Red hair - VHOPE
2 Talvez
Na frente do escritório estava parado um homem com cabelos extremamente vermelhos e lisos, acompanhados de um sorriso gigantesco. Mas apesar da curiosidade que despertou em si, Kim estava pronto para entrar e seguir com a normalidade de seu dia, afinal, não o conhecia. Contudo, de alguma forma, o enorme sorriso parecia direcionado a si. Observando, ainda a alguns passos de distância, a obra completa, pode notar o corpo do homem, que antes intercalava o peso entre as pernas, agora estava virado pra ele, em expectativa. Expectativa visível em seu olhar, que... parecia... sorrir também? Como alguém poderia sorrir com os olhos?
— Kim Taehyung, certo? Sempre vejo fotos suas com o Jimin, e ele fala tanto de você que parece que já o conheço -se interrompe para uma risada baixa, estendendo um copo em sua direção- Não tinha certeza se ia querer um café, hoje está meio abafado. É de pêra.
Taehyung avaliava toda a cena, com certa dificuldade de processa-la. Não que houvesse algo surreal em um conhecido de um amigo o procurar quando precisasse do serviço que ele presta. Não, a coisa toda estava em quão bonita era a voz desse conhecido. Por mais estranho que aquilo soasse na mente do Kim, seu tom também parecia sorrir. Novamente, e ainda mais inesperado, como alguém poderia passar a sensação de um sorriso pela voz?
— Obrigado -pega o copo e diz após perceber que estava a mais tempo que o socialmente aceito como normal, encarando o rapaz- Eu vou lhe entregar uma ficha para que preencha com os detalhes que preciso. Seu orçamento, especificações que deseja na casa, bairro, coisas assim.
Depois de vê-lo assentir com a cabeça, rumou para dentro do prédio e se direcionou ao elevador, que, curiosamente, o aguardava parado no andar. Certo, aquele dia ficava cada vez mais estranho. Kim passava pelo menos 5 minutos toda manhã aguardando o elevador chegar, sempre ficava parado no 3° andar por tempo demais. Sua suspeita é que a recepcionista que levava marmita para guardar na copa ficava com a porta aberta, enquanto falava com o senhor do almoxarifado.
Hoseok abriu a porta e a segurou por dentro, sorrindo para Taehyung, que estava encarando o painel do elevador como se o tivesse visto pela primeira vez. Ao notar que fazia o ruivo esperar, despertou e rapidamente entrou também, apertando o botão número 5. Encarando o chão, enquanto ouvia o som dos andares passando, pousou o olhar no tênis branco que o rapaz usava. Era realmente muito branco, como se fosse novo e talvez até fosse.
— Você não sente vontade de se sufocar com o próprio casaco todo dia que pega esse elevador?
Taehyung levantou o rosto para encarar Hoseok, com o semblante completamente confuso. Que tipo de pergunta era essa? E por que ele estava com um sorriso contido nos lábios? E por que os lábios dele pareciam tanto com um coração?
— O cheiro dessa essência é péssimo. O que supostamente deveria ser? Porque passou bem longe de qualquer aroma agradável -ele completou quando percebeu que o moreno não o responderia.
Talvez tenha sido pela surpresa do comentário inesperado, ou talvez por nunca ter notado no cheiro, mas Taehyung soltou uma risada alta. Realmente era horrível, algo como um floral bem adocicado, mas devia ser de uma qualidade bem baixa, já que o cheiro forte de álcool era marcante na mistura.
— Imagino como deva ser ao fim do expediente no verão, se todos precisam usar essa camisa social de mangas.
O ruivo continua, apontando para Taehyung com o copo de chá vazio. Ele mantinha um sorriso nos lábios, deixando bem claro que estava só brincando. O moreno olhou para a própria camisa salmão e riu mais ainda, encostando a cabeça na parede gelada do elevador. Em menos de um segundo, a risada de Hoseok se misturou a dele, ecoando no local. Ao chegarem no 5° andar e a porta se abrir, Taehyung suspirou fundo e passou a mão na barriga de leve. Nem sabia muito bem o porquê de ter rido tanto, mas depois de começar, não conseguiu parar.
