Redenção
4 Confusão
Notas iniciais
Os eventos daquele dia continuavam a me perturbar, ininterruptamente. O 'encontro' com Irelia que estava por vir só me deixava mais confusa. Ok, encontro não era uma palavra boa, corei ao pensar nisso. Mas o fato é que ela queria falar seriamente sobre algo, e isso estava me deixando meio paranoica até. Tudo bem que ela tinha me ajudado durante o meu pequeno colapso, mas mesmo assim, o que uma ioniana teria de sério para me falar? Eu não esperava nada mais que o ódio por parte de Ionia, e essa abordagem tranquila, quase amigável, estava me deixando desconcertada. Pensamentos absurdos, como uma emboscada ioniana, por exemplo, passavam por minha cabeça numa velocidade estonteante enquanto eu tentava me preparar mentalmente.
Olhei para o espelho ao lado da minha cama, e um par de olhos confusos me olharam de volta. Isso me irritou profundamente. Não a minha imagem, digo, mas sim toda aquela confusão claramente estampada em minha face. Tentei me concentrar, respirei fundo várias vezes, e olhei no espelho novamente. A mesma expressão. Suspirei vencida, já era rotina fazer isso diariamente nos últimos oito anos. Todo o foco que eu tinha antes do meu exílio, toda a convicção que havia me levado tão longe em Noxus, parecia ter se quebrado junto com a minha espada.
Olhei para o relógio e soltei mais um suspiro, só faltavam quinze minutos para a hora combinada, e como não gosto de me atrasar, sai de meus aposentos, me dirigindo ao hall de entrada da liga. O instituto da guerra é surreal. O lugar é imenso. Desde que passei a morar aqui, eu ainda não conheço toda a liga. Só meus aposentos, o hall de entrada, campo de treinamento, refeitório, as salas de invocação e o jardim. Mas sei que existe uma infinidade de outras alas, biblioteca e tudo mais. Mas eu não sou de perambular por aí, ainda mais com o fluxo constante de invocadores, campeões e mais um monte de pessoas. Parece que não se usa muito o 'dormir' aqui na liga, porque mesmo a noite o lugar é muito movimentado pro meu gosto. As paredes, de cor violeta, são cheias de runas que emitem um brilho avermelhado, deixando tudo com uma aparência meio mágica. Não tenho melhores palavras para descrever, mas é realmente belo esse efeito. O hall de entrada é bem amplo, com diversos corredores que levam ao resto do instituto. A entrada em si é um corredor largo cheio de pilares com mais runas, e é protegida com magias tão poderosas que não precisa de portas, ou guardas. Logo além da entrada, uma longa escadaria leva direto à vila comercial que se encontra perto do instituto. Se essa vila tem um nome, eu desconheço. Mas é um lugar interessante, onde você pode encontrar mercadores de toda Valoran, vendendo praticamente de tudo. Essa vila tem uma vida noturna bem ativa também, pelo que ouvi falar, mas como já disse, não gosto de perambular por aí.
Quando eu cheguei ao hall, encontrei Irelia já me esperando, sentada em um dos bancos que havia por lá. Mais pontual que eu, foi o pensamento que passou por minha cabeça. Respirei fundo e me encaminhei para onde ela estava.
"Boa noite, Riven. Melhor?"
"Sim, bem melhor. Estou atrasada?" Ao perguntar isso recebi mais um quase sorriso.
"Não, não está. Pra dizer a verdade, eu gosto de passar meu tempo aqui no hall quando estou no instituto, sabe. Além de ser um lugar bonito, é incrível a variedade de pessoas, e yordles, claro, que passa por aqui. Mesmo assim, não me recordo de ver você passando por aqui." Dei de ombros. Pra que essa curiosidade toda?
"Não costumo sair muito do meu quarto."
"É, faz sentido. Você alguma vez já experimentou a culinária ioniana, Riven?” Neguei com a cabeça. Já imaginava onde isso iria terminar. "Ora, você não sabe o que está perdendo então. Você se importa de sair da liga um pouco e me acompanhar até a vila?" Ponto pra mim.
"Sem problemas, eu acho." Ela se levantou e tomou a dianteira, encaminhando-se até as escadarias da liga.
