Redentor

35 Éden - Ato VII : Um Pequeno Milagre


Notas iniciais
Oieeeee Hoje, dia 23 de outubro de 2020, a fic "Redentor" completa 3 anos de existência! E como aniversário pede comemoração, eis uma atualização (rimou...) Quero agradecer pelo apoio que vêm me dando durante todo este tempo, seja acompanhando a fic, seja comentando aqui, por mensagens privadas no grupo do Facebook ou no grupo do WhatsApp, é maravilhoso poder contar com vocês! Quero mandar um agradecimento especial à Nathália Tavares, a mensagem dela deu um gás extra na produção do capítulo ♥ Sem mais delongas... boa leitura!!!

— Saga! Que bom que veio, cara – Cumprimentou Milo, ao abrir a porta de seu apartamento.

— Vim até um pouco mais cedo, espero que não se importe. Como cheguei antes do meu horário ao trabalho, dei uma adiantada lá nos serviços.

— Me importar o quê, dá cá um abraço!

— Não nos vemos desde a sua volta pra cá. – Ergueu um fardo de cervejas. – Trouxe um presente.

— Não precisava, pô, nesta casa tem mais cerveja que água – Riu Milo, conduzindo o promotor de Red Meadow até a sala de estar. – Mas presentes são sempre bem-vindos.

Saga sentou-se no sofá. Comentou sorridente:

— E não é que você recuperou um pouco de peso? Deve estar aproveitando esta licença pra encher a cara todo dia, hein?

— Nem... lembre-se de que eu tenho um hóspede por quem zelar.

— Por falar nisso... cadê ele?

Abrindo uma das cervejas, Milo respondeu, já sob um leve nervosismo pelo que teria de enfrentar:

— Tá tomando banho.

— Saori e Aiolia me disseram que ele tá reagindo bem à nova... realidade – Saga também abriu uma garrafinha.

— Tá sim. A terapia tem ajudado. Saori é a melhor no que faz.

— E você? Plenamente recuperado também? Não falo do peso, agora.

Milo assentiu.

— “Plenamente” não digo, Saga. Depois do que vi naquele lugar... acho que nunca vou ficar “plenamente recuperado”. Mas, se você se refere à parte física, tô de boa sim.

— Eu imagino. Foi um grande pesadelo, uma mancha na história recente deste país. Tem rendido bastante, todo dia repórteres na porta do prédio da polícia. Por acaso não têm rondado por aqui não?

— Não que tenhamos notado. – Milo não disfarçou seu desconforto ao considerar aquilo. – Se têm, estão bem camuflados.

— Bem, tem um segredinho... mando um pessoal fazer rondas pelas imediações e à frente do seu prédio. Só pra evitar aborrecimentos.

Boquiaberto, o outro tornou:

— Eu não sabia disso! Por que Olia não me contou?

— Ora... o que te faz pensar que ele sabe? Nem Saori sabe.

Aquela revelação, embora transmitisse segurança a Milo por um lado, por outro causou-lhe certo incômodo. Bem, não é como se ele e Camus saíssem de mãos dadas ou trocassem beijos e carícias em frente ao condomínio ou pelos arredores, mas, mesmo assim...

Ora, qual motivo daquela súbita preocupação?

Não estava ele prestes a abrir o jogo sobre seu relacionamento ao seu amigo e chefe? Relutara bastante, mas fora enfim convencido por Aiolia e Saori a deixar Saga a parte de tudo.

Lembrava da conversa que tivera com ambos, naquela mesma sala, três noites atrás...

— Contar pro Saga sobre eu e Camus???

— Por acaso você pretende esconder o que tá rolando dele, Milo? – Quis saber Aiolia, surpreso com a surpresa do primo.

— Não! É claro que não... eu não tenho intenção de me “trancar no armário” pra sempre. Mas acho que isso pode esperar... – Olhou para Saori, como a buscar apoio.

Entretanto, a psicóloga não discordava de Aiolia:

— Saga é o cabeça de toda operação, Milo. Antes do julgamento, acho justo e sensato que ele esteja a par do seu relacionamento com Camus. Isso possivelmente vai demandar certas precauções antes e durante o processo.

— Eu não sei... tava meio inseguro em contar ao Saga por ora...

— Ué, por quê? Saga está CASADO com o meu IRMÃO, não acho que ele vai bancar o homofóbico babaca... como ALGUÉM aqui nesta sala era, há uns meses.

— Tá, vamos pular as indiretas DIRETAS? Eu era mesmo, mas por ignorância...

— Admite que por babaquice.

— OK, OK, eu era um babaca...

Saori e Aiolia se entreolharam, ambos com sorrisinhos zombeteiros nos lábios.

— Era sim. – Confirmou a moça.

— Tanto condenou os gays que agora tá aí... nunca diga “dessa água não beberei”. Agora, tu vai beber é...