Enquanto bebericava o suco que o rapaz havia levado para si ‐curiosamente, era seu preferido-, Taehyung direcionou Hoseok até sua baia, no grande escritório. O ruivo olhou curiosamente tudo disposto de forma organizada pela mesa, com pelo menos 15 post its colados em um quadro de avisos perto do notebook. Parecia ter um padrão de cores, mas ele não fazia ideia de qual poderia ser.
Para ser sincero, o Kim parecia uma completa incógnita. Trabalhava com Jimin a pelo menos 2 anos e nunca havia, de fato, conhecido seu amigo. O loiro falava muito sobre ele, mas para toda saída que era chamado, havia uma desculpa. Hoseok percebeu, rapidamente, que o homem era bem tímido, meio fechado. Era até difícil de acreditar que o moreno com dedos ágeis, movendo entre as divisórias das pastas, era o mesmo das histórias do Park, que dançava em cima da caixa de som e tomava cerveja barata.
— Ah, aqui está. Você tem muita pressa?
Jung pegou o papel que foi direcionado a si, em uma prancheta de plástico e passou o olhar rapidamente pelas informações.
— Na verdade, um pouco. Meu roomate está de casal agora e apesar de ter dito que não atrapalho, é meio estranho -ele entorta os lábios e encosta o corpo na mesa, retirando a caneta da parte superior da prancheta, começando a preencher o formulário.
Enquanto isso, Taehyung aproveitou o momento para analisa-lo com mais atenção. Hoseok era muita informação, era muito.... muito. Até a iluminação péssima da lâmpada fria do escritório parecia fazer seu cabelo reluzir. Não era bem por sua roupa, ele usava apenas uma calça jeans e camisa branca, tudo bem que o casaco preto florido era um bom destaque, mas não era isso. Ele apenas era muito interessante? Cheirava a algo como laranjas e um amaciante muito gostoso.
— E agora?
O Kim deu um sobressalto em sua cadeira ao ouvir a voz do rapaz e encarar seus olhos ansiosos, estava bem perdido nos próprios pensamentos e até um pouco confuso para onde caminhavam. Depois de piscar algumas vezes ele pegou a prancheta e passeou os olhos rapidinho pelos campos preenchidos, se atentando as especificações extras: piso de tacos e "se possível, evitar números ímpares".
— Números ímpares? -foi inevitável o franzir do nariz ao questionar em voz alta.
— Ah –antes de continuar, Hoseok ri de si mesmo e coça a nuca- O número do apartamento, sabe? 101, 103. Se puder ser algum de número par, eu acho que prefiro. Sei lá.
Não fazia parte do trabalho de Taehyung questionar, ele já havia escutado muitos pedidos estranhos e específicos. "Precisa ser até 500m dessa padaria", "Precisa bater sol na varanda entre as 10h e 13h", "Em hipótese alguma pode ser uma casa na rua de uma Igreja". Mas ninguém nunca ligou para a numeração do apartamento. E ele não ligou se era ou não seu trabalho quando retornou a falar:
— Eu gosto de números impares, acho que por empatia. Deve ser triste ser um conjunto sem definição no universo matemático. Quer dizer, aprendemos que um número é ímpar por não ser par, que são aqueles múltiplos de 2.
Hoseok estava muito sério enquanto ouvia o que ele tinha a dizer, mas não conseguiu conter uma risada alta. Empatia por um conjunto numérico? Esse tipo de sentimento sequer era possível? O sorriso se manteve dançando em seus lábios mesmo depois de ajeitar a postura e encarar Taehyung novamente, principalmente porque o homem ainda ria com a prancheta cobrindo o rosto.
— Agora eu estou me sentindo uma pessoa péssima por minha discriminação, ainda mais por ser motivada por uma superstição boba.
— Então você aceitaria um apartamento que terminasse em 4, só para não ficar em um ímpar? * -suas sobrancelhas estavam arqueadas em questionamento, sob os fios de cabelo escuros, mas seu tom era divertido. Também era possível ver o sorriso quadrado espalhado em seus lábios, e Jung não pode evitar pensar no quão bonito era.
