calcular em há quanto tempo estava no inferno branco. Pelo ciclo das refeições – arroz branco, mingau branco, clara de ovo branca, leite branco – e de seu próprio sono, imaginava que mais de quatro dias. Talvez cinco. Talvez seis. Talvez...
Não. Melhor era não calcular.
Seria ilícito, segundo sua concepção condicionada.
Dias brancos. Noites brancas. Tempo branco.
Até que veio o nada branco.
Jazia desfeito no chão branco, frio e luzidio.
Fora abençoado, enfim, com um total alheamento mental.
Vagava sobre nuvens rígidas.
Mergulhava na ausência.
Oh, como era bom.
Não que disso tivesse consciência. Mas se não havia mais nada, não havia dor. Se não havia dor, não havia sofrimento. E, se não havia sofrimento...
Eis que o nada esvaneceu-se como a névoa ao avançar de uma manhã branca. Surgiu uma imensa sombra negra. A princípio, ele não se deu conta de forma efetiva. Foi então que a voz profunda e ríspida arrancou-o do seu doce sono desperto:
— Camus. Levante-se. Isso não é maneira de receber seu pai.
Lentamente, o rapaz ergueu-se, empreendendo certo esforço para, ao menos, manter-se ajoelhado. Não eram apenas a inércia e o efeito nefasto da tortura psicológica oferecida pelo “quarto branco” que o enfraqueciam: a alimentação fazia-se bem inadequada para o pobre rapaz, embora disso ele não tivesse ciência alguma.
— Vamos. Que atitude negligente é essa?
O ruivo aprumou-se com dificuldade. Mal conseguia erguer o rosto.
— Parece que sequer percebeu que eu havia entrado. No que estava pensando para estar tão distraído?
— Em nada. – Admitiu, um tanto constrangido.
Hades esboçou um sorriso sarcástico.
— Será mesmo que não está pensando em “nada”? – Inquiriu. Abaixou-se, ficando de cócoras do jovem. A túnica negra assemelhava-se a um buraco cercando o Grande Pai.
Camus ergueu o rosto para fitar o pai. Não era notório que o Redentor nunca mentia?
— Não digo que esteja mentindo. Você não mente. – O líder religioso pareceu adivinhar-lhe o pensamento. – Talvez apenas não esteja consciente do que está se apossando de sua mente.
— Não compreendo suas palavras – Confessou, distante.
— Você tem demonstrado... certos comportamentos diferentes dos usuais, meu filho.
Os cílios rubros tremularam. Quase não conseguia focar o semblante paterno. Com efeito, admitia internamente... havia algo diferente. Algo inominável, porque desconhecido.
— Penso que esse Mikael está exercendo uma influência singular sobre você.
O ruivo estremeceu visivelmente. O fulgor que seus olhos castanhos adquiriram ao ouvir o nome do novato foi confirmação suficiente para as suspeitas de Hades.
— O que sente por esse rapaz, Camus?
— O que sinto...? – Não havia entendido a questão.
— Sim, o que você sente?
Como o “messias” demorasse a responder, Hades achou por bem expor em tom condescendente:
— Desde que conheceu Mikael, a quem apontou como o anjo que lhe aparecia em sonhos de revelação, você tem se mostrado menos submisso... menos abnegado... chegou mesmo a fazer certos questionamentos e portar-se de forma incomum. Sim, vejo dúvida no seu olhar, portanto, lembro-lhe: você chegou a me desafiar, contestando-me mais que duas ou três vezes. Não me esqueci disso, Camus. E muito menos Deus se esqueceu.
— Pedi... e peço novamente perdão por tais falhas... entretanto, asseguro que não fiz por mal.
— Eu SEI, meu filho! Que pai seria eu se não o soubesse? – Pôs-se a acariciar a face lívida do jovem. – Sei que nada faz “por mal”. Só que os efeitos nefastos de atitudes impróprias, ainda que tais atitudes sejam inocentes, não são por essa inocência amenizados. Camus, você tem uma missão sublime. A maior do mundo. Milhões de almas repousam sob SUA responsabilidade. Você NÃO pode ESCOLHER UMA.
— Mas eu não...
