Redemption
3 A semente deixada no silêncio
Notas iniciais
A nave deslizou pelo hangar da base com o som sibilante e mecânico que Rey já havia se acostumado a ignorar. Ela desceu da plataforma com passos firmes, mas lentos, como se cada articulação do seu corpo pesasse mais do que deveria. Tinha dormido pouco nas últimas semanas, com sonhos desconexos e acordares bruscos em meio à madrugada, suando frio.
Ben
Desde que ela acordou... naquela noite em sua nave, em vez do galpão sozinha e que Ben não estava lá, ela nunca mais o viu. Nenhum sinal, nenhuma explicação.
Apenas o vazio.
Como se ele tivesse se dissolvido no espaço. E desde então não havia mais conexões com Kylo Ren, ou com Ben Solo. Nenhuma aparição através da Força
Às vezes, jurava sentir algo. Uma sombra atrás da nuca, mais como um calor inexplicável em meio ao frio da noite. Mas nada concreto e suficiente.
— Rey! — a voz alegre de Finn a arrancou da névoa de pensamentos.
Ele acenava do refeitório com Poe ao lado, ambos sorrindo como se o universo não estivesse sempre prestes a explodir. BB-8 piou animadamente ao avistar Rey, girando em círculos em torno dos pés dela. Poe gesticulou com a cabeça, indicando a mesa.
— Senta aí. A gente te viu chegando. Já servimos seu prato.
Ela hesitou por um instante, mas se forçou a sorrir. Não fazia sentido manter distância. Não hoje. Estava cansada de fingir que podia carregar o mundo nas costas sozinha. Sentou-se entre eles, afundando nos bancos metálicos com um suspiro que escapou sem sua permissão.
— Você parece um droide descarregado — comentou Poe, passando-lhe um prato cheio de raízes assadas e algo que parecia ave grelhada, embora fosse melhor não perguntar qual. — A última missão foi muito puxada?
— Nada fora do comum — ela respondeu, mexendo lentamente a comida sem intenção real de comê-la.
Finn a observava com olhos estreitos.
— Você não come direito há dias. E também não tem dormido. Estamos começando a nos preocupar.
— Estou bem — ela insistiu. — Só cansada. Talvez... estresse.
— Talvez nada — rebateu Poe, cruzando os braços. — Você vai ao médico hoje. Está com essa cara desde... sei lá. Quando mesmo começou?
— Há semanas — respondeu Finn antes que ela pudesse interferir. — E tem esse negócio de ficar pálida, se encostar nas paredes, quase dormir em pé...
BB-8 piou com algo que, se traduzido corretamente, provavelmente significaria “desmaiou no corredor ontem e fingiu que tropeçou numa pedra invisível”.
Rey soltou uma risada curta e cansada.
— Talvez eu esteja só... sei lá. Cansada.
Os dois se entreolharam. Poe ergueu uma sobrancelha.
— Desembucha Rey.
— Ah...Não sei explicar.
— Hmm — fez Finn, de forma suspeita. — Isso tem nome?
— Não tem. É só uma sensação, um mal-estar.
— Um que te dá náusea todo dia no café da manhã? — provocou Poe com um sorriso malicioso.
Rey revirou os olhos e empurrou o prato. O cheiro do ensopado fazia sua barriga se revoltar.
— Agora não, obrigada.
— Já são cinco dias de "agora não", Rey — disse Finn. — Isso não é normal.
Ela sorriu, meio amargamente.
— Nada em mim é normal, lembra?
Antes que pudessem pressioná-la mais, um som agudo interrompeu a conversa. Um comunicado interno. A voz de um oficial ecoou pelos alto-falantes, informando sobre a chegada de novos recrutas e solicitando auxílio de instrutores para treinamentos básicos. Quando a voz cessou, outro som ecoou, passos suaves e firmes.
Luke Skywalker entrou na sala.
Apesar da idade e do cansaço que lhe marcava o rosto, havia uma serenidade em seus movimentos, como se estivesse sempre ciente de coisas que os outros não conseguiam perceber. Seus olhos foram direto para Rey.
— Está livre agora? — perguntou sem rodeios.
Ela assentiu, um tanto surpresa.
— Temos novos recrutas. Você pode me ajudar no treinamento deles?
— Claro — respondeu sem hesitar.
