Redentor

24 Ascensão - Ato III : O Destino de um Pária


Notas iniciais
Oi, gente! Cá está novo capítulo de "Redentor". Quero agradecer pelos comentários e mensagens de apoio recebidos em minha volta e também antes dela. Não há avisos. Boa leitura!

— Tô ficando com cãimbra. – Milo resmungou.

— Ele não vai acordar. E você não pode mesmo passar a noite aí.

— Eu não tava pensando nisso! – Rebateu a fala de Saga, enrubescendo.

— Então saia, devagar.

— Certo...

Com todo cuidado, o agente desvencilhou-se do ruivo, que, de fato, continuou dormindo profundamente. Pôs-se de pé, admirando o quão pesado parecia aquele sono no qual tão rapidamente Camus emergira. Saga reclamou, em voz baixa:

— Você se arriscou muito. Acabou de ser operado, podia ter aberto os pontos. Se é que não abriu nenhum.

— Não, tá tudo bem... – Olhou com gravidade para cada um dos presentes, sem saber exatamente a quem falar. – têm que prometer que não vão mais prender ele assim.

— Vamos evitar, tanto quanto possível. – Um dos médicos, o mais novo, falou. Milo, porém, teve a impressão de que o fizera mais para encerrar o assunto.

O médico mais velho voltou-se para o promotor chefe, como a mostrar quem era realmente digno de consideração ali:

— Bem, amanhã voltaremos para falar com ele. Deu para ver que o rapaz não perdeu a fala, como chegamos a imaginar. De acordo, senhor Saga?

— Tudo bem.

— Pois EU quero estar presente. – Declarou Milo, decidido.

— Sinto muito, será uma entrevista apenas com o médico-chefe da equipe e o promotor Saga – Interviu o outro médico, em tom de desculpas.

— OK. – Bufou o loiro.

— Fique tranquilo, cuidarei para que não amarrem ou sedem o seu amigo...

“Não é MEU amigo”, Milo quase disse, mas por que diria isso? Indiferente a Camus, ao seu destino... ele não era. Não mesmo.

Aiolia apontou a cadeira para o primo:

— Vamos, você precisa descansar agora, Milo.

— Beleza...

Sentou-se e deixou-se ser levado, sob os olhares curiosos dos que permaneceram no quarto de Camus.

*************

—Você sabe por que está aqui, Camus?

Silêncio.

— Ou melhor... entende por que foi trazido para este hospital?

Mudez.

O médico-chefe suspirou profundamente. Saga cruzou os braços, fitando o ruivo.

— Camus precisamos de que responda nossas perguntas. Só queremos ajudá-lo. SABEMOS que você pode nos responder.

Indiferença.

— Certo, você acreditou, durante todos estes anos, que era um Novo Messias. Que deveria retomar o Plano original de Salvação da Bíblia. Seu pai fez você acreditar nisso. – Disse-lhe Saori, com suavidade, à altura do olhar estático do jovem sentado na cadeira. – Você ainda acredita nisso?

Nada.

— Por que não nos responde? Só queremos ajudá-lo! – A fala do doutor saiu em tom de desabafo.

Contudo, Camus seguia em seu regime de silêncio inabalável. O tom da psicóloga fez-se ainda mais suave:

— Você falou com Milo. Somos AMIGOS de Milo. Se falou com ele, pode falar conosco.

O argumento foi em vão. O rapaz sequer se incomodava em virar o rosto, continuava encarando tranquilamente a cada um deles.

— Camus. Você tem consciência de que não poderá ficar o resto da vida sem responder nossas perguntas. Delas dependerão seu destino, daqui em diante... isso não te importa?

Se importava, não parecia, pois o efeito dessa nova argumentação foi nulo.

— Já estamos aqui há mais de uma hora – murmurou o médico. – Eu tenho outras coisas a tratar no hospital.

— Eu lamento, Dr. Osbourne. Acreditei que a presença da psicóloga de nosso grupo ajudasse.

— Tudo bem, a situação não é inédita. Faremos nova tentativa à tarde, certo? Por ora, deixem-me ao menos cuidar de quem DESEJA ser curado. – Uma certa irritação perpassou-lhe pelo timbre cansado.

— Continuarei aqui com ele. Vamos tentar o quanto pudermos – Saori assegurou.

Assentindo, o Dr. Osbourne retirou-se do quarto. Saga pôs as mãos na cintura, encarando o inabalável “Redentor”. Falou:

— Sei que só quer falar com Milo, mas ele também precisa ficar em repouso, não entende? Passou por três cirurgias! Não pode ficar vindo aqui e se submetendo a emoções e...

