Redentor

33 Éden - Ato V : O Fim De Uma Longa Noite


Notas iniciais
Olá, queridos leitores e leitoras, como estão nesta quarentena? Espero que todos bem... cá está o capítulo 33 de "Redentor". Há alguns esclarecimentos nas notas finais. Boa leitura!

O som da porta do apartamento fez com que os olhos verdes de Aiolia viajassem ansiosos da TV até o hall de entrada. Os castanhos de Camus abandonaram o livro ao qual ele retornara havia algum tempo, pois que resolvera assumir que os programas televisivos não mais o interessavam no momento. Diante de ambos rapazes surgiu a figura do dono da casa, a sobraçar duas grandes sacolas de papel. O loiro deu um grande sorriso ao saudá-los:

— E aí, caras? Quem tá a fim daquele sorvete de chocolate com crocante de nozes?

— Precisa perguntar? Se eu não penso em outra... – Ao ir até ele, Aiolia notou-lhe os olhos e o nariz avermelhados. Deteve-se, sério, sem esquecer de completar a frase, a bem da naturalidade que queria ostentar. – ... coisa.

— Aahh, segura aqui pra mim, Olia, preciso... assoar o nariz... – Entregou as compras ao primo e retirou um lenço de papel de uma embalagem já aberta que trazia consigo. – Ah... algo na rua me deu uma alergia, de repente...!

Pôs-se a assoar o nariz a fim de justificar o que chamara a atenção de Aiolia... e de Camus. Este o observou atentamente da poltrona, da qual não ousava levantar-se.

“Parece que esteve chorando...”, pensou o ruivo, intrigado. Ele poderia até não entender “aquele mundo” ainda, mas reconhecer evidências de um pranto recente não configurava nenhum aprendizado novo.

Consciente de que era pelo ex-messias observado, o recém-chegado assoou mais algumas vezes, praguejando de modo teatral:

— Maldita alergia! De vez em quando, ataca do nada... – Virou-se para o ruivo. – Oi, Camus! Desistiu da TV?

O jovem lançou um olhar distraído ao livro aberto em seus joelhos. Respondeu, distante:

— O livro é menos cansativo.

— Eu imagino. Olia não é bem o rei do bom gosto.

— EI! Qual foi? – Resmungou o primo, rumo à cozinha com as compras em seus braços. Milo riu e mais uma vez dirigiu-se ao ex-Redentor:

— Vem, vamos tomar sorvete.

— Não, obrigado.

— Pensei que tivesse gostado de sorvete. – Estranhou o loiro.

Diante da ausência de resposta, o policial tentou novamente:

— Bem, eu trouxe outras coisas de que você gosta... biscoitos recheados de chocolate, Ruffles, Doritos, amendoim confeitado... até as suas queridas frutas!

— Não precisava se incomodar.

A mágoa no tom de Camus não passou despercebida a Milo. Embora o ruivo tencionasse passar-se por desinteressado, o agente já o conhecia o suficiente para desvendá-lo.

“Eu... eu o amo.”, pensou Milo, magoado, por sua vez, por seus próprios pensamentos.

Não tratava-se de uma simples paixão, de mera atração. Teve ganas de atirar-se ao ex-messias, abraçá-lo, prometer que nunca o deixaria, que jamais se separaria dele... no entanto, limitou-se a dar de ombros e sorrir ao dizer:

— Não foi incômodo algum. Tem uma boa mercearia ao lado da loja de conveniência. Trouxe maçãs, pêssegos e morangos. Qual você prefere? Claro, você pode comer todos... quer que eu lhe prepare uma salada de frutas?

Aiolia retornou à sala, já com uma taça de sorvete na mão.

— Cês tavam demorando muito, eu me servi logo. Milo, seu idiota, esqueceu os canudinhos de nozes! Tive que me virar com esses biscoitos waffer aqui...

Para a surpresa dos dois primos, o ex-Redentor levantou-se da poltrona e, sem sequer dirigir-lhes o olhar, caminhou para o corredor. Somente quando estava deixando a sala, anunciou friamente:

—Tenho sono. Vou para o meu quarto dormir um pouco. Com licença.

Somente quando ouviram a porta do quarto de hóspedes se fechando que os dois policiais voltaram os rostos surpresos um para o outro.

— O que ele tem?

— O que você acha, Milo?

— …

— Vamos, vá pra cozinha, que eu que não vou guardar tuas tralhas. E quero mais sorvete.

— Não me agrada ver o Camus assim. – Murmurou um cabisbaixo Milo.

— O que você queria? Fez o que fez, abandonou o cara e depois deu o maior gelo nele…

— Tá sendo duro demais comigo, Olia.

— E você acha que não merece?

— Pensando bem... acho que mereço mesmo. Aliás, tenho certeza.

Enquanto Milo guardava as compras, conversavam baixinho, de quando em quando verificando a porta da copa, que dava para o corredor principal da casa. Por mais que o quarto de hóspedes fosse o cômodo mais afastado dali, “cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, já dizia um antigo ditado...

— Falou com a Saori?

— Falei.

— Contou tudo?

Milo encarou-o abismado.

— Como assim, “contou tudo”? “Tudo” O QUÊ? Tu achou que eu tivesse chamado ela pra contar o que aconteceu AQUI?

— Ué. Mas então...?

— Imagina: – Debochado, ele afetou a voz: – “então, Sao, esta noite, depois de eu e o Camus nos beijarmos loucamente, o que por si só já me deixou de pau durão, ele me pagou um boquete i-na-cre-di-tá-vel, que me fez fez estrelas! Daí eu larguei ele sozinho no quarto pra encher a cara na varanda, e agora tô sendo um completo babaca com ele.”

Aiolia revirou os olhos, enfastiado. Bufou:

— Tá bom, tá bom, então sobre O QUE falou com ela? O que te fez chamar a Saori pra cá com toda aquela urgência?

Após lançar mais um olhar para a entrada da copa, Milo aproximou-se do primo e lhe contou acerca da conversa que tivera com a psicóloga. A cada etapa daquele relato, Aiolia torcia o nariz, franzia o cenho. Por fim, inquiriu, com ar de reprovação:

— E você vai MESMO seguir adiante com isso?

— É claro que vou, por que a pergunta? – Irritou-se de repente. – A ideia partiu de VOCÊ, em primeiro lugar!

— Ei, não foi uma “ideia”. Eu nunca disse pra você despachar o cara pra casa da Saori!

— Não, mas disse que eu tinha que dar um jeito nisso... que nem eu fazia bem a ele, nem ele fazia bem a mim, logo... e, como eu te disse, foi ideia da Saori.

— Então por que tava aí jogando a culpa nas “minhas” ideias?

— Bom, o importante é que tá tudo resolvido. – Concluiu, sem qualquer satisfação.

Com a boca cheia de sorvete, Aiolia apenas meneou a cabeça. Assim que engoliu, indagou:

— Acha que o Camus vai concordar com isso?

— Hum... eu não acho que ele desgoste da Saori. Têm se dado bem. Certamente ele vai preferir morar na casa dela do que ficar em algum lugar aleatório por aí. – Encheu uma taça com o sorvete. Pôs-se a cobri-lo com uma espessa calda de chocolate.

— E você? Vai ficar de boa com isso?