Luke não comentou nada sobre sua aparência pálida ou o prato intocado. Apenas assentiu e saiu do refeitório como se tivesse certeza de que ela o seguiria.
****
O campo de treinamento ficava na parte externa da base, cercado por estruturas metálicas e lonas improvisadas. O sol estava impiedoso naquele dia, queimando cada centímetro de pele exposta. Rey se jogou no exercício com afinco, talvez porque ensinar outras pessoas fosse o único momento em que sua mente parava de vagar. Ela mostrava posturas, corrigia sabres, interrompia impulsos perigosos com um gesto de mão.
Os recrutas olhavam para ela com reverência, a lenda viva, a última Jedi.
Mesmo quando começou a suar excessivamente e sua visão escureceu por alguns segundos, ela ignorou. Passava o tempo todo lutando contra o que sentia, então o desconforto físico parecia apenas mais um obstáculo.
Quando os recrutas finalmente foram dispensados, ela tentou caminhar até a sombra de uma das tendas sentindo que algo estava errado.
No caminho o chão oscilou sob seus pés.
O sol parecia bater diretamente entre seus olhos. Um som abafado invadiu sua audição, como se alguém a chamasse de longe, mas ela não conseguiu entender. Deu mais um passo e, com o mundo girando, caiu de joelhos.
Sentou-se no chão, respirando rápido. O suor colava seu cabelo à testa. E então, por um instante, sentiu.
Um calor familiar. Um peso. Como um par de olhos a observando, uma mão invisível se aproximando de sua mente.
— ...Ben?
Mas ninguém respondeu.
Ela se deixou cair de lado, o chão arenoso duro contra a pele, e tudo escureceu.
Quando abriu os olhos novamente, estava em uma cama macia e fria, envolta por lençóis brancos. A claridade suave das lâmpadas indicava que estava na enfermaria. Uma agulha leve prendia seu braço a um fluido, e uma leve dor pulsava na base de seu crânio. Os sons ao redor estavam abafados.
Ela piscou. Moveu a cabeça lentamente.
Leia Organa estava sentada ao seu lado, os olhos marejados, mas serenos. Luke permanecia de pé, observando do canto. Finn, Poe e BB-8 estavam próximos à porta. Todos pareciam contidos, respeitosamente presentes, mas ninguém dizia nada.
— O que aconteceu? — murmurou, a voz rouca.
Finn se adiantou.
— Você desmaiou. Ficou inconsciente por horas. Ficamos preocupados.
Ela assentiu, tentando absorver.
— Estou com alguma coisa?
Os olhares se cruzaram com uma sincronia desconfortável.
Poe foi o primeiro a rir.
— Bom, tecnicamente... sim. Está com algo.
Leia reprimiu um sorriso.
— Você está grávida, Rey.
Silêncio.
Rey arregalou os olhos.
— O quê?
— Três meses, segundo o médico — disse Finn, tentando parecer casual. — E antes que você pergunte: sim, isso explica o enjoo, o sono, o colapso, os chiliques...
— Eu não tive chiliques! — ela rebateu com indignação, e todos riram, inclusive Leia. BB-8 soltou uma sequência de piados engraçados, e Rey o apontou com um dedo fraco. — Nem você começa.
Luke se aproximou devagar.
— Não precisa se explicar. Nenhum de nós vai perguntar quem é o pai. Quando e se quiser nos contar, será sua escolha.
Rey assentiu, sem forças para responder. Ela não sabia muito o que pensar. Estava um pouco em choque.
Poe suspirou.
— Acho que agora nos temos uma desculpa para te fazer comer direito.
— E para dormir — completou Finn.
Leia acariciou a mão de Rey.
— Vamos deixar você descansar.
Um a um, saíram. BB-8 parou por um instante ao lado dela, piando suavemente, antes de girar e seguir os demais. Luke permaneceu.
Quando o silêncio retornou, ele se aproximou da cama e pousou a mão sobre a barriga dela, agora com um gesto sereno, quase reverente.
— Você não deve pensar demais, esse bebe será uma benção. Às vezes, a Força planta sementes em meio ao caos — disse ele. — E talvez esse bebê tenha vindo para salvar o que resta dela.
Rey tentou perguntar o que ele queria dizer, mas ele apenas sorriu, deu-lhe um último olhar e saiu, deixando-a sozinha.
Ela deitou-se lentamente, a mão sobre o próprio ventre.
Ela não estava sozinha, não mais.
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