— Ele vai ficar bem?

A pergunta saiu tão baixinha que Saga temeu ser fruto de sua imaginação. Viu que não era, pois escutou Saori responder ao jovem:

— Vai sim, mas é como Saga disse; Milo precisa descansar. Ele passou por maus momentos na comunidade, não foi? Você deve ter presenciado alguns.

Os finos lábios do ruivo comprimiram-se. Alguma lembrança desagradável visitava-o, percebeu a nissei.

— Você gostaria de responder nossas perguntas agora, Camus? Poderia respondê-las?

Os olhos castanho avermelhados fugiram aos amendoados da doutora Saori. Pela primeira vez desde que a “entrevista” começara, Camus abaixou a cabeça. A mulher e Saga se entreolharam, certos de que aquele era o sinal de que o “messias” encerrava, por si só, qualquer chance de diálogo. O promotor deu de ombros.

— Você não vai nos responder. Mas pode nos ouvir. Pois então, manterei você informado do caso: seu pai será julgado em alguns dias. Primeiro, por crimes mais comuns. Depois, por crimes contra a Humanidade, ou seja, os mais graves. Se a justiça de fato for feita, e lutaremos muito por isso, ele não fica menos de 30 anos na cadeia. O lugar que você chamava de “casa” está sob custódia do governo, e será tomado por este. Tecnicamente, agora, você NÃO tem uma casa.

— Saga, dá pra ser MENOS rápido?

— Talvez saber o que acontecerá com ele, faça-o abrir a boca – Disparou, finalmente cedendo à impaciência.

— Ainda temos TEMPO.

— Não muito. Camus está lúcido, sem ferimentos, consciente. Logo deverá ir para ALGUM lugar. Não poderá ficar aqui neste quarto para sempre, ele precisa saber.

— Ele SABE.

— E como você sabe disso, Sao?

— Ele não é nenhum incapaz... ao menos, intelectualmente falando...

— “Ao menos” – Repetiu Saga. – E então, Camus, quer que eu continue dizendo sobre o que te espera?

— Saga, por favor...

Ele calou-se, resignado. Saori sorriu para Camus, um sorriso cálido, cúmplice. Nem assim o jovem correspondeu-lhe o olhar.

— Camus, vamos fazer assim: vou lhe fazer umas perguntas. Sei que ainda não se sente à vontade para falar conosco, mas, quem sabe, não pode apenas sinalizar? Fazer que “sim” ou que “não” com a cabeça...

Interessado no novo rumo das tentativas, Saga cruzou os braços novamente e tornou a prestar atenção no paciente calado.

— ... serão respostas, de qualquer forma. Combinado? Basta fazer “sim” ou “não” com um movimento da cabeça. Vai nos ajudar a ajudar você. Não parece bom?

O promotor não sabia se ela já esperava um gesto para AQUELA pergunta; o fato é que não a obteve. A jovem não se fez de rogada:

— Vamos lá, então. Você entende a real razão de estar neste hospital, e não mais no Vale da Aurora Dourada?

Por alguns segundos, os agentes esperaram que o ruivo respondesse gestualmente, pois que encarou-os de repente. Não obstante, não assentiu tampouco balançou negativamente a cabeça. Deram-lhe tempo para que o fizesse... vendo que resposta nenhuma vinha, a psicóloga partiu para uma segunda indagação:

— Você acredita que seu pai é culpado por você estar aqui?

Cinco minutos depois...

— Você entende onde seu pai está agora?

Desta vez foram três.

— Você ainda acredita que é o Messias desta era?

Quando dois minutos se passaram, Saga respirou fundo. Saori notou que ele lutava por ser paciente.

— Você não quer falar conosco porque acha que não somos confiáveis? – Ela inquiriu.

Sem qualquer sinal, Camus levantou-se e foi até a janela, que, por sábia cautela, mantinha-se permanentemente trancada.

— Camus, você nos condena por você estar aqui?

— Pelo amor de Deus – Saga deixou, por fim, escapar. – Está se vendo que isto não vai a lugar algum.

— ALGO temos que tentar, não acha? – Atirou, quase com condescendência.

Camus pressionou um pouco o rosto à vidraça gelada, alheio à presença daquelas duas pessoas cujas vozes confundiam-se com zumbidos de moscas em sua mente. E, mais ainda, às suas indagações incansáveis.

