Redentor
27 Ascensão - Ato VI : Lar, Novo Lar
Notas iniciais
— Bom dia, Camus! – Saori cumprimentou, alegremente, ao entrar no quarto do paciente que fora chamado “Redentor”. Carregava várias sacolas.
— Bom dia, Saori. – Sentando-se na cama, o jovem respondeu. O rosto da psicóloga iluminou-se por finalmente ser chamada pelo nome por aquele que antes mal a encarava. Camus convencera-se de que ela era uma aliada e que apenas queria o seu bem, por mais que ainda não a entendesse na maior parte das vezes, assim como não entendia muitas das pessoas que lhe falavam. Mas, bem, Milo dissera que confiasse nela, e como ele confiava em Milo...
— Como está se sentindo? – Indagou a nissei, depositando na mesa as bolsas que trouxera consigo.
— Bem. Obrigado.
— Que bom, porque hoje é o grande dia.
Ele entendeu que “o grande dia” era o o dia em que finalmente iria para a casa de Milo. Balançou a cabeça afirmativamente, com um sorriso quase imperceptível.
— E, para isso, tomei algumas providências – Saori anunciou, abrindo algumas das sacolas. – espero que sirvam. Tomei como medidas a altura e o peso verificados aqui no hospital, além do que você veste aqui, claro.
Mostrou o que continham: roupas e calçados.
— São para mim? – Indagou o rapaz, levemente incrédulo.
— Claro, você não pode ir embora com essas roupas de hospital, não é?
Camus olhava admirado para as peças que Saori dispunha ao seu lado, sobre a cama. Comentou:
— E-eu nunca usei essas roupas mundanas…
— Bom, não lhe cabe mais usar aquelas túnicas dos tempos de Cristo que você usava, não concorda? Deixe-me ver qual pode ser boa... hum... esta calça... esta camisa e este suéter... hum, não, esta jaqueta deve ficar melhor... ah, claro... roupas de baixo!
O ruivo observava, desconfiado, a psicóloga abrir uma embalagem. Uma cueca branca; enrubesceu instantaneamente. A moça pôs as peças nos braços do envergonhado rapaz, dizendo:
— Pronto, pode ir se vestir no banheiro.
— E-está bem.
— Quer ajuda?
— N-NÃO! – Ele já havia ficado nu diante de mulheres que o preparavam para ritos e cerimoniais, contudo, era um contexto ao qual estivera acostumado. Ali, não... ali era tudo muito novo, um mundo novo, e, por que não dizer, ainda assustador.
Foi para o banheiro se trocar. Minutos depois, saiu, uma pessoa completamente diferente. Saori levou as mãos ao rosto e exclamou:
— Uau, você está lindo, Camus!
O ex-Redentor vestia uma calça jeans escura, camisa branca e jaqueta de couro marrom com detalhes em fivelas. Desviou o olhar, constrangido. A psicóloga analisou-o, de cima a baixo:
— A calça parece um pouco larga... tome, um cinto.
Sem saber o que fazer, Camus ficou segurando o cinto preto com ar comicamente confuso. Saori segurou um risinho e ofereceu-se:
— Espera, eu coloco pra você.
Terminada a operação, ela pegou uma outra caixa.
— Precisa de calçados confortáveis para a viagem, vamos colocar estes. Ah, espere, primeiro as meias, claro... aqui estão.
Diante dela agora havia um novo Camus, que aumentava suas esperanças de que ele encontrasse uma vida normal.
— Você está ótimo! Milo vai ficar surpreso quando o vir!
— Alguém falou de mim aí? – Ouviu-se a voz animada do policial, que adentrava o quarto, acompanhado de Aiolia e Dohko.
— Ah, oi, pessoal! – Saori cumprimentou. – Vejam, acertei as numerações! Ele está muito bem, não está?
— Está mesmo, Saori! Mandou bem! – Confirmou Dohko, gesticulando com o polegar.
— Verdade, puxa, parece até uma pessoa normal!!!
