Redenção
1 O guardião do leste encontra a donzela de Tarth
Jaime Lannister era um homem maltratado pelas leviandades da guerra. Longe ia o tempo em que o belo, nobre, imponente e invencível cavaleiro, era temido por seus camaradas e invejado por seus oponentes. Um rapaz de ouro. O melhor cavaleiro de Casterly Rock. O Jovem leão da casa Lannister ... Atualmente era apenas um trapo. Sua cabeça raspada e sua barba por fazer eram asquerosas. As garotas não mais suspirariam por ele. Não que elas alguma vez lhe fizessem falta, mas seu orgulho de macho alfa estava ferido. Sua face emagrecida de olhos encovados devia ser pavorosa. Se ele fosse uma aberração como o Montanha ou o Perdigueiro isso viria bem a calhar, mas não, ele sempre fora conhecido e louvado por sua beleza e altivez. Isso era o fim da picada. O fundo do poço. Arriou os ombros e fechou os olhos. Suas mãos afundaram na água tépida da piscina usada para banhar-se. O toco de seu antebraço ardeu e isso o assustou. Elevou o toco amputado para fora da água. Ele estava enganado. Não era apenas uma aberração asquerosa e repulsiva. Era também um completo inútil. Como poderia empunhar uma espada sem a mão?
— Você pode usar a outra mão.
Jaime assustou-se ao ouvir aquela voz rouca e grave. Olhou para a mulher no lado oposto da piscina. Brienne de Tarth, sua sentinela e guarda. Um mulherão de 1 m e 90. Loura e feia como uma ave de rapina. Ele se perguntava que deus maluco e bêbado havia concebido aquela mulher. Admirara de alto a baixo aquela titã, algumas vezes no passado. Ela era tão medonha que nenhum homem teve coragem de desposá-la. Então era natural que ela se voltasse para as armas … não havia nada de natural nisso. Toda mulher anseia por casamento, amor, filhos. No fundo, Brienne não deveria ser diferente das outras mulheres.
— Eu sou ambidextra. Sou capaz de esgrimir com as duas mãos. É claro, tive que treinar muito pra me tornar uma especialista. Você pode fazer o mesmo, Ser.
— Eu não preciso … quer dizer ... nunca precisei treinar as duas mãos, mas agora ... — Jaime olha para o toco amputado da mão — ... vou levar seu conselho em consideração.
— É claro, pra quem fere pelas costas, não é preciso ser um especialista.
— Quando a situação exige medidas drásticas, apunhalar pelas costas é justificável. Ao menos não fiquei paralizado de medo enquanto o rei era assassinado por uma sombra.
Brienne sentiu o sangue ferver nas veias. Ergueu-se da piscina e avançou para Jaime.
— Não se atreva a me julgar. Minha espada e bravura sempre defenderam Renly Baratheon. Se o espectro tivesse carne e ossos agora estaria em pedaços.
Jaime estava fascinado. Não apenas Brienne tinha um corpo escultural, como tinha brios e a coragem de um verdadeiro cavaleiro. Estivesse ela na guarda do rei, e tivesse nascido um homem, seria seu melhor companheiro de armas. Alguém a quem poderia respeitar e até considerar um amigo. Ele fechou os olhos, e mergulhou nas próprias sombras. A quem ele queria enganar? Após o assassinato do rei Aerys II, sua honra fora para sempre manchada pela alcunha de regicida. Aquele que mata pelas costas a quem jurou proteger. E todos o desprezavam por isso.
— Sossegue, Brienne. Não estou te julgando. Acalme-se, sim? Fiz o que fiz por um motivo. Matar o rei louco não foi a coisa mais baixa que fiz, acredite-me. Como cavaleiro real fui capaz de muitas vilanias, mas adivinhe? Isso me fez o favorito do rei. E quando eu matei o insano, sádico e covarde rei Aerys, o fiz porque era o certo a fazer. Como homem e como cavaleiro real. O desgraçado queria queimar a cidade. E sabe o que me pediu? Que matasse meu próprio pai. Mesmo você, Brienne, o teria matado. Pelas costas. Como um rato merece morrer.