— Tudo bem, pode ficar aí, saberemos se está sinalizando ‘sim” ou “não”. Basta que faça-nos um gesto. – Insistiu a nissei

Ao “Redentor” nada daquilo fazia sentido.

Não tinha o que responder.

Ele NEM TINHA que estar ali.

Neste caso... ONDE, então, deveria estar?

Estremeceu, de leve.

No Vale?

Onde a dor era companheira perpétua?

A bem dizer, ALI não havia dor.

Mas também não havia NADA.

NADA que fosse sua vida.

Nada que fizesse sentido.

Nada que lhe dissesse QUEM ele era.

— Você acha mesmo que é um “enviado de Deus”, não é? AINDA acha isso.

“Ainda”?

Achava-o?

Milo mostrara-lhe que NÃO.

Milo mostrara-lhe que...

Ah, Milo mostrara-lhe TANTAS coisas.

Até sem dizê-lo.

Não saberia ordená-las.

Apenas senti-las.

Ou NÃO senti-las. A dor, por exemplo, Camus não sentia mais. E SABIA que devia isso a Milo.

Porque fora-lhe revelado...

Há muito, muito tempo...

O Anjo lhe salvaria da dor.

Só não imaginava que...

... que...

— Saori, estamos perdendo tempo.

— Saga, NADA aqui é “perda de tempo”. A AUSÊNCIA de resposta TAMBÉM É UMA RESPOSTA, imaginei que um policial experiente como você detivesse esse conhecimento trivial.

— OK, OK. Desculpe. Tem razão. Desculpe.

Ela abrandou o tom:

—Estamos todos cansados. Imagine ELE.

— Certo, a gente dá mais tempo. Só que... você sabe... enquanto ele ficar assim...

— Eu sei. Mas está tudo recente. É de TODA UMA VIDA de que estamos falando.

Saga esfregou o rosto um tanto macilento com as mãos.

— Sao, é JUSTAMENTE por isso que temo...

— Temores não são úteis neste momento, Saga.

— DEUS! Certo, olha, vou deixar você aí com o senhor “O Gato-Comeu-Minha-Língua”. Continue tentando. Vou ver Milo.

Ele teve o cuidado de observar a reação de Camus ante a alusão a Milo; achou-a incipiente. Bom, o doido estava de costas, de qualquer modo...

— Pode ir. Diga a ele que à tarde irei até lá.

Assentindo, Saga saiu apressado, como que ansioso por deixar aquele ambiente. Saori virou-se para o ruivo.

— Não liga pro Saga, tá? Está com sono atrasado. Você sabe o que é ficar sem poder dormir, não, Camus?

Silêncio. E imobilidade.

— Sem poder dormir. Deixa as pessoas sensíveis. Impacientes. Não é culpa delas. Seu pai também deixava você sem comer... às vezes, até sem beber água... é o que vem nos chegando com depoimentos de testemunhas. Sabe quem tem falado bastante sobre o que Hades fazia contigo? Capella. Ele está preso, aguardando julgamento. Mas está colaborando muito, ao contrário do seu pai, que se mantém calado... assim como você, Camus. Quer mesmo se parecer com seu pai?

— Nnnf – Camus deu um grunhido de desagrado, porém não respondeu “sim” nem “não”. E foi o máximo que Saori Kido conseguiu naquela manhã de segunda-feira...

*************

—Bom dia, Dohko. Bom dia, Aiolia.

— Bom dia, Saga. – Ambos cumprimentaram-no. Aiolia foi o primeiro a comentar: – Você tá com uma cara péssima.

— É aquele “Jesus de quinta”. Ele deixa qualquer um exasperado.

— Por quê? O que foi que ele falou?

— Aí é que está, Dohko, ele não falou NADA. Saori está lá há um tempão, tentando fazer o cara ao menos responder “sim” ou “não” com aquela cabeça dura dele, mas nem isso...

A porta do banheiro abriu-se; Milo surgiu, ainda de pijamas, andando vagarosamente.

— Tem que ter paciência com o Camus, Saga. – Disse, em voz baixa e calma.

— Oh, se não é o REI DA IMPULSIVIDADE dizendo que EU tenho que ter paciência – Ironizou, mais por graça do que por sarcasmo.

Sem alterar a entonação, o outro apenas sentou na cama e devolveu:

— Ele passou por poucas e boas. Seja paciente com ele.

Aquilo desarmou por completo o promotor.