— Eu não tenho escolha, Olia.

— “Escolha” todos nós temos. E foi justamente por SUAS escolhas que você tá na situação em que está.

— Cara... não piora o que já tá sendo horrível pra mim, vai.

Vendo o primo naquela desolação, o mais novo assentiu, decidido a ser mais compreensivo. Milo já estava sofrendo o bastante, isso era-lhe bem nítido. Suspirou ao comentar:

— Quanto antes você resolver essa questão, mais rápido poderá voltar à vida normal, Milo.

Foi a vez de Milo assentir, só que em silêncio.

— Quando é que cê vai falar com o Camus?

— Sobre o quê?

— Sobre a Quebra da Bolsa de 1929. PORRA, MILO, sobre a SUA decisão! Sobre a oferta da Saori!

— Eu... ahn... bem... o quanto antes. Esta noite, possivelmente.

— Cara... boa sorte. Vai precisar.

— Eu vou magoar ele, não vou?

— É melhor que ele sofra um pouco agora e dê logo lugar a uma vida NORMAL, tanto pra ele quanto pra você. Ele sofreria MUITO MAIS contigo, Milo. Sabe disso. Sou teu amigo, mas, porra, reconheça...

— Eu sei. Eu sou um filho da puta. O maior do mundo.

— Não é isso. – Volveu Aiolia, compassivo. – Olha só o que aconteceu esta noite... você não é capaz de dar a esse cara o que ele quer de você. Por que torturar mais o coitado? Deixa ele ir logo de uma vez, antes que mais noites assim se repitam. Noites que se refletem nos dias... viu como ele está se portando?

— Tá chateado, né?

— Chateado não, Milo. Ele tá FERIDO. Frustrado. Decepcionado.

Inconscientemente, Milo levou as mãos aos ouvidos.

— OK, OK, OK!!! Vou RESOLVER isso. O quanto antes, Olia.

— Esta noite, Milo.

— Esta noite. – Repetiu, fitando o primo com sombria gravidade. – Esta noite.

*************

A noite enfim chegara... e a porta do quarto de hóspedes continuava fechada. Aiolia já havia partido e Milo, quase que totalmente livre da ressaca, resolvera pedir comida chinesa para o jantar. Antes, tomaria um banho bem longo e caprichado. Ajustou a temperatura do chuveiro a gás. Sob o jato deliciosamente quente, lembrou-se dos dias em que fora obrigado a se banhar com água gelada nos ordinários banheiros comunitários dos alojamentos do Vale da aurora Dourada. Felizmente, semanas depois, ele fora misericordiosamente hospedado por Aldebaran e pôde desfrutar das maravilhas do arcaico porém eficaz sistema de aquecimento a lenha e carvão.

“Se não fosse por aquilo, não tenho tanta certeza de que conseguiria tomar banho com regularidade”, pensava, despejando uma generosa quantidade de sabonete líquido na esponja macia, “naquele lugar maldito, mesmo ainda na primavera e até no verão esfriava bastante ao final do dia...” Não era de seu feitio lavar os longos cabelos àquela hora, já de noite, mas considerou que depois de tantos vômitos, a ação fazia-se inadiável.

“Por que estou pensando tanto naquele lugar? Será que é porque vou mandar o Camus EMBORA?”

Revoltou-se com o próprio pensamento. “Não é que eu vá mandá-lo ‘embora’. Eu vou perguntar se ele aceita ir morar com a Saori.”

Suspirou; bem, sim, aquilo era o mesmo que mandá-lo embora.

Prometera protegê-lo, ampará-lo, cuidar dele...

Prometera?

Não se recordava de ter feito qualquer promessa. Bom, não no sentido literal da palavra, mas...

“Ele estará protegido LONGE de mim. Essa é a verdade.”, pensou tristemente, por coincidência enquanto higienizava suas partes íntimas.

Fechou os olhos e deixou-se transportar para uma cachoeira remota em cujas águas límpidas e esverdeadas ele e o Redentor entraram... diante da qual cingira o ruivo pela cintura, trazendo-o tão junto a si, a fim de protegê-lo de uma queda iminente... seus corpos tão próximos... o cheiro inebriante de Camus, o calor de sua pele acetinada, suas formas desvendadas sob as vestes molhadas, sob suas mãos firmes, ante aquele roçar...

“Merda”, praguejou em pensamento, ao sentir despontar por entre seus dedos ensaboados uma inoportuna ereção.

— Mikael... não precisa mentir para mim.

— Não é mentira!

— Eu... eu quero agradecer... agradecer pelo que fez... ninguém... ninguém NUNCA fez isso por mim... e-eu...

Em um gesto totalmente inesperado, Camus curvou-se sobre Milo e depositou-lhe nos lábios um beijo suave.

“Não... não posso... não devo me lembrar... o que aconteceu na cabana de Aldebaran jamais poderia ter acontecido...”

Ele NÃO poderia sentir o que ESTAVA sentindo... tanto... tanto PRAZER... beijando um HOMEM, poderia? Algo queimava dentro de si, ignorava os ecos internos de “isto é errado, isto é errado, isto é errado!”

Sem abandonar-lhe a boca, sentindo-o totalmente à sua mercê, Camus subiu por cima do corpo do agente. Todos estes anos... todos obtendo dele satisfação, contentamento... eis que agora era ELE quem sentia isso. Gemeu dentro da boca de “Mikael”, sentindo-se pela primeira vez incendiar-se daquela forma:

— Uhnn...

Os dedos de Milo nos braços do ruivo afrouxaram-se para em seguida enterrarem-se ali com mais força. Não para afastá-lo, mas para mantê-lo ali. E... e por que agia diabos agia assim? Não deveria, não deveria, não...

Fazia tanto tempo!

Não.

Nunca fora DAQUELE JEITO.

Besteira! Era justamente porque fazia tempo... porque estavam ali sozinhos... na escuridão, no isolamento de um mundo de um pérfido que sempre quisera feri-los...

No que estava pensando, afinal?

O friccionar em sua virilha... o crepitar em suas entranhas... a pressão em seu baixo ventre... que importava que fosse um homem? Seu sexo há muito negligenciado despertava sob a túnica do Redentor, entre as pernas do Redentor.

Sem querer, gemeu lânguida e demoradamente na boca do falso messias, cedendo-lhe espaço para a exploração que inebriava-lhe os sentidos adormecidos cada vez mais e mais... na mesma cadência, Camus abria-se cada vez mais para ele... quando sentiu que a mão de Camus forçava-lhe o cós da calça de linho para baixo...

— Merda... INFERNO! – Deu-se conta de que, durante a recordação, iniciara uma masturbação lenta... e dentro em pouco estaria a ponto de...

Fechou a torneira da água quente e corajosamente ofereceu seu corpo à cascata gelada que vinha esfriar seus ânimos inconvenientes.

“Ele vai ficar protegido DE MIM. Não tem como continuarmos juntos debaixo do mesmo teto!”, a resolução mental emergia em meio a um misto de culpa e frustração.

As probabilidades de Camus se recusar a ir morar com Saori eram imensas, sabia-o. Se o ruivo, de fato, porém, seguisse por essa recusa...

“Será internado em um abrigo, um sanatório, uma merda qualquer dessas.”

