Redentor

30 Éden - Ato II : Refúgios


Notas iniciais
Hello, hello! Atualização foi rapidinha, né? Em comparação com as anteriores... é o "efeito férias" (de quem não viajou, kkk). Agradecimentos a quem está acompanhando a fic, apoiando, e a quem comentou o meu MUITO, MUITO OBRIGADA :) Não há avisos dignos de nota. Boa leitura!

Antes mesmo que qualquer um dos dois proferisse alguma palavra, Milo adiantou-se:

— Camus, esta é Natassia, minha ex-esposa, mãe de Hyoga. – Virou-se rapidamente para a russa, dirigindo-lhe um amistoso sorriso. – Chegou em boa hora, acabei de preparar um chocolate quente. Sente-se.

Com ar zombeteiro, a loira continuou a encarar Camus, sem nada dizer. Este sustentou o olhar, sem parecer intimidado. Ambos continuavam de pé durante aquele embate visual.

— Que tempo está fazendo, hein? Você é corajosa em sair na rua... espero que não seja nada com Hyoga. Se bem que, se fosse, você teria me ligado, não é? – O agente tagarelava a fim de povoar aquele estranho silêncio.

Então Natassia tornou o olhar claramente reprovador para o ex-marido.

— Então os rumores eram verdadeiros. Você trouxe o Redentor para cá. – Disse, de forma contundente.

— Rumores? Acho que isso foi noticiado. – Rebateu Milo, nada satisfeito com a fala e o tom por ela utilizados.

— Nunca se sabe o que é verdade ou o que é mentira na imprensa suja deste país.

— Bem, vamos começar com você aprendendo o nome dele MAIS UMA VEZ. É CAMUS. E não “Redentor”.

— É como o chamam até hoje, nas notícias e reportagens! – Volveu a loira, com desdém.

— Certo. Olha... Natassia... eu agradeceria se você pudesse, de maneira pacífica, dizer o que a traz aqui.

Nesse momento, Camus pareceu sair de algum tipo de transe, ao qual foi conduzido pela animosidade recém instalada onde antes só havia harmonia e relaxamento. Ousou dirigir-se à ex-mulher do agente:

—Boa tarde, senhora Natassia.

Ela o ignorou. Milo encarou-a com reprovação. Imperturbável, o ruivo disse calmamente:

— Creio que seja melhor que conversem a sós. Eu vou para o meu quarto. Com licença.

E saiu da sala a passos suaves. A russa acompanhou-o com o olhar indignado até o corredor. Quando ouviu o som de porta se fechando, voltou a olhar o ex-marido. Soltou um suspiro exasperado antes de dizer:

— “Meu quarto”. Já está assim? Já tomou posse da casa dessa forma?

— Por que está aborrecida com a presença dele em MINHA casa? É MINHA unicamente porque VOCÊ se recusou em continuar morando aqui com Hyoga. Eu me ofereci pra sair, deixaria o apartamento de bom grado pra você criar nosso filho aqui.

— Não seja ridículo! Acha que eu ficaria em PAZ morando onde meu ex-marido me traiu tantas vezes? Onde dormiram vagabundas enquanto eu viajava a trabalho ou ia visitar meus pais?!?

O policial tentou recobrar a calma. Passou a mão sobre a fronte, cerrando os olhos azuis por breves segundos.

— Entendo suas razões. Só quis lembrar que eu me ofereci pra... bem, como sabemos, é MINHA casa. Por que se incomoda com quem a frequenta AGORA?

— “Frequenta”?!? Você trouxe esse... esse rapaz para MORAR aqui!

— Se está tão inteirada das notícias, sabe as razões.

— É, eu soube. O que eu não soube é que a casa do PAI DO MEU FILHO tinha virado um maldito abrigo para enjeitados da sociedade – Zombou, braços cruzados e atitude inflexível.

— Eu continuo sem entender por que isso te aborrece tanto... – Arregalou os olhos, ouvindo novamente, em sua mente, a última frase proferida pela ex-esposa. – O problema é o Hyoga? Você tá brava com o Camus aqui... por causa do Hyoga?

— Que graaande gênio... até que não demorou tanto para entender.

— Mas... o que...

— É isso mesmo, Milo. Não é frequente, mas vez ou outra, Hyoga vem passar dias com você. Não me agrado em saber que meu filho estará debaixo do mesmo teto que... – Lançou um olhar de repulsa para o corredor, na direção para a qual Camus havia se evadido. – ... ELE.

Balançando a cabeça em franca estupefação, o policial quis saber:

— POR QUÊ? Que DIABOS tem isso a ver?

— Ora, você não sabe mesmo? O seu NOVO AMIGUINHO não é o centro do maior escândalo da atualidade?

— Fale baixo!

— Esse cara é um DOIDO VARRIDO que achava que era Jesus! Se é que AINDA NÃO ACHA... pensa que quero meu filho perto de um LOUCO como ele?

— Abaixa a voz – Ordenou, agora realmente irritado, em um esforço sobre-humano para manter a voz baixa, quando a vontade era gritar com ela. – ou eu te ponho pra fora, Natassia. Não quero ser grosseiro, mas também não quero que ele ouça essas coisas horríveis.

— Ah, caso contrário ele vai ter um surto ou coisa do tipo? – Ela realmente abaixou a voz, sem contudo abandonar o tom cruel.

— Camus NÃO é louco. Você viu as notícias, ele foi ENGANADO pelo próprio pai. Obrigaram o coitado a assumir o papel de “messias” daquela seita desgraçada. Ele está pouco a pouco entendendo tudo que aconteceu através destes anos todos, mas nada disso o deixou incapaz mentalmente. É só questão de se adequar à realidade... à NOVA realidade da vida dele.

— Eu vi as matérias. Como pode afirmar que depois de TUDO que esse homem viveu a sanidade dele NÃO foi afetada?

— Afirmo porque foi o que os psiquiatras afirmaram. Camus precisa de assistência psicológica... de ser ouvido... de falar... de entender o que houve. Aliás... – Alfinetou. – Tem MUITA gente precisando disso por aí.

Se aquilo a atingiu, ela disfarçou muito bem. Deu uns passos pela sala, parou e então virou-se bruscamente para o loiro.

— Mesmo que ele não seja louco... – Frisou bem as palavras. – não quero Hyoga perto dele.