— Eu sei. – Disse. – Não estou nervoso. Ao menos, não por mim, por ELE mesmo.

— Mas, como assim?

— Bem, é que...

Uma enfermeira anunciou, à porta entreaberta.

— Senhor Saga. A senhora June está aqui.

— June?! – Milo quase deu um salto.

— Peça-lhe que entre, por favor.

Diante dos quatro homens, surgiu a diminuta figura de uma jovem pálida, cujos longos cabelos loiros claros cobriam-lhe boa parte do talhe esbelto, presos em uma trança elaborada. Usava um vestido à moda da seita, quase uma túnica, azul-turquesa, tendo como únicos adornos um cinto de madrepérola e um crucifixo de mesmo material.

— June, Deus! Como é bom te ver!

— Como vai, Milo? – Ela sorriu timidamente, seus olhos azuis ora em Milo, ora nos outros homens. Percebendo-lhe o ligeiro desconforto, o agente apressou-se em apresentar seus companheiros a recém-chegada. – Este é o promotor à frente do caso, Saga; esse é Dohko, nosso veterano; e esse aqui é o Aiolia, que além de parceiro de profissão, é meu primo,

— Verdade? Muito prazer em conhecê-los, cavalheiros.

— O prazer é todo nosso. – Aiolia apertou-lhe a mão, amistoso. – Milo nos falou de você; assim como Aldebaran, foi de grande ajuda pra ele “lá dentro”.

— Camus acreditava que Milo fosse um anjo enviado por Deus, para livrá-lo da dor. Hoje, penso se ele não estava o tempo todo com a razão. Não fosse por Milo, ainda estaríamos naquele lugar, sujeitos a toda sorte de abusos...

— Espere aí... “anjo enviado por Deus”? Esse… esse CAPETÃO aqui? Explica isso aí.

— Aiolia, deixe a moça chegar primeiro, calma... – Dohko pronunciou-se, antes que a visitante se assustasse em demasia com o jeito afobado do mais novo.

— Está tudo bem – Riu-se a jovem. – Eu vim mesmo para esclarecer algumas coisas, conforme me pediu o senhor promotor.

— Venha, Aiolia, venha me ajudar, vamos trazer uns cafés para todos.

— Certo, Dohko.

— Então não foi pra me visitar? – Milo fingiu fazer drama.

— Também! A verdade é que... apesar de eu estar preocupada com você e com Camus, não podia deixar Albior... sabia que Camus teria você por perto, e você, seus companheiros da polícia, mas Albior... bem, ele estaria sozinho... e sem condições de ficar sozinho... e...

— June, não tem por que se justificar. Escuta, me diz... como ele está?

Ela abaixou o rosto, como se lhe fosse penoso rememorar:

— Ele escapou por pouco da morte, Milo. Uma infecção generalizada quase o levou. Ainda está sob cuidados intensivos, mas o pior já passou.

— O Debas... me disse que... que Albior não vai mais poder andar.

Ela esforçou-se por parecer serena. Ergueu para o policial seus grandes olhos úmidos e brilhantes.

— Não, não vai. Além de ter perdido o olho esquerdo, perdeu completamente o movimento das pernas. Albior terá que ficar em uma cadeira de rodas... para o resto de seus dias... mas estamos felizes de que... com sua vida preservada... para nós. E, daqui em diante, eu serei suas pernas. Cuidarei dele.

— Que bom, June. Isso é realmente muito bom. – Disse, em um fio de voz.

— Finalmente poderemos ficar juntos, como era nosso desejo desde nossos anos de criança. Vamos nos casar.

— Isso é maravilhoso, June, de verdade, caramba... meus parabéns.

— Obrigada. Devemos muito a você, Milo, muito mesmo.

— Não diga isso. Mas... estou curioso... para onde vocês...

— O tio materno de Albior está vindo da Argentina para nos levar.

— Oh.

— Viveremos com a família dele lá, a família de sua falecida mãe. Finalmente ficaremos juntos, como deveria ter sido desde o início, se o maldito Algol não tivesse se metido em nossos caminhos... agora, seremos Albior, eu e Jacó, uma FAMÍLIA.

Algo espetou Milo por dentro. Não seria capaz de se conter por muito tempo...

— Por falar em família, June... e quanto a Camus?

— O que é que tem Camus? – Ciciou, quase envergonhada.

— Bom, ele é seu... é da SUA família também... vai levá-lo junto com...

— Isso está fora de cogitação. AGORA.

— O... o quê?