— OLIA!! – Cortou-o um enrubescido Milo, trocando um olhar desconfortável com Camus, que a tudo ouvia, do canto do sofá, com cara de quem estava completamente por fora do que falavam...

— Vai ter que tomar coragem e se abrir com o Saga, Milo. Eu não vou mentir, ainda que ele se relacione com um homem, eu espero uma reação um tanto quanto... intimidante. Você, o agente infiltrado na comunidade Vale da Aurora Dourada, envolvido com ninguém mais ninguém menos que o homem que era considerado o Messias de lá.

Tenso, Milo apertava as mãos sobrepostas nos joelhos que não paravam de balançar para cima e para baixo.

— É exatamente isso que eu imagino, Sao.

— Mesmo assim, não pode deixar Saga no escuro sobre isso. Ele está à frente de tudo, tem o direito de saber. E você, o dever de partilhar esse pormenor.

— Saga pode até ficar surpreso no início, mas sei que ele vai te apoiar e te orientar sobre o que fazer – Aiolia ajuntou, dando tapinhas no ombro do primo.

“Me apoiar, hein?”, pensava Milo, agora com Saga diante de si, todo sorrisos e companheiro de cervejinha num início de noite.

— Saga, eu queria te falar uma coisa logo, antes, que Camus chegue aqui na sala... não quero que ele presencie a sua reação... caso ela seja do jeito que eu tô esperando. Do jeito que Olia e Sao esperam que seja. – Procurou ser direto, mesmo com todas aquelas preparações.

Estreitando os olhos curioso, Saga demandou:

— Ora, pois fale. Sou todo ouvidos.

Após um profundo inspirar e expirar, Milo disparou:

— Eu tô apaixonado pelo Camus e estamos nos relacionando tem uns dias.

Achou que o promotor fosse deixar o queixo ou a garrafa de cerveja ir ao chão.

— Como é que é, Milo??? – Exclamou Saga, franzindo exageradamente o cenho.

— Não grita.

— Eu deveria GRITAR, te dar umas BORDOADAS e TE ATIRAR AQUI DE CIMA, isso sim!

Tomando fôlego, Saga pôs-se de pé.

— Eu NÃO posso acreditar, Milo! Não vou te dizer “não esperava” que você se apaixonasse pelo cara, mas acreditava no seu JUÍZO!

Foi a vez de um atordoado Milo se colocar de pé, frente a frente com o exasperado chefe.

— P-peraí, que papo é esse de “não vou dizer que não esperava” que eu...?!?

— Pensa que não notei antes? Principalmente no hospital? Só que achei que era sua mente impressionada por tudo que viveu com ele naquela seita. Não achei que você fosse permitir que uma “cisma” seguisse adiante.

— Uma “cisma”? – Indignou-se Milo. – Eu AMO Camus!

— Porra, Milo, não é possível... – Sacudiu a cabeça, entre estupefação e incredulidade. – Realmente acreditei que você fosse mais sensato que isso. Mas espera... quando é que você foi SENSATO, não é verdade?

— Oh, não sou? Então por que você escolheu A MIM como agente infiltrado naquele inferno na Terra?

— Justamente por seu caráter audacioso, intrépido. Não podia colocar alguém sensível ou hesitante lá.

— Certo, agora, pra seguir minha vida do jeito que QUERO, esse meu “caráter audacioso e intrépido” não é nada bem-vindo, né? – Balançou a cabeça.

— Meu Deus, Milo – O promotor caminhou nervosamente pela sala.

— Qualé da polêmica, Saga? Você e o Aiolos...

— NÃO É DISSO que se trata, Milo...

— Então DO QUE é que se trata, Saga? Ilumine este “insensato” aqui!

— Com prazer – Vociferou Saga, postando-se diante dele. – Será possível que você, nem POR UM minuto pensou no...

Calou-se e ambos paralisaram ante a chegada do ex-Redentor à entrada da sala de estar. Trazia os cabelos molhados, recém-lavados, calça de moletom verde escura, camiseta branca e casaco de moletom preto. Olhou os dois homens que discutiam ruidosamente no recinto principal da casa.

— Camus – Murmurou Milo.

— Camus. É bom vê-lo – Disse o promotor, recobrando a calma.

— Boa noite, promotor Saga. – O ruivo cumprimentou, uma polidez fria e distante em seu tom e postura.

— Você... você está ótimo. Fico feliz em ver que está bem.

— Sim, estou muito bem. – Rebateu, dando as costas e fazendo menção de se retirar. – Estarei no quarto, caso precisem de mim.

— Camus, você pode ficar aqui – Milo tentou, braços estendidos para os lados.

— Prefiro que vocês conversem a sós. Com licença.

