Rede De Segredos
28 Capítulo 26 - PARTE I
Notas iniciais
O federal invadiu a boca da ruiva de um modo faminto que fez a mulher perder o controle sobre todos os seus sentidos. As duas línguas travaram uma batalha, mas essa não era sem vencedores, os movimentos não se completavam um com o outro, os dois não se encaixavam completamente. A mágica que acontecia quando o federal e a mafiosa se beijavam, como se houvesse uma espécie de compartilhamento de pensamentos... Simplesmente não estava ali.
As mãos de Victoria desbravaram o caminho até a nuca do federal, os dedos embrenhando-se no cabelo acobreado e macio. Mas aquela mão não puxava os fios como Edward ansiava. Não continha a precisão, a junção da força com a delicadeza formando uma mistura que, por ser paradoxal, era deliciosa e inesquecível.
Irritado com a situação, o homem desceu uma das mãos até a coxa da mulher, trazendo-a mais junto a ele e fazendo com que Victoria sentisse o membro que começava a ganhar vida. A ruiva resfolegou, cessando temporariamente o beijo, dando espaço para que o federal atacasse seu lábio inferior, mordendo-o de uma forma quase animalesca.
O gesto foi percebido pela mulher como desejo, mas, na verdade, era um gesto de fúria, de puro ódio por aquela boca da ruiva ter um gosto tão diferente – e inferior- ao gosto dos lábios vermelhos, macios e carnudos.
Lábios que pertenciam somente a Isabella.
O federal levou o rosto até o pescoço da ruiva, dando a ela espaço para respirar e para ele tempo para organizar os pensamentos. Com o nariz na base do pescoço da mulher, Edward pode sentir o perfume que vinha do cabelo vermelho. Para sua surpresa e infelicidade, Victoria cheirava a morangos.
Porém, aquela essência que ele tanto gostava em Isabella, não parecia a mesma em Victoria. Edward não sentiu a calma que sempre o aplacava, a sensação de conforto, a vontade que o impelia a sorver do cheiro... Várias e ininterruptas vezes.
As essências das duas mulheres não poderiam ser mais distintas mesmo que, por ventura, adviessem do mesmo produto. O cheiro de morangos só tinha o poder de afetar Edward Masen quando misturado a outra essência. Uma única e peculiar que ele só encontraria em uma mulher.
O cheiro natural de Isabella Swan.
Estafado graças a todas suas considerações, e atormentado por só pensar cada vez mais na mafiosa, o federal finalmente afastou seu corpo do de Victoria.Ele poderia prosseguir com o que começou, a mulher era sua antiga namorada, e de certo modo eles se entendiam bem... Mas ele não queria.
Não era bom o bastante.
Olhou para a face da ruiva, os olhos ainda fechados, o lábio inferior entre os dentes, um suspiro de contentamento escapando pela boca. Victoria sorriu, finalmente abrindo os olhos, deixando com que Edward encarasse os verde-azeitonas que brilhavam em excitação.
O federal crispou os lábios, condenando-se. Ele ansiava por duas pedras azuis. Duas águas marinhas, como aquelas que embelezavam o colar de sua mãe. Os olhos frios que se tornavam quentes depois de seus toques, os olhos que escondiam uma profundeza de mistérios, de segredos e de traumas. Os olhos inconfundíveis de sua Isabella.
O que ele estava fazendo?
– Ed... nossa – Victoria engoliu em seco, tentando inutilmente conter o sorriso abobalhado que dançava por seus lábios – Eu me lembro muito bem dos seus beijos, mas esse... Acho que estava com mais saudades de mim do que eu esperava.
A risada escarninha do federal irrompeu por sua mente. É claro que ele tinha que beijar melhor quando pensava na diaba!
Perdido em seus pensamentos, o federal só percebeu que a ruiva se esgueirava novamente para ele, quando ela já estava em seus braços, as mãos dançando pelo peitoral grande e bem trabalhado.
– Eu quero uma segunda dose.