— Quê? Mas acabei de dizer…

— Sim, sim, eu já entendi. – Interrompeu-o, impaciente. – Os médicos podem não ter identificado nenhum distúrbio grave nesse rapaz. Acontece que... bem... ele foi... segundo as notícias... molestado... violentado por ANOS... até pelos próprios irmãos...! E se ele não desenvolveu alguma... alguma TARA?

— Como é que é?!?

Natassia deu de ombros. Simplesmente prosseguiu:

— É, sei lá. É algo que sempre vemos em programas e crônicas policiais: um molestador que foi molestado na infância ou na adolescência...

— CRIS-TO-JE-SUS. Você está SE OUVINDO?

Milo deixou-se cair sobre uma das cadeiras; de tão abismado com o que ouvira, perdeu as forças. Seu sangue parecia fervilhar, seu corpo parecia formigar. Olhou para ela, visivelmente terrificado.

— Você sempre foi RUIM assim, Natassia? Ou ficou por MINHA CAUSA?

— Fique com a dúvida, meu caro. O que quero dizer aqui é: enquanto o “Redentor” estiver nesta casa, meu filho NÃO VEM mais para cá.

— Ele é MEU FILHO também. Você não pode impedir que ele venha à casa do próprio pai!

— Isso é o que você pensa.

— Não, isso é o que É – O policial pôs-se de pé, o estupor sendo substituído pela ira. – E como advogada, você SABE disso.

— Pois eu conheço pessoas, e...

— E o QUÊ? Tem alguma EVIDÊNCIA de que o meu HÓSPEDE representa PERIGO para o NOSSO filho?

Ela calou-se, trêmula de raiva.

— Não. Você não tem. Nem poderia ter. – Sentenciou, triunfante. Caminhou lentamente até a ex-mulher, que chegou a dar alguns passos para trás. – Mas sabe o que EU tenho, Natassia? Registros por escrito e em áudio de seus grandes RESSENTIMENTOS para comigo. Não que eles não tivessem razão de existir. Mas existem. E justificariam qualquer PALHAÇADA que você OUSAR fazer nesse sentido.

— Seu... seu... – Não pôde sequer articular uma réplica; tornou-se quase ofegante de cólera.

Milo deu-lhe as costas e foi até a porta. Abriu-a, fazendo um gesto para que ela se retirasse. A loira nada mais enunciou; saiu, sempre de cabeça erguida, mas no fundo mordida pela derrota naquele embate.

Longe de ficar satisfeito com o que acabara de ocorrer, o policial correu os dedos pelas mechas douradas. Por uns instantes, ficou em processo de assimilação do acontecido. Em seguida, olhou na direção do quarto de hóspedes.

“Camus! Merda...”, pensou, rumando apressadamente para lá. Bateu à porta, chamou-o seguidas vezes. Não obtendo resposta, resolveu abrir.

Não estava trancada, mas Camus não estava ali.

— Camus? Está no banheiro?

Bateu à porta da suíte, novamente sem obter resposta. Mexeu na maçaneta.

A porta estava trancada.

— Camus, por favor, abre, vai. Quero falar contigo.

Silêncio.

— Camus?

Milo encostou o ouvido na superfície de madeira. Nada conseguiu escutar. Bateu de novo.

— Camus!

Não adiantou. Milo passou a língua sobre os lábios, incerto se o que estava prestes a fazer era uma medida acertada. Porém... temia que Camus...

— Camus, se você não abrir, eu... isso é horrível, mas eu vou pegar a chave reserva e vou abrir. Tá me ouvindo? Camus!!!

Como seus apelos seguiam ignorados, o agente correu até o próprio quarto, onde guardava chaves reserva de todos cômodos do apartamento. Voltou até a suíte na qual o ex-Redentor se encerrara; abriu-a.

Não que não tivesse ficado aliviado ao vê-lo de pé, e não... bom, chegou a temer pelo pior... no entanto, ainda assim um arrepio correu pela espinha de Milo. Camus mantinha-se de pé no centro do banheiro, completamente imóvel, completamente emudecido. Seu olhar perdido parecia atravessar o policial. Este, sem saber o que dizer ao certo, gesticulou ao explicar-se:

— Desculpe por abrir a porta assim. Não tinha a impressão de invadir sua privacidade, mas... você não respondia... tive medo de que estivesse... passando mal...

Camus não se moveu, nada falou. Assemelhava-se a uma estátua, tanto pela mudez quanto pela imobilidade... e por seu olhar sem vida. Milo estapeou a própria cabeça.

— Você... droga. Você ouviu o que a Natassia disse. – Murmurou o loiro.

Voltou a fitar o ex-messias: nenhum traço de lágrimas, nenhum indício de crise. Camus estava terrivelmente pálido. O olhar mortiço levava a duvidar de que houvesse alma naquele corpo.

Talvez fosse até pior vê-lo daquele jeito do que aos prantos.

— Camus? – Milo ergueu uma das mãos para ele, retraindo-a imediatamente, ao perceber que o rapaz tivera um leve sobressalto ante o gesto.

Um brilho vívido manifestou-se enfim nas íris avermelhadas. O ruivo deixou entreabrir a boca, como se fosse falar algo, mas nenhum som saiu de seus lábios.

— Camus...

— Está tudo bem, Milo. – Disse, com voz firme.

— NÃO ESTÁ NÃO. Por que está aqui, deste jeito? Por que não me atendia? Foi porque ouviu as atrocidades que Natassia...

O ex-Redentor afastou-se mais do policial. Repetiu, como que desprovido de qualquer emoção:

—Está tudo bem.

— OK. Não quer falar comigo, NÃO FALE. Já que não confia em mim...

“Porra, Milo, sem chantagem emocional”, ralhou o agente consigo mesmo, em pensamento, “o doutor Finkler avisou... não posso forçar Camus a...”

— Escuta. Se não quer falar comigo, tudo bem. Mas... fale com a Saori depois, OK?

— Por que devo falar com ela?

— Camus! Foi o combinado com o médico! Vai te ajudar a...

— Milo. Você JÁ ME AJUDOU. Você me SALVOU.

— Não... não é assim... Camus... você... – Esteve prestes a apontar “você precisa de ajuda”. Organizou uma mensagem mais adequada para transmitir. – Conversar com a Saori vai te fazer bem. Você já conversou com ela algumas vezes. Se sentiu mal? Invadido? Ofendido?