Não... precisava acreditar que seria em um lugar onde teria uma boa assistência do governo. E, para se certificar disso, ele iria visitá-lo sempre que pudesse e... e...

“E se Camus não quiser me ver nunca mais?”, questionou-se alarmado.

Não.

Camus não funcionava assim.

Mas...

“Mas ele pode estar mudando. Eu acho que ele JÁ está mudando.”

Terminado o banho, enxugou-se, pôs um roupão preto e saiu logo do quarto, ansioso por verificar se Camus havia saído de seus aposentos.

“Ele ainda está fechado ali”, surpreendeu-se.

Eu acho que ele JÁ está mudando.

Parou defronte a porta e pensou em bater. Contudo...

“E se ele tiver realmente pegado no sono? Não seria de todo absurdo ele dormir tão cedo... muito provavelmente não dormiu direito na noite passada, graças a mim”, raciocinou, seu corpo também clamando por descanso apropriado. Sua noite tampouco havia sido das melhores...

Bem, só que seu estômago também tinha suas exigências.

“Vou pedir a comida primeiro. Quando chegar, venho chamá-lo.”

Sabia que apenas queria adiar o momento de encarar o ex-messias.

“Depois de jantarmos, eu falo com ele sobre a MUDANÇA.”, decidiu-se em pensamento, ao afastar-se da porta.

No interior daquele quarto, entretanto, Camus permanecia desperto, sentado sobre o colchão, recostado nas almofadas xadrezes, abraçando seus joelhos. O jovem sabia que algo havia mudado nele. Em Milo.

Nos dois.

Entre os dois.

“Milo não me quer mais perto dele. Ficará com medo de que eu avance sobre sua intimidade... como fiz essa noite.”

Afundou o rosto nos antebraços, imerso em grande desolação.

“Eu não devia ter feito aquilo. Não tinha o direito...”

— Ora, querido irmão, o que ocorre é que você teve ótimos mestres!

Assustado, o ruivo ergueu o rosto.

— Sim, ótimos mestres! Inúmeros professores! E aprendeu muito bem as lições!

Os olhos esbugalhados de Camus vaguearam pelo recinto iluminado por dois abajures.

NINGUÉM.

Mas... AQUELAS VOZES...

Ficou longos minutos focando cada centímetro do quarto. Os cantos. As paredes. Os quadros. As janelas. O armário. A escrivaninha.

“Eu devo ter cochilado sem perceber. Comecei a sonhar.”, tentou explicar para si mesmo o que acabara de acontecer.

— Ah, sim. Agora você SONHA. – O tom de zombaria inconfundível de Algol golpeou-o. – Antes, você nunca sonhava. Os remédios não deixavam.

— É um mistério até hoje o fato de você ter começado a sonhar com o “falso anjo”... uma lástima. Tudo começou a ruir ali. – O timbre grave e profundo de Radamanthys fez o ex-Redentor sobressaltar-se.

Seria possível?!?

Sentados cada um em um lado da cama, ao extremo da cabeceira… ELES…

— Não acha que eram bem melhores os tempos na nossa Cidade Santa? – Indagou o primogênito, quase atencioso. – Não sonhar era uma dádiva. Agora, neste mundo ímpio, sem o NOSSO controle... aí está você, sonhando todas as noites, sendo atormentado por isso.

O ruivo quedou-se boquiaberto; os dois irmãos, vestidos da forma casual do dia a dia na comunidade, ambos de jeans surrados e camisas de flanela xadrez, as mangas cuidadosamente dobradas nos antebraços.

— Estou sonhando agora mesmo – Murmurou Camus, controlando sua tensão o mais que podia.

— Hehehehehe, Rada, ele acha que tá sonhando!

— É natural, sem o nosso controle, ele não poderá JAMAIS distinguir o que é real e o que não é...

— Hahahahaha, agora ele pode sonhar! Deve estar se sentindo mais importante que nunca, hein, Rada?

— O que o tolo não sabe que SONHAR É SOFRER.

Camus arregalou ainda mais os olhos.

— Não vê, meu irmão? Tudo que nosso pai e nós fizemos foi para te poupar DISTO. Quando o pai instituiu que você deveria tomar regularmente os remédios que...

— As DROGAS, você diz – Interrompeu Camus, em um rosnado baixo e feroz.

— São a mesmíssima coisa... – Tornou Radamanthys, imperturbável. – ...Hades queria te poupar desse tormento que é SONHAR.

— Sim, um tormento. É por isso que agora estou sonhando com vocês. Porque ISTO É UM SONHO.

— Acha mesmo? – O sorriso sarcástico do caçula não esmorecia.

Radamanthys cruzou as pernas e apoiou os pulsos sobre o joelho. Encarou o retraído ruivo e pontuou, do mesmo modo equilibrado que sempre o caracterizou... antes de...

— Pense em nosso pai. Ele não queria que você revivesse em sonhos momentos difíceis como os que vivia pela missão. Camus, imagine, se você pudesse SONHAR àquela época! Acha que teria mantido a SANIDADE?

Camus selou os lábios, como a considerar aquelas palavras.

— Escute o que o Rada diz, seu traidor... – Fez uma expressão de quem é assaltado por uma súbita lembrança e virou-se para o mais velho. – ... ei, se bem que foi VOCÊ que me matou À TRAIÇÃO!

O revirar de olhos do primogênito mostrou que ele pouca ou nenhuma importância dava àquele pormenor. Algol deu uma risada nasalada ao voltar-se novamente para Camus:

— Hehehehe, bem feito para você, irmãozinho Messias! Nos rejeitou e AGORA SERÁ REJEITADO!

— Q-quê...? – O ruivo sentiu um desagradável arrepio ante as palavras do caçula, que ria, ria...

— Camus! Tá tudo bem aí?

— Milo?...

Seu rosto repleto de estupor voltou-se para a porta na qual o dono da casa batia suavemente os nós dos dedos ao chamá-lo. Tornou-o para os irmãos sentados em sua cama e...

Espere.

Onde...?

— Camus?

— Eu estou bem – Respondeu, sem que a voz firme traísse a surpresa por se ver novamente só no quarto.

— Ah, que ótimo. Desculpa te incomodar, mas... hã... me pareceu que você tava FALANDO COM ALGUÉM.

— Impressão sua.

— Claro, claro! Com quem é que você poderia estar falando?

Vagarosamente, o ex-messias considerou o recinto.

Ninguém...

Ninguém.

— É... com quem eu poderia estar falando?

— Bom... você podia... sei lá... estar REZANDO. ORANDO. – O policial insistiu, pois que estava certo de que NÃO fora mera impressão.

— Eu...? Orando…? – O ruivo sussurrou, perplexo ao tomar consciência somente então de que NUNCA MAIS fizera uma oração.

Desde quando?

—Foi impressão sua, Milo. – Repetiu Camus, secamente.

O loiro suspirou, resignado. Achou por bem encerrar aquele assunto:

— OK. Beleza. Hã... escuta, eu pedi comida. Comida chinesa. Vamos jantar juntos?

— Está bem. Deixe-me tomar um banho antes.

“Por que ele não abre a porta ao menos pra falar comigo?” o agente perguntava-se, intrigado. Preferiu, contudo, não verbalizar sua dúvida.

