Redentor

34 Éden - Ato VI : De Cacos de Vidro a Estrelas


Notas iniciais
Desculpem a demora em atualizar! Desde já, adianto que NÃO concordo com as opiniões de Milo sobre as benesses da existência de zoológicos. Lembrando que as opiniões do personagem nem sempre são as do autor. Nesse caso, apenas pesquisei sobre o que Milo aponta como "pontos positivos", e, OK que eles existam, mas ainda assim, não concordo com a existência dos zoológicos. Dito isso, boa leitura!

Suas pálpebras pesavam tanto... pesavam porque pesado era seu sono ou encontrava-se ele em um sonho do qual não queria acordar? Sentia que eram ambos. Há tanto o sono não o abençoava daquela forma, de o abraçar, de o abrigar de todos dissabores, de o tragar rumo ao esquecimento de tudo que significava dor, cansaço, aflição... e o sonho? Qual era o sonho do qual não queria sair?

Do sonho em que era amparado.

Do sonho em que podia amparar.

Do sonho em que era amado e que podia amar.

Do sonho em que vislumbrava o que de mais puro, bom e belo a vida poderia lhe reservar.

Camus.

Camus estava em seus braços.

E ele estivera em Camus.

Possuíra-o na medida em que fora possuído. Preenchido seu âmago por tudo de mais maravilhoso e sublime que poderia almejar na vida.

Será que tudo continuaria ali ao romper da aurora?

Um novo dia ainda seria sua vida?

Estaria TUDO ali?

Camus estaria ali?

O Redentor, que fora criado tão somente para expiar os pecados dos homens? O Redentor, que fora feito não para VIVER aquele tempo, e sim para ser dele o Novo Cordeiro Salvador?

Tais considerações imprimiram nele forças para romper as barreiras do sono, do desligamento do real...

Milo, a muito custo, abriu os olhos.

E, diante de seus olhos, estava ele.

Suas pálpebras cerradas sob a franja rubra.

Seu semblante plácido, descansado pelo sono ao qual continuava docemente agrilhoado.

Seu calmo ressonar, aquecendo-lhe o colo.

Camus ainda dormia em seus braços.

E viu que ele era belo.

E viu que o amava.

E viu que sempre o amou.

“Camus”, pensou, um tímido chamado mental que não queria ser atendido. Inclinou-se para depositar-lhe na fronte um beijo delicado.

Nunca vira alguém tão belo.

Nunca vira alguém que quisera tanto proteger.

“Camus. Eu te amo.”, pensou, beijando-o uma vez mais.

Tão lindo.

“Eu preciso registrar isso”, decidiu, em meio a um risinho maroto. Alcançou o celular na mesinha de cabeceira. Pôs-se a tirar fotos do amante adormecido. Mantendo o silêncio, ria consigo mesmo, pela ação fortuita e por antever a reação do outro quando se visse nas fotografias.

E, durante a inocente brincadeira, viu a notificação de mensagens do WhatsApp.

Aiolia.

Engolindo em seco, abriu a mensagem.

“E aí? Falou com ele?”

Ficou alguns minutos olhando aqueles dizeres. Hesitante, pôs-se a digitar:

“Falei sim”

Quase teve um sobressalto ao ver que, pouco depois de enviada sua resposta, Aiolia digitava-lhe uma mensagem de volta. Na certa, o primo se impacientara com a resposta lacônica. Conhecia-o bem, ora se não o conhecia... revirou os olhos antes mesmo de ler:

“O que ele disse? O que vcs resolveram?”

Teve ganas de desligar o telefone. Suspirou antes de responder, por fim:

“Resolvemos as coisas. Dps te falo”

Enviou, certo de que o outro não se daria por satisfeito. Mas o que poderia dizer a ele, naquele instante? Claro que em momento propício iria deixá-lo a par de tudo, era seu melhor amigo. A questão é que aquele “tudo” era MUITO NOVO para Milo, em todos sentidos possíveis.

“Eu simplesmente não sei como dizer ao Olia que eu e o Camus estamos...”

Seu pensamento foi cortado pelo inesperado toque do celular. O coração do policial chegou a saltar com o susto. Atendeu, furioso:

— Caralho, Olia! Precisava telefonar?

— Se você não me responde direito por mensagem de texto, PRECISAVA SIM.

Não teve como Camus não acordar com o barulho. Milo estalou a língua irritado.

— Mas que merda – Praguejou.

— Qual foi, Milo, tá nervosinho por quê?

— Tu ainda pergunta? Ligando pros outros às 8 da manhã de um SÁBADO?

— Não é como se tu estivesse dormindo, tu tava aí respondendo minhas mensagens ainda agora, cacete.

— Como você falou, eu tava RESPONDENDO tuas mensagens, não tinha necessidade de tu me ligar.

— Milo? Algum problema? – Indagou Camus sonolento, esfregando os olhos.

— Ah, ele tá aí, perto de você – Aiolia conseguira ouvir a voz do ex-messias.

Em um monumental esforço, Milo controlou a irritação; respondeu ao primo, com forçada calma:

— Tá sim. Por isso eu te disse que falava contigo MAIS TARDE.

— Mas pelo menos me diz se ele aceitou a ideia numa boa.

A ideia.

Ir morar com Saori.

Ou melhor, ser despachado para a casa de Saori como uma mobília que ele não queria mais.

Virou-se para Camus e perdeu-se no encantador semblante de dúvida que o outro ostentava. Aquela visão serenou-o de verdade. Após um longo suspiro, Milo pretendeu evadir-se da conversa:

— Não resolvemos tudo ainda.

— Ué, mas tu disse que haviam resolvido as coisas.

— Eu disse? É, mais ou menos. Assim que eu puder te responder com exatidão, falo contigo, prometo.

— Milo, cê tá estranho...

— Até mais, Olia.

— Falou, então, ‘té mais.

O agente soltou outro suspiro. Enfim o primo desligara.

— Desculpe por ter te acordado. – Dirigiu-se terno ao ruivo.

— Tudo bem. Mas... aconteceu alguma coisa? Você estava tão nervoso.

— Ah, o Olia me deu nos nervos, onde já se viu, telefonar cedo desse jeito?

— Ouvi você dizer que eram 8 horas, isso não é nada cedo...

— Então por que você tá aí caindo de sono? – Rebateu com um sorriso carinhoso. Acariciou o rosto do amante, que sorriu de volta com doçura.

— Bem, VOCÊ é a razão do meu sono.

— Ah, então sou culpado por você estar com esse sono todo?

Camus espreguiçou-se lânguido como um gato.

— Sim, não que eu considere isso algo ruim... – E como um ronronou.

— Hum... pelo visto, ficou bem satisfeito, hã?