E sem que nenhum dos dois beligerantes pudesse impedir sua retirada, o ruivo sumiu no corredor do apartamento. O promotor se viu obrigado a admitir:

— É, ele está bem diferente. Vejo que o convívio contigo, bem como tratamento de Saori, parecem estar surtindo efeitos positivos nele.

— Oh, sim, talvez se ele tivesse sido mandado prum HOSPÍCIO como VOCÊ queria, ele não estivesse tão bem assim.

— Não vire as coisas contra mim, Milo! Eu quis proceder de acordo com os ditames da lei, não podia imaginar que você iria querer o cara como namoradinho. Foi por isso que reagiu tão mal à resolução de ele ser enviado a uma casa de custódia?

Milo deixou-se cair no sofá. Cobriu o rosto com as mãos.

— Você não sabe o que tá falando. Nada disso foi premeditado... NADA! – Gemeu, a voz entrecortada a atingir o implacável promotor.

Saga suspirou profundamente e sentou-se ao lado de seu anfitrião.

— Milo... isso vai causar um barulho fodido durante o julgamento... não percebe?

Esperou que o outro respondesse, mas a resposta nunca veio. Então permitiu-se prosseguir, exaltado:

— O detetive que esteve 6 meses infiltrado no Vale da Aurora Dourada… envolvido com o Redentor!... Hades tem advogados bem conceituados... eles vão se apegar a esse... insólito fato. A seita teria sido desmantelada para que o Messias dela fosse para as mãos do homem que a investigava?

— Será que dá pra conversar contigo sem que você fique aos gritos?

— Como se você estivesse falando muito baixo!...

— Você não tá me ajudando a expor as coisas aqui, Saga!

— Como vou ajudar, se você acha que minha indignação é por HOMOFOBIA... tenha a santa paciência, Milo! Não me acuse de algo que VOCÊ tem, até a meu respeito!

— EU NÃO TENHO... digo, eu TINHA... quer dizer, NÃO tinha... – Gesticulou, atrapalhado. – OK, OK, eu TINHA, mas não era por mal...

O promotor sorriu irônico ao rebater:

— “Não era por mal”. Pensa que eu não percebia que você NUNCA foi a nenhuma festa de aniversário do meu casamento com Olos?

— Eu não podia, só isso, tá legal? Tava sempre ocupado... – Mentiu Milo.

— Tudo bem, você não vai admitir. Não é muito de ADMITIR as coisas. – Alfinetou o mais velho.

— O que... o que quer dizer?

— Que todas aquelas piadinhas sobre a minha sexualidade é porque você não assumia a SUA.

Estupefato, Milo piscou seguidas vezes, enquanto procurava assimilar a mensagem do chefe.

— Saga... eu NÃO ERA GAY!!!

— Ah, foi algo que despertou magicamente apenas durante sua estada no Vale da Aurora Dourada? Um milagre às avessas, na concepção cristã. – Zombou.

— Eu nunca tinha me ligado em homem nenhum! Foi algo que senti... que sinto... só com o Camus! Eu... quer saber? – Ergueu as mãos para o alto, em um gesto de rendição. – Eu DESISTO. Pense o que quiser. Olia e Saori me disseram pra te contar. Eu contei. Foda-se essa porra toda.

Deixou-se cair sobre o sofá, desalentado. Saga pegou duas long-necks. Abriu uma e a estendeu para Milo. Este a pegou, em silêncio desanimado. O promotor abriu a sua, tomou dois longos goles e sentou-se ao lado do outro. Com voz baixa e calma, pôs-se a apresentar:

— Tinha que ser ELE? Você está a par de tudo que esse coitado passou. Todo o INFERNO por que passou. Se você BRINCAR com os sentimentos de alguém psicologicamente tão devastado como o...

— Deus, eu NÃO vou brincar com os sentimentos dele – Volveu Milo, a mão espalmada sobre o peito. – Saga, o que eu sinto por Camus é VERDADEIRO! Eu nunca... eu... eu quero cuidar dele. Eu vou cuidar dele.

— Assim como foi com as várias garotas da faculdade, dos verões, das viagens... com Natassia... com as mulheres que vieram depois da separação, a Saori incluída...

— Eu não senti por nenhuma delas o que sinto por Camus.

Saga calou-se, digerindo-lhe as palavras, a postura firme, a expressão decidida. Como nada dissesse, Milo arrematou, com uma segurança serena:

— Eu amo o Camus, Saga. Isto é o que eu tinha a lhe dizer. Acredite ou não. O meu dever está cumprido.

Cinco minutos se passaram sem que nenhum deles proferisse qualquer coisa. Por fim, um longo suspiro foi o sinal de que Saga quebraria aquele silêncio:

— Você não poderia ter escolhido pior hora pra iniciar essa relação.

— Eu sei. Sao me disse que você iria reprovar por causa da proximidade com o julgamento de Hades.

— Então por que você tava aí achando que era por outra coisa?

— Não sei. Me deu uma embaralhada na cabeça...