Brienne sentou-se novamente na piscina. Ser Jaime Lannister poderia estar acabado, mutilado e ferido, mas ainda irradiava uma aura de fidalguia e heroísmo, como se isso fosse inerente a sua persona. Ela quase ... poderia amá-lo, mas isso estava fora de cogitação. Aprendera desde pequena que homens não gostavam dela, porque era feia, desengonçada e sem valor. Somente com uma espada na mão conseguira alguma admiração e respeito. Algo do que se orgulhar. É claro, muitos homens a odiavam por exercer atividades que pertenciam a eles, e alguns deles quiseram vilipendiar seu corpo, mas a esses ela ofereceu uma morte rápida e dolorosa. Nunca na vida dependera da proteção e ajuda de quem quer que seja, pois ela era sua própria protetora.
Alguns dias depois, já com o braço curado e protegido por bandagens, e seu corpo fortificado por uma alimentação decente, Jaime Lannister cavalgava para seu lar. O conselheiro do rei, seu pai, seria muito generoso com aquele que o devolvesse são e salvo. Por isso todos estavam ciosos de sua saúde e bem estar. Em breve estaria em Kings landing e poderia rever seus parentes. Tudo estava bem quando acabava bem. Lembrou-se da amazona Brienne.
— E a donzela de Tarth? Ela também será escoltada para o castelo de seu pai?
— Os Tarth foram à falência. Por mais que tenham oferecido um resgate justo, Ser Roose Bolton sabe que eles não têm como pagar para ter a filha de volta.
— O que isso significa?
— Significa que a vida dela não vale nada e que os homens do castelo Bolton vão se divertir às custas dela antes de matarem-na esta noite.
Jaime ficou chocado. Uma jovem tão altiva, orgulhosa, imponente. Uma expert capaz de esgrimir com as duas mãos. Digna o suficiente para ser sua colega de armas. Como ela poderia acabar assim? Sua vida não valia nada? Se algum dia Jaime Lannister teve a certeza do caminho a seguir foi agora. Ele era ou fora um cavaleiro real, não porque era um bom espadachim, mas por que sabia a diferença entre o errado e o correto a fazer. E Brienne de Tarth não merecia uma morte tão injusta e mesquinha.
Convencer os cavaleiros que o acompanhavam a voltar ao castelo Bolton foi o de menos. Difícil foi pular dentro da arena onde Brienne se convertera em alvo fácil de um urso. Graças a ajuda de um besteiro e muita sorte, ambos conseguiram fugir dali. Depois de barganhar por sua liberdade, ambos rumaram para Kings Landing.
Após sua chegada à capital do reino, Jaime reencontrou os seus e foi consolado pela perca da mão. Ganhou uma nova mão de ouro e uma espada de aço valiriano. Ele não teve tempo de sentir-se insultado, por saber que nunca poderia empunhar portentosa espada. Antes ele pensou em uma donzela, orgulhosa e elegante como uma águia, com o corpo de uma amazona e a galhardia de um cavaleiro real. Ele a procurou antes da partida dela para nova missão.
— Esta armadura dourada fica melhor em você do que em mim. Esta espada é feita de aço valiriano. Super resistente e poderosa. Este jovem é um dos mais corajosos e leais que você irá conhecer. Chama-se Podrick e será seu escudeiro. — Jaime anunciou sorridente enquanto lhe dava os presentes.
Brienne o olhava fixamente como se pudesse vislumbrar o homem por trás da lenda, ou o verdadeiro Jaime Lannister. O rapaz aventureiro, digno e honrado, que se embrenhara nas maquinações políticas de sua família e de que não conseguia se libertar. Diziam que ele era apaixonado pela própria irmã, a rainha, mas isso não lhe importava muito. Se algum dia, Jaime Lannister quisesse desposa-la, ou apenas tomá-la como sua mulher, ela não o rejeitaria, pois aprendera a respeita-lo e tinha verdadeira afeição por ele.
Brienne se foi com seu novo escudeiro, deixando um sentimental Jaime para trás, admirando sua silhueta sumir no horizonte. De certa forma ele invejava Podrick. Cavalgar ao lado de Brienne lhe devolvera uma compreensão moral que há muito julgava perdida e desacreditada. Ele gostaria de ter a coragem de Brienne, e um pouco de sua ingenuidade também, pois se assim fora, ele abandonaria Kings landing e viveria um casto e pueril romance com a donzela de Tarth.
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