— E você, senhor Hatzis, ficou?

Aquele tom pretensamente inocente soou tão provocativo ao policial... malicioso, Milo revidou:

— Ah, eu tô bem satisfeito sim, ainda mais vendo as fotos que eu tô vendo aqui... – E pôs-se a olhar para o celular.

— Sim? Fotos de quê?

— Não é “de quê” e sim “de quem” – Respondeu, sem tirar os olhos cúpidos do aparelho.

O sorriso do ruivo apagou-se-lhe do rosto.

— Está vendo fotos de alguém?

— Sim, estou.

— Eu seria indiscreto se perguntasse de quem? – O questionamento aparentemente indiferente não ocultava-lhe o desconforto.

Com ar gaiato, o sorriso do policial fez-se ainda mais largo.

— De um cara lindo... muito, muito lindo.

— Ah, sim? – O ex-Redentor simulou indiferença.

— Siiiim... sabe, acho que é o cara mais lindo que já vi. Acho, não. Tenho CERTEZA!

— Oh. – Camus murmurou, quase rendendo-se a um muxoxo. Milo deliciou-se com aquilo.

— Quer ver também?

Dando de ombros, o ruivo respondeu com um gesto afirmativo, pretensamente desinteressado. Milo chegou mais perto dele para lhe mostrar as tais fotos. O olhar apático de Camus tornou-se surpreso.

— Mas... mas sou EU!

— É claro que é você – Riu divertido o agente. – eu não disse que era o cara mais lindo que eu já tinha visto?

— Tirou essas fotos de mim?

— Não pintei quadros, isso é certo.

— Eu estava dormindo e você ficou tirando fotos minhas? – Admirava-se em ver a si mesmo de um modo inédito.

— O que é bonito é pra ser fotografado.

— Que bobagem – Levemente corado, o ex-messias riu. – Você é mais bonito do que eu.

— Ora, é bom saber que você também tá satisfeito com a aparência do parceiro que tem. – Achegou-se a ele, beijando-o rapidamente pelos ombros.

— Eu é que nunca vi ninguém mais lindo que você, Milo. Desde a primeira vez em que te vi... – Não soube se completava com “nos meus sonhos” ou com “naquele culto de apresentação das novas Ovelhas”. Preferiu se empertigar e demandar: – Também quero um celular. Só para tirar fotos de você dormindo.

— Ah, pretende se vingar? – Milo arqueou as sobrancelhas, feliz por Camus estar manifestando interesse por algo “mundano” como um telefone móvel. – Podemos arranjar isso... mas nada de ficar conversando com outros carinhas, ouviu bem?

— Isso faz cócegas, Milo! – Tentou se esquivar dos repetidos beijos na nuca e no pescoço, que o deixavam todo arrepiado.

— Então vamos mudar a ação...

Milo tomou-lhe os lábios com paixão enquanto envolvia a cintura com braços fortes e morenos. O ruivo suspirou em sua boca, permitindo logo que o beijo se aprofundasse.

Não demorou muito estavam entrelaçados , quase rolando, sobre os lençóis de seda negra. O loiro descia a boca ávida pelo pescoço alvo do amante, que a ele se agarrava, entregue e imperioso ao mesmo tempo. O policial deteve-se de súbito.

— Espera... eu... eu não sei se podemos fazer isso AGORA – Admitiu sob grande esforço.

Em um tom nitidamente decepcionado, o ruivo volveu:

— Mas... por quê?

—Não é que eu não queira! Meu Deus, quero, e MUITO. É só olhar pra “ele” – Mostrou o falo ereto e duro, pronto para a ação. – É que eu não sei se... se VOCÊ pode.

— Se eu posso o quê?

— Hã... não sei se você... tá dolorido ou algo assim... se prefere deixar pra uma outra hora...

Camus deixou escapar uma risadinha. Foi sua vez de mostrar seu órgão crescido.

— E o que EU faço com “ele”? – Indagou com uma malícia que Milo não julgara existir.

O policial sentiu a boca encher-se de água. Seu membro pulsou ansioso ante aquela visão, aquela atitude. Ainda assim conseguiu rir.

— Eu posso cuidar dele... – Murmurou, sua mão em direção do pênis do amado.

— Milo, eu te quero DENTRO de mim – Sussurrou-lhe ao ouvido, seu corpo agora muito próximo. – AGORA.

— Ai, meu Deus – Balbuciou o loiro, estremecido pelo contato travado entre seus membros. Não teria como resistir... mais um pouco e ele explodiria de tesão.

Posicionou-se detrás de Camus, ambos deitados; ergueu uma das pernas do ex-Redentor pelo joelho, enquanto sugava-lhe languidamente o pescoço, os ombros, o pescoço. Camus, desejoso de sentir-se logo preenchido pelo amante, arrebitava o traseiro em um convite irrecusável. Milo penetrou-o lentamente, atento às vocalizações pelo delirante companheiro emitidas.

— E-eu nem cheguei a perguntar se... se fiz certo... antes. – Comentou, durante uma breve pausa na tentativa de invasão.

— Que pergunta, Milo... – Camus devolveu em um quase gemido, lânguido em meio à dor e o prazer.

— Bom, foi a minha primeira vez com um homem. Eu queria ter certeza de que fiz... direito.

— Não ficou evidente a você que... aaah... que f-foi muito bom? Aaah!

— “Muito bom”? Só “muito bom”? – Brincou o agente, em uma arremetida mais ousada.

— Aaah! S-sim... oh... n-não... AAHH!

Milo agarrou-o com força e conduziu a penetração mais a fundo, mais intensa. O ruivo não ofereceu resistência, mas parecia ainda longe do deleite.

— “Não”? Que quer dizer com esse “não”, Camus?

— Q-quero dizer que... AAHN... n-não é que tenha sido “muito bom”, Milo... aaah!

— Não foi “muito bom”? – Intensificou os movimentos no calor daquele embate verbal tão excitante.

— AAH! N-não... foi... foi... AH, MILO, AÍ, ASSIM... ooooh...

— Se não terminar de dizer o que estava dizendo, vou tirar... – Ameaçou maroto, no fundo temeroso de que o outro não o fizesse. Não queria por NADA NO MUNDO retirar-se de dentro daquele corpo deliciosamente cálido e receptivo.

— ... foi... ahhn... humm... MARAVILHOSO...

— Unng... não vou aguentar por muito mais tempo... v-você é tão gostoso, meu amor...

— M-Milo... aaahh... e-eu... – Antes que completasse, teve o membro misericordiosamente abrigado pela mão vigorosa de Milo, que empreendeu uma igualmente vigorosa estimulação, a fim de que alcançassem juntos o clímax.