Edward girou o rosto para o lado, impedindo o acesso da mulher a sua boca. Segurou Victoria pelos ombros, imprimindo uma distância de um braço entre eles.
A ruiva o olhou, curiosa.
– Não era para isso ter acontecido. Desculpe-me, Vic – Edward começou, lançando seu olhar para ela, Victoria percebeu imediatamente que ele estava confuso e nervoso, sempre fora boa em medir as expressões do homem a sua frente – Eu não posso.
A ruiva fechou os olhos momentaneamente, absorvendo a informação. Não poderia ser rejeitada. Eles se davam tão bem no passado tanto nas conversas, tanto na cama. Rapidamente, sua mente buscou por um motivo para o que estava acontecendo, e com a mesma agilidade o encontrou.
– Tudo bem, Edward. – ela começou. O tom doce espantando levemente o federal – Eu sei porque está assim.
O Masen congelou levemente. Ela sabia? Sabia sobre sua Isabella?
– Sabe? – testou, relutante em se entregar.
– Sim, sei. – Victoria afirmou com um sorriso, e levou a mão até o rosto masculino fazendo uma leve carícia no local – Sei que o senhor ainda está muito confuso com essa história de sequestro.
Edward quase suspirou aliviado, mas rapidamente disfarçou seu gesto, inclinando-se mais para a mão da ruiva, como se estivesse gostando do modo como a mulher brincava com seus cabelos, coisa que fez Victoria sorrir.
– Sei que não ficou muito explícito para você, e nem para o FBI, o porquê do seu sequestro, ou porqueo soltaram... Você precisa de um tempo para se recuperar dessa experiência e eu entendo isso. E eu sou muito paciente. – os olhos verde-azeitonas brilharam – Sei esperar, e vou esperar, Ed. De qualquer modo, estou te devendo 100 dólares, e pretendo reembolsá-lo com um jantar, qualquer dia desses...
Edward sorriu, criando tempo para que pensasse no assunto. Deveria desmentir? Deveria dizer que se tratava de outra mulher? Não. Claro que não. Onde arrumaria outra mulher estando sequestrado por mais de dois meses? Onde essa outra mulher estaria que não foi o visitar no hospital quando ele foi “encontrado” pelo FBI, jogado em uma encosta de estrada?
Porém, no fundo, seu subconsciente o avisava que deixar Victoria com uma luz no fim do túnel não era sábio. E que ainda lhe traria dor de cabeça.
Mas ele não estava com muitas opções por hora.
E o que tinha de mal no final das contas? Ele não viveria sozinho para o resto de sua vida. Isabella, a diaba por quem ela estava sofrendo miseravelmente, deixara bem claro que não queria nunca mais vê-lo. Então... Talvez um dia...
– Qualquer dia desses. – O federal sussurrou, não se dando conta do quanto o modo como disse aquelas palavras soava sexy e galanteador aos ouvidos de Victoria.
A ruiva se inclinou para ele, dando um beijo rápido no canto dos lábios masculinos.
– Até mais, Edward.
Vendo a mulher se afastar, Edward se deu conta de que ela em Boston não era uma coisa boa para seu plano de manter Isabella escondida do FBI. E nunca, em hipótese alguma, o governo poderia descobrir o envolvimento da mafiosa em seu pseudossequestro, ou as provas que ele um dia tinha levantado sobre ela.
Porque, se as autoridades descobrissem isso, Isabella Swan iria presa.
O federal preferiria morrer a assistir a isso.
~-~
– O senhor é muito engraçado, agente McCarty! – Tanya pontuou com um riso contido, sabia que já deveria ter se recolhido aos aposentos de empregada, mas o homem a sua frente era simplesmente divertidíssimo para ser ignorado.
– Pare de me chamar de senhor ou agente McCarty. Eu não sou um velho e nem estou em serviço agora. Meu nome é Emmett, eu já lhe disse isso.
A empregada desviou seus olhos para algum ponto da cozinha grande dos Masen, envergonhada.
– Tudo... Tudo bem, eu acho, Emmett.