— Claro. A comida deve chegar em meia hora. – Milo disse; em seguida, afastou-se da porta, pesaroso.

“Camus está me evitando. Na certa, me recrimina pelo que fiz.”

Ora, mas o que fizera?

Não fora o ruivo quem...

“Eu permiti. Eu gostei. E nada lhe dei em troca. Em outras palavras, eu o USEI. Igual a TODAS AS OUTRAS PESSOAS...”, pensou, como resposta ao pensamento anterior, que tencionara minimizar seus feitos.

Salvo em sua voluntária reclusão, Camus se pegou suspirou de alívio. Quando passara a temer a presença de Milo?

“Não é que eu o tema. Eu só...”

Sequer conseguia terminar seu pensamento. Sua mente nublava pouco a pouco, tal qual o cair do dia no Vale da Aurora Dourada: pelas planícies verdejantes, pelas bordas profundas das montanhas, por sobre as copas frondosas a névoa serpenteava, gradativamente engolindo tudo o que a vista alcançava...

Assim estava a sua mente no momento. Mentira sobre a intenção de juntar-se ao seu anfitrião na mesa de jantar. O banho, porém, não precisava ser incluído na farsa. Tinha real intenção de sentir sobre si o conforto de uma ducha quentinha.

*************

— Camus! A comida chegou. Vamos jantar.

Milo batia outra vez à porta. Para ela Camus, vestindo um confortável pijama na cor lavanda, de mangas compridas, apenas lançou um olhar cansado. Sem se dispor a levantar-se da cama, respondeu:

— Obrigado, Milo, mas estou sem fome.

O policial franziu o cenho.

Certo, aquilo começava a ir longe demais.

— Camus, você precisa comer.

— Não se eu não tiver fome.

— Não pode ir dormir sem se alimentar!

— Eu já me alimentei hoje.

— Mas...! – Por uns segundos, nenhuma réplica viera-lhe à mente. Encostou a testa na madeira luzidia. – Camus. O que tá pegando, hein?

— O que estou pegando? Hã... não estou pegando nada. – O jovem realmente não compreendeu aquela indagação.

Evocando paciência, o agente fechou os olhos e contou até três. Sempre se esquecia de que Camus ainda não entendia a maior parte das gírias e determinadas expressões.

— O que eu quis dizer é: o que está acontecendo com você?

“Eu gostaria de lhe perguntar o mesmo, Milo. Porém... no fundo, sei a resposta.”

— Nada. Só não vejo necessidade de comer sem estar com fome.

“E estar COMIGO, Camus? Você também não vê necessidade de estar comigo?”

Claro que não perguntaria AQUILO.

Preparou-se para perguntar outra coisa.

Abriu a boca para tal... no entanto...

Não conseguiu mais indagar coisa alguma. Um sentimento esmagador de derrota se apossou dele. Limitou-se a murmurar, desanimado:

— Está bem, não vou mais importuná-lo. Boa noite, Camus.

Esperou pela resposta, mas esta não veio. Resignado, afastou-se dali. Agora era a sua fome que desaparecia por completo. Foi com total desinteresse que contemplou a mesa da copa arrumada com esmero para um jantar que não mais ocorreria.

*************

—Você se saiu muito bem, irmãozinho. Finalmente entendeu que esse cretino NÃO te ama como nós.

“E quando foi que vocês me amaram?”

— Não seja mal-agradecido.

— Talvez ele seja apenas esquecido, Rada.

Camus puxou a manta até quase cobrir a cabeça.

“Por que estou ouvindo vocês de novo? Estarão MESMO aí? Não, estou sonhando, eu sei. Mas por que estou sonhando, se NÃO estou dormindo?”

Seria mesmo?

Não estaria, de fato, dormindo?

Fez força para abrir os olhos, ao se descobrir devagarinho. Tinha que se certificar de que tudo não passava de um sonho.

A tênue luz dos abajures incidiam delicadamente sobre os rostos assertivos de seus irmãos, de volta aos seus assentos escolhidos: a beirada da cama de Camus.

— Vocês estão mortos – Sentenciou o ex-Redentor, quase inaudível.

— Mas não cegos. – Retrucou Radamanthys, dando de ombros, displicente.

— Sim, não cegos. – Concordou Algol, segurando o riso.

— NEM EU estou cego!

Os dois visitantes trocaram um olhar irônico e irromperam em gargalhadas. Camus cerrou os olhos com força e levou as mãos aos ouvidos; no entanto, não pôde abafar-lhes o som. Abriu os olhos e encontrou os rostos sarcásticos dos irmãos bem mais perto do seu assustado.

— Sim, Camus, você está cego. – Sentenciou o primogênito, quase encostando seu nariz do de Camus. – Pois não vê que Milo NÃO TE QUER aqui.

— O quê...?

— Sim, não te quer – Repetiu Algol, aproximando-se também. – Ele tem NOJO de você.

— Tantos te possuíram, como acha que ele vai querer um corpo USADO e DESGASTADO como o SEU?

As palavras morreram na garganta de Camus, que sentia-se sufocado por isso. Radamanthys acercou-se dele e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Admita, ele só te trouxe para cá por PIEDADE.

— Porque você não tinha mais para onde ir... porque você não tinha mais ninguém...

— Em verdade, você não deixou de ser o que era... o que sempre foi...

— Um mero veículo para os homens expiarem suas culpas.

Camus sentiu como se o seu coração fosse uma máquina prestes a parar.

— Milo te quis com a mesma intenção das Ovelhas... ver-te em penitência e, assim, salvar-se...

— Ele NÃO te ama. Nunca te amará. Nunca te amará como nós te amamos. Como o Grande Pai te amou.

Em um gesto corajoso, o ex-messias deixou escapar um trêmulo balbucio:

— É MENTIRA. Vocês NUNCA me amaram.

— É verdade. – Os dois mortos disseram em uníssono. – NINGUÉM NUNCA TE AMOU.

— Por que Milo seria diferente? – Desta vez fora o próprio Camus a questionar.

Em algum lugar, porém...

— Vocês ouviram isso? – Ousou perguntar aos irmãos.

— Ouvimos O QUÊ? – Novamente em uníssono.

— Parece que ouvi alguém GRITANDO.

— Você deve estar ouvindo coisas, Camus.

— É, mas isso não se aplica às nossas vozes. – Riu Algol.

— Não, eu ouço... – O ruivo sentou-se na cama, apurando os ouvidos. Com efeito, de algum lugar, vinham abafados os agoniados bramidos:

— Camus... CAMUS! NÃO! NÃO!!! CAMUS!!!

— É MILO! – Imediatamente pôs-se de pé, atirando a manta longe. – É a voz de Milo! Como vocês não...

Ao virar-se para encarar seus irmãos, eles não mais estavam ali.

— O... o quê? Para onde…?

Procurou-os, aturdido.

— Rada... Algol... era um... vocês eram um sonho?

Silêncio. E tão somente o silêncio, que foi quebrado por novos gritos:

— CAAAMUS! Por favor, NÃO! NÃÃÃO!

— MILO! – Camus precipitou-se desesperado para a porta. Ganhou o corredor em disparada rumo ao quarto do policial.