Grunhindo desesperado, o policial estocou seguidamente o ânus do gemente ruivo. Não demorou a sentir as deliciosas contrações do canal que o engolia, e também a mão se molhar pelo abundante gozo do amado; também ele gozou intensamente. Buscou a boca de Camus para que se beijassem durante aquele sublime orgasmo matinal.

Ainda unidos, ainda ofegantes, permaneceram em êxtase residual. De costas para Milo, que respirava com sofreguidão em seu ombro, Camus sentiu os olhos arderem e, em seguida, umedecerem. Não se via em condições de impedir que aquelas lágrimas afluíssem; estas, subitamente abundantes, verteram sem que o jovem emitisse um único som que denunciasse-lhe o pranto.

Por que estava chorando?

Ele estava feliz.

Feliz como nunca estivera.

Realizado, pleno.

Seriam lágrimas de alegria?

Pela lógica, deveriam ser.

Entretanto... ele não conseguia identificar ao certo.

Milo puxou-o para si, tencionou beijá-lo uma vez mais... foi quando percebeu.

— O que foi?

Incapaz de responder, o ruivo apenas fitou-o sem reservas.

— Camus, meu amor... por que tá chorando?

Sentindo no peito uma onda que se avolumava para enfim arrebentar-se, o ex-Redentor soluçou, por fim. E o pranto intensificou-se, para espanto de Milo.

— Camus! E-eu... caramba, não me diga que eu te machuquei...?

O ruivo cerrou os olhos molhados e fez que não com a cabeça. Nada convencido, o policial segurou-o pelos braços ao insistir:

— Me diz a verdade, eu te machuquei, não foi? Camus, me desculpa, pelo amor de Deus! O que você tem, o que tá sentindo?!?

— Eu… eu não sei... – Murmurou, entregue às lágrimas incessantes. E ele de fato não sabia. Ou não sabia como entender o que sentia...

Acariciando-lhe o rosto, o agente disse com ternura:

— Camus, fala pra mim o que tá sentindo...

— Felicidade.

— Não parece um choro de felicidade pra mim.

— Mas é exatamente o que estou sentindo.

Milo suspirou e fê-lo olhar diretamente para seu rosto muito sério.

— Camus...

— Eu nunca tinha... ficado FELIZ por fazer ISTO. Não sei. É como se algo dentro de mim fosse se partir mas para se tornar algo belo e bom... como estrelas... e não para... para jazer fragmentado num chão sujo como um vidro quebrado...

— Camus. – Aquilo tocou-o até emocioná-lo.

— Eu ESTOU feliz – Frisou, forçando um sorriso a fim de exterminar a preocupação do outro.

— Eu acredito – Volveu Milo, melancólico. – Porque também estou. E sinto a mesma vibração de você. Eu te amo, Camus.

— Também te amo, Milo.

O policial afastou-se para sentar-se sobre o colchão.

— Camus. Eu sempre fui um cara egocêntrico. Cheio de mim, autossuficiente, orgulhoso. E ainda me alimentava da admiração que despertava nos outros.

Com atenção, o ruivo observou-o. Sentou-se diante dele para compreender-lhe totalmente as palavras.

— Em toda minha vida, eu nunca soube, DE VERDADE, conversar com as pessoas. Eu explico: dominava a conversação sim, mas apenas para convencer alguém. Para seduzir. Para tirar algum proveito do que quer que fosse. Para obter algo vantajoso para MIM.

Atônito, o ex-messias franziu as sobrancelhas. Difícil imaginar aquilo! Milo, um mero manipulador? Não era, em absoluto, o Milo que ele conhecia... OK que o conhecera mediante mentiras... mas fora o trabalho dele, agora entendia. Tinha sido sua missão. Também ele vivera uma mentira, não? E também fora sua “missão”. O policial procurou abreviar aquela autoanálise:

— Eu nunca soube conversar com as pessoas no real sentido de OUVI-LAS. De AJUDÁ-LAS. De conhecer seus PROBLEMAS. Até quando penso que em determinada situação eu DEVERIA fazer isso... parece que algo trava em minha mente...

— Não entendo o que está me dizendo. Você me AJUDOU. Você me SALVOU, Milo.

— Do QUÊ, Camus? Você consegue VERBALIZAR?

O jovem mirou-o, estupefato.

— Ora... da DOR. Você me salvou da DOR.

— A dor. A dor sempre esteve contigo, todos estes anos. E o que a CRIOU, Camus? Você consegue pôr em termos práticos, objetivos, do que foi que eu te “salvei”?

Um repentino cansaço apossou-se de Camus. Pôs a mão na testa e confessou:

— Eu não entendo suas palavras, de verdade. O que devo dizer?

Milo sorriu tristemente.

Ele não sabia ouvir.

Camus não sabia falar.

Teriam um longo caminho pela frente.

— Uma hora, nós conseguiremos conversar com propriedade. – Disse o agente. Pôs-se de pé e espreguiçou-se. Com um sorriso, propôs animadamente:

— Venha, vamos tomar um banho. Depois, café da manhã, e então... vamos dar um passeio!

Percebendo que tinha parado de chorar, o ex-messias enxugou o rosto com as costas da mão direita antes de encarar novamente o loiro.

— Certo. Vou para o meu quarto me preparar e...

— MANÉ TEU QUARTO, RAPÁ. Teu quarto agora é aqui.

— Aqui...?

— CLARO! Ora, onde já se viu, um CASAL dormir em quartos separados... – Abaixou-se para sapecar um beijo na carinha confusa e vermelha de Camus. – Ainda mais em plena LUA-DE-MEL.

— Lua-de-mel? O que é isso?

— Você vai aprender na PRÁTICA, meu amor. Primeira lição: tomar banho juntinhos. Eu ensaboo você, você me ensaboa...

— Banho juntos? No mesmo banheiro? Ao mesmo tempo?

— Não se preocupe, só vamos tomar BANHO mesmo. – Riu o policial. – Prometo não te agarrar no chuveiro.

— Milo, por que está cruzando os dedos dessa forma?

— Isto? Ah, é uma mania que eu tenho, só isso...

*************

— Acho que nunca vi você comer com tanto apetite... – Comentou Milo, reabastecendo o copo de Camus de mais suco de laranja.

— De fato, eu nunca fui de comer tanto assim!

— Ah, nem é que esteja comendo TANTO! Mas em vista do que comia antes... e comeu com gosto, o que é melhor... quer mais panquecas? Ovos com presunto?

O ruivo balançou a cabeça em uma firme recusa.

— Não, não, estou empanturrado. – Riu. – Para ser sincero, estava com muita fome mesmo.

— Bem, você não se alimentou direito ontem. Fora que transar como transamos dá fome, fique sabendo.