— Milo, o dinheiro compra TUDO. E o de Hades comprou advogados conceituados e eficientíssimos.

— Mas como isso é possível? Os bens do filho da puta foram confiscados, as contas congeladas...

— Não subestime o poder das conexões. Ele ainda possui aliados influentes. Essas coisas não morrem da noite pro dia, Milo. Sufocamos o centro nervoso da Aurora do Novo Porvir... mas há quem não creia na condenação do Grande Pai. E, se ele fosse solto... seria alguém com quem esses apoiadores iriam querer alianças.

— Não tem como ele ser solto, Saga! Crimes contra a humanidade! Centenas de testemunhos! Vídeos...

— É aí que entra a sua DISCRIÇÃO.

Atônito, Milo o encarou.

— Se a defesa de Hades souber que o homem que fez o mundo conhecer os absurdos da seita mantém um relacionamento com o “Redentor”, vai usar isso contra nós.

— Não é como se eu fosse anunciar isso nos outdoors do país, sabe...

Sem dar importância à ironia do amigo, o promotor continuou:

— Podem alegar que você fez a cabeça de Camus AINDA DENTRO da comunidade. Que o influenciou contra o pai e contra tudo que ele acreditava até então. Talvez... até que o molestou.

— É claro que podem – Replicou Milo, irritado. – mas quem é que vai comprar uma merda dessas?!?

— Não tenho respostas exatas. São apenas suposições. Ainda tem a OPINIÃO PÚBLICA, Milo. Ela é poderosa. Não duvide de que o fato de Hades estar preso muito se deve a ela. Até mais que ao seu sacrifício. Ao nosso trabalho.

Ao terminar a cerveja, Milo virou-se para o chefe e assegurou:

— Ninguém vai ficar sabendo. Digo, ninguém além de você, Olia e Sao. Eu prometo.

— Não estou pedindo para você esconder quem é para o resto da vida. Mas terá que esperar um BOM TEMPO pra isso. Considerando, é claro, que você cogite assumir publicamente essa relação algum dia...

— Não tenha dúvidas. Além de amá-lo, não sou homem de me esconder. Vou manter tudo em segredo por um tempo somente por causa do julgamento.

— É o melhor – Anuiu Saga. – E... depois do julgamento... pretende contar ao seu filho?

— Vou deixá-lo crescer um pouco mais até contar. Talvez lá pros doze ou treze anos... não sei.

Saga sorriu de modo cúmplice.

— Você realmente tá enxergando um futuro com o Camus, né?

— É claro.

— Bom, acho que agora sim podemos brindar a isso. – O promotor conclamou simpático.

— Espera, vou chamar o Camus!

— E-ele bebe? Não acho que seja uma boa coisa ele...

—Não – Riu Milo. – Vou pegar um suco de laranja pra ele.

Com certo custo conseguiu arrancar o ruivo do quarto. Este postou-se desconfiado diante de Saga, que lhe dirigiu um sorriso amistoso.

— Camus, segure o seu copo e, quando eu o Saga levantarmos nossas bebidas, você levanta a sua também. Vamos encostá-las de leve: isso se chama BRINDE. Vamos fazer um brinde. É o que se faz quando se quer comemorar alguma coisa.

— Um rito de celebração?

— Olha… não deixa de ser... – Riu o promotor local.

— Não é algo religioso. – Milo pontuou.

— Mas nos primórdios era sim. – Saga virou-se para o ruivo, que o ouvia boquiaberto. – Povos da antiguidade como os fenícios e gregos erguiam taças de vinho como oferenda aos deuses.

— E vocês seguem esses deuses?

— Não, Camus. – Milo revirou os olhos e depois os cravou em Saga, com reprovação.

— Então por que realizam o ritual de celebração de seus seguidores?

Milo lançou um olhar cortante a Saga e voltou-se para o amante:

— No início ERA uma coisa religiosa, Camus, não é mais. É uma tradição no mundo inteiro, mesmo entre os que nem religião têm. Entendeu?

— Acho que sim. – Respondeu, sem muita firmeza. – E o que estamos comemorando?

— O nosso amor, Camus. O nosso relacionamento. – Milo explicou, envolvendo-o em um olhar quente e carinhoso.

Camus olhou incerto para Saga. Este lhe disse:

— Somente três pessoas sabem da relação de vocês, Camus. Eu, Aiolia e Saori. Mais NINGUÉM deve saber que você e Milo estão namorando, entendeu?

— “Namorando”?

— É, tendo um relacionamento amoroso que não o casamento... não pode contar que estão se relacionando a mais ninguém. Principalmente durante o depoimento que você vai prestar na semana que vem.

Um ar de desânimo se abateu sobre o ex-messias.

— Vou ter que responder a um monte de perguntas outra vez? Aquilo é tão cansativo...