*************

Em um vale desolado de cujo solo árido erguia-se um monte a neblina avermelhada pairava; ali ele estava, ofegante, suado, atormentado pela visão da cruz erigida por sobre a negra silhueta a contrastar com o céu vermelho como o sangue. Para ela Camus caminhava, sua túnica branca a esvoaçar na mesma cadência dos longos cabelos rubros pelo ar gélido.

Ele estendeu para a figura que se afastava sua mãos, enquanto berrava suplicante:

— Camus, NÃO VÁ PARA LÁ! Não se afaste de mim! Não pode ir para lá, ou então... ou então...

Alheio aos seus pedidos, o Redentor avançava para a cruz; parecia flutuar por sobre a terra escura e rachada… talvez flutuasse, de fato! Logo não o alcançaria...

E logo Camus... na cruz... sob o céu ensanguentado... como suas vestes brancas.

Não mais tão brancas.

Nódoas surgiam.

Manchas se alastravam.

O sangue...

Não apenas o céu estava ensanguentado, como também Camus...

— Camus... CAMUS!!!

O Redentor enfim virou-se para ele. Esboçou um curto sorriso resignado.

— Eu NÃO quero que vá para longe de mim! Não quero, ouviu? – Dizia, em meio ao pranto.

Viu que os lábios de Camus se moveram, mas não pôde ouvir qualquer som. Camus REALMENTE lhe respondera? Camus realmente estava ali?

— Camus… – Sussurrou, débil, acalentando uma cálida esperança de que tudo aquilo não passasse de uma visão, de uma miragem, de um sonho.

Mas eis que o vento frio novamente abateu-se com força sobre si. O vento que fez com que os cabelos ruivos ocultassem a face plácida do Messias.

— C-Camus... não posso mais ver seu rosto. Por favor, eu NÃO quero ficar sem ver seu rosto! – Choramingou, caindo pesadamente de joelhos sobre a terra estéril.

Indiferente àqueles lamentos, o Redentor retomou seu caminho, agora ascendente, agora final...

A Cruz.

A Cruz o esperava.

— NÃO! NÃO!!! CAMUS!!!

Uma sombra saiu de trás da Cruz. Um vulto alto, de gestos perniciosos, seus longos cabelos negros a cobrir-lhe os contornos do corpo. Esperava por Camus, seu Cordeiro, sua Arca, sua Vara, seu Cajado.

Por que Camus continuava a rumar para longe DELE? Não, não poderia, não conseguiria, não queria compreender... por que Camus seguia PARA LONGE DELE?

Porque queria?

Ou porque...

— CAAAMUS! Por favor, NÃO! NÃÃÃO!

— MILO!

— CA... MUS...

— Milo, por favor, ACORDE!!

*************

— Ca... Camus?

E Camus não estava mais ao pé do monte, sob a sombra da Cruz, tampouco trajava a túnica branca manchada de sangue.

Estava ALI, em seu quarto, diante dele, vestindo um quase pueril pijama lavanda, os longos cabelos vermelhos não mais esvoaçantes pelo vento silvante e sim caídos por sobre seus ombros, seu torso arfante pelo esforço de chamá-lo, de acordá-lo.

Lentamente, sentou-se na cama, confuso. Quando foi que pegara no sono? Lembrava de ter ido para o quarto, sem haver tocado em nenhuma das embalagens do restaurante chinês... sentado em seu leito ainda não preparado para o repouso noturno, pusera-se a pensar em como transmitiria a Camus a decisão tomada por ele e Saori... como poderia contar aquilo... e quando? Incapaz de chegar a uma resolução, viu-se obrigado a adiar a difícil conversa.

“Deixe para amanhã o que não se quer fazer hoje” ou “Não deixe para hoje o que se pode ser resolvido amanhã”.

Maldição.

MALDIÇÃO.

Dizer a Camus que ele teria de ir embora?

Como, se o que Milo mais queria era ter Camus perto de si!

Se o que mais queria era...

— Camus...?

— Me desculpe por invadir seu quarto, mas é que... ouvi você gritar...

— Eu... gritei?

— Sim, gritou. Parecia bem desesperado. Estava sonhando. – O ruivo explicou em tom baixo, tranquilo, ainda que por dentro estivesse mortalmente preocupado com o policial.

— Oh. Eu... desculpe... acordei você.

O ex-Redentor sorriu com suave amabilidade.

— Isso compensa as inúmeras vezes em que acordei você. – Murmurou.

— Eu... meu Deus. – Milo esfregou o rosto com as duas mãos. As palmas se umedeceram... suor? Lágrimas? – Parecia tão real... tão real...

Esperou que Camus inquirisse acerca do teor do sonho. Vendo que tal não acontecia – o outro meramente o fitava com incômoda insistência – rendeu-se e comentou:

— Foi horrível.

Em um gesto enigmático, Camus assentiu. Encararam-se por alguns minutos, na meia luz da luminária acesa na cabeceira da enorme cama. Milo ainda estava com o roupão de banho, sequer trocara de roupa, pois que vira fracassar seu jantar com o hóspede que em breve o deixaria.

Camus o deixaria.

Não.

ELE deixaria Camus.

Era preciso.

Para o seu bem. Para o seu próprio bem. Para o bem de AMBOS.

Um bem que feria seu coração.

— Milo – O ex-messias ergueu as sobrancelhas bifurcadas, confuso. – por que está chorando?

Lágrimas precipitavam-se sem trégua dos belos olhos cor de turquesa.

— Camus – Sussurrou o loiro. – não me deixe. Não quero que vá embora.

O jovem ficava cada vez mais confuso.

— Mas eu não vou a lugar nenhum. Do que está falando, Milo?

— Não quero que vá embora. Não quero, ouviu bem? Eu NÃO quero que você fique longe de mim – O policial repetia febrilmente, inclinando-se para o rapaz, que, preocupado, acabara por se sentar na cama, a fim de ficar mais perto do homem que, claramente, estava em meio a algum tipo de crise.

— Eu não estou entendendo o que diz – Confessou Camus, balançando de leve a cabeça, consternado. Sentiu os ombros pesados sob as mãos trêmulas de Milo.

— Você NÃO PODE ir embora. NÃO PODE me deixar... porque... porque... – Milo puxou-o para si, abraçando-o com sofreguidão.

— Milo...?!?

Ficaram assim um bom tempo, um sentindo o calor do outro, um sentindo a respiração do outro, um sentindo as desordenadas palpitações do outro, até que Milo, sob tantas emoções que se fundiam em uma maior e mais imperiosa, ousou proclamar com voz rouca:

— Eu não vou deixar você partir... porque EU TE AMO.

Camus poderia jurar que seu coração parara de bater.

Antes que sua mente lhe oferecesse quaisquer defesas, explicações ou escapatórias, sentiu a pressão doce e quente dos lábios de Milo sobre os seus. A suavidade daquele contato não demorou a ser substituída pela urgência do agente, cuja língua invadiu sem reservas a boca de um ainda estupefato Camus. O efeito das palavras ainda retardava seus reflexos. Percebendo-o, Milo beijou-o com extrema volúpia, mordiscando-lhe por vezes a delicada carne daqueles lábios frementes. À medida que enfim as pálpebras do ex-Redentor desciam, sua boca de receptiva passou a ativa durante o delicioso processo. Permitiu-se levar as mãos até as mãos daquele que o puxava pela cintura. Ambos sentiram-se subitamente possuídos por um estrondoso desejo, seus corpos aquecendo-se durante aquele beijo longo e repleto de ardor. Quando suas bocas famintas se separaram, Camus conseguiu enunciar um murmúrio:

— Milo...