— É? – Surpreendeu-se o ex-messias. – Só se for isso, então. Porque eu nunca fui de “sentir fome”. – Abaixou a cabeça, seu sorriso apagando-se um pouco. – No Vale... não permitiam que eu comesse o que quisesse, nem na hora em que quisesse. Hades controlava minha alimentação com rigor, além de exigir que eu fizesse constantes jejuns. Confesso que tinha vezes em que eu sequer conseguia ter qualquer apetite, mesmo.

— Quando você foi resgatado de lá e levado para o hospital, estava desidratado e desnutrido. Você, na verdade, vivia em um estado de fome permanente. Foi um milagre não ter desenvolvido um problema de saúde severo. Hunf, era apenas um dos inúmeros meios do maldito Hades de enfraquecer seu corpo, seu espírito... e te controlar como ele bem entendesse.

Não houve qualquer alteração na expressão facial de Camus. Entretanto, algo em seu silêncio, em seu discreto, porém perceptível empalidecer, fez Milo questionar:

— Como tem sido com a Saori? Tem conseguido falar dessas coisas com ela? Contar o que te acontecia lá, o que te faziam...?

A resposta demorou a vir. A muito custo, o agente resistiu à tentação de repetir a pergunta ou incitá-lo a responder logo.

— Sim, eu tenho contado algumas coisas a ela. Não é muito fácil.

— Imagino que seja doloroso relembrar certos acontecimentos...

— Não, não é que me seja doloroso, ou algo do tipo...

“Não é doloroso?”, Milo não pôde deixar de ser escandalizar com aquela declaração. Mas logo compreenderia melhor:

— … é porque nunca sei exatamente o que dizer. As coisas de que me lembro... eram “normais” para mim. O “seu mundo” diz que não eram. A senhorita Kido diz que não eram.

— Mas, e agora, Camus? Como VOCÊ enxerga essas... coisas?

O ex-Redentor suspirou, enfastiado. Apoiou a fronte com a palma da mão direita, cotovelo sobre a mesa.

— Às vezes, quando eu procuro entender de outra forma, minha mente parece invadida por um nevoeiro.

— Camus... – Murmurou o loiro, compadecido.

— A senhorita Kido me faz perguntas, ela conduz meus pensamentos. Aí eu até consigo... organizar meus... algumas lembranças. Compreender os acontecimentos...

— Camus! – O policial tomou-lhe as mãos nas suas. As mãos de Camus estavam tão frias! – Eu... eu te peço desculpas! Eu deveria ter tentado conversar mais com você. Desde que você veio pra cá, nunca tentei, nenhuma vez, fazer com que você me contasse mais sobre como era ser “o Redentor”.

— Ora, mas você ESTEVE LÁ – Minimizou. – Você viu.

— Eu passei meros seis meses na comunidade. O que vi foi HORRÍVEL, mas foi por seis meses! Você viveu daquele jeito, lá, por DEZESSETE ANOS!

— Milo...

— Eu sei que há MUITA COISA por trás de tudo que vi, mas nunca... desculpa – Largou as mãos do outro, sua fala mais calma, porém não menos emocionada. – Eu fico tão preocupado em te fazer sentir bem, em fazer você se distrair, se sentir acolhido “neste mundo”, conhecer as coisas boas “deste mundo”, que tenho falhado neste ponto...

— Falhado? Milo, você não tem falhado em NADA. Nunca falhou em nada em relação à minha pessoa!

— Isso não é verdade. Mas eu vou melhorar. Eu vou aprender a te ouvir. E você... aprenda a ME FALAR sobre o que te afligir. Ou melhor, aprenda a me falar o que QUISER.

— Falar o que eu quiser – Camus repetiu em um eco absorto: deveria contar a Milo que “Radamanthys e Algol” resolveram fazer inconvenientes aparições noturnas? Incapaz, contudo, de fazê-lo naquele momento, limitou-se a assentir, desconfortável.

— Isso aí. Estamos combinados?

— Sim, claro. – Procurou esboçar um sorriso.

— Bom, vá se arrumar para sairmos enquanto eu arrumo tudo aqui.

— Eu te ajudo, Milo.

— Aaah, muito bem, agora somos um CASAL, você não é mais apenas o meu HÓSPEDE. – Proclamou, erguendo-se resoluto da mesa. – O justo é dividirmos as tarefas domésticas, ouviu bem?

O ruivo riu da pose e da fala do companheiro. Encarregou-se de guardar os itens alimentícios e limpar a mesa da copa. Milo pôs-se os utensílios do desjejum no lava-louças e pôs-se a limpar a pia e o fogão, entregue aos seus pensamentos.

“Foi bom termos falado em Saori... preciso falar com ela antes que ela venha para cá na quarta-feira, dia da entrevista semanal com o Camus... ou antes que ela brote aqui em casa do nada, achando que vai LEVAR o Camus! Caramba, o que é que eu vou falar pra ela? Obviamente não vou esconder, mas... contar AGORA? Não vejo como! Mas... ai, cacete, o Camus!, ele vai acabar falando durante a consulta... não, não posso simplesmente pedir a ele que guarde segredo sobre a gente, seria manipular o que ele diz durante a terapia, isso pode ser prejudicial... só que contar agora também seria bem ruim pra gente...”, pensava, freneticamente, com expressão tranquila de quem não pensa em nada. E eis que um novo pensamento alarmou-o:

“Meu Deus! Camus NÃO pode saber que eu tinha intenção de me LIVRAR dele! Que a Saori se ofereceu para abrigá-lo, tudo isso porque eu tava com medo de...”

Foi interrompido pelo som do bowl de porcelana se espatifando no chão. Deixara-o escapulir de sua mão ao lembrar-se daquilo.

“Devo contar a ele? Pela lógica, eu não deveria ter segredos com Camus, mas, porra, não é algo que eu possa REVELAR a ele... revelar que eu quis me LIVRAR dele! Não importa o quanto estava assustado, isso não seria...”

— Milo! Está tudo bem?

— Está sim, eu só deixei cair um...

Ao virar-se para Camus, viu-o já vestido para sair; calça jeans escura, camiseta verde-água e um casaco cinza-chumbo com capuz, o qual já estava devidamente posicionado de forma a ocultar-lhe parte do rosto.

— Você tá com tanto frio assim?

— Frio? Não... só lembrei de que seria adequado prender o cabelo e usar o capuz para não ser...

— ... identificado... – Completou o policial, indo pegar a vassoura para juntar os cacos sobre o piso. Ante o olhar curioso do outro, explicou: – escorregou da minha mão. Num instante ajeito tudo.

Assim que terminou, foi sua vez de se trocar. Optou por uma calça jeans clara, blusa preta de manga comprida com o logo da banda Ministry. Calçou coturnos, e Camus, tênis. Puxou-o para si, a fim de beijá-lo uma última vez antes de saírem. O celular tocou e ele, muito a contragosto, atendeu.