— Pode ser que seja o último antes do julgamento, Camus. Ânimo. Em breve, tudo vai terminar. – Disse Milo, com brandura.

— Ele tem razão. Bem, vamos brindar!

— Sim, um brinde a NÓS, Camus!

— É DE LEVE, hein, só encostar seu copo nas nossas garrafas...

Eles brindaram. Camus sorriu feliz por conhecer mais um costume do “novo mundo” que agora habitava.

— Bem, espero que aproveitem bastante até o final de semana. – O promotor comentou, piscando um olho para o casal.

— Ué, por que “até o final de semana”?

— Hyoga não vem passar esse próximo final de semana aqui, contigo? Você mesmo comentou comigo, há uns dias, e...

Milo deu um tapa na própria testa, o que chegou a assustar Camus.

— Ai, caralho, eu tinha esquecido!...

Suspirando, o promotor deixou escapar entre dentes:

— Bom, nem tudo muda tão rápido, afinal...

*************

Ao toque do interfone, às 8 horas daquela manhã de sábado, Milo teve um sobressalto tal que chamou a atenção de Camus. Ambos terminavam de se arrumar para o dia com o pequeno Hyoga. Vestiam jeans e camisetas de malha, Camus na cor azul-escuro e Milo na cor preta, com o logo da banda Scorpions.

— Ai, caramba, são eles! Preciso descer até a portaria, Camus.

— Você ainda mantém a ordem de não deixar sua ex-esposa subir? – Espantou-se o ruivo.

— Mas É CLARO, eu lá sou homem de mudar de ideia? – O interfone tocou novamente. – Hunf, ela deve estar azucrinando o senhor Hernandez... ele não chamaria de novo em tão pouco tempo.

Correu até o aparelho, fixo na parede da cozinha, antes que ele tocasse uma terceira vez. Ouviu o porteiro:

— Bom dia, senhor Hatzis, desculpe ter tocado duas vezes sem esperar, é que a senhora...

— Eu já imaginava, senhor Hernandez, não precisa se desculpar. Eu já estou descendo, avise, por favor.

Desligou, sob o desgosto de ter que encontrar Natassia já a aflorar. Pôs as mãos sobre os ombros de Camus, que o olhava com atenção.

— Certo, lembra do que combinamos: Hyoga não pode, DE JEITO NENHUM, perceber que somos namorados, OK?

— Sim.

— Isso quer dizer que hoje e amanhã não poderemos nos tocar, abraçar nem beijar. Tudo bem?

O ruivo assentiu. Quis dizer que havia entendido tudo, e que tais rememorações não se faziam necessárias, contudo, desconfiou de que aquilo fosse apenas uma forma de Milo descarregar a tensão.

— Nem falar coisas doces e românticas um pro outro. Nem dormir no mesmo quarto. Hoje você volta a passar a noite no quarto de hóspedes...

Parou de falar e acariciou delicadamente o rosto do amado. Murmurou, consternado:

— Ah, vai ser um sacrifício enorme pra mim... mas é só enquanto meu filho estiver aqui...

— Tudo bem – Sussurrou Camus, interceptando a mão de Milo. Esticou-se na ponta dos pés para alcançar os lábios do loiro, depositando ali um beijo suave e casto.

Como se Milo fosse se contentar com aquilo!

Ao mesmo tempo que segurou-o pela nuca e pela cintura, aprofundou o beijo. Abriu bem mais a boca, provando a do amante com ardor, ao que o ruivo correspondeu com igual paixão e ânsia. O beijo convertia-se em pura ignição do desejo monumental que sequer fora aplacado pelo esplendoroso sexo matinal. Milo imprensou-o contra a parede, seus corpos a se esfregarem deliciosamente a despeito da barreira dos tecidos.

O interfone tocou outra vez e Milo quase deu um grito. Afastou-se do ex-messias, muito a contragosto.

— Agora tenho MESMO que ir... – Murmurou sorrindo, depositando um rápido selinho nos lábios de Camus. Correu para a porta de saída pela cozinha. Durante a descida no elevador, ia se ajeitando ao espelho. Puxou o quanto pôde a camiseta para baixo, a fim de cobrir o que despertara durante o que poderia ser considerado uma despedida temporária... e tórrida.

A expressão enfezada com que o recebeu Natassia no hall da portaria não lhe foi surpresa alguma...

— Por que demorou TANTO a descer, Milo?

— Bom dia, Natassia. – Cumprimentou-a de bom humor. E virou-se para o filho. – Fala aí, campeão, beleza?

— Oi, pai – Respondeu o menino, sem maiores entusiasmos. Milo não se deixou desanimar, talvez o filho estivesse apenas com sono.

— Será que Hyoga pode MESMO subir? Porque, pela sua demora, em um sábado de manhã, fico pensando se você não está com companhias indecorosas ou...