— É isso mesmo que você ouviu. Eu AMO VOCÊ, Camus. Eu quero você ETERNAMENTE comigo. Mas... e você, Camus? O que sente por mim? Não me diga o que quero ouvir, me diga o que sente... o que QUER, o que ESCOLHE...?

— O que eu sinto? – Balbuciou, sentindo-se à beira de uma síncope sob o olhar sequioso e apaixonado do loiro.

— Sim, eu preciso saber... eu preciso saber se não estou forçando as coisas, se não estou magoando você ou te deixando desconfortável, porque, inferno, eu tentei fugir como um louco deste sentimento, com medo de mim, com medo de que você... hã? Você tá RINDO?

—Desculpe… é que... eu não estou entendendo nada do que você está me dizendo, Milo – Admitiu o ruivo, com um sorriso tão doce que o policial quase caiu desfalecido.

— Certo. Eu... vou tentar ser mais direto: Camus. Eu te amo e quero saber se sente o mesmo por mim.

— Acho que você SABE muito bem essa resposta, Milo.

— C-Camus...

O ex-messias afastou-se dele. De pé, junto à cama, pôs-se a desabotoar o paletó do pijama, revelando aos poucos seu torso magro e branco. Hipnotizado, Milo viu-o tirar, resoluto conquanto vagarosamente, a calça comprida lavanda. Contra a tênue iluminação alaranjada, a nudez de Camus emocionou-o quase às lágrimas: pela beleza de suas formas, pelas marcas e cicatrizes de tempos tão tenebrosos, mas, sobretudo, por seu oferecimento tão legítimo, decidido, sensual. Esforçando-se por ser igualmente controlado em seu gestual, o loiro tirou de si o felpudo roupão preto. O ruivo não pôde deixar de ficar boquiaberto ante a visão daquele corpo vigoroso, maravilhosamente moldado, estupendamente másculo. Deixou a mão de Milo tomar a sua; para ele foi delicadamente conduzido, seu corpo como que mergulhando naquele oceano dourado banhado pelo sol. Um beijo fervoroso selou novamente seus lábios enquanto se entrelaçavam sobre o leito. E entrelaçando-se daquela forma, o encontro de suas peles, de suas carnes, de seus ventres, suas coxas, suas virilhas fazia-os suspirarem e gemerem excitados um dentro da boca do outro. Em determinado momento, Camus interrompeu o beijo, seu rosto vermelho como seus cabelos em desalinho.

— Espere, Milo. Eu... eu ainda não disse...

— Sim? O quê? – Demandou o agente, ansioso.

— Eu não disse que te amo.

— Pois é. – Riu o loiro, nunca deixando de acariciar-lhe as costas e os flancos arrepiados. – Você não disse.

Camus postou sua boca úmida bem próxima ao ouvido de Milo, que sentiu todos os pelos do corpo se eriçarem ao ouvir:

— Eu também te amo.

— Camus! – Agarrou-o, quase desesperado. Eles rolaram pela cama, rindo como crianças.

— Amo você, Milo!

— E eu amo você, Camus, meu Camus!

Voltaram aos beijos avassaladores, combustíveis para o fogo que já se alastrava pelos seus corpos há tanto sequiosos um pelo outro.

— Você me deu prazer ontem... muito prazer... hoje é a MINHA vez de te dar prazer, Camus – Anunciou o agente, posicionando-se acima do ruivo, deitado de barriga para cima.

— Milo! Eu não quero...

— Você não quer? – Paralisou, alarmado.

— ...não quero retribuições... eu quero SEMPRE te dar prazer. – Completou, nunca desviando os olhos determinados.

Entre aliviado e excitado, Milo riu. Assegurou:

— Você vai me dar... de todos os modos, você vai me dar prazer...

Dito isto, pôs-se a beijá-lo no pescoço, na junção com o ombro. A pele de Camus era aveludada, incrivelmente macia... seu cheiro inebriava o loiro cada vez mais. Aos poucos a própria língua tomou a frente naquela exploração. O ruivo experimentava sensações inéditas em sua vida. Considerando seu semblante deliciado com aquelas carícias, Milo soube que poderia ir além... experimentou passar a língua por sobre um mamilo róseo, bem devagarinho, notando-o endurecer aos poucos... as pernas de Camus tremeram entre as pernas do amante. Além dos toques molhados, lentos e insistentes em seu mamilo já sensibilizado, sentia entre suas coxas o pênis de Milo enrijecendo-se, pressionando... uma mordiscada na delicada região insistentemente estimulada fê-lo quase choramingar:

— Mi-Milo!... – Inconscientemente, projetou seu quadril rumo ao de Milo. Este sorriu enquanto aspirava o local de seu ataque; o loiro ainda lambia, chupava e mordiscava um mamilo após o outro quando levou a mão até o interior cálido das coxas de Camus, que arfou, agoniado.

— Shhh... não se afobe...

— Milo... por favor...!

— É claro... é claro, meu amor.

Uma inspiração profunda prendeu-se na garganta do ruivo quando este sentiu a mão de Milo sobre seu pênis ansioso. Cerrou as pálpebras trêmulas, dominado por sensações inomináveis... delicada e ardorosamente Milo beijava-lhe a barriga, o ventre que desembocava no macio tufo ruivo, agora massageando-lhe com torturante gentileza o sexo rosado.

— M-Milo... aahhn...

Os dedos de Milo circundaram a extensão rígida, por vezes empreendendo movimentos ascendentes e descendentes, por vezes estimulando a base do pênis ou a glande inchada e avermelhada; nesta, ora o indicador, ora a palma da mão do policial realizava rotações provocadoras. Gemidos baixos e longos do ex-messias guiavam Milo naquela inédita ação, além do que lhe guiava o instinto dos que amam: dar prazer a outro homem.

— Aahn... ahh... Milo!

Seu próprio membro começava a latejar com incômoda urgência ante a visão de Camus desfeito na cama, transtornado de desejo, pernas abertas para ele, gemendo para ele, crescendo para ele... não pôde mais aguentar a vontade de tomar aquela pulsante ereção em sua boca; iniciou por deixar sua língua deslizar devagar pelo pau incrivelmente crescido de Camus. Este gemeu seguidas vezes sob as provocantes ministrações do policial; tentava não elevar a voz em demasia, e conseguia-o, a grande custo, mesmo quando teve as bolas chupadas e lambidas com uma suavidade jamais experimentada. Os lábios de Milo premiram-lhe a cabeça do pênis, e ele pôde deleitar-se com o ar quente proveniente daquela boca maravilhosa em seu sexo. Quando o loiro abocalhou-lhe o sexo de maneira mais aprofundada, abrigando-lhe quase por completo na boca faminta, o ex-Redentor não suportou e gemeu mais alto:

— MILOOO... AAAHN... AHH...

Camus não podia acreditar no que estava sentindo. O que era AQUILO?

Então era assim, quando...

... quando havia vontade?

Quando havia desejo?

Quando havia amor?