— Camus É uma pessoa normal, Aiolia!
— Eu sei, Sao, foi uma maneira de falar! – Riu o agente, virando-se para o primo. – Não é mesmo, Milo? Hã... MILO?
Milo ficara paralisado, boquiaberto, olhando para o “ex-Redentor”... vendo-o vestido daquele jeito, ninguém diria que Camus vivera anos e anos preso a uma realidade absurda e opressora, cativo de tantas privações, tanto sofrimento e exploração... parecia um jovem homem que ele encontraria em uma faculdade, em um intercâmbio, em uma empresa, bem nascido e bem vivido, tão despojado, tão elegante, tão bonito...
— Milo, fecha a boca antes que a baba caia na sua camisa – Brincou Aiolia, fazendo Saori e Dohko rirem divertidos. Quanto a Camus, sem entender a piada, limitava-se a corresponder ao olhar fixo de Milo. Este teve um sobressalto com a brincadeira do primo. Resmungou, muito sem graça:
— Eu só fiquei surpreso, seu palhaço. Passei seis meses vendo Camus vestido de Jesus, porra, só fiquei surpreso.
— Eu sabia que você ficaria surpreso. Ele está lindo, não?
— Saori, fez um bom trabalho – O loiro tencionou desviar o tópico. – Sabia que podia confiar em você. Mas... e o cabelo dele? Melhor prender, não?
— Tem razão. – Concordou a psicóloga, considerando o espantoso comprimento da cabeleira ruiva, que ia até os joelhos.
— Aliás, por que o seu cabelo é tão grande?
Surpreendentemente, Camus respondeu:
— Meu pai não permitia que ele fosse cortado.
Todos ficaram em consternado silêncio. O ruivo continuou, em tom neutro:
— Era importante que sempre estivesse bem longo, para que partes dele fossem levadas por participantes do Cerimonial das Relíquias.
— Como era isso? – Quis saber Milo, franzindo o cenho.
— Que eu saiba, em algumas religiões, relíquia é algo que tenha pertencido a um santo ou a um mártir – comentou um intrigado Dohko.
— Coisas que tivessem pertencido a mim eram vendidas no Cerimonial das Relíquias, para ajudar a Igreja. Podiam ser pedaços de minhas roupas, tiras de sandálias, pulseiras ou colares que eu tivesse usado... até unhas, cabelos e sangue.
— Sangue?!? – Milo repetiu, horrorizado.
— C-como tiravam sangue de você? – Indagou Aiolia, igualmente aterrado.
Não se sabe se Camus não o ouviu... ou se simplesmente o ignorou; fato é que prosseguiu, no mesmo tom impessoal:
— Eram as relíquias mais caras, as retiradas diretamente do meu corpo. Por isso meus cabelos sempre foram mantidos deste tamanho...
— Isso é horrível – murmurou Dohko.
Todos foram tomados por um profundo desconforto ante aquele relato... apenas o próprio Camus parecia não dar importância à gravidade do que relatara. Para ele, fora tão normal, por tanto tempo!...
Subitamente resoluto, Milo caminhou até a porta e chamou:
— Enfermeira! Enfermeira, pode me arrumar uma tesoura, por favor?
Saori, Aiolia e Dohko olharam para ele, espantados.
— Que vai fazer, Milo?
— O que acha que vou fazer? Vou tirar ISSO dele.
Camus mirou-o, estupefato. O policial falou-lhe, decidido:
— Você não é mais um “depósito de relíquias” pra enriquecer o desgraçado do seu pai. Não precisa desse cabelo até os joelhos.
A expressão de surpresa do “ex-messias” suavizou-se. Ao contrário dos outros três, que uniam as mãos, desesperados:
— Não diga que vai deixar o coitado careca!
— O cabelo dele é tão bonito!
— Não pode pelar a cabeça dele por isso!
— Não sejam idiotas, só vou tirar o excesso, mantido unicamente para a vontade do maldito Hades. – Assegurou Milo. Virou-se para Camus: – Ou você quer continuar com a lembrança de ser uma “relíquia viva”?