Hesitante, o jovem admitiu:

— Não...

— Ela já te disse coisas boas, não? Já te ensinou algumas coisas sobre o “nosso mundo”. Já disse coisas pra você se sentir melhor, entender mais em relação a esta nova realidade e a si mesmo, não foi?

A expressão do ex-Redentor tornou-se menos distante.

— É verdade. – Sussurrou.

— Eu vou ficar feliz se você conversar com ela.

Se aquilo faria Milo feliz, então...

— Está bem. Eu vou conversar com a doutora Saori.

— Ótimo, parceiro. – Sorriu, aliviado. – Ela vem aqui dentro de alguns dias.

Camus tentou sorrir de volta, corresponder à expressão amável de Milo, contudo, não foi capaz. Para espantar a atmosfera estranha que ali se instalara, o policial manteve o sorriso e pôs a mão sobre o ombro do ruivo.

— Vem. Ainda te devo um chocolate quente.

— Milo...

— Antes, vou colocar no micro-ondas para esquentar, porque...

— Eu já conhecia a sua ex-mulher.

O sorriso do agente deu lugar a uma contração labial promovida pela surpresa.

— Quê? Conhecia a Natassia?

Após dois segundos de hesitação, o ex-Redentor assentiu.

— Como assim? De onde?!?

— No hospital… quando deixei o Vale e… e fui… levado para aquele…

Piscando várias vezes, Milo buscava compreender. Então, em um lampejo de consciência...

— Deus. Ela esteve lá. Ela... ela foi ao SEU quarto?

Camus desviou o olhar, arrependendo-se um pouco de retornar àquele assunto. Entretanto, queria mostrar ao loiro que poderia conversar com ele também. Que poderia sim CONFIAR nele. Assustou-se com o tom urgente através do qual Milo interpelou-o:

— O que ela te disse? O que foi que ela TE FEZ?

— Ela apenas disse... algumas coisas sobre você... seu filho... a princípio, fiquei nervoso, confesso, mas... a Saori me ajudou...

— Camus, ME FALA o que a Natassia te disse!!!

Agora totalmente convicto de que enveredara por um caminho complicado, Camus abaixou a cabeça para responder:

— Ela... eu achei que você estivesse morrendo por minha causa... e que, por minha causa, seu filho... Hyoga... ficaria sem o pai... que Natassia ficaria sem o esposo, m-mas... depois...

— Então foi ISSO que a miserável te disse lá, hã? – Milo não cabia em si de revolta. – Inacreditável!

— Não tem mais importância. Saori me contou que era tudo mentira. – O ruivo fez o possível por parecer tranquilo, convincente.

— Olha – Começou o agente, rouco de indignação. – pode ficar certo que essa... MULHER... NUNCA MAIS vai pisar nesta casa, OK? Eu prometo!

— Não pode impedi-la de vir até aqui. É a mãe do seu filho...

— Eu POSSO e VOU. Dou meu jeito. De agora em diante, sempre buscarei e levarei Hyoga. Essa... cretina não põe mais os pés aqui.

— Não quero ser a causa de desavenças entre vocês. Eu te contei porque... porque quero que saiba que... vou conversar com a doutora Kido, sim, mas... eu... – A palidez cedeu espaço a um discreto rubor. – ... eu confio em você também... sempre.

Inesperadamente, Milo o abraçou. Era para ser uns tapinhas no ombro, no entanto, acabou puxando-o para si, a fim de demonstrar confiança... cumplicidade.

Sob seus braços, Camus temeu sufocar, não pelo abraço em si, mas pelo descontrole absurdo de seu coração. Entreabriu os lábios em busca de ar. Quando afastaram-se, ele acabou erguendo o rosto para o agente, fitando de forma insistente seus olhos azuis. Notou que a boca de Milo também estava entreaberta. Para ela desceu seu olhar insistente...

O abraço cessara, mas Milo ainda mantinha-o junto a si. Como abandoná-lo? Como deixá-lo ir? Perdeu-se nos grandes olhos castanhos, naquele tom quase avermelhado que tanto o intrigou na primeira vez que o viu de perto. Como escapar daquele calor suave porém envolvente que irradiava daquele corpo palpitante? Daquela boca entreaberta, que parecia... parecia prestes a pedir por algo...

Sentir o corpo de Camus novamente tão junto ao seu... e, para Camus, por sua vez, sentir uma vez mais o corpo de Milo tão perto do seu... podiam sentir a eletricidade estalando no ar com aquela proximidade, com a tepidez emanado por suas carnes, seus toques, suas bocas cada vez mais próximas...

— Milo... – Sussurrou o ex-Redentor, de um jeito que beirava a um gemido. As sensações que aquele chamado quase suplicante enviaram ao policial fizeram-no afastar-se quase com brusquidão.

O loiro puxou o ar com urgência, tentando recompor-se. Por Deus! Como estivera, de novo, a ponto de... de...

Inadmissível! Por várias razões! A começar, apenas COMEÇAR, pelo fato de que a pessoa que o levara àquele estado era um HOMEM... mas... essa era apenas a “ponta do iceberg”...

— Eu vou... esquentar nossos chocolates! – Não anunciou; bufou, praticamente. E saiu apressadamente da suíte, deixando ali um aturdido Camus. Este levou a mão ao peito arfante. Não entendia o que se passava. Tantos dele se serviram! Por que a única pessoa que despertara-lhe o anseio pelo toque, por toda sua vida indesejado porém imposto, dele fugia? Invadido pela frustração, passou a língua pelos lábios sequiosos e ignorados, sem entender o que acontecia.

Não imaginava que, na cozinha, também seu anfitrião enfrentava questionamentos mentais, ainda que sob um ângulo diferente...

*************

— Bom dia, Saori, como vai? – Saudou Milo, assim que foi atender à porta.

— Bom dia, Milo. Será que cheguei cedo demais?

— Não, chegou bem na hora. Entre, por favor.

A psicóloga, trajando um conjunto em tons verdes pastéis composto de saia mais escura, até os joelhos, e blusa mais clara, por sobre a qual pendia um clássico colar de pérolas, adentrou. Entregou a Milo seu casaco preto ao ganhar a sala de estar.

— Quer um café? Um suco?

— Não, obrigada, Milo.

— Bom dia, Saori.