— Não negue – Interrompeu-o, muito sério. –você elegeu Mikael como seu favorito. Jesus não tinha favoritos, Camus.
— Está enganado, senhor meu pai!
Súbito, o ruivo foi acometido de estranha paralisia. Seus olhos arregalaram-se, seus membros enrijeceram-se, ao mesmo tempo em que seus batimentos cardíacos pareceram loucamente desordenados.
O que era aquela sensação?
Não sabia o que era.
Ou...
Ou...
Não.
Sabia SIM do que se tratava. E a consciência do que fizera causou-lhe assombro similar ao experimentado por quem se depara com a mais pura manifestação do Mal.
Acabara de MENTIR.
Como fizera aquilo? De que maneira o fizera de modo tão impensado, tão espontâneo, como se fosse um HÁBITO?
A expressão zombeteira e triunfante de Hades denunciara-lhe a sagaz percepção.
— Então chegamos a isto. O Novo Cordeiro de Deus... rendendo-se a MENTIRAS.
— E-eu... eu não sei como...
— Eu explico; ao abrir caminho para emoções mundanas que não estão em consonância com o Plano de Salvação, você abriu caminho também para as paixões que assolam a integridade e a santidade dos homens. Por isso, mentiu. É apenas um novo pecado, que sucede aos anteriores cometidos.
Aterrado, Camus ouvia a preleção, sem poder discordar. Não porque não lhe era dada uma chance, e sim porque, efetivamente, CONCORDAVA com o pai.
Ele mentira! Mas por quê?
Por que faltara com a verdade ante a afirmação de que Mikael era “seu favorito”?
— Sim, ele É seu favorito. Desde que Mikael cruzou seu caminho, sua atenção é por ele monopolizada. Isso já vinha sendo evidente para mim e para outros. Desde o início, você busca pela presença desse homem, chegou mesmo a me enfrentar para consegui-la.
— Não foi minha inten...
— Agora você vai abertamente atrás dele. Ao invés de peregrinar pela Comunidade, visitando e abençoando suas Ovelhas, retira uma delas de seu posto de trabalho; permite que Mikael monopolize atenções que deveriam ser igualmente repartidas entre os seus fiéis.
— Senhor meu pai, assim agi porque necessitava de respostas! O Anjo das Revelações certamente tinha alguma mensagem do Altíssimo para mim! Eu precisava ir ter com Mikael, conversar e...
— E passar HORAS com ele pelas matas? Retirar a tornozeleira para com ele se banhar numa cachoeira? Ter com ele contato físico, quase ÍNTIMO, que foi o que vimos nas filmagens?
O jovem enrubesceu. Argumento algum brotou de seus lábios entreabertos.
— Não satisfeito em passar duas tardes INTEIRAS com um completo desconhecido, você se enfia na CASA DELE, por horas a fio! Explique-me de que forma tais ações contribuem para a sua missão, VAMOS, ME EXPLIQUE! – Terminou aos berros o que iniciara com temperança.
Acuado, Camus passou a respirar com dificuldade. Conseguiu por fim articular:
—Eu pretendia apenas obter respostas que contribuíssem com a minha missão... o tempo todo estive acompanhado por Arautos...
— Sim, um deles inclusive cometeu um gravíssimo ato de insubordinação devido a essa sua “busca” tão dedicada – O tom irônico com que pontuou a palavra “busca” feriu Camus na alma. Este voltou a interceder, esforçando-se por transmitir serenidade e firmeza:
— Por favor, meu pai, Albior não merece ser castigado. A culpa foi toda minha... ele viu que eu... que eu QUERIA entrar na cachoeira. Foi por isso que...
— NADA justifica uma traição, Camus. NADA. Não fui eu quem fez a Lei, filho. Foi teu próprio Pai Celestial. De qualquer maneira, Albior JÁ está recebendo a devida punição... DIA APÓS DIA.
Angustiado, o Redentor pôs-se de pé e insistiu:
— Não deixe que o maltratem mais, eu lhe suplico... ofereço-me para ser punido no lugar dele! Por favor, considere, senhor meu pai!
Hades ergueu uma sobrancelha com desdém.