—Digo “agora” porque chegou a ser cogitado. Mas a família de Albior não aceitou. Se recusa veementemente a receber em seu seio o filho do líder da seita que levou os pais de Albior para longe de casa. Hades... foi o responsável pela fuga deles. Hades foi o responsável pela desgraça dos pais de Albior, e do próprio Albior.

— Por acaso acham que Camus foi responsável também?!? – Sem perceber, Milo erguera a voz. Saga a tudo acompanhava.

Após um breve estremecimento, June murmurou:

— Ele é filho de Hades. Camus é o deus a quem cultuávamos. Os familiares de Albior não o querem lá.

— Mas, June! Você é TUDO o que restou de família para Camus!...

— Ele é meu cunhado... e eu o amo... eu lhe servi porque era minha obrigação, mas verdadeiramente aprendi a amá-lo, porém... tenho um filho e um marido pelos quais zelar. Preciso cuidar de Albior, Milo. Mesmo a MIM, só aceitaram minha presença porque dissemos a eles que Jacó é filho de Albior...

— E... e é?

—NÃO! Jacó é realmente filho de Algol... infelizmente...

— Então você está mentindo para a família do homem que ama?!?

Ela cravou no agente seus olhos rubros, tristes, cansados de chorar; neles, estranho brilho luziu com força

— Todos estes anos fui verdadeira, fiel, submissa e leal a tudo e a todos... e o que recebi em troca? Fui humilhada, agredida, torturada, violada, espancada. SIM. Se for para não mais me separar do homem a quem amo... que mais do que nunca precisará de mim, para dele cuidar... sim, eu VOU mentir. Mentirei de todas as formas.

Sua ferrenha convicção explodiu em um pranto convulso. Constrangido, Milo balbuciou:

— J-June… n-não foi minha intenção... me desculpe...

— Não se martirize, June. – Saga adiantou-se, oferecendo-lhe um lenço de papel. – Mesmo que a família de Albior aceitasse Camus, dificilmente ele poderia ir para lá. Sim, isso seria totalmente inviável.

— Como assim? Por quê? – Demandaram os dois, ao mesmo tempo.

— É difícil afirmar com certeza, pois os médicos ainda não dispõem de dados suficientes... mas tudo indica que o rapaz não está apto para viver em sociedade, não até entender, de fato, QUEM É, onde está, e compreender tudo o que aconteceu, de verdade, com ele.

Assombrado, Milo fitou o amigo.

— Tá dizendo que estão MESMO considerando que Camus... é algum tipo de DOIDO?

— Estou dizendo que Camus precisa ficar em observação. Que não está pronto, no momento, para... “viver aqui fora”.

Um desconfortável silêncio instalou-se. Da parte de June, aquelas ponderações incomodavam sobremaneira. Queria poder fazer mais pelo cunhado, queria mesmo! Mas... considerava-se de mãos atadas. E saber do lamentável estado mental do jovem, longe de aliviá-la como álibi que era, entristecia-a.

— Ele ainda acredita que é um Messias? – Indagou, torcendo as mãos.

— Ele não responde quando lhe perguntam isso. Eu... cá entre nós... eu acho que acredita, sim.

— Besteira – Cortou Milo, irritado. – Ele só tá meio confuso, o que, PORRA, é a coisa MAIS NATURAL do mundo, depois de tudo por que passou! Mas logo vai entender “quem é”...

— O problema é a REAL duração desse “logo”. Quando entenderá? Atá lá, repito: o rapaz NÃO está apto a viver em sociedade. Isso é opinião unânime. – Insistiu Saga.

— Eu realmente gostaria de poder ajudar... – Disse June, volvendo o olhar suplicante para Milo. Ele não conseguiu evitar uma expressão de fastio; virou o rosto sem ter vontade de falar mais nada. Aquele gesto magoou profundamente a moça. Ela, entretanto, não ousou condenar o agente. Lentamente, começou a dizer:

— Tenho que pensar no meu filho também. Ele terá um lar, um pai amoroso, um futuro... haverá tempo de limpá-lo de toda influência perniciosa da Aurora do Novo Porvir... de tudo que Algol o fez sofrer...

Crianças eram realmente um ponto fraco de Milo. Ele engoliu em seco, pensando no pequeno Jacó, e sentiu-se pior ainda lembrando-se de Ikki e Shun, filhos de Radamanthys e Pandora...

— June, e os primos dele? Como foi que...?