Quase com inflamável agonia sentiu seu pênis ser sugado, aspirado, lambido, degustado pela boca carnuda do homem que amava. Algo em seu baixo ventre formigava de um modo tão prazeroso que, ao mesmo tempo em que ansiava pela explosão que se avizinhava, queria que a mesma nunca viesse... nunca... nunca... seria, porém, impossível! Arqueou o corpo, imerso naquele prazer que pareceu parti-lo em dois, em três, em mil, quando o orgasmo atingiu-o, poderoso como um raio, enquanto ele gemia demoradamente:

— Miiilooo... huumn...uhn... ahhh...!

Em meio aos violentos espasmos, sentiu sua semente jorrar abundante para a concavidade quente e deliciosa da boca de seu amado. Estremeceu, convulso, temendo que seu coração parasse em meio àquele gozo arrebatador. E então, tal qual uma flor que fenece após uma tormenta de verão, deixou-se desfalecer sobre os lençóis amarfanhados.

Sorvendo cada gota do néctar do homem que agora admitia, mais do que nunca, amar, Milo contemplou, maravilhado, o amante pleno e ofegante diante de si. Os lábios rubros entreabertos, as faces afogueadas, os longos cílios que tremiam deixando entrever os olhos castanhos úmidos...

“Jamais vi algo tão lindo em toda minha vida”, pensou, emocionado. Debruçou-se sobre ele para depositar-lhe na boca arfante um beijo singelo, apaziguador. Atordoado, Camus mirou fundo seus olhos azuis e declarou, fracamente:

— Agora... agora sou eu que...

— Shhh. – Fez o loiro, acariciando com ternura o rosto do ex-messias. – Relaxe. Você já fez isso em mim ontem. E foi fantástico.

— M-mas... eu quero que você sinta prazer, Milo...

— Eu já estou sentindo, meu amor. E... na verdade... – Mostrou o próprio sexo, ereto e rígido. – ... tenho outros planos no momento...

Beijou-o carinhosamente, no que foi correspondido com paixão. Ao término do beijo, concluiu, com um sussurro malicioso sobre os lábios do ruivo:

— ... quero entrar em você, Camus.

— Milo – O jovem arrepiou-se dos pés à cabeça.

— Mas, olha... tudo bem se você não quiser, tá? Eu...

Os braços brancos e marcados de tantas sevícias enlaçaram o agente.

— Como, se é o que eu mais quero nesta vida, Milo?!?

O policial sorriu feliz.

— É o que mais quero nesta vida também... é o que mais quero! – Ataviou, empolgado.

A questão era que, por muito que, com todo seu instinto, paixão e amor, quisesse aquilo... a razão gritava a Milo que ele jamais tinha feito sexo com um homem... ter Camus nu, entregue, quente e palpitante, entretanto, afugentava essa “razão” residual, parte da qual sucumbia fragorosamente, derrotada pela excitação dominante. Para sua surpresa, o ex-Redentor tomou-lhe os lábios de forma abrupta, ávida. Elevou uma das pernas para acima de seu quadril, oferecendo-se ansioso.

“Eu quero entrar nele. Eu PRECISO entrar nele... mas...”, pensou em que, se para fazer sexo anal com mulheres, um bom lubrificante era sempre bem vindo, com homens...

— E-espere um pouco, Camus.

O ruivo olhou-o com uma expressão de encantadora curiosidade.

— Eu vou... pegar uma coisinha. Já volto!

E num pulo quase cômico saiu da cama, tão estabanado que quase caiu. Camus ficou sem entender nada.

De uma das gavetas do armário de sua suíte, Milo tirou um tubo preto e azul. Voltou correndo para a cama e explicou:

— Fui buscar um lubrificante.

Camus franziu as sobrancelhas.

— O que é isso?

— Um lubrificante? É pra...

De repente, deu-se conta do por que Camus não sabia o que era aquilo...

“Claro. Que burro eu sou. Ele... meu Deus, ninguém NUNCA se importou em não machucá-lo durante...”

— Milo? O que foi?

O policial saiu de seu transe momentâneo.

— Isto... é para que as coisas fiquem mais confortáveis enquanto eu... entro em você. – Explicou, com um sorriso, sem jeito.

— Ah.

Milo preferiu não saber o que significava aquele “ah”.

— Abra as pernas e procure ficar bem relaxado – Pediu, incerto do que estava dizendo.

— Está bem.

Respirando rapidamente, o agente depositou sobre os dedos da mão direita o produto e levou-os até a entrada rósea à sua espera. Camus teve um estremecimento de surpresa ao sentir a textura gelatinosa aspergida em seu ânus; sentir os dedos do amado espalhando o lubrificante em movimentos suaves e circulares provocou sensações que fizeram o ruivo suspirar, deliciado:

— Aaah... Milo... isso é bom...

— Vai ficar melhor ainda, meu amor. – Passou a acariciá-lo lentamente, deliciando-se com aqueles tremores e vocalizações. – Só que... no início pode incomodar um pouco, e...

— Nada com você poderá me ser incômodo, Milo. Apenas venha. – Demandou o ex-messias, enfático.

— C-certo...

Com todo cuidado, Milo introduziu o indicador no botão umedecido; sentiu-lhe o interior contrair-se ante a invasão. Camus inspirou longamente, buscando o ar para suportar. O loiro explorava, atentamente, a melhor forma de prosseguir. Com movimentos circulares, procurava alargar o caminho. Quando se sentiu mais confiante para tal, enfiou nele um segundo dedo; desta vez, Camus gemeu de modo dúbio.

— E-está doendo? – Quis saber Milo.

O ruivo não se preocupou em responder: parecia absorto em sua própria missão, pelo prazer que sabia certo e vindouro.

“Devo fazer o mesmo”, avaliou o policial, concentrando-se em preparar o amado para recebê-lo. Um novo gemido de Camus provocou fisgadas em seu saco escrotal; suspirou profundamente ao senti-las, cada vez mais desejoso de penetrar o amante...

— Mi-Milo... por favor... venha logo! – Implorou, cerrando os olhos.

— Logo, meu amor... não vai demorar... – Ousou introduzir um terceiro dedo, após uns minutos de carícias internas.

Sentia aquelas paredes internas se contraírem de quando em quando, chamando-o, clamando por ele... não saberia quão mais suportaria. O peso entre suas pernas aumentava a um nível quase intolerável. Massageou-lhe por dentro, carinhosamente, mais guiado pelas reações do ruivo do que por conhecimento próprio. Se no início indubitavelmente Camus experimentara certa estranheza, agora afundava em uma nuvem de entorpecimento e deleite. Então era ASSIM, quando havia AMOR, CUIDADO, quando a outra pessoa se IMPORTAVA! Aquilo era novo, malgrado perdesse a conta de quantas vezes haviam-no tomado.

Não.

Não deveria pensar em tais coisas.

Eram PASSADO, de qualquer forma.

Não deveria pensar em NADA. Somente em Milo.

Em Milo e mais nada!

Milo dava-lhe prazer.

Milo amava-o.

Milo tinha cuidado com ele.

Era simplesmente INJUSTO pensar em qualquer outra coisa!

Concentrou-se nas inebriantes sensações proporcionadas por Milo... Milo acariciava-o por dentro, ia cada vez mais fundo, insistente, até que...