— Oi, Milo.

— Saori – É, o seu “deixa-pra-depois” naufragava: agora teria que falar com ela sob o olhar do amante.

— E então, Milo, falou com o Camus? Ele concordou em vir para a minha casa?

— Falei, hã... quero dizer, falei, mas não sobre ISSO, exatamente...

De algum jeito, Camus notou que o loiro não parecia à vontade; resolveu afastar-se, dando-lhe privacidade.

“Merda, acho que ele percebeu que eu tô tentando esconder alguma coisa dele”, pensou Milo. Preferiu fingir nada perceber.

— Então você falou DO QUÊ “exatamente”?

— Tipo... esquece o que eu te disse. E – Abaixou bem a voz. – Não conta nada DISSO a ele, tá?

— O que quer dizer?

— Isso aí que você entendeu, ué.

— Está querendo me dizer que não vai mais mandar o Camus embora?

— Nossa, você fala como se eu fosse abandonar um cachorro na estrada...

— Mas não era isso que você queria fazer? Levá-lo para um abrigo ou uma casa de saúde que...

— QUERIA. – Enfatizou naquela interrupção. – Esquece o que eu disse. Agora é passado. Tudo continua como antes.

— Ele vai continuar morando contigo?

— É. Isso mesmo. E... olha... ele não precisa saber que eu PENSEI em...

— Claro que não. Não se preocupe, não direi nada. Embora sua INCONSTÂNCIA me deixe inevitavelmente apreensiva de que isso venha a se repetir no futuro...

— NÃO VAI, posso te garantir!

— ... fico muito feliz por essa sua decisão. Ele gosta tanto de você, Milo!

“E eu o amo”, pensou, consciente de que não deveria verbalizar por ora, porém.

— O que te fez mudar de ideia? – A nissei quis saber.

— Hã... bem, sei lá. Eu... eu só pensei melhor.

— Hum...

— Olha, Sao, eu vou ter que desligar, a gente tá de saída.

— Aaah, que legal! Vão passear?

— É, vamos sim – A entonação animada da psicóloga fez Milo enrubescer como se ela estivesse à sua frente.

— OK, não quero atrapalhar...

— Imagina, você não atrapalha nunca!

— Bom, a gente se vê na quarta. Não deixa de checar seu e-mail, Saga ficou de te enviar alguns dados sobre o relatório do caso. Coisas que vamos alinhavar em uma reunião em breve.

— Claro, obrigado por avisar. O julgamento terá início em 3 semanas, né?

— Sim, mas falamos disso depois. Vai se distrair com ele e... Milo...

— Distraia-o BASTANTE, tá? Divirtam-se!

Milo ficou em franca dúvida se havia uma conotação maliciosa na voz macia da colega ou não. Só pôde concluir:

—Valeu, Sao. Até quarta!

Desligou. Procurou por Camus, que estava bem disperso na varanda.

— Era a Saori. – Disse, sentindo-se um tanto bobo, pois que sabia que o ruivo ouvira-o dizer o nome da moça. Entretanto, na dúvida de como se dirigir a ele, aquilo acabara por lhe escapar.

Indiferente, o ex-messias apenas assentiu, sem nada perguntar. O policial sinalizou para que o acompanhasse:

— Vamos?

Camus o seguiu. No elevador, inquiriu distraidamente:

— Aonde iremos?

— Pensei em te mostrar o zoológico, que fica dentro do Parque Estadual. Depois iremos ao Mirante de Red Meadow. Tá um dia lindo!

O elevador parou no sexto andar. Um homem de meia idade entrou.

— Bom dia.

— Bom dia.

O “bom dia” de um deslocado Camus ao deles se juntou. Milo não soube se tratava-se de impressão – e a sua costumava ser acurada – mas achou que o homem o olhava de um modo um tanto... inusitado. Em seguida, aquele olhar enigmático fixou-se em Camus, que, mesmo de capuz, manteve a cabeça baixa.

— Como vai a senhora Sheppard? – O policial tencionou quebrar o clima estranho puxando conversa.

— Tem se queixado de umas dores nas costas, mas vai bem, no geral. Coisa de velho.

— Que é isso, é um problema que acomete qualquer um, em qualquer idade. – Volveu Milo, simpático. – Espero que ela melhore.

— Ah, meu jovem, quando velho começa a reclamar, já era...

O vizinho voltou a mirar Camus rapidamente. Murmurou para Milo:

— E ELE, vai indo bem?

— Oh, sim, tá se recuperando de... de TUDO... – A fala do agente saiu rápida, quase ansiosa.

— Bom, se precisar de alguma coisa...

— Muito obrigado, é muito gentil de sua parte.

Antes de ficar no térreo, o senhor Sheppard despediu-se com um breve aceno da cabeça grisalha. Milo fez o mesmo gesto. Camus paralisara. Os dois seguiram para o subsolo, onde ficava a garagem.

Entraram no carro e deixaram o prédio. O dia estava de fato claro e agradável, poucas nuvens no céu soberbamente azul.

— Você disse que nós iríamos a um... um o quê?

— Zoológico – Foi só então que Milo se deu conta de que o companheiro não deveria saber o que era um zoológico. – É um lugar onde tem muitos e muitos animais, animais de todos os tipos e tamanhos...

— Uma floresta? – O ruivo ergueu as sobrancelhas curioso.

— Não, não. São animais do mundo todo.

— Como pode haver um lugar em Red Meadow com animais do mundo todo?

— Ah, eles foram enviados de outros países pra cá, pra gente observá-los.

— E não é perigoso?

— Não, porque eles ficam presos, Camus.

— Presos?

— É.

— Mas por quê?

— Ué, é como eu te falei, pra gente observar eles.

O ex-messias piscava apressadamente os olhos indagativos, em um esforço para entender.

— E por isso eles foram tirados de seus países? Para ficarem presos a fim de que as pessoas os observem?

— É, mas assim... eles ficam bem confortáveis, sabe? Ficam em lugares espaçosos, que simulam o habitat natural de...

— O quê?

— O lugar onde viviam. O lugar original deles.

— Ah.

— São bem tratados, você vai ver. – Garantiu o policial sorridente. – Vai ser legal você conhecer o zoológico, ver os bichos de perto.

Cerca de 20 minutos depois, estavam no Red Meadow Zoo. Sendo Red Meadow uma cidade de porte médio, assim era o zoológico, em relação ao tamanho e a variedade da fauna exposta. Em relação a suas instalações, faziam-se impecáveis: fartamente arborizado, contava com informações em placas bem localizadas, pavimentos bem conservados, lojinhas de souvenirs e quiosques de comes e bebes. Como era um sábado, estava movimentado, porém não lotado como em época de férias escolares e fim de ano. De mais a mais, haviam chegado bem cedo. À tarde, na certa, já não estaria tranquilo daquele jeito.

