Red and Gold

1 Capítulo único


Notas iniciais
Se a história estiver confusa, é pq foi inspirada em Dark, rsrsrs (tudo culpa de Jonas)

A claridade do sol de meio-dia o desorientou por alguns segundos, pois não só tinha deixado para trás um bosque fechado, como também um em plena escuridão da meia-noite. Sentiu mais do que viu uma criaturinha puxando a ponta de sua capa comprida.

— O que veio fazer aqui, moço? — Era uma voz infantil familiar quem o questionava, com um toque de petulância inconfundível. O borrão vermelho logo deu lugar a imagem nítida de uma garotinha o encarando desconfiada.

Não tinha uma resposta certa para essa pergunta.

— Acho que vim apenas te conhecer. — Respondeu incerto, recebendo um olhar cético da garotinha de capuz vermelho. Ela o avaliou de cima abaixo, ainda desconfiada. — Sou o detetive Andrew Lang, a propósito.

Assim que ouviu seu título, a menina abriu um sorriso banguela de quem havia ganhado na loteria das fadas. Claro que a palavra detetive a havia animado, pelo pouco que ele conhecia dela.

— Veio prender o Lobo Mau então? Já não era sem tempo! Você vê, ninguém acredita em mim, uma garotinha de 6 anos e meio, mas com certeza vão acreditar em um detetive de capa dourada! — Ela falou animada, quase atropelando as palavras de tanta empolgação. — Espera... Por que um detetive usaria uma capa dourada?

Andrew sorriu para a pergunta perspicaz e resolveu que a resposta merecia ser dada olhos nos olhos. Se abaixou até ficar na altura da garotinha.

— Foi um presente de uma pessoa querida, que eu nunca havia usado, até que você me disse para fazê-lo há algumas horas. — Explicou conciso, sabendo que se fosse qualquer outra pessoa, ela não teria compreendido o que ele havia dito.

Mas aquela garotinha não era uma pessoa qualquer.

— Ah! — O som saído da boca da menina havia sido quase um sussurro, logo seguido por um sorriso ainda maior que o anterior. — A sua capa é mágica como a minha, não é?

***

Andrew Lang era um homem que gostava de cuidar de seus casos sozinho e mesmo tendo uma capacidade quase sobrenatural de escapar das maiores encrencas possíveis, preferia guardar seus dons para aqueles com os bolsos cheios.

Então foi com grande estranhamento que se viu cooperando com a força policial de uma pequena vila no canto mais afastado do Condado. Olhou novamente através do vidro duplo da delegacia, ao lado de um robusto delegado bastante indignado.

— Foi o que disse a você no telefonema, Lang, a garota se recusa a falar com meus homens, porque falará somente com o “detetive Andrew Lang, por favor". — O homem narrou de novo o fato, franzindo o cenho como se assim pudesse entender melhor o enigma a sua frente.

— Essa é sua única suspeita de matar um lobo falante? Essa garotinha? — Andrew apontou descrente, mas fez o possível para manter o tom de voz neutro. — O que vocês têm contra ela exatamente?

— Ela foi pega em flagrante! — O delegado cuspiu em um só fôlego, porque sabia o quão absurdo tudo aquilo parecia.

— