Redentor
23 Ascensão - Ato II : Apenas Uma Vítima
Notas iniciais
Hospital Geral do Maine.
Folhas avermelhadas cobrem as ruas apinhadas de repórteres e curiosos que, malgrado a sanha despertada pelo mais aberrante caso policial dos últimos anos, ainda sabiam respeitar cordões de isolamento. Um pouco de respeito lhes cai bem, afinal de contas, é das imediações de um hospital de que estamos falando. Embora para vários enviados de emissoras e de jornais, um único flash, uma única palavra pode significar a glória. Estar ali é situar-se em um ponto da História. E dali não arredarão pé, a despeito dos semblantes sisudos dos homens da Lei, a despeito da sisudez também do clima de Portland, disposto a dar uma mãozinha para dissipar um pouco da multidão. À medida que a tarde avança, a temperatura cai vertiginosamente, e uma chuva fininha se junta à já insistente cerração que envolvia os resistentes ocupantes das ruas.
Da janela do quarto andar, Saga sorri quase com divertido sadismo.
— Vamos ver se agora esses urubus levantam voo. – Comentou, sem deixar de perceber como o mar escuro se encrespava raivosamente.
— Não pode recriminar essa gente. Esse caso... é o mais horroroso em muito tempo que vi no nosso país. – Aiolos opinou, trazendo fumegantes copos de café.
— Eu sei. – O promotor fez-se sombrio. – Um homem criado em cárcere privado desde criança, submetido a todo tipo de horrores e torturas, inclusive sexuais, tudo sob aval do próprio pai, em prol do enriquecimento de uma seita falsa... olha, uma coisa dessas acontecer... faz a gente pensar se realmente existe Deus, Olos.
— Se não existisse, não existiria o Milo, Saga. – Murmurou. – É por isso que ele também está hospitalizado. Passou por poucas e boas para salvar o rapaz.
— É, eu soube que, apesar da cirurgia, a maior parte das marcas de chicotadas serão permanentes. Ele também desenvolveu uma infecção renal em virtude desses meses de austeridade alimentar. Ele... não está nada bem, Olos...
— Mas vai ficar – Pôs a mão no ombro do namorado, visivelmente desolado ao falar do agente Hatzis. – Milo é forte e teimoso, sabe disso. O pior já passou. E, com isso, ele não ajudou só o Redentor, como também milhares de pessoas...
Saori adentrou o recinto sem qualquer cerimônia. Esperou pela atenção de ambos para anunciar:
— O Redentor acordou.
Saga e Aiolos entreolharam-se.
— E essa agora... preferia que Milo estivesse acordado quando o cara recobrasse a consciência... – Admitiu o promotor, coçando o queixo.
— Ele disse alguma coisa? – Aiolos quis saber.
A psicóloga meneou negativamente a cabeça. O chefe prontificou-se:
— Aiolia e Dohko estão com o Milo. Aiolos, fique na antessala com os policiais e os médicos do quarto do rapaz. Saori e eu... vamos falar com ele.
— OK. Boa sorte pra vocês.
— Por que “boa sorte”?
—Não sei, Saga... isso não tá com cara de que vai ser coisa fácil. Esse garoto... é como se ele NÃO pertencesse ao nosso mundo, sabe?
Os três trocaram olhares de pessimista concordância.
*************
Camus não sabia precisar o que sentia. Era como se não tivesse corpo, como se fosse feito de névoa... mas enxergava o branco do teto, o branco cruel de luzes frias que obrigavam-no a desviar o olhar, apenas para encontrar um borrão igualmente branco, que, aos poucos, foi revelando formas... não apenas branco... tez rosada... lábios cor de... não sabia que cor era aquela... roupa branca... cabelos cor de... também não sabia que cor era aquela...
— Oh! Oh, meu Deus... – Disse o borrão, que depois de alguns segundos virou uma jovem mulher, por algum motivo apreensiva. – Você acordou.
Ele não respondeu. Não viu necessidade. Talvez sequer tivesse força para tal. Limitou-se a olhar para ela, em um ato menos curioso do que mecânico.
— Está sentindo alguma dor? Como está se sentindo? Eu já vou chamar os médicos, mas se tiver algo que eu...
Havia um misto de ternura e medo na voz esganiçada. Camus não compreendia... dor? Não. Não sentia dor. Isso deveria ser TÃO grandioso... não. Não sentia dor. Sentia algo ainda em formação. Algo que também não podia precisar. Não obstante, não se afligia. Só havia a letargia. E... e a sede.
Pelo movimento de seus lábios, a moça adivinhou:
— Deve estar com sede. Quer água?
Ele abriu a boca para responder, porém, tudo que conseguiu emitir foi um débil suspiro. A enfermeira trouxe-lhe um copo de água. Um terço de seu conteúdo escorreu pelo queixo do ávido rapaz. Ele não se importou. Sua coordenação motora encontrava-se comprometida, no entanto, bastou que estendesse o copo vazio, em um pedido mudo por mais. Ela sorriu.
— Claro, meu querido, vou pegar, sim? Só um instantinho.
De fato, não demorou nada.
— Aqui está. Já chamei o médico, tá? Ele já vai chegar. Vai ficar tudo bem agora.
“Tudo bem agora.”
“Tudo bem.”
“Agora.”
O olhar de Camus vagueou.
... Mi...
A enfermeira pensou ter ouvido o paciente dizer algo.
— Oi? Falou alguma coisa, meu anjo?
— Mi... Mi... – Tentava, mas não conseguia. Sua boca ainda estava pesada, dormente. Seus olhos marejaram ante a incapacidade.
— Calma, logo logo você consegue. Deita de novo, tá? Relaxa. Vai ficar tudo bem.
Bem?
Então por que ELE não estava ali?
ONDE estava ELE?
Mas… QUEM era ELE?
Ele NÃO era quem havia dito ser!
Ele mentiu.
Ele o enganou.
Mas ele o SALVOU!
Salvou?
Mas... não era o Salvador?
O Redentor?
O Messias?
Camus deu um gemido angustiado que assustou a moça.
— O que está sentindo?... – Ela indagou preocupada, acercando-se dele.
ONDE ELE ESTAVA?
ONDE ESTAVA?
Fez menção de levantar-se. A enfermeira o segurou.
— Espera, moço, você não pode...
Ele grunhiu feroz. O que ele não podia? Por que não podia? Onde estava? Onde estava Mikael?
Mikael, não; Michael.
Não.
Milo.
Quem era Mikael? Não era Mikael!
E Radamanthys... Algol... seus irmãos... onde... mortos...
MORTOS!
Seu pai... onde?
June… Pandora… os Vigias… os Arautos… onde…? Estava só?
Suas Ovelhas… onde?
Sua terra... onde?
—On… de…
Pôs-se de pé, atordoado.
— Por favor, espere o médico...
Camus desvencilhou-se com violência da moça, que perdeu o equilíbrio. Ele correu para a porta, bufando. Desequilibrou-se também, por ver-se preso ao soro. Arrancou os tubos de qualquer maneira, e, antes que pudesse sair, deu de cara com o médico.
— EI! O que está fazendo?
Com os cabelos em desalinho, o rosto contorcido em confusa fúria, Camus mais se assemelhava a alguém encontrado em uma selva, sem jamais ter tido contato com a civilização humana.
Não estava muito distante de sua situação real.
Antes que outros enfermeiros que chegavam avançassem, o médico esticou os braços, impedindo-os.
— Parem! Ele só está confuso! Não entende nada do que está acontecendo!
O ruivo retrocedeu, tal qual um animal acuado. Agarrou a barra do que julgou ser sua túnica. Era mais curta... o tecido era mais áspero... Virou-se para trás. A janela.
Fechada.
O médico sorriu, aliviado por ver as vidraças cerradas. Aproximou-se com extremo cuidado.
— Senhor Camus, eu entendo como deve estar se sentindo confuso. Eu prometo que tudo lhe será explicado. Uma pessoa já está vindo para cá cuidar disso. Mas é preciso que o senhor se acalme. Certo?
A expressão perdida do jovem pareceu desanuviar-se ante aquelas palavras.
— Mikael?... – Balbuciou.
— Hã?
— Não... Mikael não... Mi... Michael... não...
Sob terríveis pontadas, levou as mãos à cabeça. Grunhiu em franca agonia. Certo, AGORA estava claramente sentindo dor.
— Candice! – O doutor chamou a enfermeira, ao mesmo tempo em que os demais ampararam o paciente. Conduziram-no até o leito, bem a tempo de Saga e Saori presenciarem tudo. Camus não resistiu, sequer pareceu dar-se conta da injeção aplicada em seu braço.
— Bem, disseram que ele tinha acordado, mas, pelo jeito, vai dormir de novo. – Comentou o promotor.
Dando de ombros, o doutor defendeu-se:
— Preferia que eu deixasse o coitado se atormentando? Viu o estado dele!
— Ele estava chamando pelo Milo – Observou Saori, mirando Saga, admirada.
— Hum? “Milo”? O nome que ouvi foi “Mikael”. E “Michael”...
— Sim, doutor, o nome disfarce de nosso agente, também internado aqui. – Saga esclareceu.
— E que passou meses infiltrado na comunidade de Hades e do Redentor... – A nissei completou, como a analisar as próprias palavras.
O médico fitou-os visivelmente surpreso, deixando escapar simplesmente um “oh”.
O Redentor mergulhou no mundo do nada mais uma vez.
Mas...
Desta vez...
Lá ele o encontrou...
“Mikael.”
O loiro olhou-o com tristeza.
“Não. Seu nome é Milo.”
Milo assentiu.
“Você mentiu para mim.”
“Era necessário.”
“Por quê?”
“Era meu trabalho.”
“....”
“Você me odeia?”
“Eu… eu não posso odiar. Eu sou o Messias.”
“Você NÃO é o Messias, Camus.”
“Então... então quem sou eu?”
“Você é VOCÊ.”
“E o QUE É ISSO? Eu... sempre fui O OUTRO.”
As mãos de Milo tocaram suas faces.
“As coisas vão mudar. Só uma coisa não vai mudar.”
“O quê?”
“O sonho, Camus... o SEU sonho. O seu sonho...”
— Bem, está dormindo. – Constatou o médico. Virou-se para os recém chegados. – Teremos um caso bem complicado aqui.
— Não esperava nada diferente. – Suspirou Saga. – Esse homem sequer conhece a realidade. Sequer sabe REALMENTE quem é.
— Temo que ele nunca venha a ter uma vida normal... realmente, não sei como será daqui para frente. Ele tem familiares vivos, além do pai, que está PRESO?
— Tem uma cunhada, que no momento se encontra no Hospital Central do Maine, acompanhando um homem que está em estado grave. O coitado foi torturado por dias seguidos. – Informou Saori, rememorando os relatórios.
— Santo Deus. Que lugar infernal não era aquele... – murmurou o médico.
— Supostamente, a terra de Deus sobre a Terra – ciciou Saga, melancólico. – E foi para um inferno desses que mandei o Milo...
Notando o acento de culpa na voz do chefe, Saori apressou-se em argumentar:
— Você cumpriu o seu papel de líder. E enviou o melhor de seus homens. O resultado da operação mostra o quão acertadas foram suas decisões. Não poderia ter sido outro a ter ido para lá. E não poderia ter sido outro a ter comandado essa missão.
Aiolos, da porta, sorriu-lhe agradecido. Saga limitou-se a assentir, como a assimilar as palavras da psicóloga. Esta propôs:
— Eu fico por aqui. Acho que ELE vai precisar de um suporte profissional ao acordar. Podem ir ver como Milo está. Qualquer novidade, a gente se comunica.
Eles concordaram. A enfermeira garantiu que ficaria com a policial. Saga e Aiolos retiraram-se, ainda trocando impressões com o médico responsável.
Saori aproximou-se do leito e contemplou o jovem adormecido. A tez muito pálida deixava entrever finas veias azuladas e algumas sardas diminutas. As pestanas, longas e curvadas, tão vermelhas quanto as sobrancelhas estranhamente bifurcadas e os enormes cabelos espalhados por sobre os lençóis brancos. Ele ressonava levemente, os finos lábios entreabertos de quando em quando retorcendo-se em uma respiração mais aprofundada.
— Ele é tão bonito, né? Uma beleza estranha, mas é bonito. – Comentou a enfermeira.
— “Estranha”, como?
— Não sei. Dizem que ele era tido como um deus, né? Uma espécie de Jesus. De Messias... mas ele não parece gente normal também, não. Tem alguma coisa DIFERENTE nele.
Saori suspirou.
— Ele foi criado como uma divindade. Fizeram coisas tão horríveis com ele, para que acreditasse em tais mentiras, que é natural que, à primeira vista, não pareça um rapaz normal. Mas é EXATAMENTE isso que ele é. Um rapaz normal. Um rapaz que foi enganado. Que sofreu muito. Que não teve direito à vida normal –que eu e você tivemos. Mas que a partir de agora VAI TER, se Deus quiser.
— Amém – Fez Candice, entre emocionada pela fala da agente, e envergonhada pela própria.
A nissei pôs a mão sobre a mão alva do paciente. Pontuou, com um terno sorriso:
— Eu o ajudarei, Camus. Eu... e o seu querido Milo. Pode confiar em nós.
*************
—Por que é que esse imbecil não acorda?
— Porque está sedado, Aiolia.
— Grandes merdas, ele tá assim há uns dois dias já!
— Porque passou por três cirurgias. Milo fraturou umas vértebras também, tá? O pulmão chegou a ser perfurado... – Dohko apenas repetiu o que já dissera umas dez vezes, sem tirar os olhos do jornal.
— Mas tá demorando muito pra acordar! Desde quando ele ficou molenga assim? – O outro zanzava ansioso pelo amplo quarto, localizado no sexto andar do hospital. O mais velho finalmente ergueu o rosto para encarar o primo de Milo.
— Não sei, Aiolia! Talvez os cinco meses de trabalhos forçados, a dieta restritiva, a carência vitamínica, os jejuns prolongados, a tensão permanente, os castigos físicos, a tortura, sabe, talvez, TALVEZ, talvez isso tenha deixado o Milo que conhecemos um pouquinho “molenga”, não acha?
Aiolia paralisou. Seu olhar vidrado fixou-se no do veterano. E então recomeçou a chorar...
— Lá vamos nós... – Suspirou Dohko, indo amparar o rapaz. – Chega, já chega, ele vai ficar bem...
— Do jeito que você falou não parece...
— Você me obrigou a isso!
— Aiolia, chorando, de novo? – Inquiriu Aiolos, assim que adentrou o quarto.
— A culpa é do Dohko, disse coisas cruéis sobre o que o Milo viveu naquele Vale amaldiçoado!
Dohko revirou os olhos. Sorrindo de leve, Aiolos adiantou:
— Não precisa explicar, Dohko, eu conheço o meu irmão. Deve ter forçado você a isso.
— Você tem mais jeito para policial que ele, podiam trocar de lugar. – O veterano ergueu as mãos, em um gesto dramático.
Saga, que entrara logo depois de Aiolos, aproximou-se do leito do paciente. A visão do amigo, outrora forte, bronzeado e cheio de vida, agora pálido, com olheiras, hematomas e curativos por todo lugar incomodava-o. Disfarçou como pôde.
— O médico disse que as cirurgias foram bem sucedidas, mas que, sobre o tórax e as costas...
Não ousou concluir.
— Ele não vai ligar pra isso. – Dohko tentou amenizar.
— Você acha? Vaidoso do jeito que é.
O mais velho buscou a melhor forma de dizer o que pretendia. Tomou cuidado de não deixar o silêncio alongar-se por demais:
— Saga, acho que nesses últimos meses, Milo tomou contato com realidades que talvez tenham... abrandado esse lado vaidoso dele.
Eles emudeceram novamente. Saga afastou-se da cama, sem dar-se conta de que ia até a janela. Lançou um olhar aborrecido para a rua.
— Já está anoitecendo e nem assim eles vão embora... – Resmungou.
— Está na capa de TODOS os jornais – Dohko apontou para os que espalhara sobre o sofá. – E vai ficar por um BOM tempo. Hades ainda será julgado. Muitas e muitas histórias ainda virão à tona, não apenas depois que Milo e o "Jesus” lá embaixo recobrarem a consciência.
— São milhares de testemunhas, de vidas suspensas. Sequestradas. Definitivamente, é o grande escândalo americano do século XXI. – Aiolos pontuou, sentando-se ali e tomando um deles para ler.
— E o ruivo, não acordou mesmo? – Quis saber Aiolia.
O promotor chefe contou, sem se virar:
— Acordou, mas teve de ser contido e sedado. Digamos que ele não é lá muito sociável. – Voltou-se para os companheiros, rindo do absurdo da própria tirada. – Aliás, como é que seria, não é?
— Ele ficou agressivo?
— Confuso, eu diria. Olha… não é pra menos. Imagine você, vivendo a sua vida normal. De repente... se vê numa nave alienígena... cercado por alienígenas... abduzido.
Dohko assentiu:
— Foi exatamente assim que o coitado deve ter se sentido. Talvez, se o Milo estivesse lá... é o único que ele conhece, afinal, o único com quem conviveu.
— Sim, o cara até chamou por ele. – Revelou Saga, inconscientemente arregalando os olhos esverdeados.
— Sério? – Aiolia fez o mesmo. – Talvez isso seja um bom sinal...
— Esperemos que sim. Oh, esperem... – Saga pegou o celular, que tocava no bolso de sua calça. – Ai, não... bem que achei que estava demorando...
— Quem...?
Ele atendeu, claramente fazendo um esforço atroz por ser simpático.
— Sim. Natassia! Como vai?
—Ela não tava na Espanha com o noivo? – Aiolia sussurrou para o irmão.
Aiolos deu de ombros, atento às expressões faciais do namorado, nitidamente desconfortáveis.
— Eu não acho que seja uma boa ideia, Nat, aqui está uma confusão só... muitos jornalistas, repórteres, gente do mundo inteiro... eu sei, minha querida, mas é que não acho que seria bom pro menino ver o pai no estado em que... bem, sim, eu te disse que ele iria passar por outra cirurgia hoje... em uma semana, mais ou menos, Milo receberá alta, e Hyoga poderia visitá-lo no conforto e, principalmente, na privacidade do lar, você não pensa nisso também não? Aqui ele seria alvo de flashes e câmeras indiscretas, e acho que você não iria querer isso para ele, não é?
Notaram que Saga ficou quieto por um bom tempo, as pálpebras contraídas com força. A voz saiu quase impaciente. Quase. Foi por um triz.
— CLARO QUE Saori está aqui. Ela é membro da nossa operação e peça-chave para cuidar do rapaz resgatado. Por quê? Ora, porque, NO MÍNIMO, esse rapaz vai precisar de amparo psicológico para enfrentar depoimentos e o desenrolar do processo que vai se... NÃO, Natassia, ela NÃO está no quarto do Milo...
— E por que ela se importa? – Sussurrou Aiolia?
— Eu adoraria saber. – Respondeu Aiolos.
— Pois eu não. E acho que Milo MENOS ainda... – Disse, por sua vez, um experiente Dohko.
— ... está com o Redentor, e... Nat, por favor, deixe a coitada em paz, ela NÃO tem nada a ver com O... não, não, eu não estou proibindo você de vir pra cá, de maneira alguma! Quando foi que eu disse isso?!?
— Que mulherzinha mais chata, puta que o pariu – Resmungou Dohko, à distância.
— Sem querer defender ela, o Milo a deixou assim. Tanto aprontou com a pobre... eu até tentava fazer ele pegar leve nas sacanagens. Mas... enfim, ele foi um PÉSSIMO marido.
— E agora, é o MEU marido que sofre com isso – ajuntou Aiolos, compadecido.
— Está combinado – O promotor disse, derrotado. – Esperamos vocês em dois dias. Montaremos um esquema para recepcioná-los no aeroporto. Enviarei detalhes no dia em que seu voo chegar. Até lá.
Com as mãos no pescoço, Aiolia brincou:
— O grande Saga enfrenta os mais poderosos e implacáveis chefes do crime dos Estados Unidos, mas não pode com Natassia Hatzis... ops, ela tirou o Hatzis, né?
— Algo me diz que isso é CULPA, por ter sido ELE a ter apresentado o garanhão Milo à bela intercambista russa naquela festa da faculdade... queria tanto se livrar dela, sem dar na “pinta”, que...
— Cala a boca, Aiolos.
— Ei, posso saber que bagunça é essa aqui?
— MILO!!!
Todos acorreram para o leito.
— Era pra você acordar só daqui a algumas horas!
— Com o barulho que vocês fazem, isso seria impossível.
— Desculpe, mas... porra... como é bom te ver acordado...
— Ô Aiolia, não chora em cima de mim não, lágrima de homem me dá alergia!
— Porra, cara, é que cê tava aí mortão há três dias!
— E daí, caralho, só porque eu tava... peraí. TRÊS DIAS?!?
—Três dias.
— E por que CARALHOS ninguém me acordou?
— Não se “acorda” uma pessoa que passou por três cirurgias, seu idiota – Choramingou Aiolia, assoando o nariz na gola da camisa do amigo. Os demais riam a não poder.
— TRÊS CIRURGIAS? * AAAH QUE NOJO * Mas... o que foi...
— Tinha duas costelas quebradas perfurando seu pulmão... e fizeram cirurgias nas costas e no tórax, para... você sabe... – Disse Dohko. – Mas...
— E eu vou morrer?
— Claro que não, seu idiota! Vai ter alta em mais ou menos uma semana.
— Porra, tudo isso, ainda?
— Você passou por poucas e boas, Milo. E não foi em um só dia.
— É. Eu sei. – A voz do agente baixou até quase fazer-se inaudível.
A mudança em seu espírito não passou despercebida aos companheiros. Saga prontamente disse:
— Vou chamar o doutor. Dizer que você acordou e...
— Saga. E ele?
—Ele? Ah. Ele... está bem.
— Onde?
— Dois andares abaixo. Saori está lá.
— Ele tá bem então? Digo… fisicamente?
— Sim! Muito bem!
— Tá acordado? Posso ir vê-lo?
Os quatro se entreolharam.
— Acordado, ele não tá...
— Como...?
— Ele acordou e… se exaltou. Teve uma crise... daí tiveram que sedá-lo.
Milo apertou os lençóis, aflito.
— Merda. Ele já passou TANTO por isso, não precisavam...
— Foi pela própria segurança do garoto, Milo.
“O mesmo papo...”. Ei. Por que pensara aquilo? Na certa, fora necessário mesmo. Camus deveria ter ficado BEM assustado ao se ver em um lugar estranho, cercado por pessoas estranhas.
— Eu posso ir até lá?
— Que pergunta! Claro que NÃO! Você está OPERADO. Acabou de acordar. Vou chamar o médico. Espere aí. Seu doido.
Aiolia sorriu para Milo assim que o chefe saiu.
— Saga disse que a única coisa que o Redentor disse foi o seu nome, Milo. Chamou por você.
— Quê?...
O coração de Milo doeu horrivelmente ante aquela revelação. Algo disse-lhe que deveria ficar feliz.
Entretanto...
Não conseguia.
— Aiolia... queria saber de umas outras pessoas também.
— Quem?
— Alguns são parentes de Camus...
— De quem? Ah, do “Redentor”, você diz.
— É, o nome dele é Camus, acho que já podemos deixar esse negócio de Redentor pra lá – A fala de Milo foi menos tolerante do que planejara. – Parentes dele, alguns, outros não, como Aldebaran, um cara grande... bem grandão...
— Não tivemos notícia de ninguém assim.
— Sei. Mas não há ninguém assim nos óbitos também, certo? Um homem de mais de 2 metros... e isso NÃO é linguagem figurada.
— Não. O presunto mais alto tinha 1,93m.
— Droga, precisa falar assim?
—Tá ficando sensível, é?
Milo esfregou o rosto, impaciente. Achando que o primo sentia alguma dor, Aiolia decidiu parar de brincar.
— Por que você não verifica isso depois, Milo? Sò vai te fazer mal saber que...
— O Radamanthys não mentiu, né? Ele MATOU MESMO Pandora e os meninos. – Murmurou.
— Se fala da família do irmão mais velho do Reden... de Camus... sim, infelizmente ele... ele não mentiu.
— Como fez isso?
— Milo, depois…
— E June? Jacó? Albior?
— A outra cunhada de Camus está bem. Está com o filho em outro hospital, acompanhando esse tal Albior. Ele... ele tá mal, sabe. Dizem que talvez não sobreviva. Você estava certo em tomá-lo como prioridade. Judiaram MUITO dele.
— Não quero que ele morra. Meu Deus, já basta Chrysaor... que merda... que merda...
Incapaz de continuar, Milo afundou-se na cama, enjoado.
*************
Não se sabe se por Camus estar, de certa forma, acostumado ao uso de drogas e tranquilizantes, o certo é que ele voltou a si antes do que seria o esperado. Saori assim o soube porque foi acordada pelo barulho da descarga do banheiro. Assustada, viu o jovem sair tranquilamente pela porta , fechando-a com cuidado e, pasmem, retornar docilmente para a cama. Cobriu-se com a manta e ali ficou, mãos unidas sobre o peito, olhos fitos no teto branco. A psicóloga olhou para o relógio digital sobre a mesinha de cabeceira: três e cinquenta e quatro da manhã.
— Então você acordou. – Não se importou com o óbvio da observação, importante era começar de algum lugar. – Como está se sentindo?
Ele não respondeu.
— Deve estar com sede. Eu vou pegar água. Mas sempre que quiser água, veja, tem um frigobar bem aqui – Apontou, simpática.
Ele não se importou em olhar para ela; continuou fitando o teto. Como não pegou o copo que Saori lhe estendeu, a moça resolveu deixá-lo sobre a mesinha.
— Bom, está aqui, depois você bebe. Já foi ao banheiro, ótimo. Está com fome? Isto é um pouco mais difícil de resolver, porque o hospital tem horários rígidos para as refeições. Em algumas horas devem começar a servir o café da manhã. Mas... se estiver com muita, muita fome mesmo, eu tenho uns biscoitos de chocolate. Quer?
Silêncio foi a sua resposta. Entrementes, Saori sorriu faceira.
— Sim, você tem razão! Sejamos responsáveis com a dieta hospitalar, não é mesmo? E você é um rapaz tão esbelto!
“Ele não vai mesmo falar comigo.”, dava-se conta a cada minuto de indiferença. Sentou-se perto dele, uniu as mãos sobre os joelhos e começou, calmamente:
— Desculpe-me, Camus, estou aqui tagarelando e nem me apresentei. Meu nome é Saori Kido, sou psicóloga e trabalho na Polícia Federal de Red Meadow...
Os olhos castanho avermelhados deixaram o teto...
— ... na mesma equipe em que Milo trabalha. Sim, somos colegas de trabalho. Bom, eu diria amigos, mas ele não foi um cara tão legal comigo, então, fica difícil eu chamar de “amigo”...
... e buscaram o rosto da nissei. Saori resolveu testá-lo:
—Milo também está aqui, neste hospital. Ele passou por três cirurgias...
Desta vez, o ruivo entreabriu a boca e a policial jurou ouvir uma baixa inspiração. Satisfeita com aquela reação, prosseguiu:
— … mas não se preocupe, ele está fora de perigo. – Percebeu uma sombra de angústia no olhar do rapaz, agora preso nela. – As operações foram muito bem sucedidas, e ele vai se recuperar logo logo.
Camus continuou a observar Saori sem proferir um “a”.
— Você está preocupado com o Milo?
Ele permaneceu imóvel. Mudo.
— Você... tem raiva por ele ter te tirado do Vale?
O olhar insistente principiou a baixar. A franja cobriu-o, por fim.
“Uma fuga?”, questionou Saori, para si mesma.
— Você gostaria de vê-lo?
Em um gesto brusco, o “Redentor” virou-se para a parede, encerrando de vez o colóquio não-verbal com a nissei. Que, a despeito do que pudesse sugerir a um leigo, para ela teve considerável significação.
— Certo. “Conversamos” em uma outra hora. Quando o café da manhã chegar, eu te aviso. Se você não estiver dormindo, claro. – Ela finalizou, em tom amigável.
Com o nariz quase encostado na parede gelada, Camus nada respondeu. Não tinha sono algum. Não tinha fome. Tampouco pensamentos organizados em sua mente.
Havia apenas a imagem de Milo.
Queria-o ali.
Queria-o junto de si.
Mas... aquela pergunta.
Deveria odiá-lo?
Milo mentira para ele.
Milo roubara-o de sua terra.
Mas Milo tambèm o salvara da dor.
Mas Milo também o levara do céu.
Apertou os olhos com força. E... e quanto a SI?
Onde estava?
Quem era?
"Você NÃO é o Messias, Camus."
Quem era ele?
QUEM?