—Antes de tentar empreender aquela fuga alucinada com Camus, Radamanthys passou em casa para pegar uma mala previamente preparada com documentos para o plano nojento dele. Nisso... ao se deparar com a esposa e os filhos... não pensou duas vezes... abriu fogo contra eles. Os três morreram na hora... – As lágrimas voltaram a rolar por seu rosto delicado.

— Meu Deus – Foi tudo que Milo conseguiu enunciar. E realmente gostaria de NUNCA MAIS falar nada a ninguém. Seu peito doía, sua cabeça latejava. Pensou se não iria passar mal.

— Milo, é melhor você voltar a se deitar – Preocupou-se Saga, percebendo seu empalidecer.

Neste meio tempo, Aiolia e Dohko chegaram com bolos e cafés. Deitado, como Saga aconselhara, Milo refletiu sobre a inutilidade de nutrir sentimentos negativos para com June: mãe de uma criança de cujos traumas também precisaria cuidar, e praticamente já esposa extremada de um homem que dela dependeria para tudo, para o resto da vida... June TINHA o direio de ser feliz. Camus não poderia mesmo ir com ela, de uma forma ou de outra. Ele tomou a mão da jovem, perguntando:

— Promete que será feliz?

— Eu prometo, se você me prometer o mesmo.

O “sim” de Milo foi automático como abrir os olhos ao despertar. Poderia ser FELIZ, depois de tudo que vivera, tudo que presenciara na Comunidade?

Ele duvidava muito.

Tirado o “grande peso” dos ombros de June, ela pôde conversar um pouco mais à vontade. Assim, ficaram sabendo sobre a história de Albior: aos oito anos, fora levado, da Argentina, pelos pais a uma missão evangelística da Igreja Aurora do Novo Porvir nos Estados Unidos. Lá, foram convencidos a entregar tudo quanto tinham e viver permanentemente na Comunidade de Grayville, a maior do mundo. Foi assim que Albior conheceu a pequena June, nascida no Vale. Desde crianças, mantiveram estreita amizade, que, mais tarde, evoluiu para o amor. Pouco antes de Albior se tornar um Arauto, aos 18 anos, seus pais faleceram, vitimados por uma febre causada por carrapatos equinos. Desta forma, a família viva de Albior, agora, eram tios dos quais pouco se lembrava, residentes ainda na terra natal. Estes manifestaram boa vontade para acolher o rapaz, apenas tolerando June por esta ser, supostamente, mãe de um filho do argentino. Milo ouvia, sinceramente despido de ressentimentos. Aquela mulher sofrera tanto nas mãos de Algol! Agora, o homem que amou desde pequena dependeria dela. Teriam, além disso, enfim, chance de consumarem sua vida a dois. Jacó teria uma família, um amparo, um futuro. A presença de Camus não fazia sentido naquelas vidas.

Camus não fazia sentido.

Preso à única realidade que conhecera, era-lhe forçoso adentrar aquele “mundo real”... o “mundo real”, para Camus, era para Milo como o mundo de Alice, ou do Mágico de Oz... não era à toa que encerrava-se em um obstinado mutismo. Seus pensamentos deveriam estar se ordenando.

E tal processo não estava encontrando sucesso.

— Então... Camus ficará no hospital até quando? – June indagou, incerta de como impostar a voz.

— Até seu destino ser decidido. Fisicamente, nada o prende aqui. – Saga respondeu.

— Mas... psicologicamente...

— Ele não ficará desamparado, não se preocupe. Camus, agora, é responsabilidade do Estado. O Governo cuidará de tudo.

A Milo tais palavras foram incômodas como farpas entre os dedos. Disfarçou-o, porém.

— Isso quer dizer que ele ficará em alguma instituição do Governo? – Ela quis saber.

— Exato. Em uma casa de saúde mental, muito provavelmente.

— Oh.

— Ninguém me disse isso – Milo deixou escapar, ríspido.

Saga fingiu não perceber-lhe a indignação. Prosseguiu:

— Camus ficará sob nossa custódia. Precisa de cuidados intensivos. Ele... bom, não queria partilhar isso com você, mas ele chegou a se machucar, aqui no hospital, por pura tensão. Precisou mesmo ser amarrado e sedado para não se ferir mais.

— Oh, não... Camus...

Vendo-a consternada, Dohko apressou-se em acrescentar:

— A doutora Saori Kido, que é a psicóloga do nosso grupo, está sempre com ele. Não vai mais se repetir, ele está bem amparado, por ela e por toda equipe médica.