— DESCULPE pela demora, Natassia. E NÃO, não estou com “companhias indecorosas”, só tem o Camus lá em casa.

Ela cruzou os braços e revirou os olhos.

— Oh, sim. O “Messias” da nossa época – Debochou.

Decidido a não ceder à provocação da ex-mulher, Milo apenas deu um suspiro. O porteiro a tudo observava, um discreto balançar de cabeça a demonstrar apoio ao senhor Hatzis.

— E, vem cá, Milo, que ideia foi essa de não me deixar subir? Coisa ridícula, isso é um constrangimento pra mim e pro meu filho! Eu vou levar isso a um advogado, você vai ver só.

— Você SABE MUITO BEM o motivo, Natassia. Da última vez em que subiu ao meu apartamento, você foi extremamente grosseira com o Camus.

— Ah, mil desculpas, não sabia que o Jesus ruivo era feito de cristal.

— Mãe – Hyoga murmurou, visivelmente incomodado com aquele embate entre os pais.

Armando-se com toda paciência do mundo – aquilo estava caminhando para um bate-boca constrangedor – o policial argumentou:

— Camus teve uma existência muito sofrida até ser resgatado. No momento, está em tratamento psicológico...

— Menos mal, os doidos têm que se tratar mesmo.

Milo respirou fundo e continuou:

— ... ele não merece ouvir as coisas que você disse a ele... que AINDA diz. Por isso, eu lamento por esta medida, mas, até você PARAR com isso, vai ter que ser assim.

A russa empertigou-se, como se nada daquilo a atingisse. Em tom moderado, ainda prepotente porém, assentiu:

— Bem, eu só ia subir para deixar o SEU filho na sua porta.

— Eu o levo pra sua casa amanhã à noite. – Disse Milo, com a mão no ombro de Hyoga.

— Como mãe, não posso deixar de lembrar: não deixe Hyoga sozinho com o... o seu hóspede. Não importa o que você diga, Milo, ele ainda é um estranho.

— Não se preocupe, mesmo Camus sendo excelente pessoa, não tem como eu sair de perto deste rapazinho nem por um minuto, tanta saudade que eu tô – Assegurou, sacudindo o loirinho pelos ombros, que sorriu divertido.

Por fim despediram-se e pai e filho puderam subir pelo elevador.

— E aí, como é que tá na escola?

Hyoga deu de ombros.

— Normal. Chato.

— Mas você tá indo bem, né?

— Daqui a um mês começam as provas. Acho que dá pra passar.

— “Acha que dá pra passar”? Hyoga, se você estiver com dificuldade em alguma matéria, podemos ver um...

— Pai, por que é que a mamãe não gosta do Camus?

Surpreso com a pergunta, Milo engoliu em seco.

— Naquele hospital onde você e ele tavam internados, você me disse que o Camus foi maltratado pelas pessoas que viviam com ele. Se as pessoas é que foram ruins com ele, por que a mamãe fica falando daquele jeito dele, como se ele fosse ruim? Ele não é ruim, é?

O elevador chegou ao andar de Milo. Saíram. Entretanto, a conversa teve prosseguimento no corredor. Milo poderia dizer simplesmente “porque sua mãe é louca”, como tantas vezes dissera. Ainda que fosse esse seu pensamento, no tocante à cisma dela com o ex-Redentor, hoje em dia entendia que não era a coisa mais acertada a se falar com o filho.

— Ela apenas se preocupa com você. Ela te ama e não quer que você fique perto de pessoas que possam te fazer mal. Só que o Camus NÃO é uma dessas pessoas...

— Mas por que ela acha isso do Camus, se nem conhece ele?

O agente sorriu, satisfeito com a sagacidade do filho.

— O que acontece, Hyoga, é que tem gente que, de tanto ter sofrido maus tratos, acaba ficando mau com os outros.

— Verdade? – O menino arregalou os olhinhos.

— Não são todos. Pode até ser que seja uma pequena parte dessas pessoas. Mas como policial, posso te garantir, muitas pessoas más que cometem crimes, são pessoas que sofreram muito em seus lares quando crianças e adolescentes.

— Puxa...

— E também tem gente que... – Pensou na própria Natassia, em tudo que lhe fizera durante o conturbado casamento. – por ter sido maltratada por aqueles que amavam, fica assim... hã... como se fosse uma pessoa ruim. Às vezes, é mesmo. Mas às vezes, não; é só a maneira de a pessoa enfrentar um mundo no qual já não conseguem confiar nos outros como antes.

— Que confuso.

— Assim é a vida de nós, pobres adultos – Brincou com os cabelos do garotinho, que iam-lhe até os ombros. – Mas eu garanto que o Camus não é má pessoa, nem perigoso, nem nada disso. Ora, se fosse, eu estaria morando com ele? Eu deixaria você lá em casa com ele?

—Você poderia ter sido enganado, ué.