O agente abriu um sorriso, mostrando todos os dentes e as covinhas protuberantes.
– Assim é bem melhor! – Então deu um soco de leve no ombro da jovem.
– Oh... – uma voz pairou a entrada da cozinha, e o coração de Emmett parou por alguns instantes no peito, antes de adquirir um ritmo frenético... O sorriso nasceu sem que ele pudesse conter.
– Me desculpe – ela disse incerta, mordendo os lábios e evitando encontrar o olhar de Emmett – Não queria... atrapalhar.
E saiu da cozinha em disparada, um nó formando-se em sua garganta. Estaria Emmett interessado em Tanya?
Seu braço foi contido antes que pudesse alcançar as escadas. Rosalie gritou, pega de surpresa, e virou-se deparando com um Emmett que exibia uma feição triste.
O McCarty soltou rapidamente o braço da adolescente, interpretando o grito de forma errada, pensando que Rose tinha nojo e medo dele por causa do que quase acontecera a ela no beco.
– Desculpe... – murmurou, abaixando a cabeça.
Rosalie suspirou profundamente.
– Não sei porque está pedindo desculpas agente McCarty... Eu que deveria, e já me desculpei, por ter interrompido você e Tanya... Eu... eu só peço que você deixe para... – Rosalie parou um pouco incerta sobre a escolha de palavras – Flertar... Em um horário que não seja de o de trabalho e...
– Rose... Pare. – Emmett sorriu – Eu não sei do que você está falando, sinceramente, eu não tenho interesse em Tanya...
A loirinha olhou para o homem desconfiada e esperançosa.
– Não?
– Não – Emmett assegurou, sorrindo de lado e se aproximando um pouco mais de Rosalie... – O que você iria fazer na cozinha, agora? Você jantou, não jantou?
O estômago de Rosalie roncou em resposta, deixando as bochechas da menina em um tom escarlate.
– Acho que isso definitivamente foi um não... Quer dizer que ia atacar a geladeira, baixinha?
Baixinha... A expressão de Rosalie endureceu.
– Eu... eu não sou mais uma criança, Emmett.
O agente uniu as sobrancelhas.
– Eu sei. Nunca disse que era.
Rosalie passou por ele, voltando para a cozinha, dessa vez vazia. Abriu a geladeira e pegou o leite, sentindo a presença dele no mesmo cômodo.
– Eu não entendo porque está aqui. O que está fazendo? Edward já não contratou novos seguranças?
Emmett coçou a cabeça. Ele continuava indo até a casa, todas as suas noites de folga, por ela. Não era evidente?
– Seu irmão pediu que eu fize... – o homem perdeu momentaneamente a fala vendo Rosalie ficar na ponta dos pés para alcançar o cereal no armário, a saia cor de areia que usava suspendendo-se um pouco com o esforço, revelando ainda mais das coxas branquinhas e perfeitas, Emmett desviou o rosto, obrigando-se a não olhar mais.
– Meu irmão... – Rosalie insistiu que ele continuasse, ainda concentrada na tarefa de pegar a caixa de cereal.
– Seu irmão pediu que eu fizesse as escolhas dos seguranças... Pediu homens bons e de confiança... Eu sou o melhor e o mais confiável que eu conheço.
Rosalie se permitiu rir levemente, finalmente pegando a caixa e colocando-a em cima da bancada... Parou um instante olhando para a figura alta e forte na sua cozinha.
– O mais convencido, certamente.
Emmett riu, coçando a cabeça.
– Espero que minha presença não te incomode, Rose... Eu gostaria de continuar vindo até aqui e...
– Não incomoda – Rosalie esclareceu, sem se dar conta de que aquela simples declaração significava muito para o homem ao seu lado – Onde é que está a tigela... ah sim! Ali!
E para o completo terror de Emmett ela começou a se agachar, a procura da tigela de cereais.
Alguém lá em cima quer “foder” comigo!Emmett exasperou-se, fechando os olhos e coçando a cabeça... Tentando pensar em algo bem broxante para que seu membro, que já começava adar sinais de vida, se aquietasse dentro das calças.