"Então está certo. Vamos?" Acenei minimamente e a segui. Enquanto seguíamos para a vila, eu ia caminhando lentamente atrás de Irelia, quando uma coisa captou minha atenção. Sua espada seguia flutuando graciosamente atrás de si, oscilando levemente, quase como se fosse viva. As quatro lâminas ornamentadas, interligadas por um orbe de um tom vermelho, pulsante, eram de uma beleza exótica. Eu nunca tinha visto uma arma como essa. Continuei observando-a atentamente enquanto descíamos as escadas, e só reparei que já havíamos chegado quando ela se virou delicadamente para me olhar. Senti-me um pouco constrangida, porque sentia que Irelia sabia que eu a estive encarando o caminho todo. Desviei meus olhos rapidamente, e posso jurar que ouvi uma risada baixa vindo dela, mas quando a olhei novamente, ela continuava com aquela expressão de leve interesse. Entramos no restaurante, nem me dignifiquei a saber o nome do lugar, ainda estava constrangida. Mas notei que era uma construção ampla e bem arejada, com vários pilares e mesas bem separadas. Seguimos para uma das mesas mais afastadas, e um garçom prontamente veio nos atender. Olhei para o cardápio com uma carranca: não sabia o que era nada daquilo. Irelia, que novamente estava me observando, soltou uma exclamação baixinho.
"Você não conhece nada mesmo da culinária ioniana, não é? Se você não se importar, eu posso...”.
"Eu vou querer o que ela quiser." Disse para o garçom, interrompendo-a. Ela me lançou um olhar divertido, e fez os pedidos. Eu não prestei atenção, voltei a encarar sua lâmina e pensar no porque disso tudo. A espada continuava vibrando levemente, e confesso que isso era um pouco hipnotizante. O garçom se afastou, e Irelia se virou para mim, com aquela expressão indefinível.
"Você deve estar se perguntando por que eu trouxe você aqui, não é?" Ela me perguntou suavemente. Apenas concordei com a cabeça, e ela continuou. "Sabe Riven, eu tenho esperado te enfrentar nos campos da justiça desde quando ouvi que você tinha se tornado uma campeã. Eu queria testar minha espada contra a formidável força noxiana que havia levado tantos conterrâneos meus." Engoli em seco. O ar de repente pareceu mais pesado para se respirar. "Não me leve a mal, eu não guardo nenhum rancor de você, afinal nós nunca nos encontramos. Mas confesso que você quebrou todas as minhas expectativas quando nos enfrentamos hoje à tarde. Entenda, mesmo sabendo que você havia se exilado, ainda esperava ver em você a arrogância e superioridade comum a seus compatriotas. Mas quando você me encarou, parecia estar vendo um fantasma, o que faz um pouco de sentido, é claro, levando-se em conta meu passado. Sua espada não me passou nada além de remorso e incertezas, o que me traz direto ao ponto disso tudo. Você sente um profundo arrependimento por ter participado da invasão, não é? Foi isso que te impediu de lutar como a guerreira incrível que espalhou sua fama pela liga?" Ela disse tudo isso me encarando de forma intensa. Por um instante, eu perdi as palavras. Como? Como ela poderia supor essas coisas tendo me conhecido pessoalmente a menos de vinte e quatro horas? Optei por uma resposta mais evasiva.
"Guerreira incrível... Fama? O quê?" Foi tudo o que consegui dizer. Dessa vez Irelia realmente riu, uma risada suave e melodiosa.
"Você sabe mesmo como quebrar a tensão, não é mesmo? Ora, não se faça de desentendida, Riven, todos sabem dos seus méritos aqui na liga, e fora dela. Você se tornou bem famosa entre os invocadores também, soube que ultimamente tem participado de várias partidas. Mas isso não responde a minha pergunta, não é?" Nesse momento o garçom voltou, me dando um tempo para pensar na resposta. Ele colocou na minha frente um prato com algum tipo de salada, mas fome era o que eu menos tinha no momento. Profundamente arrependida era pouco para descrever o que eu sentia sobre a invasão, mas como eu iria explicar isso para ela? Aliás, por que eu deveria explicar algo? Senti a irritação me invadir.
"Olha, eu sei que te devo uma por ter me ajudado depois da partida e tudo mais, mas como você mesmo lembrou, eu matei mais ionianos do que posso me lembrar, e mesmo tendo me exilado, sou uma noxiana, e você é a capitã da guarda de Ionia. Por que você está sendo tão gentil comigo? E por que você se importa sobre como eu me sinto em relação a isso?" Minha resposta saiu um tanto exasperada.