Sem qualquer hesitação, o ruivo balançou a cabeça em uma negativa. A enfermeira entregou uma tesoura a Milo. Neste momento, ninguém respirava no recinto.
— Que tal mantê-los do mesmo tamanho que o meu? – Propôs Milo, piscando um olho.
Com um doce sorriso, Camus concordou:
— Ficarei muito satisfeito.
Com extremo cuidado, quase reverência, o policial segurou-lhe as bastas melenas, impressionando-se com o quanto eram macias... reviu-se no Vale, quando o então Redentor recostou-se nele, na Cachoeira da Profeta, relembrando do inebriante perfume de seus cabelos, de seu corpo... sentiu-se prestes a realizar um trabalho sagrado. Sussurrou para o outro:
— Confie em mim.
— Sempre – Murmurou o jovem, emocionado.
Foi assim que os cabelos vermelhos do “ex-messias” passaram a ficar elegantemente na linha da cintura, tais quais os cabelos loiros de “seu Anjo”. Ele sorriu feliz, livre daquele peso, literal e figurativo.
— É, devemos admitir: ficou bem melhor! – Disse Dohko, balançando a cabeça em aprovação.
— Sim, agora parece MESMO um cara normal!
— Pare de falar isso, Aiolia, ele É um cara normal! – O primo ralhou.
— Tá, tá, desculpa, foi maneira de falar!
— Você e suas “maneiras de falar” – Bronqueou Saori.
Milo considerou Camus, e brincou:
— Cê tá até parecendo um modelo!
— Modelo? Modelo de quê?
— Hã? Ah, tá, você não tem muito como saber o que é isso...
— E vocês insistem que ele é normal.
— AIOLIA!!!
— Você também está diferente, Milo. – Camus comentou.
Gaiato, o policial deu meias voltas. Trajava calça jeans clara, camiseta preta e jaqueta de couro preta, calçava tênis cinza.
— Achou? É bom finalmente usar o que eu gosto, depois de seis meses usando aqueles trapos de seita, e de duas semanas usando roupas de hospital e pijamas de velho!
— Mas você fica bonito de qualquer jeito.
Os três amigos explodiram em gargalhadas ao verem a cara muito vermelha de Milo.
— Ca-Camus!!! – Balbuciou o agente, constrangido.
— Eu disse algo errado?
Saori pôs a mão no ombro do jovem confuso.
— Não, Camus... Milo que é um idiota mesmo.
— Um idiota? Por quê?
— CHEGA DE PAPO! – Conclamou Milo, nervoso. – Tá na hora de a gente ir! Pronto, Camus?
O “ex-Redentor” assentiu. O policial pôs a mão em seu ombro, afetuosamente.
— Então vamos, amigo. Para casa.
*************
A saída do hospital e a ida até o aeroporto de Camus e da equipe que o escoltava nada ficou a dever àquelas vivenciadas por grandes celebridades, dado o número de repórteres que procuravam, a todo custo, fazer a cobertura jornalística do evento. O “evento”, no caso, a “libertação” do homem cultuado por milhares como Messias da criminosa seita desmantelada pelo FBI. Enxergava-se ali um furo de reportagem adicional ao caso que concentrava todas as atenções da mídia no momento; o ingresso de um ex-cativo que jamais conhecera o mundo, na vida cotidiana dos Estados Unidos. Desde a saída do hospital até os corredores do aeroporto do Maine, flashes estouravam sem parar, repórteres e fotógrafos tentavam incansavelmente acompanhar o grande grupo que cercava o rapaz ruivo, incrivelmente diferente em roupas casuais, e de cabelos bem menos longos. Milo preferiu ficar no lugar do segurança que cerceava Camus, atitude muito bem vinda por este, que buscava ao máximo não demonstrar o quanto estava assustado. O loiro passou o braço por seus ombros, em um gesto protetor.