Sacudindo a cabeça, Milo tomou o filho pela mão e voltaram a andar, rumo à porta do apartamento.

— Lembro de você dizer, lá no hospital, que queria ser amigo do Camus. – Rememorou o policial. – Espero que não tenha mudado de ideia por causa do que sua mãe diz...

— Ih, qualé? Eu sigo minha própria cabeça, tá? Não sou nenhuma criancinha não.

— Claro que não. – Milo segurou-se para não rir. – É assim que se fala, filhão!

Entraram pela sala de estar. Camus prontamente se levantou do sofá, preparado para receber o filho de seu companheiro. Embora não estivesse completamente sossegado com a ocasião, não demonstrou qualquer nervoso.

— Camus, este é o Hyoga.

O ruivo mirou a criança como se esta fosse um pequeno milagre. Poderia jurar que Milo havia sido exatamente igual àquele menino quando contava com a mesma idade.

— É um prazer conhecê-lo, Hyoga. Eu me chamo Camus. – O jovem chegou a, inconscientemente, fazer uma breve mesura.

— Oi – Respondeu o pequeno, estranhando a linguagem e os modos do ex-Redentor. – Puxa, até que com roupas assim você parece um cara normal.

— Hã?

— Como assim, Hyoga? Do que você tá falando? – Indagou Milo.

— É que na TV ele sempre tá de vestido grandão.

— Aquilo se chama “túnica”, não é vestido – Sem jeito diante do surpreso ruivo, Milo corrigiu o filho. – Mas como assim, ainda estão mostrando imagens dele na TV?

— Ih, sempre aparece nas notícias e nos programas... vocês não assistem não?

Milo olhou para um estático Camus ao responder:

— Não, a gente não assiste não – Voltou-se para o menino. – E você também não deveria ficar assistindo a essas coisas não, ouviu bem?

— Ué, por quê? Minha mãe assiste TUDO e me deixa ver.

— Claro...

— Além do mais, eu tenho que me manter informado, né? – Fez uma pose cômica.

— Com nove anos, você tem é que estudar e brincar, isso sim.

Voltou-se para Camus, que os observava sem entender muito bem. Bateu as palmas e conclamou:

— Bom, Camus e eu ainda não tomamos café, estávamos esperando você, pra saber se iria querer se juntar a nós. – Foram até a copa, onde a mesa estava posta e repleta de itens que fizeram os olhinhos azuis de Hyoga cintilarem.

— Eu já tomei café, mas é CLARO que vou comer de novo; sempre tem mais coisas gostosas aqui do que lá em casa – Vibrou, tomando a caixa de cereais de chocolate nas mãos.

— Não reclame, sua mãe faz certo em cuidar bem da sua alimentação.

— Vai fazer waffles de queijo com mel? – O pequeno perguntou animado, enquanto pegava uma caixa de achocolatado pronto. – Uau, este é o que eu mais gosto, pai!

— Por isso ele tá aí. Mas, escuta bem, não deve consumir essas coisas todos dias, que faz mal pros dentes e pro corpo. Em um final de semana ou outro...

Sem tomar assento à mesa, Camus os observava com curiosidade.

— Senta, Camus, já vou servir seu café também.

O ruivo assentiu e sentou-se perto da criança.

— Pra onde a gente vai hoje, hein, pai?

— Pensei em irmos ao Aquário de Green Meadow, que acha? – Indagou, enchendo duas canecas com café fresco.

— Uau... aquele grandão que abriu mês passado? Falaram que é um dos maiores do país!

— Esse mesmo.

— Êêêêêêê! Curti! E você, Camus?

— Eu? Eu o quê? – Olhou-o, quase assustado com sua euforia.

— Curtiu?

Milo sorriu, entregando-lhe o café. Traduziu:

—“Gostou”, Camus?

— Do quê?

— Da ideia de irmos ao Aquário.

— Ah. Sim – Assentiu, como se soubesse do que se tratava.

Hyoga apontou-o ao questionar ao pai:

— Espera, ele não sabe o que é “curtir”?

— Ele não conhece algumas palavras que usamos, Hyoga... por enquanto.

— Que estranho! É como se fosse você estrangeiro? – Debruçou-se na mesa para encarar o ruivo.

— Hyoga... – Disse o policial.

Camus desviou o olhar, sentindo-se um tanto sem jeito pela expressão ansiosa do menino.

— Bem, mais ou menos isso. – Respondeu. – Na verdade, é mais como se eu fosse de outro mundo mesmo.

— Tipo um alienígena?

— Um… quê? – Voltou a olhar a criança.

— Um ALIEN! Alguém que veio do espaço! De outro planeta!

— HYOGA!

— Que foi, pai? Não tá vendo que eu tô conversando com o Camus? Fica me interrompendo... – Virou-se para o ex-Redentor. – Liga não, tá, meu pai às vezes é meio mal-educado mesmo.