—Bom, considerando a situação, eu percebo que a resposta certa para essa pergunta seria "Claro que não", mas não posso ser hipócrita e negar que ficaria na dúvida. As duas opções são péssimas. Aliás, me dê aqui essa prancheta, preciso adicionar que os terminados em 4 também devem ser evitados.
Antes que o ruivo pudesse alcançar a ficha, Taehyung fica de pé e a posiciona com os braços atrás de si, negando com a cabeça e rindo de toda situação. Porém, ele sequer teve a oportunidade de responde-lo com outro comentário petulante, pois de onde estava agora, podia ver as outras baias sendo ocupadas pelos colegas de trabalho. Olhando ao redor, Kim percebeu o falatório e barulho de telefones tocando por toda parte. Não foi capaz de esconder o semblante confuso ao perceber que não tinha reparado na movimentação, a qual rotineiramente reclamava, do escritório. Hoseok segue o olhar do mais novo, notando pela primeira vez, também, que o local já estava cheio.
— Bem, eu vou deixa-lo trabalhar. Obrigado por aceitar me ajudar nessa empreitada –o ruivo diz ao se colocar de pé também, sorrindo com os lábios fechados e pegando a embalagem de chá vazia que estava sob a mesa do rapaz.
— Você quer sair hoje à noite? -Taehyung diz rapidamente, espantando o homem em sua frente, tanto quanto a si mesmo.
Estaria mentindo se dissesse que não queria, mas não planejava convida-lo, muito menos dessa forma. Seu rosto vermelho e a súbita tensão que se estabeleceu em seus ombros largos foi a prova clara disso. Sua mais sincera vontade era de sair correndo ou se enforcar com o fio do telefone que estava na mesa, contudo, não tinha para onde ir e uma morte por asfixia poderia demorar demais. Teria que ficar agonizando e se babando todo na frente do ruivo até, finalmente, morrer. Não, já havia sido vergonha o suficiente para o dia.
Hoseok não aparentava estar muito diferente, seus olhos estavam levemente arregalados encarando o moreno, que parecia fervilhar. Ok, ele certamente não esperava por isso. Na verdade, se não tivesse o constrangimento de Taehyung quase o acertando na cara, talvez achasse que ouviu errado. Contudo, balançou a cabeça e abriu um grande sorriso. Não seria idiota de deixar a situação ainda mais estranha, muito menos de perder a oportunidade que foi jogada em seus braços.
— Tenho seu telefone salvo, e graças a Jimin, em capslock e com muitos corações. Te envio uma mensagem mais tarde, para saber a hora que você vai estar livre.
Mesmo depois de juntar toda dignidade que encontrou em seu interior, Taehyung conseguiu apenas assentir com a cabeça e se sentar novamente na cadeira. Olhando para a prancheta em suas mãos e depois para o ruivo de pé, repetindo a ação algumas vezes, até lembrar que precisava ser profissional.
— Levo as opções que encontrar dentro de suas especificações, para que possa averiguar as localidades antes de marcar as visitações.
— Tudo bem, obrigado de novo. Bom dia.... e, até mais tarde! -novamente, aquele sorriso gigantesco foi direcionado ao moreno antes de Hoseok se afastar e sair pelo corredor, desejando bom dia as pessoas que passavam por ele.
E entre todas as coisas estranhas que haviam acontecido naquela manhã, talvez a maior delas tenha sido o que Taehyung viu a seguir: Sr. Lee, o corretor mais antigo do departamento, que deixava claro para todos com boa audição o quanto rezava para cada dia passar mais rápido que o anterior e sua aposentadoria chegar logo, sorriu e acenou. Para Hoseok, seu sorriso e a breve reverência. Naquele momento, a voz de uma das terapeutas voltou a sua mente, entre as trezentas coisas embaralhadas que passavam por lá, a frase proferida pela mulher se sobressaiu:
"Um dia você vai encontrar algo que o fará muito feliz, sem que se esforce ou perceba. Não fique procurando, vai aparecer quando for a hora."
E a julgar pelo sorriso divertido que se encontrava nos lábios de Kim, junto da sensação estranha e quente que se arrastava por baixo de sua pele, talvez ela estivesse certa. E talvez, esse algo tivesse cabelos bem vermelhos e um sorriso gigantesco.
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