Ela virou-se para o jovem que a cumprimentara; ele vestia uma calça de moletom preta e uma camiseta branca lisa. Trazia os longos cabelos presos em um rabo de cavalo baixo. A nissei ficou satisfeita em vê-lo tão à vontade. Ao que parece, Milo estava conseguindo um milagre! Se bem que, ela imaginava perfeitamente o que estava auxiliando aquele processo todo... mas, pelo visto, o policial ainda não assumira seus sentimentos, ao menos abertamente, logo, não lhe cabia apontar coisa alguma. Sabia, outrossim, que o ex-Redentor partilhava daqueles sentimentos, ficara-lhe evidente desde o primeiro instante com o rapaz resgatado.

— Tudo bem, Camus?

— Sim, obrigado, e você?

Com toda sua experiência, Saori não conseguia discernir se a cortesia do jovem, antes tão esquivo, era sincera ou algo que ele estava aprendendo através de observação no “novo mundo”. Talvez um misto dos dois, uma vez que Camus não dava mostras de já deter manejos sociais dissimulativos.

— Estou ótima, muito obrigada. Preparado para nossa primeira conversa?

Dirigindo um olhar interrogativo a Milo e à doutora, seguidamente, o ex-Messias observou:

— “Primeira conversa”? Mas nós já nos falamos algumas vezes...

— Sim, mas quando digo “primeira conversa”, me refiro ao formato e abordagem. Será nossa primeira conversa dentro de seu programa oficial de reabilitação, dentro do processo de terapia, por assim dizer.

— Ah. – Murmurou o ruivo, sem entender com exatidão.

O policial indicou sofá da sala, dizendo:

— Vocês podem ficar à vontade. Vou aproveitar para ir à academia renovar meu contrato. Depois emendo com uma corridinha.

— Deve estar sentido falta de suas atividades físicas. Imagino como não foi para você ficar todos esses meses sem treinar. – Comentou a psicóloga, notando que, apesar disso, ele conservava a compleição vigorosa, ainda que um pouco mais magro.

— A bem dizer, os safados do vale não me deixavam ficar sem pegar no pesado... tinha que estar sempre fazendo algum serviço braçal, praticamente sem descanso, então, não dá pra dizer que fiquei exatamente sedentário. – Falou, concluindo com uma risada resignada. E, voltando-se para Camus, assegurou: – Já deixei ordens expressas na portaria para não deixarem AQUELA MULHER subir, sob hipótese nenhuma. Então não precisa se preocupar, tá?

— Que mulher? – Saori quis saber.

Ao responder, foi como se Milo provasse algo extremamente amargo:

— Natassia.

— Natassia esteve aqui?

— Esteve. Foi bem desagradável. Aliás, Camus me contou que ela teve a audácia de ir ao quarto dele no hospital de Portland. Que você o ajudou lá.

— Ele te contou COMO eu ajudei? O que Natassia disse a ele?

— Hã... sim... mentiras sobre estarmos ainda casados... que eu iria morrer e Hyoga iria ficar sem pai, ficou culpando Camus e... que você disse que era tudo mentira.

A moça olhou com gravidade para Milo e depois para o ruivo, que desviou o olhar. Voltou a fitar Milo antes de dizer:

— Depois converso contigo.

— Hã... certo! Me deixe a par de tudo. Claro, do que eu PUDER ficar sabendo.

Despediram-se.

Saori instalou-se displicentemente no sofá; Camus a acompanhou, sua postura rígida a contrastar com o despojamento elegante da mulher.

— Camus, quero que saiba que o que falarmos aqui ficará entre nós. Nem mesmo Milo terá acesso ao que você vai me contar. Então sinta-se à vontade para falar o que quiser, o que sentir vontade, certo?

— Certo.

— O que pode ser socializado com ele e a equipe médica são questões gerais levantadas nestas nossas entrevistas, resultados de fatos passados cujas... sequelas precisarão ser tratadas. Não é algo usual, mas, precisamos admitir, sua situação não é nada comum.

— Quer dizer que não vai entrar em detalhes sobre o que eu tiver falado...?

— Não. Apenas pontos que sejam importantes para oferecer-lhe maior qualidade de vida. Por exemplo, a questão dos sonhos. Precisamos esclarecer esse ponto. Não contarei a ninguém o teor de seus sonhos, apenas o quanto eles estão te atormentando.

Ele assentiu, sabendo que teria que enfrentar aquilo.

— Não tem dormido bem à noite, correto?

— Em algumas noites, sim. Em outras, nem tanto.

— Mas são quase todas noites que você tem problemas com isso, não?

— As noites difíceis são... mais comuns, sim.

— Camus, você disse a mim e ao doutor Finkler que, quando vivia na comunidade de Grayville, não sonhava, ou melhor, não lembrava de seus sonhos. Porque, na verdade, não é que não sonhemos, podemos apenas não lembrar dos sonhos...

— Eu só me lembrava do que havia sonhado quando Milo aparecia no sonho. Porque era um sonho de revelação.

A nissei tomou nota, sua expressão em nada deixando a serenidade, mesmo com o primeiro indício de que Camus ainda estava preso ao fantasioso sob o qual fora construída sua vida.

— O anjo que tinha a aparência de Milo. – Saori quis certificar-se.

— O anjo ERA o Milo.

— Mas Milo não é um anjo, concorda?

Apertando levemente as mãos, ele elucidou:

— Sei que não. Mas Deus fala por símbolos. O anjo vinha me salvar da dor. E foi exatamente o que Milo fez.

— Por isso, acredita que esse sonho tenha sido premonitório.

— Como...?

— Certo. Você usa a expressão “de revelação”. “Profético” também, não?

— Sim.

—Camus, você ainda acredita que é um tipo de “messias”?

— Não. Mas eu já disse isso a vocês, não? Terei que dizer sempre? – Um certo desagrado transpareceu nessa fala.

— Receio que sim, meu querido. Principalmente quando você for depor. Milo já te disse que em alguns dias terá de fazer isso, suponho.

— Disse sim.

— Bom, retomando... você não acredita mais que é o “Redentor”. Mas quando ERA o Redentor da Igreja Aurora do Novo Porvir, foi-lhe dada a missão de sofrer como Cristo sofreu pelos pecadores. Correto?

— Correto. – Murmurou, segurando os próprios pulsos.

Ainda havia marcas ali e em seus antebraços...