— Quer ser punido “no lugar dele”? – Levantou-se também, rendendo-se a uma risada baixa e perversa. – Isso não se faz necessário. VOCÊS DOIS merecem punições pelo que fizeram, ainda que em proporções diferentes. Não se preocupe em se oferecer para “ser punido”. VOCÊ SERÁ.
Então... o “quarto branco” ainda não era a sua punição?
Ouviu-se uma inspirada mais pronunciada do ruivo; este ergueu corajosamente o queixo ao demandar, frio como o vento nas alvoradas outonais.
— Pois bem, se meu pai terreno considera que mereço ser castigado, certamente que essa é a vontade de meu Pai Celestial. Eis-me aqui.
— Antes, eu gostaria de repetir uma pergunta que ficou sem resposta.
— Qual...?
—O que sente por Mikael, Camus?
Os finos lábios do ruivo comprimiram-se. Desviou o olhar, consciente de que já estava a corar.
— O que sinto? Ora… eu o amo.
Antes que Hades soltasse uma exclamação, o rapaz complementou:
— Acaso o Messias não ama todas as suas Ovelhas?
— Você ama as outras Ovelhas como ama Mikael?
— O senhor me confunde...
— Mikael é um homem bonito, não é verdade, Camus?
— O quê...?
— Ele é um homem bonito. Bonito demais para passar despercebido por qualquer lugar que seja. É uma beleza inspiradora. – Caminhou para o filho, baixando a voz até um tom estranho. – Máscula, forte, magnética. Sua aparência, seu olhar, sua voz, seus toques sobre o teu corpo devem ter causado em ti um efeito irresistível...
— Pai! – Exasperou-se o “messias”, sentindo-se ultrajado. – É desse jeito MESMO que o senhor interpreta minha amizade com Mikael?
— “Amizade”? Espere… desde quando você tem AMIZADE com alguém? Você é o SALVADOR destas pessoas! Elas têm que te REVERENCIAR!
— Mikael me reverencia! Ele me respeita!
— Eu VI como ele te respeita – Riu maldoso. – pegando nas suas mãos, em seus cabelos, em sua cintura... os dois bem juntinhos na água...
— O senhor está me OFENDENDO! – A voz de Camus elevou-se de maneira inesperada, tanto para ele quanto para seu interlocutor, que chegou a se assustar. – O senhor dirige à REENCARNAÇÃO DO CRISTO acusações imorais!
Sem disfarçar a estupefação ante àquela reação, Hades mirou-o por uns momentos. Então retomou o ar intimidante, valendo-se de sua estatura, bem superior à do filho. Anunciou:
— Saberemos se o imoral sou EU, se me responder com sinceridade…
— Não! Basta de perguntas! – O Redentor pôs as mãos nos ouvidos, em um gesto instintivo.
— Só mais esta, é o Senhor Deus quem me manda perguntar, pelo bem de sua santidade, meu filho... pelo bem de nossa Obra...
Observando aflito o Grande Pai, Camus abaixou as mãos. Resignado, assentiu:
— Estou ouvindo... senhor meu pai.
Hades deu uma longa mirada no jovem, estudando-o cuidadosamente. A pergunta veio branda, porém certeira:
— Sentiu acontecer algo DIFERENTE no seu corpo quando Mikael estava tão próximo a você... quando Mikael tocava em você?
Oh, Deus.
Não seria capaz de mentir.
Não mais.
Sucumbira ao pecado da mentira há pouco! Tencionava não sucumbir NUNCA MAIS! No entanto, como poderia responder aquilo ao pai?
Travou a mandíbula, optando pelo silêncio.
O silêncio que o denunciava.
Não.
Não apenas o silêncio.
O rubor.
O suor em suas mãos.
As narinas afiladas que se dilatavam ao capricho da respiração desordenada.
As mãos de Mikael nas suas.
As mãos de Mikael em seus cabelos.
Os longos dedos de Mikael traçando-lhe caminhos pelo couro cabeludo.
As mãos de Mikael em sua cintura.
A respiração de Mikael em seu pescoço, em sua nuca.
O corpo de Mikael junto ao seu.
O calor de Mikael sobrepondo-se ao frio.
Palpitações.