Como era de se esperar, Camus assombrava-se a cada alameda percorrida: era-lhe incrível ver, ao vivo, animais mencionados na Bíblia, como os leões, os ursos – se bem que já vira um urso abatido no Vale da Aurora Dourada –, os camelos, os lobos, os antílopes, os enormes viveiros de aves de todas cores e tamanhos, os impressionantes fossos dos répteis, em cujos troncos enrondilhavam-se impressionantes serpentes. Surpreendeu-se diante de animais dos quais sequer ouvira falar alguma vez na vida: cangurus, gorilas, zebras, tamanduás, pandas, coalas, os elefantes (quase caiu para trás ao ver-lhes o tamanho!), os hipopótamos, tão plácidos que em nada denunciava o fato de serem os animais terrestres conhecidos por liderar o número de ataques aos homens...!

— Incrível! Como Deus pôde ter pensado em tantas e tantas formas de vida durante a criação? – Admirava-se, seus olhos castanhos mais arregalados e brilhantes que os das crianças ali presentes.

Milo sorriu, satisfeito em ver-lhe a empolgação. Deu por si de que era a primeira vez em semanas que o ouvia mencionar Deus. Considerou algo BOM: preocupava-o que o parceiro associasse Deus apenas a pensamentos e vivências ruins. Não por crenças próprias ou por qualquer moralismo recém-despertado... vivendo em um país como os EUA, Camus ainda ouviria falar bastante de assuntos ligados ao cristianismo, a Deus. Seria desconfortável se a cada vez que tomasse contato com o tema, Camus fosse bombardeado por lembranças ou sentimentos dolorosos...

— É, ele tava inspirado. Só não mandou bem no homem... esse saiu bem defeituoso – Brincou Milo, ao lado do ruivo, que contemplava fascinado as girafas.

— Na verdade, Deus fez tudo perfeito. E fez o homem perfeito também. O homem é que se deixou corromper.

— Mas se tudo que acontece é da “vontade de Deus”, essa corrupção do homem foi também obra de Deus, né.

A expressão de Camus lentamente passou a algo tensa, conflitante.

— As razões do Criador somente a Ele pertencem. Não é dado aos homens o entendimento de seus desígnios.

Assim lhe ensinara a Palavra.

Assim lhe enfatizara Hades.

Assim se justificara seu destino, quando de sua existência como “Redentor”.

Mas...

... se tudo fora uma farsa... se ele jamais fora o Messias da nova era... isso poderia dizer que TUDO que seu pai lhe dissera configurava, de igual maneira, uma FARSA, uma MENTIRA?

— Camus?

— Hã?

— Cê ficou aéreo, de repente.

— Aéreo?

— Distante, olhando pro nada – Milo tomou-lhe o braço, trazendo-o mais para perto.

— Só me distraí pensando.

— Nessas coisas sobre Deus, foi isso?

— Eu ainda não sei direito o que pensar sobre... isso – Admitiu o jovem, colocando a mão direita sobre o rosto.

Milo ressentiu-se de não poder abraçá-lo tão carinhosamente como queria, pois estavam em público; pôs o braço sobre os ombros do amado em um gesto que julgou fraternal o suficiente para não causar “escândalos”.

— Talvez porque ainda não seja o momento para saber. Você tem muita coisa pra processar, Camus. Pra entender. Mas você também tem TEMPO. Não tenha pressa. Deixe o entendimento vir no tempo DELE. Entende o que digo?

O ruivo ergueu o olhar agradecido para o companheiro.

— Entendo sim. Você tem razão. – Afirmou, a serenidade de volta ao seu semblante.

Um doce sorriso foi sua resposta. Em seguida, Milo propôs:

— Bem, que tal um sorvete? Ou prefere umas castanhas assadas?

— Castanhas assadas parece ótimo.

— Só não pode jogar pros bichinhos, como vimos alguns imbecis fazendo, OK? É proibido dar comida aos animais.

— É, eu li isso em algumas placas. É porque recebem a alimentação própria para eles, não é?

— Exatamente, nossa comida pode fazer mal pros bichos. Por essa razão, se os guardas flagrarem alguém fazendo isso, dão logo uma descompostura.

— Bem que eu percebi algumas pessoas sendo chamadas à atenção quando atiravam comida aos animais.

— Deveriam era ser expulsas, todo mundo tá careca de saber isso!

Camus não precisou inquirir acerca do significado daquela expressão: compreendera-o pelo contexto. Em verdade, era assim na maioria das vezes.

— Mas sabe, Milo, eu tenho pena dos bichos viverem assim, presos. Por mais bonito que sejam seus cativeiros... ainda são CATIVEIROS, não?

O policial hesitou. Não foi capaz de inferir se o ruivo fazia aquela análise tão somente de acordo com o que via ou se nela espelhava sua própria existência trágica. Enfim, respondeu-lhe:

— Sim, por esse lado, parece triste a situação destes animais. Claro que um rinoceronte é muito mais feliz vivendo livremente nas savanas africanas do que nesse espaço aí – Apontou para o paquiderme, calmamente ocupado em se alimentar diante dos espectadores – mas, nos tempos atuais, os zoológicos acabam colaborando com a manutenção de certas espécies ameaçadas de extinção. Animais que estavam quase desaparecendo na natureza foram reproduzidos em lugares como este e acabaram salvos do desaparecimento total.

— Como se os zoológicos servissem de Arca de Noé?

O policial riu.

— É uma analogia interessante. – Concordou. – Sabe, há pessoas que traficam animais silvestres... comercializam bichos que não deveriam ser domesticados, que têm sua existência ameaçada longe de seu habitat. Quando esse esquema é desbaratado pela polícia, e os animais são apreendidos, é para o zoológico que são mandados, na maior parte das vezes. Já aconteceu também de circos serem denunciados por maus tratos aos bichos, que são, de igual modo, apreendidos. São examinados, tratados, se feridos, cuidados até ficarem bem... e, se for possível, libertados na natureza, no ambiente mais propício para suas espécies. Mas se isso não for possível...

— Eles ficam nos zoológicos.

— Exatamente. Às vezes porque ficaram incapacitados, machucados, às vezes porque... – Olhou para Camus e sentiu estranho incômodo ao prosseguir. – ... às vezes porque não saberiam “se virar” em ambiente selvagem. Por terem nascido em cativeiro ou... por terem vivido tanto tempo nele que não se adaptariam mais à liberdade.