— Você aceitou essa “missão” e cumpriu-a como devia, por mais de 15 anos. Por que, em algum momento, passou a querer ser “salvo” dessa condição? Se o que vivia era supostamente necessário para a salvação de milhares e milhares? – Inquiriu Saori, atenta à linguagem facial e corporal do paciente.

— Porque eu... comecei a questionar a duração dos tormentos. Jesus... passou pelos martírios durante três dias... e eu...

— Entendi. Por isso, o “anjo” viria te salvar.

— Eu aceitava tudo. Mas... estava cansado de sentir dor. Passei a, no fundo, desejar a morte. Só que, ao mesmo tempo, sabia que era errado.

— Por quê? Era errado morrer?

— Era errado fugir às minhas obrigações.

— Camus, você achava, ou melhor, foi levado a achar que era um “messias”. Supostamente era você quem deveria “salvar” as pessoas. Passou a desejar ser “salvo pelo anjo” unicamente pela natureza e duração dos tormentos... ou, por acaso, passou a não acreditar mais na validade da sua “missão”?

Ele a encarou de maneira enigmática.

— VOCÊS SABEM. – Disse, veemente. – Já sabem de tudo que me acontecia. O país todo sabe.

Saori assentiu em triste concordância. Pela primeira vez, Camus falou sem ser interpelado antes:

— A dor NUNCA me fez deixar de acreditar. Eu só... questionava sua duração porque... – Sua voz tremeu de leve. – porque era demais. E era sempre. E era... e eu... e-eu... sempre achava que não aguentava mais. Mas... sempre aguentava... e tinha uma outra vez. E outra. E...

A psicóloga comprimiu os lábios, comovida. Impossível não se comover ouvindo semelhantes coisas daquele jovem cuja aparência inabalável aos poucos trocava de fachada.

— Você acreditava mesmo que aquilo tudo era certo. Mesmo que sofresse horrivelmente.

— Na verdade... – Ele se permitiu um meio sorriso consternado. – até por isso.

— Acha que seu pai agiu de má fé com você e com todos da igreja?

A expressão de Camus voltou a endurecer. Não hesitou em reconhecer:

— Não sei.

— Você não sabe?

— Ele teve uma visão. Foi visitado por um anjo que lhe deu uma missão a ser cumprida... ele só agiu conforme foi orientado.

Por mais que aquilo não fosse de todo descartado pela psicóloga, ela se viu um tanto surpreendida. Julgou que, assim como Camus já admitisse nunca ter sido um “messias”, pudesse, eventualmente, admitir que Hades forjara tudo.

— Então você ACREDITA MESMO que Hades recebeu de Deus a ordem para fundar a Igreja Aurora do Novo Porvir? Que foi de Deus a ordem para que usasse o próprio filho como um novo “messias”, que deveria se sacrificar pelo povo desta era?

O ex-Redentor pareceu desconfortável. Esfregou a testa com a mão, suspirando.

— Eu... acredito que ELE tenha acredito que era a coisa certa a se fazer. Pode ser que tenha se enganado. Que tenha sido um delírio. Ou recebido a visita de um falso mensageiro.

— Um falso mensageiro?

Camus ergueu os ombros como se fosse explicar a coisa mais simples:

— Um anjo caído disfarçado de Gabriel.

— Você não cogita que seu pai tenha FORJADO toda essa história?

— Como ele teria feito isso? Que pessoa teria coragem de usar o nome de Deus para... para... – Calou-se, pensando em SEU sacrifício. No sacrifício das Ovelhas. No sacrifício de tantos...

— Então... posso entender que... – Ela pausou bem as palavras. – você NÃO CULPA seu pai.

Como se pudesse escapar daquela conversa, o ruivo desviou o olhar e travou a mandíbula. Sua mente começou a ficar enevoada.

Não.

Realmente NÃO queria pensar.

Por toda sua vida fora instruído a não pensar. Não era algo a que estava acostumado. Pensar, analisar, julgar, questionar. Todos esses processos confundiam-no, exauriam-no.

— Neste caso, seus irmãos também NÃO foram culpados pelos atos que cometeram contra você.

— Não.

— Eles te prendiam, te controlavam, te torturavam, te violentavam porque foram condicionados por Hades a agir desse modo? Eles também foram enganados?

—Talvez.

—Já se sabe que também causaram mal a outras pessoas. Se não fosse pela influência do pai, acha que eles fariam isso?

— Eu... eu não sei. Se meu pai foi... foi comprometido em algum momento, talvez Radamanthys e Algol também fossem... eles seguiam ordens.

Saori mirou-o, agora sem conseguir ocultar a imensa compaixão que a invadia. Gentilmente, apresentou:

— Quanto aos seus irmãos, infelizmente não poderemos descobrir o quão comprometidos foram por influência de Hades... assim como você, eles nasceram naquele ambiente. Viveram aquele contexto, aquelas verdades. Mesmo assim, machucaram você. Sente ressentimentos por isso, ao menos, já que não os culpa?

Ele estremeceu, pensando nos sonhos. Nos flashbacks. Invariavelmente, seus irmãos apareciam neles.

E o pai.

E os Vigias.

E os Arautos.

E as Ovelhas.

E os Comensais.

E... e...

Seu coração começou a doer.

— Seu pai não é culpado. Seus irmãos não são culpados. Os integrantes da igreja não são culpados. As pessoas que abusavam de você nos Cerimoniais também não eram culpadas, a seu ver?

— Elas achavam que eu era o Redentor! E que através dos meus suplícios poderiam... seriam... – Calou-se, seus pensamentos difusos a ponto de lhe causarem vertigem.

— Camus, então, afinal de contas, QUEM ERA O CULPADO? VOCÊ?

Ele abaixou a cabeça, respirando com dificuldade.

“Não será nada bom se ele desviar a culpa para si durante os depoimentos”, pensou, profundamente preocupada. Pegou uma das garrafinhas de água, previamente deixadas na mesinha de centro por Milo. Sugeriu:

— Beba um pouco de água.

Felizmente o ex-Redentor acatou a sugestão. Ambos beberam água, o que aliviou a pressão que tanto um quanto o outro estava a sentir.

— Entendo que seja algo bem difícil para você rememorar. Mas gostaria de saber o que você costuma ver nos sonhos que têm tido.

Suspirando gravemente, ele assentiu.

Milo queria que ele fizesse aquilo.

Estava mesmo acostumado a fazer o que os OUTROS queriam que fizesse.