E QUEM ERA MILO?
*************
—PAAAI!!!
— Meu campeão!!! Ah, meu Deus! Não posso acreditar!!!
Hyoga entrou correndo pelo quarto, indo ao encontro do pai, que estava sentado no sofá, de pijama branco, lendo o jornal de domingo. Saltou sobre ele; o policial sufocou um gemido de dor com todas as forças.
— Hyoga, não pula em cima do seu pai, ele tá operado! – Bronqueou a mãe, adentrando em seguida, muito elegante em seu sobretudo Yves-Saint Laurent.
Em sua infalível lógica infantil, o menino tentou justificar-se:
— Mas ele nem tava na cama, achei que tava bom já!
— Ficar o tempo todo na cama cansa... mas... ah, me deixa olhar pra você, meu filho... – Milo tomou o rostinho de Hyoga entre suas grandes mãos. – Não te vejo há uns seis meses. Nem sei como aguentei. Nunca mais quero ficar tanto tempo sem te ver...
— Hunf. Só se MUDAR DE EMPREGO, né? – Ironizou a russa, braços displicentemente cruzados.
— Eu também fiquei com saudade de você, pai. Mas fiquei com raiva também. Achei que você não queria me ver...
— Eu NUNCA iria deixar de querer ver você, Hyoga – Retrucou Milo, com amargura na voz.
O menino tornou, vivaz:
— Pois é, o Shura dizia isso, sabe?
Milo não pôde deixar de ficar surpreso:
— O Shura, é? Quer dizer que o Shura defendia este seu pai aqui?
— É! Ele dizia que você, por ser policial, tinha missões importantes, que podiam te fazer ir pra longe, ficar sem poder se comunicar, às vezes até pra me proteger.
Ele levantou o olhar para Natassia, que procurava por algo na bolsa Louis Vitton.
— Realmente, o Shura é MESMO um cara legal. Mais do que eu imaginei. – Admitiu.
— Oh, e mais do que você jamais poderia sonhar em ser. Por isso, lhe é tão surpreendente. – Pôs um cigarro na boca.
— Natassia, você VAI FUMAR NUM HOSPITAL?
Neste exato momento, Aiolia entrou no quarto.
— Ah, vocês chegaram! E aí, foi tudo bem de... espera aí, Natassia, você VAI FUMAR AQUI?
— É o que parece, não?
— Estamos num HOSPITAL!
— E daí? Esse aí fumava maços e maços de cigarro perto de mim, quando Hyoga estava na minha barriga.
— Só quero evitar constrangimentos para você mesma. – Alegou o ex-marido, erguendo as mãos.
— Sabem vou lá na cafeteria trazer uns brownies e uns cafés pra gente. O brownie daqui é muito bom! Já volto! – Foi a deixa para Aiolia se livrar daquele desagradável ambiente.
Hyoga puxou a mão de Natassia.
— Mãe, não pode fumar no hospital, olha ali a placa!
— Certo, certo, eu sei, a mamãe só tava brincando, meu amor...
“Eu tenho cá minhas dúvidas”, pensou Milo. Juntou os jornais e foi sentar-se na cama, após oferecer o sofá para as visitas. Tentou entabular conversa:
— E então, como foi o voo?
—Teve uma hora que balançou bastante, pai, mas eu não tive medo. Uma senhora gorda teve um ataque de choro. Eu fiquei com vontade de rir, mas me segurei.
— Fez muito bem, filho, não devemos rir das fraquezas dos outros...
Natassia soltou uma risadinha.
— Queria que o Milo de uns anos atrás se ouvisse dizendo isso. – Disse, divertida.
— As pessoas amadurecem.
— Pois é. Quem diria que TODAS?
O policial preferiu ignorar-lhe o sarcasmo e concentrar-se no filho:
— E como tá na escola? Já acabaram as férias, não?
— Ih, só dá o Anticristo!
— O Anticristo?
—É! O pessoal só fica falando nele!
Milo engoliu em seco.
— Hyoga, que Anticristo...?
— O Anticristo, pai! O cara ruivo que dizia que era Jesus! Ele também tá neste hospital, né? A mamãe disse que tá.
Aterrado, Milo olhou para Natassia. Ela apenas deu de ombros. O garotinho continuou, empolgado:
— Chamam ele de “falso profeta”, de “Anticristo”... dizem que era um prostituto, também... que vendia o corpo para a obra do Satã...
Completamente horrorizado, Milo ergueu-se da cama. Sem dar-se conta de que gritava, interpelou a ex-esposa:
— Por acaso está deixando nosso filho encher a cabeça com programas de TV desse nível?
— Ei, NÃO grita comigo! Não ouviu o menino? Não ouviu isso em programa algum; foi na ESCOLA! Isso tá sendo falado em TODO LUGAR!
— MAS NÃO É NADA DISSO! CAMUS... CAMUS ERA UMA VÍTIMA!!!
Assustados com o grito do agente, mãe e filho calaram-se. Milo repetiu, a voz embargada, hesitante:
— Está tudo errado... a verdade ainda não foi... não foi totalmente...
— Mas ele não dizia que era o “novo” Filho de Deus, pai? Todos dizem que isso é pecado, como é o nome, mãe?
— BLASFÊMIA – Teve particular prazer em frisar a palavra.
— Filho, o rapaz foi forçado desde criança pelo próprio pai a fazer tudo o que fez.
— Pelo próprio pai?!?
—Sim, tudo está sendo esclarecido aos poucos. Camus não era um “prostituto”, não repita mais isso, e diga aos seus coleguinhas que ele sofreu muito, muito mesmo... desde que... desde que tinha a idade de vocês... tudo porque o pai dele queria poder... e dinheiro... ele não teve culpa de nada...
Milo chorava.
Sequer dera-se conta.
— Não chora, pai – O loirinho apressou-se em enxugar as lágrimas do pai, que muito impactaram Natassia. – Pode deixar, eu vou falar pra todo mundo que o Camus não é culpado. Que ele é apenas uma vítima. Que não devemos falar coisas ruins dele.
— Isso, filho... vai me fazer feliz se fizer isso. Desculpa, deve ser a medicação. Tô meio frouxo, hehehe. Sensível.
— Pai. Eu posso ver o “Redentor”?
— Chama ele de Camus, filho... e por que quer vê-lo?
— É que... sabe... agora que você disse isso, fiquei com pena dele.
— Só que ninguém pode visitar ele. Não ainda...
— Então você diz a ele que vou torcer pra ele ficar bem?
Mais lágrimas rolaram pelo rosto de Milo, agora porque sorria.
— Pode deixar, filho. Você é um menino tão bom!
— De fato – Natassia assentiu. – A quem será que ele puxou?
Da porta entreaberta, uma enfermeira anunciou:
— Com licença, o senhor Hatzis tem outra visita.
— Outra visita...?
Hyoga não pôde deixar de exclamar, ao ver o recém-chegado, que precisou abaixar-se para passar pela porta:
— UAU, QUE CARA GRANDÃO!!!
— DEBAS!
— MILO! FINALMENTE ME DEIXARAM ENTRAR, HAHAHAHAHAHA!
— Jesus, e esse aí, quem é?!? – Com uma careta, Natassia afastou-se.
— PELO AMOR DE DEUS, CUIDADO COM ESSE ABRAÇO!!! – Gritou Milo, entre risos.