Arrepios.
Boca seca.
E...
... a invasão de um calor em seu baixo ventre...
... e...
... e...
... e entre as suas pernas...
— Queria que pudesse ver seu rosto, filho... – Hades aproximou bem seus lábios do ouvido vermelho do ruivo. Sussurrou-lhe – É a personificação da luxúria.
Camus deixou escapar um suspiro, perturbado, atormentado pelo despertar do que, de fato, causava-lhe a presença de Mikael.
Não.
Ele sequer precisava estar perto!
Era a mera existência de Mikael!
Seria essa a missão do Anjo...?
Então o Anjo...
— Por favor. Não cause nenhum mal a ele. – A súplica veio quase inaudível, fez-se mesmo patética. – Eu imploro pela minha vida.
Sorrindo, Hades acariciou o delicado contorno facial do “messias” e respondeu:
— Não se preocupe, ninguém fará mal ao “seu anjo”. Ele inspira os fiéis. Ninguém fará mal ao belo Mikael... ao menos POR ENQUANTO...
Aquele “por enquanto” semeou insegurança dorida no Redentor. Por ora, contudo, o novato estaria seguro.
Enfrentaria qualquer punição.
Como Hades desvendasse naquele olhar decidido o que pensava, revelou:
— Já que a luxúria foi a principal causa de sua falha, Camus, seu castigo será efetuado pela própria.
— O quê...?
—Radamanthys. Algol.– Chamou o líder religioso.
Atônito, o “messias” viu os irmãos adentrarem o recinto. Percebeu que eles se incomodaram com a brancura reinante; ofuscava-lhes as vistas, por certo. Ambos trajavam roupas e sapatilhas brancas. Pararam diante de si, sérios como nunca. Quando teve consciência do que estava prestes a acontecer, Camus estremeceu.
— A luxúria fez o Redentor vacilar. Pois bem, a mesma luxúria o punirá. – Sentenciou Hades, dando as costas para os filhos. Dirigiu-se calmamente para a porta, indiferente aos apelos do ruivo:
— Não, pai! Por favor, isso NÃO! EU IMPLORO!!!
— Radamanthys. Algol. Um de cada vez. Não deixem marcas no rosto. De preferência, não o deixem perder a consciência. – Foram as frias recomendações detrás da porta branca que se fechava, bem devagar.
— Em nome de DEUS, pai!!! – Bradou o jovem, atirando-se na direção pela qual a figura de negro se evadira. Foi prontamente contido pelos irmãos, cada qual segurando um de seus braços.
— Aceite seu castigo, Camus, é para o seu bem... é para trazê-lo de volta ao caminho do qual você está se desviando.
— Escute o Rada... e agradeça que serão os seus queridos maninhos a fazerem o serviço... – Riu Algol, esfregando o nariz na curva do pescoço do Redentor. – O pai ia mandar OUTROS, mas NÓS demos a ideia. Pode nos agradecer... agora e DURANTE sua punição!
Radamanthys segurou com força o rapaz, que resistia quase grunhindo. Repreendeu-o:
— Pare de se debater, Camus, não é nossa intenção te machucar. Mas se ficar agindo assim... sabe que acabará se machucando!
— Não!!! Soltem-me! Deixem-me em paz!!!
— Que há com você? Nunca foi de se rebelar contra uma punição! O Messias desta era, assim como o Antecessor, aceita seus martírios com dignidade e submissão. – Enunciou o primogênito, sinceramente admirado com aquele comportamento.
Por sua vez, o caçula ria, já sondando as partes íntimas do “messias” com as palmas ávidas.
— Eu sei o que é, Rada... ele está indócil porque não é Mikael quem está aqui... você bem preferia o “seu anjo” em nosso lugar, não, irmãozinho?
— Pare com isso, Algol. Não vamos torturá-lo. Vamos cumprir o dever por nosso pai designado. – Radamanthys demandou, sério.
— Certo, certo... e como nosso pai ordenou, “um de cada vez”. Por isso, sendo você o mais velho, é você quem começa, Rada...
— NÃÃÃO!!! PAI! POR FAVOR!!!