– Rosalie, não!
A menina levantou assustada, o olhando com curiosidade.
– Não o que?
E agora? O que ele possivelmente poderia responder para ela?Não se abaixe assim porque estou me excitando com a visão?Nada muito cavaleiro... Emmett irritou-se consigo mesmo, fechou os olhos momentaneamente tentando trazer qualquer clareza a sua mente.
– Você está com fome. – Afirmou.
Rosalie riu, franzindo as delicadas sobrancelhas.
– Sim... Eu estou.
– E vai comer cereal? – Emmett repreendeu, em tom de brincadeira – Você precisa de uma comida de verdade! Um hambúrguer, talvez?
Rosalie fechou os olhos visualizando... Ela definitivamente necessitava de uma comida ‘de verdade’.
– Não acho que tenha os ingredientes necessários... – a loirinha revelou, tentando esconder o tom triste.
– Quem falou em fazer? – Emmett disse, aproximando-se.
Os olhos de Rosalie se iluminaram.
– Você quer também? Nós... Nós poderíamos pedir!
Emmett negou com a cabeça, também se encostando a bancada.
– Ou poderíamos sair a procura de um.
Rosalie visivelmente murchou. Sair. Sair era uma coisa que ela não tinha feito desde que... aquilo... acontecera. Mais de um mês dentro de casa, e ela ainda não se sentia pronta para estar lá fora de novo.
Visualizando o conflito interno da loirinha, Emmett tratou logo de afirmar:
– Eu vou estar com você o tempo todo, não vou me afastar nem por um segundo sequer... Nem que você queira me expulsar a pontapés.
A loirinha riu levemente, mas ainda incerta, abaixou a cabeça, mordendo os lábios. Se ela tivesse a menor noção do que aquele mínimo gesto fazia com o homem a sua frente... Emmett levou sua mão até a dela, de um modo automático, não registrando o que realmente fazia. Mas o gesto despertou os dois de seus próprios pensamentos. O calor que irradiou ali, o calafrio que rompeu na boca do estômago...
Rosalie rapidamente tirou sua mão, não querendo sentir aquela sensação perturbadora, que para ela era unilateral. Mal sabia que Emmett vivenciou tudo o que ela sentiu com igual intensidade.
O homem, claro, tirou suas conclusões precipitadas. Para ele saber que seus toques faziam com que ela se recordasse do que passou na mão daqueles dois defuntos malditos, era, simplesmente, a pior coisa do mundo.
– Eu nunca – ele começou, a voz pesada e carregada de tristeza fez com que Rosalie voltasse em encará-lo – Nunca faria mal a você.
A menina levou a mão na boca, compreendendo o que ele pensava.
– Não, Emmett! – contestou, exasperada – Eu sei, sei disso! Eu jamais teria medo de você...
– Então, por quê? – o agente a cortou, perguntando com uma expressão sofrida – Por que reprime quando eu toco você, ou quando eu me aproximo demais...
A loirinha fechou os olhos balançando levemente a cabeça.
Emmett cerrou as mãos em punhos, mas conteve o soco que gostaria de desferir no bancada de mármore. Será que Rosalie tinha medo que ele tentasse algo com ela, como no baile? Ela poderia ter medo do que sua família pensaria e, talvez... talvez ela pudesse gostar de outro.
A última consideração chegou a revirar o estômago do agente, mesmo que ele soubesse que não tinha o menor direito de se sentir assim. E talvez nunca viesse a ter.
– É por causa do seu baile? – a menina arregalou os olhos – Porque eu te bei...
Um barulho estridente nas calças de Emmett chamou a atenção das duas pessoas presentes, cortando Emmett no meio de sua prospecção e aliviando Rosalie por não ter que responder aquela pergunta.
– Merda – o agente praguejou baixinho, e olhou o visor. Edward.
Por um momento a realidade se abateu sobre ele. Edward. O irmão mais velho da adolescente que ele queria, desesperadamente, tocar e beijar.