— Tá mais fracote do que nunca, né? Olha pra você, parece uma múmia!
Hyoga caiu na gargalhada. Aldebaran percebeu sua presença. Sorriu amistoso para ele:
— Mas, ei!, este rapazinho aqui, não, é bem diferente de você, olha como é fortão! E tem cara de esperto! Não deve ser seu filho!
— Sou sim – Respondeu o garotinho, rindo. – Quem é você?
— Eu? Meu nome é Antônio, mas pode me chamar de Debas. É o apelido bobo que o bobo do seu pai me deu.
— Você é engraçado, Debas!
— Você acha engraçado alguém que chama seu pai de bobo? – Milo fez drama.
— De bobo e de fracote! – O menino ria a não poder mais.
— Além de esperto, tem boa memória. Toca aqui, campeão – Aldebaran trocou cumprimentos com Hyoga, que o adorou instantaneamente. Ao contrário de Natassia, que considerou a figura do brasileiro um tanto... bruta demais.
— Oh, então essa é a sua senhora.
— EX-senhora. – Frisou ela, com frio desdém. – E o senhor, de onde é?
— Conheci Milo na Comunidade em que ele se infiltrou para investigar...
— Oh sim, então é um dos fanáticos da seita de malucos também.
— NATASSIA!!
Aldebaran balançou a cabeça para o amigo, em um mudo pedido para que não se exaltasse por ele. Pacientemente, volveu, considerando a mulher à sua frente com todo o respeito:
— Eu ERA. Milo me abriu os olhos enquanto esteve lá. Me fez perceber o quanto tudo aquilo era errado...
Mas o policial não quis se conter:
— Não quero que se dirija às pessoas assim. Elas eram ENGANADAS. Como o próprio “Redentor” foi.
— Está tudo bem, Milo, ela não me ofendeu. E... esse é o tipo de coisa que “nós” vamos ouvir bastante, “aqui fora”...
Revirando os olhos, a russa disparou:
— Bem, agora que você tem uma visita mais importante, Milo, Hyoga e eu podemos ir...
Aldebaran adiantou-se, constrangido:
—Não, não! Que isso, eu posso voltar em uma outra hora, imagine!
— Eu NÃO QUERO que o Debas vá embora, eu gostei dele! – Hyoga já se pendurava no braço do grandalhão.
Aiolia chegou bem no meio da confusão, repleto de bolsas.
— Mas o que é que tá aconte... – Olhou o ex-pastor de alto a baixo, ou melhor, de baixo a cima, demoradamente. – er... quem é você aí EM CIMA?
— Olia, esse é o Aldebaran! O Debas!!!
— Aaaah, o teu braço direito no Vale? Puxa, cara, estávamos todos doidos pra te conhecer! Por que demorou tanto pra aparecer?
—Tive de esperar o dia de visita para poder entrar…
— Vamos mexer nisso, pode deixar! Você é peça-chave no processo!
— Isso quer dizer que ele não vai mais sair daqui? – Indagou Natassia, sem se importar com as expressões estupefatas ante sua grosseria.
— Agora não – Volveu Aiolia, vitorioso. – Principalmente porque eu trouxe lanches para todos!
— Obaaaa! Debas, vem, come com a gente!
— Não faz isso, Hyoga, esse aí vai comer até as sacolas – Milo brincou.
— Só porque você me convidou, pequenino...
Natassia suspirou e não viu remédio senão aceitar aceitar a presença daquele homem “desagradável” ali... fora o pateta do primo do Milo. Se ainda fosse Aiolos... bem mais sério e centrado. Bom, mas nem tudo era perfeito: Aiolos, sendo homossexual, consistia igualmente em um ser “defeituoso” para ela...
Mas que mundo decadente, pensava. Ao menos encontrara um homem decente, honrado, à sua altura: Shura.
Sim, não via a hora de casar-se e ir logo para a Espanha, viver no Velho Mundo, numa terra de tradições. De história, com gente de posses e de bom gosto. Enquanto pensava assim, deixou o olhar vagar... até que este pousasse no sorriso luminoso de Milo.
Há quantos anos não o via sorrindo daquele jeito!
Reparou como seus cabelos loiros estavam compridos, compridos como jamais estiveram, e brilhantes como o sol que ele tanto amava... sob o qual tanto se amaram...
Voltou-se irritada. Sob olhares de todos, pegou sua bolsa e anunciou:
— Vou lá embaixo fumar. Já volto.
Andou a passos pesados pelo corredor. Algo queimava em seus olhos azuis.
Shura era tão bom.
Tão digno.
Tão perfeito.
Tão... CASÁVEL.
Então por que...?
Apertou os próprios lábios lembrando do sorriso de Milo.
Seu coração batia tão forte.
Oh, precisava de um cigarro...
Entrou no elevador.
Ao chegar ao térreo, viu uma figura conhecida.
“Saori!”
Parecia vir da cafeteria. Trazia algumas bolsas e revistas. Saga havia lhe dito que a psicóloga estava como acompanhante do misterioso Redentor. Natassia não soube a razão, mas a curiosidade de ver o rapaz mordeu-a. O rapaz resgatado pelo ex-marido. Por quem o ex-marido chegara a CHORAR, minutos antes... Cobriu-se com o capuz do sobretudo e pôs os óculos escuros para não ser reconhecida pela “rival”. Seguiu-a à média distância. Saori entrou no prédio e apertou o botão de um dos elevadores, chamando-o. Detrás de algumas pessoas que ali pararam depois, parou a russa. Quando o elevador chegou, misturou-se aos passageiros e desceu no quarto andar, onde ficara a nissei. Não a seguiu de imediato; olhou de longe. Viu a porta ser encostada. Havia alguns seguranças. Mais essa, agora...
— Senhora? Queira identificar-se, por gentileza.
Bem, que jeito?
— Sou uma amiga de Saga. Vim falar com a doutora Saori Kido. Meu nome é Natassia Hatzis, sou ESPOSA de Milo Hatzis...
Os policiais se olharam. A porta se abriu.
— Natassia?!? Que faz AQUI?
— Como vai, Saori?
— Não respondeu à minha pergunta!
— Eu gostaria de ver o Redentor.
— Ele NÃO recebe visitas. Vá embora, por favor.
— Oh, por favor. Tenho tanta vontade em conhecê-lo... afinal, O PAI DE MEU FILHO arriscou a vida para salvá-lo...
Ao ouvir aquilo, Camus, que mantinha-se imóvel na cama, dela saltou, e lançou-se para a porta. Saori não conseguiu impedi-lo, pois que, com seu próprio corpo, impedia a passagem de Natassia.
— CAMUS, NÃO! Por favor, volte para a cama... seguranças! Tirem essa mulher daqui!
— Mas acabei de dizer que sou MULHER de Milo, por que não posso falar com ele? Não se atrevam a encostar em mim...
Camus surgiu por trás de Saori.
— Ora, é você... – Falou a russa, mirando o jovem. – O Falso Messias! É ainda mais assustador ao vivo do que pelas fotos...
— Senhora, por favor, retire-se. – Insistiram os policiais, sendo ignorados pela loira.
— Onde está Milo?
Saori, o médico, os enfermeiros, todos espantaram-se em ouvir o jovem proferir, enfim, alguma coisa. A primeira sentença inteira desde que ele chegara ao hospital!