— Ah, que bom... então ele está realmente tendo toda a assistência necessária, não? – Comentou June, a mão espalmada pelo peito, demonstrando alívio.

— Sim, é tudo conforme lhe falamos, senhorita.

— Muito obrigada... promotor Saga, será que eu posso ir vê-lo agora?

— Naturalmente.

— Eu também vou.

— NEGATIVO, Milo. Olha pra você. Pálido como um fantasma, olheiras pavorosas.

— E por um acaso eu preciso estar bonito pra ir ver o ruivo?

— Você precisa descansar, isso sim – Aiolia foi em auxílio do chefe.

O loiro fez um muxoxo mais resignado que contrafeito. De fato, não conseguira dormir quase nada à noite. Um zumbido constante ressoava-lhe no cérebro.

— Tudo bem – Murmurou, cansado.

Despediu-se afetuosamente de June, que se retirou, não sem atirar centenas de promessas de retornar. Milo assentiu, torcendo para que, quando ela retornasse – e SE ela retornasse –, ele estivesse BEM LONGE, já em Red Meadow...

Ele em Red Meadow, e Camus em uma... como Saga se referira ao lugar para onde iria o “Redentor”?

“Casa de saúde mental”.

Exatamente.

Só assim, poderia considerar que tudo estaria acabado. Se bem que queria que Hades fosse condenado à pena máxima. Sim, ainda tinha esperanças de que o “Grande Pai” partisse desta para uma PIOR, através de uma deliciosa injeçãozinha letal... era o MÍNIMO que merecia um homem que sacrificara o próprio filho em prol de suas torpes ambições. Pensou em que Hades condenara também os OUTROS filhos, embora de maneiras diferentes...

— O que foi?

Saga tirou-o de seus devaneios. June já havia partido. Dohko tinha ido para acompanhá-la até o quarto do "Redentor".

— Você não me disse que Camus ia prum SANATÓRIO. Ninguém me disse.

— Para onde mais poderia ir alguém nas condições dele, Milo?

Suspirando, Milo respondeu, triste:

— É. A única pessoa com quem ele poderia contar como família lhe deu as costas...

— Acha mesmo justo julgar a garota dessa forma? A casa não é da família dela, é da família de Albior, e mesmo eles estão recorrendo a artifícios para que possam ficar juntos.

— E você concorda com isso?

— Quem sou eu para avaliar qualquer atitude tomada em uma situação como essa? – Volveu o promotor, dolorosamente sincero.

— É. Você tá certo. – Rendeu-se, magoado com algo que não sabia explicar. – Eu também não tenho que julgar NADA.

— Exatamente. Sabe o que você tem que fazer? – Aiolia falou, trazendo mais um travesseiro. – DESCANSAR. Desde ontem, está se agitando muito, quando na verdade deveria estar em REPOUSO ABSOLUTO.

— Faça-me o favor, Olia! O sol a pino, e tu quer que eu durma?!?

— Como se isso fizesse diferença pra quem tá num HOSPITAL.

— Agh... que irritante! – Acabou aceitando o travesseiro sobressalente.

*************

—Camus? – June chamou, tão logo adentrou o quarto 426.

— June? – Muito surpreso, o jovem ergueu-se da cadeira, sob olhar atento de Saori.

A loira atirou-se a ele, em um abraço demorado e emocionado.

— Graças a Deus, está tudo bem com você, Camus! Oh, graças a Deus...!

À média distância, a psicóloga manteve-se silenciosa. June exultou-se:

— Deve ser a senhorita Kido! O promotor Saga me falou de você! Está CUIDANDO de Camus!

— Ao menos, tentando – A nissei estendeu a mão para um cumprimento. – Camus não é dos pacientes mais colaborativos que já tive.

— Quê? Como assim? – June encarou Camus, que desviou dela o olhar. – Camus, você não está colaborando com a senhorita Kido?!? Que modos são esses?

— Está tudo bem, estou respeitando o tempo dele. Uma hora ele falará por si próprio.

— Mas, ei, vejam só, eu, falando de modos, nem me apresentei... me chamo June, sou cunhada dele. Era casada com o irmão mais novo... o detestável Algol... desculpe, Camus.

Ele não esboçou reação. A recém-chegada voltou ao assunto:

— Camus, por que não está falando com as pessoas que estão aqui para te ajudar? Isso não é uma atitude louvável.

Dando de ombros, o “Redentor” foi sentar-se na cama. Ele até queria perguntar à cunhada sobre Albior e Jacó, mas antes que pudesse...