— Saiam, vamos, saiam da frente – Demandava Saga, sem se importar em empurrar jornalistas e curiosos mais afoitos.
Por fim, conseguiram passar pelo embarque e ir para a área VIP, onde, enfim, viram-se livres da pequena multidão. Ainda que reparassem em uma ou outra câmera de celular direcionada para eles...
— Mas até quando esse bando de futriqueiros vai ficar na nossa cola? – Milo questionava, sempre perto do calado Camus.
— É tudo novidade, o caso da Aurora do Novo Porvir está em alta na mídia. – Aiolos respondeu. –Se você se dispôs a abrigar o Camus, vai ter que lidar com isso por um tempo.
— Claro, sem problemas, eu só acho isso tudo uma falta de noção da porra – Virou-se para o ruivo ao seu lado – Também fico preocupado de esse pessoal inconveniente assustar o Camus.
— Não se preocupe, eu estou bem. – Assegurou o rapaz, em permanente esforço por transmitir tranquilidade.
Dohko ajuntou, em uma tentativa de apaziguar o ânimo do amigo:
— É como Aiolos disse, será por um tempo. Logo logo um novo escândalo tira a atenção desse caso. O importante é que o pior já passou, não é verdade?
— Nem me fale! – Concordou Milo, com um longo suspiro. Ergueu-se da cadeira e dirigiu-se ao “ex-messias”: – Quer ver os aviões? Aposto que nunca os viu de perto.
— De perto, não.
Conduziu o jovem até um local de onde se tinha visão panorâmica da parte externa do aeroporto. Vendo os dois se distanciarem, Aiolos comentou com os companheiros:
— Milo trata o rapaz como a uma criança, já notaram?
— De certa forma, Camus não está muito longe disso. – Observou Saori, sorvendo um expresso. – Ele não conhece absolutamente NADA do mundo em que vivemos.
— Isso vai dar certo, não vai, Sao? Digo... Milo guiando esse garoto por um mundo novo, por assim dizer...
Ela ouviu Saga com os olhos fitos nos dois ao longe. Milo apontava os aviões, rindo para Camus:
— Tá vendo só? É num deles que você vai pra Red Meadow... daqui a pouco, você estará lá no céu.
— Isso é um pouco perturbador. – Confessou Camus, sem tirar os olhos dos aviões pousados.
— Será que você vai ficar com medo? – O loiro riu. – Não precisa ter medo; o avião é o meio de transporte mais seguro que existe.
— Verdade? Mas como isso pode ser possível, se ele nem vai pela terra firme?
— Por isso mesmo, acidentes aéreos são raros. Não é como ônibus, carros, trens, metrôs...
— Que são trens e metrôs? Como são?
Milo coçou a cabeça, em meio a um riso surpreso.
— Ah, um dia você vai conhecer...
— Não podíamos ir para sua casa de barco?
— Hahahahahahaha, acho que você já tá com medo, a julgar por essa pergunta...
Saori sorriu, ante a cena que presenciava. Voltou-se para Saga e finalmente respondeu-lhe:
— Sabe, acho que Milo não será o único a guiar alguém por um mundo novo. Acredito que Camus TAMBÉM guiará Milo por um mundo completamente diferente...
*************
— Camus, assim você vai acabar fazendo parte do vidro, por Deus!
Ao lado de Milo, o ruivo, que se sentara à janela, nela imprensava o rosto, quase sem piscar. Extasiado com a visão das alturas, mal falava, e nem por um segundo desgrudava o nariz dali.
— E eu que pensei que você fosse ficar com medo de voar.
— É incrível, Milo, estamos em cima das nuvens!
— É, AINDA BEM, NÉ?
— Podemos chegar perto do sol? Ele parece perto.
— Ele só parece, Camus, não tem como um avião chegar perto do sol.
— Mas estamos tão alto!
“Parece mesmo uma criança”, divertia-se Milo; isso afastava-lhe a tristeza de pensar que aquela “divertida ignorância” era devido a toda uma vida cativa, isolada do mundo do século XXI.