— Vejo muitas coisas. Vejo o Vale ser tomado por sombras... Ovelhas morrendo aos meus pés... vejo o tronco onde eu era açoitado sendo incendiado enquanto... rostos... escuridão... seus corpos sobre o meu... – Crispou as mãos sobre os joelhos, cerrando os olhos com força. Falar ficou mais difícil. – Rituais, autos de fé, cerimoniais, punições... e-eu sinto tanta... m-mas não posso temer a dor...

— Vê seu pai?

Ele assentiu, em viva agonia.

— Eu suplico, mas ele não me ouve... nem ele... nem... Rada... Algol... ninguém.

— Você vê cenas do passado. Vê... e vive novamente coisas por que passou. – Disse ela, em voz baixa.

— Era... era meu dever...

— Era uma MENTIRA. AGORA você sabe disso. Não sabe?

Camus pôs as mãos sobre o rosto e minutos de silêncio se passaram até que ele balbuciasse:

— Então... PELO QUE eu vivi? O que foi a minha vida?

— Você foi vítima de uma farsa cruel, a mais cruel de que este país já teve notícia. Agora está começando uma vida nova. Não está mais sendo controlado, nem com mentiras, nem com drogas e remédios.

— Doutora... é por isso que os sonhos...?

— Muito provavelmente. Camus... sei que não quer mais tomar remédios, mas ao menos durante essas crises noturnas você deveria fazer uso de alguma medicação.

— Não... eu nunca mais... eles me... por favor, eu não quero mais falar.

Saori balançou a cabeça em uma compreensiva concordância.

— Tudo bem. Podemos só ficar aqui, até Milo voltar. Se mudar de ideia, é só falar comigo. Tudo bem?

Sem mostrar o rosto, ainda oculto detrás das palmas, o jovem fez que sim com a cabeça.

— Ainda que por vezes seja difícil falar... é a melhor maneira de procurarmos soluções para nossos problemas, nossos dilemas e desconfortos. Se houver algo que queira...

— Milo acha que sou louco?

A moça fitou-o boquiaberta.

— Claro que não, Camus!

— Milo acha que sou doente?

— Ele acha que você sofreu o que nenhum ser na Terra deveria sofrer. E que ainda está sofrendo com isso. Só que na alma. Na mente. E eu, Camus, sou uma médica que trata desses aspectos. Eu e o doutor Finkler. Por isso Milo quer que cuidemos de você.

Lentamente, o ruivo tirou as mãos do rosto. Fizera grande esforço para não chorar, porém... como se estivesse envergonhado, enxugou com pressa os olhos úmidos.

— Não quero preocupar Milo. – Murmurou.

— Sendo assim, aceite o tratamento. Colabore conosco. Confie em mim, no doutor Finkler... e em Milo também, claro.

Foi com sensação de triunfo que Saori viu-o fazer um gesto de concordância. Com um doce sorriso, falou:

—Você vai ficar bem, Camus. Vai ver só. Ainda há muita vida à sua espera!

*************

Naquela noite de outubro caía uma chuva fina e fria, típica da época em Red Meadow. Após a refeição, Milo e Camus relaxavam na sala de estar, cada qual entregue à sua atividade; o ruivo continuava a ler o livro de contos norte-americanos, e o agente assistia a um show da banda Five Finger Death Punch pelo iPad, com fones de ouvido para não atrapalhar a leitura do outro. Ambos encontravam-se estirados no sofá, grande o suficiente para pelo menos mais meia dúzia de pessoas. Os olhos claros do policial pousaram sobre a figura compenetrada perto de si. Vontade de perguntar em que conto estava, de qual mais gostara até então não lhe faltava! Porém, fazia-lhe gosto a imagem calma, serena do ex-Redentor concentrado em um mundo recém-adentrado. Sorriu, satisfeito, experimentando o que poderia ser tomado pela paz de um doce lar... um lar! Camus fazia parecer que aquela casa era, novamente, um lar... e pensar que ele estivera prestes a estragar tudo no dia em que quase beijara o rapaz.

Que foi que lhe dera?

Não gostava nem de lembrar – se bem que àquele momento sua mente voltara muitas e muitas vezes, que droga! Absurdo! Não negava (nem tinha mais como) que Camus fascinava-o, intrigava-o, atraía-o... contudo, era um absurdo tão grande que sequer se dispunha a avaliar o fenômeno. Sim, um fenômeno! Raro, único, inesperado...

Precisava ter uns momentos de privacidade, com uma mulher, era disso que estava precisando. Haviam chegado a Red Meadow fazia dez dias e ele não havia tido a chance de “tirar o atraso”.

E que atraso!

Na certa, era isso que o levava a pensar certas coisas... ABSURDAS. Absurdas. Absurdas!

“Vou pedir a Aiolia que venha ficar de olho em Camus amanhã. Daí vou a alguma boate... de repente, até pegar uma garota de programa logo. Sem tempo pra drinks e conversinhas. Direto ao ponto, é do que preciso.”

Sim.

Até como medida terapêutica! Simples e impessoal. Por isso mesmo, fantasticamente eficaz.

“E ele? Será que vai se relacionar um dia com alguém?”

Camus era um homem bonito. Logo logo apareceriam pretendentes. Sim, ele era um belo homem. Por que não? Tinha uma vida toda pela frente...

Percebeu uma notificação; Saori falava com ele pelo WhatsApp:

“Desculpe só entrar em contato agora.”

“Tudo bem, Sao. Como foi com ele?”

“Até que foi menos difícil do que eu esperava.”

“Que bom!”

“Eu não disse que foi fácil.”

Milo ergueu o olhar do aparelho para dirigi-lo a Camus, mergulhado na leitura, a efígie da tranquilidade.

“Não foi?”

“Não. E acho que não vai ser, Milo. Em 30 dias, Camus estará de frente com o pai dele, no tribunal. E Camus NÃO culpa o pai.”

“Como é que é?”

“Não é tão surpreendente, se considerarmos o quanto tudo está recente. Mesmo assim, fiquei um pouco receosa, confesso. Não posso revelar detalhes de nossa conversa, claro, mas ele, além de muito machucado, está muito confuso. Ele tem medo de encarar o que aconteceu e analisar. Bem, temos que lembrar que isso não era algo que ele podia fazer enquanto era o ‘Redentor’.”

“Então você acha que é por estar cedo demais?”