— Eu sou o quê?

Camus não pôde deixar de rir baixinho da cena: o filho com ares de grande seriedade e o pai fingindo indignação, com uma mão na cintura e outra segurando uma travessa com bacon e ovos mexidos. Não se esqueceu, contudo, de responder à questão do loirinho:

— O que quero dizer com “é como se eu fosse de outro mundo” é que o lugar de onde eu vim era completamente diferente de onde vocês vivem. Eu nem sabia como era o mundo fora da comunidade onde vivi, tanto que eu até chamo aqui de “este mundo”... mas Milo já disse para eu parar de falar assim.

O policial ergueu as sobrancelhas, maravilhado ante a articulação e naturalidade de Camus em abordar um tema tão traumatizante. Talvez fosse o fato de se dirigir a uma criança...

— Mas lá onde você morava era ruim, não era? Fizeram tantas maldades com você... você deve achar aqui bem melhor.

Milo pensou em pedir ao filho que não trouxesse aqueles assuntos à mesa, tão cedo... mas como iria ficar podando a curiosidade natural de uma criança de 9 anos sobre algo tão exposto na mídia? Bem quando se estava diante da figura central das manchetes do momento? Olhou para Camus e viu que este sorria de leve, sem demonstrar desconforto com a conversa. Claro que poderia ser uma fachada, mas ele realmente parecia à vontade para esclarecer ao menino:

— Sim, este mun... AQUI é bem melhor. Não existe mais a dor. Todos os dias, eu tinha que enfrentá-la para cumprir... o que eu acreditava ser minha missão. – Acrescentou, sereno, olhando o policial já sentado e pensativo. – Devo isso ao seu pai, que me salvou de lá.

— Era o meu trabalho.

— Mesmo assim, eu lhe devo gratidão.

— Pai, quando é que você vai me contar o que fez lá, hein? Como foi, você usou armas? Bateu nos homens maus que maltratavam o Camus? Hein, pai?

— Em uma hora mais adequada que agora, eu conto sim. Mas precisamos tomar logo nosso café, a estrada nos espera. Uma hora e meia de viagem!

Antes de saírem, Milo prendeu os cabelos de Camus em um longo rabo de cavalo, preso na nuca. Pôs um gorro preto em sua cabeça. Entregou-lhe uma jaqueta preta com capuz. Hyoga observava a operação, curioso. Quando o ruivo ficou devidamente “paramentado para sair”, o menino lhe perguntou:

— Por que é que você tá vestido assim? Nem tá tão frio.

— Ele precisa se vestir assim para que ninguém o reconheça. – O policial respondeu pelo amante.

— Por que ele não pode ser reconhecido?

— Porque algumas pessoas podem se tornar inconvenientes...

— Se tornar o quê?!?

— Viu, não é só o Camus que não entende certas palavras. – Brincou. Ao que o garotinho fez bico e retrucou:

—Mas você tá falando difícil de propósito, né, pai, eu não disse nada difícil pra ele!

Colocando a mão sobre a cabeça do filho, Milo elucidou:

— Algumas pessoas podem se tornar chatas. Podem ficar incomodando o Camus, apontando pra ele, querendo falar com ele, tirar foto dele...

— Ah, é, ele é famoso!

— Bom... não da maneira que seria legal, mas... é o que acontece.

Hyoga virou-se para Camus, o rosto quase sumindo pelo gorro e pela gola alta da jaqueta.

— Cê tá parecendo um bandido.

— HYOGA!

— Eu pareço um bandido? – O ruivo abaixou a gola e lançou um olhar aturdido aos dois.

— Dos bem perigosos. – Confirmou o pequeno, balançando a cabeça.

— É melhor que ser alvo de celulares e de gente sem noção. Vamos!

— Pai, eu também quero me vestir assim.

— Você não precisa, Hyoga.

— Mas eu QUERO, eu não falei que eu preciso.

— Além do mais, você mesmo disse que nem tá tão frio.

— E se o Camus sentir calor com essa fantasia de esquimó?

— Aí ele tira a jaqueta.

— Na verdade, eu já estou com calor... – Murmurou o ruivo.

Finalmente deixaram o apartamento e se dirigiram para o estacionamento. E foi em meio ao falatório de pai e filho, que estava entretendo Camus mais do que qualquer programa de TV ou filme conseguira, que os três partiram na pick-up de Milo, rumo a noventa minutos de estrada, embalados com histórias, risos e cantorias.

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Notas finais
Enfim, Camus conhece o filho de Milo, Hyoga, "um pequeno milagre", a imagem de Milo quando criança... será que era tão espevitado assim? Aposto que sim... Muito obrigada por lerem, espero vocês no próximo capítulo (que espero que não demore tanto para sair como este demorou T.T) Grupo das "Fics da Amelinda" no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1690225937895246