— É bonito, não é? – Perguntou, gentil.
— É sim. Muito. Quando eu via aviões passando pelo céu, lá no Vale, jamais imaginaria que um dia estaria dentro de um deles!
— Você ainda vai ter muitas experiências as quais jamais imaginaria, Camus.
— Como andar no trem e no metrô?
Milo riu.
— Sim. Como andar no trem e no metrô. Vou te ensinar a andar de bicicleta também.
— Bicicleta?
— É... é um veículo com duas rodas, que você faz andar com suas pernas... pedalando...
— Não entendo.
— Bom, quando chegar a hora, você vai entender.
— É seguro como avião?
— É sim, não se preocupe – o loiro riu com gosto. – A não ser que a gente encha a cara!
— “Encha a cara”? De quê?
— Que a gente consuma bebidas alcoólicas. Por falar nisso... – Viu o carrinho de bebidas se aproximar. Aceitou vinho oferecido pela comissária de bordo. – Você quer, Camus?
— É vinho?
— Sim, você gosta? Já tomou?
— Meu pai não permitia que eu ingerisse vinho. Mas meus irmãos sempre tomavam. Às vezes, eles me faziam beber.
— Hã... pensando bem... – Virou-se para a funcionária. – Eu vou querer um suco de laranja. E você, Camus?
— Água.
— Água. Claro. Uma água pra ele...
Perturbava Milo a naturalidade com que Camus falava daquelas coisas. Bom, melhor que mágoa ou tristeza, talvez... ao menos, era o que pensava. Era algo que gostaria de compreender, em um momento oportuno.
— Ah – Colocou os fones de ouvido do assento nas orelhas do ruivo. – Olha isso aqui.
Ligou a TV à frente do “ex-messias”, que assustou-se vivamente com o som, e com as imagens de leões caçando zebras.
— POR DEUS, O QUE É ISSO?
— Shhhhh – Fez o policial, envergonhado, pois que o outro quase gritara a pergunta. Tirou dele os fones de ouvidos. Passageiros olharam-nos, curiosos. Saga e os outros sacudiam as cabeças e riam.
— Que barulho foi aquele nos meus ouvidos? – Indagou Camus, aturdido. – E o que é esse quadro se mexendo?
— Sim, foi um BARULHO E TANTO – Falou Milo. – Melhor desligar essas coisas, por ora.
— Mas COMO o quadro se mexeu?
— Isso não é um quadro. Chama-se televisão. Pela tela, as imagens se movem...
— Mas como?!?
— Ai, meu pai – Suspirou o agente, coçando a cabeça. – Vou tentar te explicar...
E assim seguiu-se a viagem até Red Meadow, ali mesmo iniciando-se a aprendizagem do “ex-Redentor” sobre o mundo moderno.
*************
Horas depois, o avião aterrissava em Red Meadow. Ao deixar a aeronave, Milo teve vontade de ajoelhar-se e beijar o piso do aeroporto. Finalmente, depois de seis meses, estava em casa! Parecia um sonho, e, de fato, por vários momentos no Vale da Aurora Dourada, ele achou que não iria mais experimentar aquela sensação. Um carro da Polícia Federal levou-os para o destino final, ele e Camus, que mais uma vez colava o rosto a uma janela, extasiado com o que via. Red Meadow não era uma cidade de arranha-céus impressionantes como as grandes metrópoles, situava-se mais no grupo das cidades americanas de médio porte, o que já conferia ao balneário agitação e vida movimentada. Prédios, shoppings, carros, ônibus, motos, lojas, pessoas indo e vindo, a tudo o ruivo observava estupefato. Nunca tinha visto nada igual, obviamente. Então eram lugares como aquele que seu pai, os líderes da seita, seus irmãos e tantos outros conheciam e chamavam de “mundanos”... o mundo era AQUILO!
Vendo a atenção desmedida do rapaz, Milo pôs a mão em seu ombro para falar:
— Eu imagino como você deve estar curioso para ver as coisas, mas, vamos descansar por hoje, OK?