“Provavelmente, sim.”

“Sendo assim, é algo que pode ser revertido com o tempo.”

“Acredito que sim. De minha parte, farei o melhor que puder.”

Milo olhou outra vez para o ruivo, a quem instantaneamente comparou a um mar calmo, plácido na superfície, porém a ocultar batalhas de vida ou morte em suas profundezas.

*************

Passava um pouco da meia-noite quando eles decidiram se recolher. Estavam relativamente cansados; julgaram que desfrutariam de uma noite tranquila, pois que, ao que tudo indicava, o sono imperava.

Não obstante, poucas horas depois, um clamor elevou-se pelo apartamento...

— NÃO! PAI, NÃO, POR FAVOR!!!

Em um grande sobressalto, o policial acordou.

— Não me deixe com eles!!!

— Santo Deus, CAMUS! – Abandonou a cama em um salto, o cobertor indo ao chão. Correu para o quarto de hóspedes e acendeu a luz. Camus debatia-se, gemendo e murmurando súplicas que, certamente, em seu pesadelo, eram em vão.

Porque seus pesadelos eram suas memórias.

E suas súplicas sempre foram em vão... isso quando ele ousava proferi-las...

— CAMUS! Acorde! Acorde, vamos, é só um sonho! – Sacudiu-o, assustado com o lamentável estado do jovem, que chegava a contorcer o rosto em franca agonia. Debatia-se tanto que o agente temeu machucar-se... ou machucá-lo.

— Camus! Por favor, ACORDE!

Em meio a uns balbucios lamentosos, Camus acordou. Espantou-se ao ver Milo quase debruçado sobre si. Foi o bastante para voltar a se debater, ainda preso na realidade onírica que o atormentava. O loiro segurou-o pelos pulsos com força, imobilizando-o enquanto dizia:

— Calma, sou eu! Milo! Tá tudo bem... tudo bem... foi só um sonho.

A palavra mais adequada seria “pesadelo”, todavia, ele achou por bem não enunciá-la.

— Milo…? E-eu… – Olhou ao redor como a se certificar de onde estava. – Eu...

— Calma, OK? Tá tudo bem.

— E-eu... te acordei de novo...

— Não tem problema, amigo. Apenas respire.

“Amigo”.

Os olhos de Camus encheram-se de lágrimas. O policial soltou-o e fê-lo sentar-se.

— Ei, shhh... tá tudo bem... – repetia, apertando cordialmente o ombro do ruivo. Este tentou a todo custo não deixar as lágrimas rolarem por sobre suas faces. Esfregou os olhos com tanta força que quase se feriu.

— Ei. Tudo bem. Não precisa... – Milo pôs-se de pé. – Espera, vou te trazer uma água.

Na volta da cozinha para o quarto de hóspedes, o agente parou diante do próprio quarto. Vencido meio minuto de hesitação, resolveu pegar um dos remédios receitados pelo doutor Finkler para o caso de crises noturnas de Camus. Ao retornar para junto deste, encheu-se de coragem para anunciar:

— Eu trouxe um remédio para... para te ajudar a dormir.

Para ele o ruivo ergueu os olhos úmidos, agora estupefatos.

— Perdão? – Proferiu o ex-Redentor, incrédulo.

Encolhendo os ombros, Milo estendeu timidamente o copo de água em uma mão e um comprimido em outra. Camus pegou apenas a água. Sorveu-a, em longos goles, ignorando a medicação que lhe era oferecida. Sob o olhar surpreso do policial, pôs o copo vazio sobre a mesinha de cabeceira. Em tom altivo, que contrastava com seu estado de segundos antes, falou:

— Eu disse que não tomaria remédio algum.

— Sim, eu sei. Só acho que poderia experimentar...

— EXPERIMENTAR? – A voz de Camus saiu baixa e cortante. – Não acha que já conheço AMPLAMENTE todos esses remédios, todas essas drogas?!?

— Camus... é diferente... é pra te ajudar...

— É EXATAMENTE O QUE FALAVAM!!! – Vociferou, fazendo Milo recuar, estarrecido.

Ambos ficaram em silêncio, encarando-se longamente. Atônito com a reação do outro, o policial tentou:

— Camus. Eu NÃO sou como eles.

— NÃO. Mas quer AGIR como eles.

Milo achou que seu queixo fosse ao chão. Nem um soco lhe golpearia com tanta fúria quanto aquelas palavras. E com que tom frio foram proferidas! Ergueu as mãos, balançando a cabeça em uma patética negativa:

— Eu NUNCA... e-eu...

Respirou fundo, em busca de mais firmeza para tecer o argumento a seguir:

— Ouça. Entendo o que quer dizer. De verdade. Acontece que você... você precisa dormir, Camus. Precisa ter qualidade de sono, obter um repouso adequado para...

— Assim como VOCÊ, não é?

— Hã?

—Estou atrapalhando SUAS noites de sono. Por isso, quer me dopar.

— CRISTO – Exclamou o agente, completamente atordoado com o raciocínio distorcido de Camus.

Distorcido, sim!

Não...

Imprevisível.

Não fora a palavra utilizada pelos psiquiatras?

— Certo. Dê-me o remédio. – Camus estendeu a mão, por fim, na direção do loiro.

— NÃO. Eu NÃO vou te obrigar a tomar remédio algum. – O policial retraiu a mão, o punho bem fechado. – NÃO COMO ELES.

O ruivo dirigiu-lhe uma expressão de puro enfado.

— Não está me obrigando, eu QUERO tomar agora.

— PRO INFERNO COM ISSO!!! – Exasperado, Milo virou-se e atirou longe o comprimido. Não tivesse Camus pegado o copo de água de sua outra mão, quem sabe não estariam agora escutando som de vidro se espatifando contra a parede marrom.

Desta vez, fora Camus a se assustar. O que mostrou-se eficaz para fazê-lo voltar a si.

Deixou-se cair sentado por sobre o colchão, sem coragem de encarar seu anfitrião.

O que estava fazendo?

Por que estava tratando Milo daquela forma? Levou as mãos ao rosto, desejoso de se esconder para sempre.

— Venha.

— Hã? – Ergueu o rosto congestionado para o loiro, que lhe estendia a mão.

— Essa cama não é grande o suficiente para que eu fique aí até você conseguir pegar no sono novamente. Venha dormir na minha.

— N-no... no seu...?