Os dois ficaram alguns minutos em silêncio. O rinoceronte, satisfeito, pôs-se a efetuar uma lenta marcha no descampado a ele reservado. Parecia tão dócil e tranquilo, ele, que era um dos mais imponentes e fortes animais terrestres.

— Que tipo de “animal resgatado” seria eu? – Questionou Camus, debruçado no parapeito, visivelmente concentrado no enorme mamífero. – Aquele que conseguiria viver em liberdade, em meio à natureza... ou aquele que jamais se adaptaria ao seu habitat?

Crianças passaram por ali rindo às voltas com enormes balões coloridos em forma de bichos. O loiro sentiu um aperto no peito. Por mais que quisesse ver Camus bem, fazê-lo feliz... sua bagagem era muito, muito pesada.

O quanto ele poderia aliviar-lhe o peso?

Estaria realmente ao seu alcance, ao alcance de Saori, ao alcance do próprio Camus?

— Sabe, Camus... existe um consenso sobre a capacidade de adaptação do ser humano. – Enunciou, com voz baixa e jeito pausado. – Ela é imensa. Pode ser que os primeiros passos de um homem rumo a uma nova realidade não sejam fáceis. Mas ele consegue, sim, se adaptar.

— Eu me referia aos bichos mesmo, não aos homens. – Camus retrucou, com um discreto erguer de ombros.

Milo dirigiu-lhe um luminoso sorriso.

— OK, neste caso, você seria o bicho que encontraria alguém que cuidaria muito bem de você. Que lhe daria todo o amor, carinho e atenção de que necessitasse – Apertou a mão do outro, que enfim lhe dirigiu o olhar. – e, adaptando-se ou não na natureza... nunca, nunca estaria sozinho. Nunca mais.

— Milo... – Murmurou o jovem, enternecido.

Ao dar-se conta de que o ex-Redentor não diria mais nada além daquilo, o agente conclamou:

— A gente ficou aqui de papo e acabou esquecendo de ir pegar as castanhas! Vamos lá?

O ruivo balançou afirmativamente a cabeça; deixou que o companheiro lhe tomasse a mão e o conduzisse para a barraquinha da qual um delicioso se desprendia, seguramente o maior chamariz do pequeno estabelecimento.

*************

Apesar de mais distante que da última vez em que o vira, Camus aferiu que o mar estava mais calmo então. Reflexos dourados adornavam sua majestosa vastidão, predominantemente de um azul profundo. As poucas nuvens que deslizavam no céu vez ou outra brincavam de esconder o sol, mas este teimava em fazer-se também atração daquela paisagem admirada por alguns, incluindo ele e Milo, presentes no Mirante de Red Meadow. O jovem casal conseguiu, por um milagre, afirmara o policial, sentar-se em um dos pouco banquinhos de madeira disponíveis no local. Trazendo uma sacola de papel consigo, dela Milo tirou os hambúrgueres e os complementos do almoço do dia, a ser degustado de frente para aquela bela vista. A julgar pelas curtas interjeições de satisfação que provinham do ex-messias, Milo soube que o parceiro aprovara a refeição.

— Preciso tomar cuidado para não engordar. Há tantas coisas gostosas “aqui fora”! – Comentou o ruivo, nitidamente satisfeito.

Camus continuava a usar expressões como “aqui fora”, “neste mundo”, “no seu mundo”; conquanto fosse natural para quem passara quase toda a vida encerrado em um “mundo à parte”; às vezes, o agente incomodava-se um pouco com aquilo. Tentava se convencer de que era algo que, por certo, passaria com o tempo...

— Você não vai engordar. Pode estar comendo mais do que costumava, quando era o “Redentor”, mas ainda está longe de ser um autêntico glutão. – Assegurou o loiro.

— Reparei que há bastantes pessoas gordas “neste mundo”. Lá no Vale, eram bem raras...

— Também, submetidas a trabalhos exaustivos, quase o tempo todo, e àquela dieta pobre, seria impossível que engordassem. Muitos dos resgatados estavam desnutridos. Você mesmo estava.

— É, Hades controlava com extremo rigor o que eu comia...

— Hades controlava VOCÊ com extremo rigor em TUDO que fazia.

Levemente arrependido do que dissera, não pelo conteúdo mas pelo momento, Milo calou-se. Camus, entretanto, não parecia nada incomodado com o que ouvira. Ainda assim, o policial apressou-se em dizer:

— Me desculpe, Camus. Queria que tivéssemos um dia agradável e acabo sempre tocando em assuntos que... que poderiam esperar.

— Não sei por que está se desculpando, Milo.

— Falar sobre... sobre essas coisas não te perturba?

Desta vez o erguer de ombros de Camus foi bem evidente. Ele desviou o olhar indiferente.

— Não. – Falou simplesmente. Milo não sabia se era verdade ou não. Abocanhou o último pedaço de seu sanduíche. Após engoli-lo, arriscou:

—Já que não te perturba... eu gostaria de te fazer uma pergunta.

— Claro. Pode fazer.

Não seria nada fácil.

Mas TINHA que fazê-la.

E tinha que ser ali.

— Quando estávamos... hã... fazendo amor... em alguma hora você ficou... desconfortável?

O ex-Redentor deu um meio sorriso, como que estranhando a indagação.

— De que forma eu poderia ficar DESCONFORTÁVEL naquele momento, Milo?

— O que quero saber... olha – O agente, um pouco curvado, uniu as mãos entre os joelhos afastados, olhando para o horizonte enevoado. – eu não quis perguntar isso no quarto, na cama... na NOSSA cama, agora. O que eu queria saber é se, em algum momento, alguma lembrança ruim veio?

Enfim compreendendo, Camus deixou de sorrir.

— Você foi sexualmente explorado por tanto tempo... pelo seu próprio pai. – Prosseguiu o loiro, a dor daquela recordação voltando em um discreto tremor. – Você foi violentado por anos... e até seus irmãos...

O ruivo não deu mostras de qualquer entristecimento ou angústia ante tal ponderação. Continuou a mirar o amado, os longos cabelos sob o capuz, algumas mechas rubras, contudo, escapando e balançando com o vento.

— Não sei. Você tem... teve... “flashbacks”, algo do tipo? Creio que Saori tenha lhe dito o que são “flashbacks”.

— Sim, ela me disse. – Confirmou tranquilo.

— Ouça, agora, mais do que nunca, você não pode esconder nada de mim, Camus, mesmo que ache que eu...

— Milo. NÃO. Eu NÃO tive flashbacks. Nem nada do tipo. – Interrompeu-o, calmamente.

— Não? – Fez o policial, entre aliviado e incrédulo.

— Se algo do tipo passa pela minha cabeça. Não tem a força suficiente para me absorver quando VOCÊ está possuindo meu corpo, Milo.