— Oh, claro. Não se incomode comigo.
— Não é nenhum incômodo. É só que precisamos de banho, comida... meu Deus, vou pedir umas três pizzas!, instalar você... vamos ter bastante tempo para andar por aí depois. Certo?
O ruivo assentiu. E voltou a imprensar o nariz no vidro. O policial não pôde deixar de rir:
— Vai acabar deformando esse seu nariz, cara.
*************
—LAR, DOCE LAR! – Gritou Milo, assim que abriu a porta de seu apartamento. Era incrível voltar para casa, são e salvo, depois de tão sacrificante missão. A sensação era indescritível, muito mais do que ele pudera imaginar. Virou-se para Camus, parado à porta: – Vem, entra. É a SUA casa, agora.
Hesitante, o jovem adentrou a bela sala, reparando em como era diferente de tudo que havia visto no Vale – os aposentos ocupados por seu pai eram luxuosos, um estilo diferente do que via ali, e nas poucas vezes em que estivera nas casas de seus irmãos, constatou que viviam muito mais confortavelmente do que ele, permanentemente encerrado em um quarto tão humilde, fato que tinha como intuito evocar a simplicidade em que nascera e vivera Jesus. Diante de si havia uma grande parede pintada de preto, com uma imensa tela preta no meio (a TV), um balcão baixo espelhado com vários nichos nos quais se via objetos variados; no chão, de um material que ele identificou como madeira, mas clara e lustrosa, alguns tapetes felpudos, escuros e com figuras geométricas. Pelas paredes cinza claro havia quadros de tamanhos variados e espaços com enfeites, retratos e livros. No centro, em frente a um extenso sofá preto em “L”, por sobre o qual havia mantas franjadas, uma mesa retangular de tampo de vidro sobre pés de mármore escura. Também ali havia livros e enfeites.
Milo foi logo abrir as janelas e a porta da varanda da sala.
— Bem, ficou tudo fechado por seis meses, precisa entrar um ar. Naturalmente as coisas estarão meio empoeiradas, mas amanhã chamo alguém para limpar tudo enquanto damos uma volta, tudo bem?
Camus meneou a cabeça afirmativamente.
— Ah, bem melhor – Falou o agente, enchendo os pulmões e expirando alegremente. – Chega aqui, vem conhecer a vista.
O outro entrou na varanda, logo se assustando visivelmente.
— Estamos no alto – Comentou, com voz sumida.
— Sim, porque estamos no oitavo andar.
O céu tingia-se de alaranjado naquele final de tarde. Por entre prédios, casas e demais construções, via-se copas de árvores e jardins bem cuidados. Algumas luzes começavam a ser acesas, com a iminência do crepúsculo.
— É o último andar deste prédio, acima de nós é o terraço. Outro dia, te levo lá.
— Aqui já está suficientemente alto. Não tem medo de cair?
— Quê? Não... Camus... será que vou ter que colocar de volta a rede de proteção?
— Rede de proteção?
— É. Aqui tinha, quando... quando eu era casado e meu filho vivia aqui.
— Sua família vivia aqui?
— É. A família que TIVE. Que perdi.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem, não é hora pra isso. Vem, vou te mostrar o seu quarto.
— Oh. Sim.
Milo foi tagarelando pelo corredor:
— Além do meu, tem mais três quartos, o quarto de hóspedes, o quarto do Hyoga e o outro seria para um futuro irmãozinho de Hyoga... que não chegou a acontecer. Bem, esse quarto virou um escritório, então o mais lógico é te deixar no quarto de hóspedes, já que meu filho às vezes vem passar uns dias comigo. OK, confesso que isso não é muito comum, porque eu sou meio vacilão, mas enfim...
Camus assentia, fingindo compreender aquele falatório. Milo abriu uma porta no final do corredor.
— Aqui estamos. – Acendeu a luz. – Depois podemos decorar ao seu gosto. É meio careta. Foi ideia da minha ex-mulher, e eu nunca tive saco de mudar.