— Sim, no meu quarto.

Balançando a cabeça em obstinada negativa, o ruivo balbuciou:

— Eu peço desculpas pelo que eu disse. Não é preciso que você se...

— Confia em mim?

Os lábios trêmulos do ex-Redentor paralisaram, entreabertos.

“Sempre”, dissera-lhe dias atrás.

Aceitou a mão que lhe era estendida. Sem mais palavras, Milo o conduziu até o quarto principal da casa. O coração de Camus parecia prestes a saltar-lhe do peito.

De fato, a cama era... tão grande... iluminada apenas pela tênue luz do corredor, podia comprová-lo. O policial recolheu o cobertor do chão acarpetado e fez Camus sentar no macio colchão. Havia travesseiros o bastante para preparar um novo lugar de repouso. O ex-Redentor queria falar algo, desculpar-se, ocultar-se, fugir, até... mas...

... de fato...

... estava tão cansado...

E fazia tempo que estava cansado...

Deitou-se; foi como se uma nuvem abrigasse seu corpo extenuado. Ao seu lado, o agente deitou-se, ajeitando-se em meio a suspiros de contentamento. Pousou sua cabeça de modo a ficar de frente para o ruivo, que adivinhava-lhe o suave sorriso em meio à aconchegante penumbra.

— Agora posso velar o seu sono de maneira mais confortável. – Enunciou Milo, seu bom humor de volta. Aliás, era como se nem por um segundo tivesse-o deixado.

Camus o havia exasperado... mas ele também exasperara o ruivo.

Com efeito, ambos precisavam descansar.

De frente um para o outro, olhavam-se intensamente, como se muito fosse dito através daquela troca de olhares.

— Boa noite, Camus.

— Boa noite, Milo.

Houve, sim, resistência contra a inevitável cerração das pálpebras de ambos, malgrado estivessem tão cansados... Após ajeitar-se mais um pouco, Camus permitiu-se achegar-se mais a Milo. De fato, seu rosto quase pousou na base do pescoço do loiro. Este, engolindo em seco, aspirou o perfume dos cabelos do ruivo... queria MESMO entregar-se ao sono, porém, a respiração cálida do ex-Redentor, tão próxima de si, por sobre sua pele, não permitia. Inconscientemente, abaixou o rosto para senti-la melhor. Era como uma brisa morna após uma noite muito, muito fria. Passou a língua sobre os lábios, tal qual uma pessoa sequiosa diante um suculento e cheiroso fruto, maduro, tenro... Camus aproximou-se ainda mais, praticamente se aninhando junto ao peito do policial, que cerrou os olhos com força. Milo sentiu-se subitamente tão quente...

Quente.

Todo seu corpo.

TODO.

Talvez devesse dispensar o cobertor naquela noite de... 6, 7 graus?

Seu coração bombeou com a mesma violência com que ondas de calor espalhavam-se pelo seu ventre, descendo, descendo até... praguejava mentalmente contra si mesmo, quando, sem que se desse conta, abriu os olhos...

Deu com os olhos castanho-avermelhados fixos em seu rosto.

Mas...

Camus não havia dormido?

Milo quis fechar os olhos. Escapar daquele olhar que aprisionava sua alma, seus sentidos... que era aquele toque subindo por seu braço? Aquele toque suave delineando o contorno de sua face? Aquele calor por sobre seus lábios?

Não.

Era um sonho.

Camus dormia! Não dormia?

Não.

Camus não dormia.

Precisava fechar os olhos. Escapar. Não ver os olhos de Camus. Não ver o semblante de Camus. Não sentir aquele gentil roçar por sobre seus lábios, não, aquilo não podia estar acontecendo... deixou-os entreabrir, não para dar passagem aos lábios que passeavam sobre os seus, não, era apenas para respirar melhor, já que era um sonho, já que aquilo não estava acontecendo...

Não.

Seus olhos...

Tinha que mantê-los abertos.

Mas agora...

Também Camus os cerrava, desejoso de reter no real o que também lhe parecia sonho... ou de reter um sonho que não poderia ser real.

Camus ardia. Ardia como os lábios que principiara a experimentar. Todos os lábios que se puseram sobre os seus foram gélidos, amargos, secos ou asquerosamente úmidos, fétidos, com gosto de sangue, com gosto de dor...

Os lábios de Milo... eram macios, doces, quentes. Exatamente como se lembrava de quando os provara na cabana de Aldebaran. Conduziam-no a um estado único, inédito, jamais experimentado. Foi por isso que pôs-se a sugá-los, delicadamente, receoso de que o Paraíso lhe fechasse de súbito as portas. Chupou com extrema suavidade e volúpia os lábios trêmulos do policial, que nada ousava dizer: sabia que acabaria por deixar escapar um gemido, tão intensas as sensações a que estava sendo conduzido.

E ele estava juntando forças para afastar o ex-Redentor de si.

PRECISAVA afastá-lo.

Aquilo não era certo, não era, não era!

Por mais sublime que fosse. Por mais que se sentisse arrebatado, tentado... sim, sentia-se tentado a dar mais espaço àquela língua que prometia tantas venturas, que com tão pouco já estava a levá-lo à loucura... grunhindo baixo, abriu mais a boca, levando sua mão até o cotovelo do ruivo, um tímido apelo para que não se afastasse.

Mas... não! Precisava afastá-lo... ainda que...

Após dar um gemido já dentro da boca do agente, a língua de Camus requereu seu quinhão; serpenteou, insidiosamente, até invadir de vez, a boca de um quase enlouquecido Milo.

*************

Notas finais
EITA QUE SAIU O BEIJO, OK, QUE ELES JÁ TINHAM SE BEIJADO NA CASA DO DEBAS, MAS MAS MAAAS Que será que vem a seguir, se é que vem algo a seguir? Só o próximo capítulo para revelar, hehehe Mas nem tudo são beijos, digo, flores. Alguns problemas se avistam... Natassia é o primeiro deles (ao menos, pela ordem do capítulo), e depois temos os pensamentos conflitantes do Camus, revelados à Saori, que podem, como a psicóloga teme, prejudicar o depoimento do ruivo. Camus precisa, com urgência, aceitar e entender o que lhe aconteceu... mas aceitar, por vezes, é tão ou mais sofrido do que vivenciar... Aguardo suas considerações! Obrigada por terem lido e até a próxima... beijãozão :x