— Ah, você quer saber onde está Milo? – Natassia respondeu, cruelmente. – Ele está dois andares acima de nós, BEM MACHUCADO POR SUA CAUSA. Passou por VÁRIAS cirurgias e corre RISCO DE MORTE, sabia?
— O... quê...?
— Isso é MENTIRA, Camus, NÃO DÊ ouvidos a ela!
Estimulada pela expressão aterrada no rosto do jovem ruivo, a mulher continuou:
— Meu filho vai ficar SEM PAI e EU vou ficar SEM MARIDO porque ele foi resgatar um doido varrido, no meio do nada, que dizia ser Jesus Cristo...
Finalmente, Saori avançou sobre a loira, empurrando-a com violência. Os policiais contiveram Natassia, que pôs-se a gritar, furiosa.
— ME SOLTEM! NÃO TOQUEM EM MIM! SAORI, SUA VADIA, VOCÊ ME PAGA!
— Levem essa louca daqui. AGORA.
Saori trancou a porta, mas era tarde demais: Camus já estava em meio a uma crise. Hiperventilava ajoelhado no chão, batia no próprio rosto, arranhava-se todo. Em vão, a moça tentava impedi-lo:
— Camus! Não! Pare!!! Pare! É MENTIRA dela! Milo está bem! Acalme-se, por favor!
Ele se desvencilhava dela, arrancava os próprios cabelos. Grunhia como um animal.
— Enfermeiros, ele precisa ser sedado! – Ordenou o médico.
— Espere, deixe eu conversar com ele, deixe eu tentar – Suplicou a nissei.
Os enfermeiros hesitaram. O médico assentiu.
Saori abraçou o rapaz, dizendo:
— Camus, me escuta: Milo ainda não veio te ver porque passou por umas cirurgias sim, mas está se recuperando muito bem. Ele NÃO vai morrer. O que aquela mulher disse é mentira. E ela NEM É MAIS esposa dele! Ele logo virá vê-lo...
Tomado por um desespero feroz, Camus debateu-se, fazendo Saori precipitar-se ao chão. Correu para a porta, alucinado, no afã de sair dali. Não houve mais como deter os enfermeiros: nada menos que quarto seguraram-no, e um quinto aplicou-lhe uma enorme injeção no braço. Quase que imediatamente, o ruivo perdeu os sentidos. Carregaram-no para o leito.
— Desta vez, imobilizem-no. – Ordenou o doutor, ajeitando o cabelo desgrenhado pela ação.
Camus, já adormecido, teve os pulsos e os tornozelos firmemente restritos por correias hospitalares. Saori aprumou-se, entristecida por não ter podido impedir que as coisas chegassem àquele ponto. Levou as mãos à fronte, respirando pesadamente. Somente a decisão de não deixar mais Camus sozinho nem por um instante sequer – maldita hora em que descera! – a impedia de ir atrás de Natassia e dar-lhe o que merecia. Pegou o celular para comunicar a Saga. Largou-o em seguida.
“Não é justo. Milo não vê o filho há seis meses. Isso vai estragar o momento. E depois de tudo por que passou!...”
Suspirou com pesar. Mirou Camus com imensa piedade, mas sobretudo, com imensa ternura.
Camus não se comunicava.
Não dava mostras de pertencer ao mundo.
Mostrava-se alheio a tudo e a todos, preso a uma realidade construída por seu pai.
Mas... HAVIA ALGO ALI.
Aquilo poderia ser o caminho.
Nem tudo estaria perdido para aquela existência.
— Milo é IMPORTANTE para você, não? É a ÚNICA coisa importante para você, agora. Isso me dá esperança... mas... também me dá receio.
Acariciou-lhe o suave contorno do belo rosto, concluindo em um murmúrio:
— De qualquer forma, é melhor que o vazio de uma vida em branco.
*************
—... fiquei muito triste por Chrysaor. Ele parecia um cara bom. – Lamentou Aldebaran. – Soube de que, dos Vigias, apenas Capella sobreviveu à tentativa de suicídio cerimonial, quando da invasão do Vale. Mas, é capaz de na prisão ele dar cabo de seu intento...
— Foram muitos, os sacrificados... quanto a Albior, soube que está no hospital Central do Maine. O estado dele é delicado.
— Tenho certeza de que vai sobreviver. June está cuidando muito bem dele. Estive lá ontem; ela disse que, assim que puder, virá até aqui.
— Acha mesmo que vai sobreviver, Debas? Seja sincero.
— Com sequelas. Além de perder um olho, perdeu o movimento das pernas...
— Oh, Cristo...
— Sim. O coitado ficou paraplégico...
— Oh, Cristo – Milo refletiu, indo às lágrimas mais uma vez naquele dia.
— Mas, sabe – O brasileiro olhou para Hyoga, que os observava consternado. – A gente podia continuar essa conversa outra hora, né não? Não é legal seu filho vir de tão longe e ver o pai assim... vou ser obrigado a ir comprar uns cachorros-quentes para animar as coisas...
— CACHORRO-QUENTE, OBA!!!
— HYOGA, NÃO – Natassia adentrava impetuosamente o recinto. – Você já comeu PORCARIA demais por hoje.
— Minha ex-esposa, sempre tão delicada com as palavras... não repare, Debas.
— Tudo bem, Milo.
— Caramba, olha só pra você... – Aiolia não deixou de reparar os cabelos desgrenhados, a roupa amassada e as faces afogueadas da russa. – fumar tá te fazendo mal mesmo, hein? Melhor parar...
— VÁ PRO INFERNO!!! – Ela agarrou o filho pelo pulso. – Vamos, você já viu seu pai. Agora podemos sair deste buraco. Adeus, Milo.
— Mas jáááá...?
—Vai, filhão, em alguns dias estarei de volta em casa. Vamos pegar uma praia, tá bom?
— Obaaa! O Debas pode ir também?
O ex pastor soltou uma gostosa gargalhada. Abaixou-se para se despedir do menino:
— Eu vou voltar para a minha terra, Hyoga. Tão logo termine de dar meu depoimento, vou voltar para o Brasil.
— Um imigrante a menos – Sussurrou Natassia, certa de que se fizera ouvir. Contudo, a surpresa da notícia fez com que Milo a ignorasse.
— E quando é que você ia me contar, Debas?
— Logo.
— Mas o Brasil é tão longe... eu nunca mais vou te ver – choramingou o filho do amigo.
— Claro que vai! Um dia, você e o Milo vão me visitar. Onde minha família mora é um lugar muito bonito, com muito verde, árvore carregadinhas de frutas deliciosas, cachoeiras, montanhas, você vai adorar.
— Claro que vai – Natassia ironizou. Desta vez recebeu um olhar fuzilante do ex-marido.
— Legal! Eu quero ir! Vamos, pai! Vamos!
— Claro que vamos, filho. Debas... eu fico feliz que você tenha uma família para voltar...
— Eu também. E isso é graças a você, amigo.
— Debas, me adiciona no Instagram! – Pediu Hyoga.
O homenzarrão ficou sem entender:
— Quê?
Milo riu até se curvar.
— Deixa que eu ensino isso a ele antes de ele partir, filhão.
— O quê? Ele não sabe usar o Instagram? E o Twitter? O Facebook?
Aldebaran olhou para Milo, confuso. O policial deu de ombros, divertido.
— Bem vindo ao “mundo real”, meu amigo!