— Não me diga que você AINDA pensa que é o Messias, Camus.

Tornou-se boquiaberto àquele comentário. Chocado, apenas olhava para June, que prosseguia:

— Eu sei que, POR ANOS, você foi enganado por Hades e por todos, de certa forma, até por mim, sim, pois eu, no fundo, sabia que tinha algo errado ali. Mas está na hora de você ACORDAR.

— Senhora June, perdoe-me, mas essa não é a forma mais adequada de abordar essa questão com ele...

June fez-se sem graça.

— Oh, claro. Tem que ser aos poucos, talvez... sim, desculpe...

Camus recusou-se a ouvir. E fez questão de demonstrá-lo; deitou-se na cama e cobriu-se por completo com o lençol. Ouviram-no cantarolar.

— Bom, essa aí é nova.

— Bem que o promotor Saga disse...

— O que Saga disse?

— Que ele... hã... precisará de cuidados intensivos... e que deve ficar em um lugar adequado para recebê-los... um lugar como...

A voz de Camus fazia-se cada vez mais alta para não ouvir. Saori fez sinal com indicador para que a moça não falasse mais. June calou-se, com lágrimas nos olhos. Tudo que passou a ecoar no quarto foi o cântico de louvor de Camus.

*************

A noite havia caído, e junto com ela, uma fina chuva que embaçava as janelas. Aiolia já havia voltado para o hotel em Portland, e o promotor se preparava para partir também. Necessitava de umas boas oito horas de sono.

—Saga...

— Hum?

— Você disse que Camus vai pra um hospício, não foi?

— Casa de saúde mental.

— Não fode, Saga, nós sabemos que é um HOSPÍCIO!

— Se quiser interpretar assim... mas as casas de saúde mental não são como os hospícios que você vê em filmes ou em séries de terror, Milo. Não tem por que ficar com essa cara.

— Cara? Eu? Que cara?

— De pavor. De preocupação. Medo, sei lá.

— Preocupação? Eu? Por que eu faria cara de preocupação?

— E eu sei? Me diz VOCÊ, que está exatamente com essa cara.

— Impressão sua.

— OK.

Saga caminhou até onde estava pendurado seu sobretudo. Vestiu-o. Soube que seria inútil insistir com o outro. Bem, amanhã seria um outro dia, por ora...

— Isso é putamente injusto.

Virou-se para Milo, que pronunciara a frase com amargura jamais verificada em seu tom de voz.

— Saga, é putamente injusto – repetiu, agora enérgico – Quero dizer, o cara viveu em cativeiro a vida toda, e, agora que saiu dele, vai ser internado em um hospí... numa casa de saúde mental. É isso? Saiu de um cativeiro pra ser enfiado em outro cativeiro?!?

O promotor deteve-se, considerando com atenção as palavras do amigo. Suspirou antes de responder:

— Não há outra solução, Milo. O sujeito se encontra fora da realidade. Não se comunica, não interage, mal sabe quem é. Milo, considere TUDO por que ele passou. Você SÓ VIU POR ALGUNS MESES. Não tem como alguém ter passado por TUDO que Camus passou e ficar “normal”. Ele precisa de tratamento. E, além do mais, NÃO tem para onde ir.

— E se ele tivesse?

— Tivesse o quê?

— Pra onde ir.

— Hã? – Saga ergueu as sobrancelhas. – Como assim?

— ORA, “COMO ASSIM”? Se ele pudesse ficar na casa de alguém de confiança, e ir aos lugares especializados para os tratamentos... tipo...

— Quer se explicar melhor?

— Tá. – Milo sentou-se bem ereto no meio da cama, aprumando a postura. – E se... não sei. E se ele ficasse... COMIGO? Na MINHA CASA?

O queixo do promotor quase foi ao chão!

— O QUÊ?

— É. Em quatro dias, vou voltar pra Red Meadow. Sou só eu naquele apartamento enorme... poderia... ele poderia vir morar comigo. Nem que fosse por um tempo... até ele ficar bem... até ele...

— Você só pode estar de BRINCADEIRA com a minha cara, Milo!

— Não. Nunca falei tão sério na minha vida. Estou oferecendo minha casa para acolher o Camus. Para... para Camus morar.

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Notas finais
É isso mesmo, produção? Milo ofereceu-se para ACOLHER Camus, em sua casa? Será que conseguirá obter tal autorização? Saberemos no próximo capítulo... obrigada a quem leu! Até a próxima... bjs