De fato, o cômodo em questão destoava do resto da casa. Era bem austero, clássico, com cortinas marrons claras, parede com papel decorativo na cor salmão, uma cama de casal ladeada por mesinhas de cabeceira em mogno, cada uma guarnecida por um abajur de porcelana pintado a mão. O chão era acarpetado, na cor creme. Havia uma cômoda de cerejeira castanha, com uma TV, alguns enfeites e uma luminária.
Após abrir a janela para deixar o ar entrar, Milo abriu uma das portas do guarda-roupas embutido, e ali pôs as bolsas de compras feitas por Saori.
— Amanhã, enquanto limpam a casa, podemos ir comprar mais roupas pra você. Isto aqui era mais para a viagem, e para alguns dias só.
— Está querendo dizer que... que este quarto... é onde vou ficar?
— Sim, é o seu quarto, a partir de agora.
Vendo o rapaz aparentemente sem ação, o agente falou:
— É, eu sei que parece um quarto sem graça de velho, mas depois podemos arrumar do jeito que você quiser.
— Um “quarto sem graça”? Comparado com o que eu ocupei por todos estes anos no Tabernáculo... este quarto é um palácio. – Disse Camus, com um sorriso tímido.
O policial engoliu em seco. Pigarreou um pouco.
— Bom, agora isso tudo é passado. E tudo vai se ajeitar, OK? – Mostrou a suíte. – Olha, por que você não toma um banho enquanto peço algo pra gente comer? Tá com fome, não tá?
— Sim, mas a quem você vai pedir comida? Não vi ninguém por aqui.
Segurando o riso, o loiro respondeu:
— Vou pedir por telefone. Funciona assim, ligo para um lugar que venda comida e eles vêm nos entregar, entendeu?
— Oh. Sim.
— Imagino que você nunca tenha comido pizza.
— Hum... não.
— Bom, você gosta de queijo, não?
— Gosto.
— Ótimo. Então prepare-se, vai conhecer a MELHOR comida do mundo!
*************
Cerca de uma hora depois, os dois estavam à mesa da copa, degustando pizza quatro queijos, a favorita de Milo, e também de presunto de Parma e cogumelos. Agora vestiam confortáveis calças de moletom e camisetas, vestes do dono da casa, que ficaram um tanto largas no recém-chegado. Milo dissera-lhe que poderia lavar os cabelos, pois que tinha secador. Na hora, chegou a ponderar:
— Imagino que você nunca tenha visto um secador de cabelos. Espero que não se espante como um gato numa pet shop, debaixo de um.
— Na verdade, servas que me preparavam para algum Cerimonial ou para os Cultos por vezes usavam em mim. Era muito cabelo para deixar secar naturalmente.
— Mas você nunca usou sozinho, certo?
Ele fez que “não” com a cabeça. O agente disse:
— Pode deixar que ensino a você. E, bem, agora você tem bem menos cabelo.
Após o banho, dito e feito: Milo ocupou-se de secar os cabelos de Camus, enquanto ia lhe ensinando como manusear o aparelho.
— Nunca pode fazer isto descalço, tá? E vai passando o pente assim, de tempos em tempos... Caramba, seu cabelo é muito liso... voa pra todo lado!
Camus deliciava-se com as mãos do loiro em seus cabelos, porém mantinha no máximo um sorriso discreto, pois via ao espelho que corava...
Quando os dois estavam fazendo a refeição, o policial ria satisfeito, entornando uma cervejinha “só para comemorar”.
— Estou tão feliz! Você não sabe como eu sonhei com este momento, Camus... quando FI-NAL-MEN-TE comeria uma pizza novamente! Está gostando?
— Sim, é realmente gostoso.
— “Realmente gostoso”??? Admita que é a melhor coisa que você já comeu na vida!