— Aaaahn... Milo... MILO!!!

A princípio, o policial deteve-se, receoso de estar machucando-o. O semblante extático de Camus, contudo, desfez os medos de Milo, que sorriu, eufórico, vendo-se no caminho certo. E isso era magnífico, tanto porque queria proporcionar ao ruivo prazeres aos quais este nunca tivera direito, quanto saciar sua própria libido, que gritava...

— Camus... e-eu vou...

Retirou os dedos de dentro do amante, que gemeu quase em um dolente protesto; conduziu seu pênis inchado até o anel lambuzado e piscante. Começou a passar ali a ponta do membro, experimentando aquela textura quente, receptiva. Camus arqueou os quadris em uma súplica muda. Armando-se de coragem e muito, muito autocontrole, o policial deu início à penetração, aos pouquinhos, bem devagar...

— C-Camus... oooh... puta merda... eu quero mais que tudo te foder com toda minha...

“Seu imbecil, não fala assim com ele! Pra você, dizer essas merdas pode dar tesão, mas vai que pra ele ouvir isso traz lembranças ruins?”

Quando Camus gemeu alto e mordeu o lábio inferior, totalmente entregue ao desejo, como ele, Milo viu que não havia razão para se conter em demasia. Queria tanto! E Camus também queria. Precisava, até. A julgar pela quantidade que ejaculara...!

Ambos queriam.

Ambos necessitavam.

— Aqui vou eu... – Murmurou, enfiando mais o seu pênis na caverna que agora o engolia com sofreguidão. Percebeu uma nota de dor nos novos gemidos do amado, subitamente abafados e angustiosos. Prendeu a respiração e manteve-se imóvel por uns segundos. E então, percebendo acomodar-se melhor dentro do ruivo, permitia-se avançar. Novos gemidos, novas paradas. Enquanto ambos arfavam embebidos um pelo hálito do outro, o membro de Milo ajustava-se ao macio e quente recôndito do ex-messias. Miraram-se, embevecidos pela imagem um do outro.

— Você é a coisa mais linda que eu já vi em toda minha vida. – O loiro sussurrou, o fogo a espargir-se por suas entranhas.

— Milo... – Queria enunciar algo semelhante, pois detinha a mesma opinião acerca de seu amado, mas som algum poderia substituir os gemidos descompassados que emitia.

Considerando-se plenamente abrigado pelo corpo de Camus, Milo iniciou as estocadas de forma pausada porém firme, desbravadora. Para ele o ex-Redentor elevou os braços, enlaçando-o no calor de seu lúbrico desespero. Aquilo encorajou Milo a ser mais enérgico; passou a arremeter-se mais fundo, intercalando movimentos rápidos e lentos, cingindo o ruivo pela cintura, beijando e lambendo alucinadamente sua pele branca.

— Aaahh! Ah! Milo! Miiloo...

— Caamus! Uuhn... ah...

Camus estava quase fora de si. O que sentia... jamais imaginava que as pessoas sentissem AQUILO. Tinha vontade de sentir ainda mais, para sempre, mais forte, mais fundo, queria explodir com Milo dentro de si... enlouquecia com Milo o possuindo daquela forma, conduzindo-o a algo sublime e poderoso... além das fisgadas em seu sexo imprensado entre os corpos suados e ardentes em incansável fricção.

Milo controlava-se para não ser bruto, pois que o desejo já brigava com sua razão; o canal que apertava seu sexo esmagava simultaneamente sua lucidez, ele bufava, grunhia... não aguentaria por muito mais tempo... notou o pênis rosado de Camus enrubescer-se, túrgido, dando pequeninos e visíveis espasmos entre seus abdômenes; tomou-o em sua mão e começou a bombeá-lo em meio àquele crescente frenesi. O ex-Redentor gemeu alto em franca angústia. Os dedos fechados em torno de seu sexo umedeceram-se com o pré-gozo; a masturbação tornou-se mais rápida e intensa. O policial engoliu em seco ante as contrações ao redor de seu membro às portas de ser esfolado. Trancou a mandíbula, certo de que ambos estavam muito próximos do fulminante clímax... não, não aguentariam por muito mais tempo...

— MILO!!! EU... AH!!... AAAAAAHHH...

Por entre os dedos de Milo, firmemente enganchados em seu pênis, uma cascata leitosa transbordou. Camus gozou fartamente com a masturbação e a profunda penetração. Seu orgasmo causou uma violenta revolução em suas entranhas, praticamente mastigando o órgão do policial, já à beira da explosão. Milo agarrou seu ruivo pela cintura com mais força ainda, praticamente gritando enquanto gozava com uma potência inimaginada...

— CAAMUUUS! AAAHH! UHHN... OOH...

Seus longos cabelos dourados cobriram a convulsa figura abaixo de si, seu corpo igualmente sob uma sequência de espasmos. Abraçaram-se quase aos soluços, buscando sôfregos a boca um do outro. Um beijo arquejante, a princípio; pouco a pouco, a serenidade advinda dos suspiros expirados pelos lábios trêmulos. Seus olhos se abriram, buscando-se mutuamente. Ainda unidos, ainda convertidos em um só corpo, eles saboreavam o mais excelso momento de suas vidas. Milo acariciou o rosto de Camus, como quem toca um tesouro há muito perdido, há muito procurado, finalmente encontrado.

— Eu te amo, Camus,

Com idêntica devoção, o ex-messias sorriu com uma leveza que o fez resplandecer. Também acariciou a face do amado. Sussurrou, sem forças, porém pleno como nunca:

— Eu te amo, Milo.

O loiro sentiu os olhos umedecerem. Com delicadeza, retirou-se de dentro do amante a fim de estreitá-lo completamente em seus braços. Com as frontes unidas, banhados pelo hálito amoroso um do outro, ali ficaram por longos e longos minutos, até seus contornos começaram a ser tingidos pelo ouro dos raios do sol nascente. Ambos voltaram os rostos para a janela, cujas cortinas, por não estarem totalmente fechadas, permitiram-lhe a visão de um novo dia que nascia, esplendoroso como o sentimento que os unia.

— Está amanhecendo – Murmurou Camus, tão doce quanto sonolento.

— Sim... uma longa noite chega ao fim.

— O fim de uma longa noite...

Encararam-se apaixonados, internalizando todos os sentidos que aquela frase pudesse ter.

*************

Notas finais
- Quebra da Bolsa de 1929 (mencionada por Aiolia) - A Grande Depressão, também conhecida como Crise de 1929, foi uma grande depressão econômica que teve início em 1929 e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial (fonte: Wikipedia) — Os trechos em negrito que aparecem durante os pensamentos de Milo em seu banho são do capítulo 21 da fic, quando Camus vai à cabana de Aldebaran, agradecer a Milo por ter se oferecido em sacrifício em seu lugar. ************* Espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu AMEI escrever... realmente, foi, sem dúvida, um dos capítulos de que eu mais gostei de escrever, por razões óbvias... yes, mes amis, Milo e Camus enfim são um casal na fic! O que os espera à frente? Seja o que for, eles finalmente consumaram seu já patenteado na história amor... Que todos vocês estejam em segurança neste delicado momento do mundo, único em nossas existências. Com amor... Amelinda... Até o próximo capítulo... stay safe!