Sentindo-se pior do que nunca, atendeu a chamada.
– Edward – o nome prendeu a atenção de Rosalie.
– Emmett, onde você está?
– Na sua casa. – Emmett respondeu prontamente. Mas não pode evitar o que veio a seguir em sua mente: na sua cozinha, perguntando para a sua irmã porque ela evita contato físico comigo.
– Eu preciso... de um porre.
O McCarty não pode conter o riso com a revelação.
– Como é que é?
Quase pode ouvir o aloirado rugir em seu ouvido.
– Isso mesmo que você ouviu, Emmett. Eu encontrei Victoria e... ah, mas que porra! Será que é pedir muito? Não dá para você e Jasper levantarem suas bundas e se juntarem a mim?
Emmett sorriu. Era a primeira vez que Edward reconhecia que não estava bem desde que ele e Isabella pararam de se ver.
– Vou ligar para o Jasper. No mesmo lugar de sempre?
– No mesmo lugar de sempre.
O agente McCarty desligou o telefone rindo, e imediatamente mandou uma mensagem para Jasper, informando da ligação de Edward, e que parecia que ele queria falar sobre algo pela primeira vez naqueles quase dois meses.
– O que aconteceu? – Rosalie perguntou – Edward está bem?
– Sim, ele está! Ou vai ficar. – Emmett sorriu, terminando de mandar a mensagem – Você não precisa se preocupar com ele, Rose.
– Ele anda estranho – a baixinha confidenciou – triste... E a Isabella, ela...
– Sumiu – Emmett completou, com o maior cuidado que conseguiu. Sabia que Rose tinha gostado da “poderosa chefona” – Acho que ela teve alguns problemas...
– Eles não estão... separados, então?
Emmett tratou de se corrigir.
– Eles estão, mas, se quer mesmo saber a minha opinião, essa separação não dura muito tempo mais.
Ela mordeu os lábios, balançando a cabeça uma vez.
– Eu tenho que ir agora, baixinha. – Rosalie novamente endureceu pelo apelido – Não faça essa cara. É um apelido carinhoso, não um apelido de criança. Eu sei que você não é mais uma criança, Rosalie.
Algo dentro da loirinha se aqueceu.
– Tudo bem.
Emmett sorriu.
– Seu irmão precisa desesperadamente de mim, mas não pense que você escapará amanhã – a menina arregalou os olhos, do que ele estava falando? – Reserve um bom espaço em seu estômago, porque nós dois vamos sair e comer um hambúrguer imenso.
Tentando a sorte, ele se aproximou dela, deu um beijo demorado em sua testa.
– Cuide-se até lá.
Emmett saiu mais feliz que criança em dia de halloween. Nenhuma gostosura ou travessura poderia ser mais prazerosa do que ter Rosalie em seus braços por alguns segundos e ela não afastá-lo.
~-~
Alec Swan conheceu pela primeira vez em seus dezesseis anos o verdadeiro significado de suar frio. Isso sem contar o seu estômago que dava reviravoltas sem trégua... Alec só pedia para que nenhum barulho vergonhoso viesse à tona.
A expressão do nervosismo latente que sentia era graças à mulher que estava sentada ao seu lado. E o que os dois estavam prestes a fazer.
Ela parecia tão certa de si, que chegava a dar medo, os calafrios subindo pela espinha do Swan menor. Até o modo como ela estava vestida revelava que se tratava de alguém perigoso... como se toda a figura de Isabella demonstrasse que ela era arisca, venenosa, feroz.
Toda de preto. Botas de couro que vinham até o joelho, acompanhadas da calça de lavagem escura e da camiseta simples. A roupa destacava cada curva que a mulher possuía. Incrivelmente, sua pele branca e leitosa destoava de todo o cotexto, destacada pela cor negra, era um chamativo...
Alec não sabia dizer se Isabella era um demônio disfarçado na pele de um anjo, ou um anjo aprisionado em um corpo de demônio. Talvez uma mistura das duas coisas. Era a mistura, aquela dualidade peculiar, que fazia Alec querer saber mais e estar cada vez mais perto dela.