Irelia me encarou por um longo momento antes de responder. Sua expressão estava séria, mas quando falou, sua voz estava mais suave que antes.
"Eu entendo sua desconfiança, Riven. Me desculpe por ser tão invasiva. Mas veja, nós ionianos não somos um povo que guarda rancor. E eu não acho que você deveria continuar se culpando tanto. E eu acho que eu posso te ajudar a superar isso tudo."
Um pesado silêncio se formou entre nós. Irelia me olhava de uma maneira condescendente, e minha mente estava perdida num turbilhão de pensamentos. Me ajudar a superar? Suas palavras ressoavam em mim, e por um momento eu não consegui dizer nada. Quando rearrumei meus pensamentos, fiz a pergunta que me corroia desde o começo da conversa.
"Como você sabe que eu me arrependo de ter participado da invasão?"
"Dá pra perceber isso em cada gesto, palavra ou olhar que você dirige a mim, Riven. Mas eu já havia percebido antes de conversarmos pela primeira vez. Sua espada me contou sobre sua vida e seus sentimentos muito mais do que eu imagino que um dia você me dirá."
Fiquei perplexa. Está certo que eu poderia dizer muito sobre a convicção de um oponente ao cruzar armas com ele, mas dizer sobre sentimentos já era demais.
"Como assim minha espada disse?"
"Minha espada e eu compartilhamos de uma ligação muito especial, eu sei que você já reparou nisso. Mas a verdade é que todos compartilhamos laços profundos com nossas armas. Afinal, é com elas que defendemos nossas vidas em momentos cruciais, e na maioria das vezes, é nossa companhia mais leal, estando conosco durante toda uma vida. A diferença é que depois do meu pequeno acidente noxiano, eu realmente me tornei uma só com minha espada. Não me olhe assim, Riven, eu não me ressinto disso. Aliás, creio que essa é a única coisa bem vinda dessa experiência. Então para mim é muito mais simples entender essa delicada ligação entre guerreiro-espada. Sei que é complicado de entender, mas sua espada não me passou nada além de arrependimento e amargura."
Corei levemente depois de Irelia constatar que havia percebido que eu passei um bom tempo encarando sua espada. Mas não perdi muito tempo me constrangendo, porque a sua explicação era fascinante.
"É por isso então que você utiliza sua espada sem precisar empunhá-la?"
"Exato. E é por isso que eu posso dizer o quanto você ainda se culpa pelo passado. E é por isso que eu chamei você para conversarmos hoje, Riven. Eu vim lhe oferecer uma chance para se redimir dos seus erros. Mas por hora eu sugiro que nos ocupemos do jantar, senão ele perderá uma grande parte de seu sabor incrível." Eu concordei, e comemos sem falar mais nada por um tempo. Depois da salada, o garçom trouxe um guisado, e por fim um doce tão suave que me deixou encantada com a culinária ioniana. Depois de terminar, olhei novamente para Irelia, esperando a continuação de nossa conversa. Ela compreendeu e voltou a falar.
"Como eu estava lhe dizendo, Riven, eu a chamei para jantar hoje exatamente para lhe propor uma maneira de aliviar a culpa que você sente. Vim te chamar vir a Ionia comigo."
Encaramos-nos por um bom tempo. Eu não podia voltar para Ionia, eu não queria voltar lá. Mas a proposta dela parecia tão sincera, que eu fiquei em dúvida. Porém, antes de falar qualquer coisa, ela continuou.
"Eu sei que pode parecer difícil para você voltar lá. Mas o necessário nem sempre é fácil, não é? Você pode pensar no assunto até amanha as 10:00h, que é o horário que voltarei para Ionia. Sentiria-me honrada se me acompanhasse. Mas é claro, você pode tomar o tempo que precisar para pensar sobre isso. Quando tiver sua resposta, é só me procurar. Agora, já esta um pouco tarde e eu gostaria de voltar ao instituto. E não precisa se preocupar em pagar, cortesia ioniana. Boa noite, Riven."
Dizendo isso, ela se levantou, pagou ao garçom e foi embora, me deixando com o pensamento claro de que eu não ia pregar o olho essa noite.
Fale com o autor