O “ex-messias” comia com a mão, imitando seu anfitrião, já que era a primeira vez que provava aquele alimento. Em tom neutro, confessou:
— Na verdade, a melhor coisa que já comi na vida foi aquele almoço que você serviu a mim e a Albior, na cabana de Aldebaran... principalmente aqueles doces gregos... ravanies...
Surpreso, o policial encarou-o por uns instantes.
— Uau, você se lembra daquele dia.
Elevando os ombros, Camus retrucou:
— Como eu me esqueceria? Foi o MELHOR DIA da minha vida.
Milo ficou por uns segundos sem saber o que responder. Um dia com acontecimentos tão simples como um passeio a uma cachoeira, um almoço rústico preparado na humilde cabana de um colono... havia sido o mais marcante da existência daquele homem! Abria a boca para falar, mas nada saía. Lembrou-se de cingir a cintura do “Redentor”, sentir-lhe o corpo bem junto ao seu, de ampará-lo em meio às águas...
— Se bem que eu vivi outro momento bem feliz na cabana de Aldebaran...
— Ah, por isso não! – Apressou-se, de repente, em dizer. Temia pela PRÓXIMA lembrança de Camus. – Qualquer hora, eu preparo as ravanies pra você! Fico contente que tenha gostado tanto.
— É uma pena que o resultado de um dia tão maravilhoso para mim tenha sido a desgraça de Albior. – Observou um subitamente ressentido Camus.
Assentindo, Milo comentou, também ressentido:
— Não poderíamos adivinhar o que aconteceria. Albior foi gentil removendo aquela terrível tornozeleira de você, para que pudesse entrar comigo na Cachoeira do Profeta... e foram tão cruéis com ele.
Encarou Camus com firmeza, ao mesmo tempo que segurou-lhe a mão, tentando amenizar a tristeza do rapaz:
— Eram muito cruéis, os que dominavam a Aurora do Novo Porvir. Felizmente tudo, tudo acabou.
O ruivo assentiu. Acrescentou:
— Fico feliz em saber que agora Albior está com a família dele, em outro país... e com June e Jacó ao seu lado.
— Sim, isso é ótimo, não é?
— Espero que um dia ele volte a andar.
Sentindo um nó na garganta, o agente optou por tão somente concordar:
— Eu também. Também espero que ele volte a andar.
*************
Finda a refeição, os dois fizeram a última higiene do dia e foram se recolher, cada qual em seu quarto. Após certificar-se de que o ruivo estava bem instalado, Milo, já à porta, despediu-se:
— Boa noite, Camus. Descanse bem.
— Obrigado. Tenha uma boa noite, também.
Parado ali no batente, vendo-o ajeitar-se no leito, o policial experimentou uma paz inexplicável. Conseguira voltar para o lar, e arrancar Camus daquela horrível existência como “Redentor”. Sorriu, ao acrescentar:
— Se sentir alguma indisposição, ou precisar de qualquer coisa, pode ir me acordar. Tudo bem?
— Tudo bem. Eu agradeço.
Então Camus viu-se só, naquele grande quarto escuro. Achou a cama incrivelmente confortável, poderia jurar que estava deitado sobre nuvens. Os cobertores macios aqueciam-no de maneira aconchegante, agradável. Todo seu corpo experimentava um bem-estar inédito, indizível.
Entretanto, sua mente não partilhava daquele bem-estar. Tentava fechar os olhos para dormir, apenas para, logo em seguida, abri-los bastante para a escuridão. Havia cansaço ali, mas não sono. E ele sabia, de alguma forma, que NÃO conseguiria dormir.
Mas por quê?
Estava livre. Estava seguro. Estava confortável. Estava amparado.
A dor se fora.
Não tinha razão para não dormir.
No quarto principal da casa, Milo, por sua vez, adormecera quase que instantaneamente, rumo a um sono que decerto seria reparador.
Enquanto isso, Camus permanecia desperto, procurando algo nas sombras... algo que NÃO PODERIA estar lá... mas que ele seguiu, madrugada adentro, procurando... algo por que ele, insone, ficou esperando...
*************
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