— Você... você tá sendo sincero comigo, não tá?

— Acha que não estou? – Uma leve nota impaciente vibrou no tom usado pelo ex-messias.

— Não, não é isso! Eu acredito em você – Tomou-lhe as mãos, quase nervoso. – Eu fico... fico feliz que você... que nada do que você passou nos prejudique na cama...

“Mas POR QUE isso acontece? Por quê? Por que experiências que seriam traumatizantes para todo mundo NÃO o afetam durante o sexo com outra pessoa? Claro que fico feliz com isso, mas tem algo ESTRANHO nessa... INSENSIBILIDADE dele...”, pensava Milo, intrigado. “Será que é porque durante esses anos anos ele não condenava o que lhe faziam, por acreditar que era o que DEVIA suportar em nome de sua `missão’?”

— Você tem falado dessas... experiências com a Saori?

— Quando ela me pergunta, sim.

— Ah, por falar em Saori... – Fez-se ainda mais sério – Camus, ao menos por um tempo, NÃO diga a ela que nós estamos... hã... não conte a Saori sobre nosso relacionamento.

Suspreso, o ex-messias ergueu as sobrancelhas.

— Antes que você pense que estou errado em não assumir ainda... quero que considere que não será nada bom para MIM que as pessoas saibam que estamos nos relacionando.

— Eu não falo com “as pessoas”, apenas com VOCÊ, seu primo e a senhorita Kido, por causa da terapia.

— Eu sei! O que quero dizer é que nem você pode falar disso, nem eu vou contar a ninguém. Por enquanto, eu prometo.

Camus meneou a cabeça, procurando assimilar o que ouvia.

— Milo, você mesmo disse que eu DEVERIA contar TUDO sobre mim a ela. Agora eu devo esconder. – Suspirou. – Estou confuso, confesso.

— Deixa eu tentar explicar. Ela pode... pensar que eu só quis que você viesse morar comigo para que você viesse parar na minha CAMA.

Embora corasse, o outro riu.

— E isso desagrada você?

—Sim, porque NÃO é verdade.

Gaivotas grasnaram afoitas durante um rasante sobre os rochedos.

— Certo – Camus pareceu não dar tanta importância ao que para Milo era um dilema. – Não direi nada a ela.

— É só por enquanto, eu prometo.

— Este mundo é estranho – Considerou o ruivo, distante. – Eu nunca mentia quando vivia no Vale. Meu pai me ensinou a nunca mentir. Mas vocês veem nisso uma forma de se sentirem confortáveis que não entendo.

— Mas VOCÊ escondia as coisas também, lá – Rebateu o agente, altivo – Escondia suas dúvidas. Seus medos. Seu cansaço com toda aquela situação.

Milo não estava errado, forçoso era reconhecê-lo. O ex-messias sentiu-se convencido. Ainda assim...

— Você tem vergonha de mim, é isso?

— CAMUS!

— Vergonha por eu ser homem? Vergonha por eu ser considerado um LOUCO pelos seus?

— Da onde você tirou isso?!?

— De reportagens que vejo na TV. De jornais que leio. Acham que sou um pobre coitado fora da realidade.

— Droga, eu não devia deixar...

— Devia esconder de mim?

— Deus, NÃO. Não é nada disso! Só ACHO que seria melhor, talvez, você não ver tanto os noticiários.

— Estou apenas tentando entender o SEU mundo – Argumentou o ruivo, um tanto defensivo.

— É verdade. Desculpe. Não quero te impedir de nada. Foi só uma sugestão...

Apertou as mãos do amante nas suas.

— Eu prometo que depois do julgamento, eu assumo nosso relacionamento PARA TODOS.

— Então é por causa do julgamento?

— Não será bom para nós que saibam que somos parceiros DESSA FORMA, entende? Isso pode prejudicar a acusação, Camus. Há um ditado “neste mundo”... não “meu” mundo, “nosso mundo”, espero que você aceite isso em breve, que diz que “para enganar nossos inimigos, precisamos começar enganando nossos amigos”. A defesa de Hades pode se aproveitar do fato de que eu e você somos parceiros amorosos.

— Não posso dizer que entendo, mas se você acha que será mais seguro... eu concordo. Não se preocupe, nada direi à senhorita Kido.

— Ótimo. Obrigado.

— Mas e o seu primo? Ele é seu melhor amigo, não é? Esconderá dele também?

— Claro. Para ser um segredo perfeito, deve ser segredo para todos. – Assegurou Milo.

Ocorre que dias depois...

— Camus, há algo diferente em você – Observou Saori, da poltrona perto do sofá em que estava o ruivo.

— Diferente como?

— Um brilho em seu olhar que não estava aí antes.

— Oh sim?

— Esteve o tempo todo quase com um sorriso no rosto, que, aliás, está mais descansado, viçoso... sabe o que dizem de pessoas que ostentam o semblante como o que estou vendo em você? – Indagou ela, sorridente, apoiando o queixo com a mão.

— Hã... não.

— Eu diria que você está AMANDO.

— Oh. – Ruborizou, fugindo do olhar analítico da mulher à sua frente.

— E não vou mentir, eu já sabia disso. Desde a primeira vez em que te vi, soube que você amava Milo.

— QUÊ?

—Só que agora sua expressão está completamente diferente de então... está SATISFEITA. PLENA.

— ...

— Ele enfim correspondeu ao SEU amor, não foi?

— ...!

“Por isso o safado mudou de ideia quanto a mandar Camus para minha casa”, pensou a psicóloga, revirando os olhos, divertida.

*************

— Sabe o que eu acho, Milo?

— Ainda não concluí o curso online de TELEPATIA, Aiolia – Respondeu Milo, ajeitando mais uma vez o rabo de cavalo que teimava em se desmanchar durante aquela corrida no parque da rua onde morava.

— Acho que você tá TRANSANDO com o Camus. – Disparou Aiolia, entre risos.

— QUÊ? Da onde você tirou isso, seu doido?

— Bom, você tava apaixonadinho pelo cara, disse que ia despachar ele pra Saori, mudou de ideia... e anda de MUITO BOM HUMOR recentemente!

— Maldição, Olia, que merda cê tá falando?!? – Bufou.

— Hahahahahahaha, a verdade, não é mesmo?

— Quando eu te pegar, vou amassar a tua cara de VERDADE – Anunciou Milo, lançando-se em perseguição ao primo, que corria já longe dele, a fim de provocá-lo.

— ELE também anda com cara de quem viu passarinho verde – Riu Aiolia, em plena fuga. – Ou melhor, viu passarinho cheio de pelo loiro!!!

— OLIAAAA!!!

*************

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até a próxima, peoples lindes!