*************
Natassia e Hyoga partiram. Aldebaran também, combinando de voltar no dia seguinte para conversar com Saga e Dohko, juntamente com Milo. Sentindo-se disposto, Milo viu a oportunidade de, enfim, fazer o que queria fazer desde que chegara ao hospital.
Ver como estava Camus.
Todos lhe garantiram que o rapaz estava bem. Sem ferimentos, apenas, sob observação devido ao seu delicado estado psicológico. Comunicou-o a Aiolia.
— Tem certeza? Não prefere deixar para a amanhã? Já são mais de oito da noite...
— Só queria ver como ele está.
— Pode ser até que esteja dormindo.
— Eu sei, mas... – Sentia-se um tolo por insistir, mas... o que fazer?
Simplesmente PRECISAVA ver Camus.
— Tá bom, vamos lá. – Aiolia trouxe a cadeira de rodas.
— Que é? Tá de sacanagem? Eu NÃO preciso disso!
— Se não sentar nesta porra, não vai.
— Tsc. Que ridículo.
— Sim, você é – Riu Aiolia. E foi empurrando o primo, que resmungava sem parar.
Ao chegarem às imediações do quarto 426, os policiais de guarda os cumprimentaram. Puderam ouvir as vozes de Saga e de Aiolos.
— O que o Saga ainda tá fazendo aqui? – Murmurou Milo.
— Ele vai reclamar de te ver aqui, pode ter certeza.
— Vai sim. Mas que merda...
Ouviram uma terceira voz. A do médico, com certeza.
— Acho que não viemos em boa hora. Milo, vamos voltar...
— Porra nenhuma. Policial, abra para nós, por favor.
Assim foi feito.
A cena era bastante singular: Saga, Saori e dois médicos pareciam envolvidos em uma acalorada discussão. Que cessou de imediato ante a chegada de Milo e de Aiolia.
— O que tá havendo aqui? – Demandou Milo, desconfiado.
— Sou EU quem deve perguntar: O QUE faz aqui, Milo? – Retorquiu Saga, sem qualquer gentileza. – Deveria estar em seu quarto, se recuperando da TERCEIRA cirurgia.
Milo lançou um olhar perscrutador ao redor.
— Cadê ele?
—Ora, onde poderia estar? Na cama.
— Mas eu não... – Não, de sua cadeira de rodas não poderia ver. Só distinguiu-lhes os pés, restritos pelos tornozelos por algo largo e escuro.
— POR DEUS!
Levantou-se da cadeira, ignorando os protestos de Aiolia. O agente chegou perto do leito alto e constatou, terrificado, que Camus estava PRESO à cama por correias e mais correias de couro.
— Que DIABOS É ISTO? – Gritou, fora de si. – Foi para ISTO que tirei esse homem do cativeiro? Pra vocês prenderem ele como um ANIMAL?!?
— Milo, acalme-se... – Saori pediu, aproximando-se com cautela.
— Aliás, nem um ANIMAL deve ficar preso assim! SOLTEM ELE, JÁ!!!
— Senhor Hatzis, pode parecer chocante, mas a medida foi tomada em função da segurança do próprio paciente. Veja como ele está machucado. Veja!
O indignado agente reparou-lhe nas arranhaduras do rosto, do pescoço, as mordeduras nos lábios, os hematomas nos braços.
— ELE fez isso em SI MESMO, durante uma crise. – Completou o outro médico, mais brando do que o primeiro que falara a Milo.
— Este homem viveu cativo a vida INTEIRA, ele NÃO merece esse tipo de tratamento, NUNCA MAIS, NÃO IMPORTA O QUE FAÇA! – Insistiu o policial, furioso.
O médico mais velho atirou:
— Bem, senhor Hatzis, mostre-nos seu registro no Conselho de Medicina, e talvez possamos conversar...
— Vou fazer melhor, vou te mostrar ISTO… – O loiro brandiu o punho ameaçadoramente.
Aiolia interpôs-se entre o primo e o doutor.
— Milo, para! Você vai acabar sendo preso!
— Que piada... – Virou-se para o promotor chefe. – Saga, mande eles SOLTAREM o Camus... POR FAVOR...
— Milo...
— Estou te IMPLORANDO, cara, em nome da nossa amizade... – Suplicou, com voz embargada.
— Milo.
Desta vez, não foi a voz de Saga que Milo ouviu. Virou-se para o lado e deu com as íris escarlates por entre as pálpebras semicerradas.
— CAMUS!
— Milo... você está...?
— Desculpe não ter vindo antes, eu fui operado. Três vezes. Tô todo esburacado, amigo. – Riu o loiro, postando-se sobre o jovem ruivo.
— Achei que você estivesse morrendo.
— EU? Por que estaria morrendo? Só porque demorei um pouco a dar as caras? Não seja dramático.
A equipe médica entreolhava-se, espantada.
— Ele está CONVERSANDO! – Comentou um enfermeiro. – Nunca o ouvi...
— Não apenas você. – Disse o médico mais velho. – Desde que chegou aqui, não “vi” esse rapaz completar uma sentença sequer!
— Nem eu – Admitiu o médico mais novo.
Saga e Saori também se encararam, já cientes da verdade. Do que acontecia ALI.
O promotor chefe virou-se para os médicos e, respeitosamente, pediu:
— Por favor, peçam aos enfermeiros que removam as restrições. Eu assumo a responsabilidade. Isso será importante para o processo.
Coçando o queixo, o médico mais velho trocou um olhar com o mais novo. Obtendo deste um gesto afirmativo com a cabeça, respondeu:
— Bom… se o senhor assume a responsabilidade... mas, ao primeiro sinal de descontrole, ele terá de ser contido. Ameaça a si mesmo e aos outros. Ele derrubou uma de nossas enfermeiras. E sua assistente também...
— NÃO sou assistente dele. – Saori corrigiu-o, braços cruzados e um olhar que fê-lo desculpar-se.
— Eu compreendo. – Assentiu Saga. – Ratifico meu compromisso.
Removeram as amarras do jovem, que permaneceu imóvel na cama. Milo sentou-se no colchão e tomou-lhe as mãos entre as suas.
— Por que você fez isso? Olha só pra você. Se agir como um doido num hospital, vão te tratar como doido, porra. Seu doido.
— E-eu fiquei com medo de que pudesse causar sua morte... de que seu filho ficasse sem pai...
— QUÊ? Que papo é esse?
Camus encarou longamente o loiro. Preferiu não contar o ocorrido.
Estava feliz demais por tê-lo ali.
Feliz?
Deveria estar feliz?
Depois de tudo que acontecera?
Deveria odiá-lo? Deveria temê-lo? Deveria ter-lhe ressentimentos?
Eis que...
Pouco a pouco... tudo evaporava... ante a presença de Milo.
Deveria estar feliz? Que lhe importava a resposta agora?
ESTAVA feliz...
Tudo evaporara.
— Que foi? – Milo indagou, intrigado com o olhar insistente. Um calor ondulou-se no interior. Tinha real vontade de abraçar o rapaz. Mas... com todos aqueles olhares sobre os dois... ora...
A pureza de Camus, por outro lado, fazia-o menos sensível a julgamentos: aconchegou-se a Milo e permitiu-se aninhar-se no peito do agente. O loiro ajeitou-se para deixá-lo confortável... e foi com assombrosa surpresa que constataram que o ruivo adormecera em segundos.
*************
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