– Escute bem, porque eu vou falar uma única vez – a mafiosa estacionou o carro do lado de fora de um casebre no meio do nada – O homem que está lá dentro é um boca grande. É um delator. Eu vou torturá-lo, eu vou arrancar dele quem é o contato dele na polícia, de quem ele é informante, e o quanto eles sabem. Depois, eu vou mandar Fabrizio matá-lo. Eu quero que você fique calado, não interfira. Apenas observe. Hoje não vai acontecer nada que possa chocá-lo tanto assim, portanto espero que não se comporte como um bebê lá dentro.
Alec arregalava os olhos à medida que a mulher despejava as palavras. Era quase como se ela tivesse sido ligada no automático. Engoliu em seco. A última coisa que queria era decepcioná-la.
– Fui clara?
O menino balançou a cabeça uma vez, em afirmativo. Sentia-se dentro de um filme clichê de suspense... E ele seria o próximo a morrer.
Os olhos azuis idênticos aos seus na tonalidade o encaravam sem expressão. E era ai que os Swans se diferenciavam. Enquanto Alec mostrava todo o seu medo e ansiedade, Isabella continuava fria e implacável.
– Ótimo. Saia do carro.
Mal chegaram à entrada da velha casa e a porta já se abriu, os olhos de Fabrizio encontraram a figura feminina e sua cabeça abaixou-se rapidamente, em uma reverência velada de cumprimento.
– Fabrizio... – a mulher balançou a cabeça, e voltou uma mão até o adolescente que vinha pouco atrás dela – Alec testemunhará o interrogatório. Aguarde aqui fora enquanto executo o serviço.
– Carne nova no pedaço? – Fabrizio arriscou em um tom baixo – Não vá chorar e chamar pela mamãezinha...
O homem de origem italiana era bem mais de uma cabeça mais alto que a Swan, mais alto que o federal, Isabella notou, e logo defenestrou a comparação que fez. Por que ela simplesmente não parava de pensar no Agente Masen?
Mesmo com a diferença notável de altura, quando a Swan chegou perto de Frabrizio, com o nariz empinado e o olhar que congelava, nenhum expectador da cena poderia duvidar que o homem se dobrava a ela, e que, sob o seu comando, tornava-se alguém pequeno e insignificante.
– Quem lhe deu a permissão para falar? – Isabella começou, baixo e mordaz – Dobre a sua língua antes de dirigir a palavra para Alec Swan! Lembre-se de quem ele é filho, e pense no que ele pode ser daqui alguns anos. Você não é nada além de puro lixo comparado a ele. Entendeu?
Fabrizio abaixou a cabeça.
– Sim senhorita.
Isabella afastou-se do homem chamando Alec com o olhar, o menino, atônico, passou alguns passos a frente dela.
Isabella, sua prima Isabella, tinha acabado de defendê-lo?
– Ah... – Isabella virou-se para o subordinado – Por que aquele homem está preso e será morto, Fabrizio?
O homem engasgou por um momento.
– Por falar demais, senhorita Swan.
Isabella sorriu diabolicamente.
– Mantenha isso em mente para que vocês não compartilhem o mesmo destino.
~-~
O “mesmo lugar de sempre”, era um bar um pouco afastado do centro da cidade, e, portanto, do burburinho dos jovens adolescentes que começavam a descobrir as belezas do álcool e se consideravam bebedores natos.
Um lugar adornado de quadros de cantores importantes, de craques da música, e frequentado por bandas de rock de verdade, não os irritantes “som ambiente”, ou a ensurdecedora música eletrônica.
Hoje, os três amigos policiais, abandonaram a mesa de sinuca tão estimada, e estavam sentados em uma mesa próxima da entrada... A mesma pergunta sendo feita pela enésima vez por um deles.
– Espera ai, você beijou a agente Lewis, mas pensou na primeira sobrinha?