Seus gritos ecoaram em vão. Hades sequer olhou para trás. Até mesmo os guardas, no corredor, entreolharam-se desconfortáveis.
Mas...
Era a “vontade de Deus”...
Ao menos, a que reinava no Vale da Aurora Dourada...
*************
Milo não conseguia dormir.
Sentado na cama, lançava olhares furtivos para a lua branca desvendada na fresta da janela semiaberta. As níveas réstias que se insinuavam pelo quarto humilde assemelhavam-se a setas sobrenaturais.
Pensava em Albior, ferido, aprisionado.
“Ele não pode ficar lá por muito mais tempo. Acabará morrendo, o coitado”, e refletia em uma maneira de contactar Saga antes do prazo determinado.
E ainda tinha Camus.
Por mais que o Arauto pudesse estar em piores condições físicas que o falso messias, a situação do rapaz era delicada por demais
E ainda tinha “A Santa Ceia”.
“CAMUS É A SANTA CEIA.”
“Que demônios isso quer dizer, June? Você nem quis me dizer...”
— Mikael, não tente IMPEDIR nada que estiver acontecendo na Santa Ceia. Você seria executado em três tempos. E isso acabaria não apenas com as suas chances, mas com as minhas... de meu filho... de Albior e do próprio Camus.
— Não farei isso, eu prometo.
— Lembre-se dessa promessa. O que vai presenciar lhe dará VONTADE de interferir.
— E o que eu vou...
“O QUÊ, em nome de Deus, vou presenciar? Que farão a Camus?”
Uma angústia fremente dele se apossou, quando veio-lhe a lembrança do suave sorriso.
Da alegria quase infantil ao saborear os ravanies.
Do rubor daquele rosto outrora pálido e impassível.
“Não devo interferir nesse maldito ritual, disto eu sei. Mas... merda, se pudesse ao menos registrá-lo...”
Seria a sentença de morte da Aurora do Novo Porvir.
“Você não ficará mais muito tempo neste inferno, Camus. Eu prometo.”, pensou, fitando perdidamente as flechas de luar que atingiam o assoalho de madeira.
*************
Camus não conseguia dormir.
Deitado no chão – melhor dizendo, largado, largado sujo, ferido e aviltado mais uma vez – sentia-se mergulhar no oceano brando do nada.
Seus irmãos haviam cumprido à risca as ordens do Grande Pai.
Luxúria punida com luxúria.
Suas entranhas doíam horrivelmente. Fora possuído com particular fúria. Não que isso fosse novidade... a novidade era que, agora, não sentia a dor “apenas” no corpo. Ou mesmo na alma.
Sentia-a no coração.
De uma forma peculiar. Inédita.
Era uma indignação? Uma revolta? Melhor seria retornar à beatífica indiferença. O Salvador do Mundo não deveria deixar-se invadir por tais ressentimentos.
De jeito nenhum.
Não mesmo.
Não era a vontade de Deus?
Não era a orientação do pai terreno?
Logo, não deveria sentir.
Não.
Logo não sentiria.
“Mikael”, pensou, sem saber por quê.
Não.
Sabia.
CLARO QUE SABIA.
Em troca de doces momentos, os mais doces de toda sua vida, com a mais doce das pessoas que conhecera, dores atrozes.
No corpo, na alma, no coração.
Contudo...
Aquilo NÃO poderia ser-lhe arrebatado.
O que vivera não poderia ser tirado de si.
Jamais.
“Mikael. Mikael. Mikael.”
Um chamado. Um apelo. Um lamento.
Aos poucos, o escarlate ousou macular aquele branco déspota.
Lágrimas de sangue verteram pelo rosto alvo e ignoto, indo de encontro ao piso níveo.
Relembrou a mão morena em que sua descorada pousou; relembrou-lhe a tepidez acariciante. Relembrou como era bom estar naqueles braços rijos, fortes. Queria TANTO ser amparado por Mikael mais uma vez!
Sim, havia sua missão!
Que não se esquecesse daquilo...
A razão de tanta dor.
No entanto, o novato permeava seus pensamentos de modo inexorável.
“Mikael...”
O intuito de romper a hegemonia tirana daquele branco absoluto fora enfim cumprido.
*************
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