O federal passou as mãos pelos cabelos já desgrenhados.
– O nome dela é Isabella. Não consegue pronunciar, Jasper? Por que você sempre tem que relacioná-la a máfia, ou ao Charles Swan?
– Porque ela é uma criminosa, Edward. Isso é o que ela é...
– Jasper... Isso não é tudo o que ela é! Se fosse, ela não teria salvado Rosalie das garras do próprio tio! – Emmett contra atacou... Detestando que o amigo pintasse a mafiosa daquela forma nua e crua... Se não fosse por ela, Emmett nem fazia ideia do que teria acontecido com Rose.
Edward apoiou os cotovelos na mesa, as mãos firmes contra seus olhos. A foto de uma Isabella bebê pesando uma tonelada em sua carteira.
– Você está tão fodido por essa mulher, Edward. – Jasper pontuou e Emmett rolou os olhos.
– Ele já sabe disso, nós já sabemos disso, acho que até a própria Isabella sabe disso. Você não precisa pontuar isso a cada dois segundos, Whitlock!
Jasper levantou a mão, chamando a atenção da atendente e pedindo mais três cervejas, o celular do federal começou a vibrar por cima da mesa, e três cabeças viraram-se curiosas para o visor que brilhava: Alice. Edward ignorou a ligação.
– A comparsa dela vem ligando para você? É isso mesmo? – Jasper perguntou, incrédulo.
– Comparsa essa que você adorou dar uns amassos na cozinha do Edward, não é mesmo?
O Masen bateu as mãos do tampo da mesa.
– Vocês dois, não estão ajudando em nada! Sim, Alice vem ligando, e eu ignorando. Se fosse algo realmente importante ela conseguiria me encontrar. Eu não quero falar com ela.
Emmett suspirou.
– Edward – chamou incerto, os olhos do amigo voltaram-se para ele – Por que você não vai atrás dela?
O federal não respondeu de imediato, voltando seu olhar para a mesa, traçando padrões aleatórios na madeira.
– Não posso – murmurou por fim, rendido.
– Por que? – dessa vez foi Jasper quem perguntou.
Edward suspirou.
– Porque eu não sei de mais nada... Não sei se acredito que ela teve um porquê para o que fez, não sei se ela realmente estava sendo sincera, não sei se foi por influência do tio...
De repente, nem Emmett, nem Jasper prestavam mais a atenção no discurso do amigo, os dois pares de olhos estavam presos em algo além da calçada, do outro lado da rua. O federal logo percebeu a cara pálida dos dois amigos, e interrompeu-se.
– O que foi?
O primeiro a voltar a falar foi Jasper:
– Falando no diabo...
Edward virou-se lentamente e por um minuto pensou que estava vendo coisas, que sua cerveja tinha sido adulterada e a visão a sua frente fosse fruto do imaginário. Mas era tudo real demais, sua raiva quase tangível... O sangue corria quente e depressa pelo corpo e a descarga de adrenalina transpassou todo o corpo masculino.
Sua Isabella, usada, manipulada... seu corpo invadido. Sua irmã Rosalie naquele beco imundo aos prantos...
Edward Masen enxergava tudo vermelho a sua frente, fúria pura e visceral. Mas o ódio guardado e a tensão dos últimos dias finalmente tinham encontrado uma válvula de escape:
Charles Swan.
O Masen saiu do bar, sem nem dar chance para os seus amigos impedirem, e cruzou a rua sem se importar em olhar para os lados. Seu alvo estava mais a frente, de costas para ele... Chegar até lá era a única coisa que importava.
E faltava pouco... tão pouco!
Naquele instante não existia o Agente. Existia um homem, totalmente fora de si, clamando por um mínimo de justiça... Vingança... Clamando por um acerto de contas feito pelas próprias mãos.
E então ele o alcançou, a mão do federal pesando contra o ombro do número um da máfia, e o puxando para trás, o virando.
E, finalmente, seu punho acertou em cheio um cruzado de direita no rosto surpreso de Charles Swan.
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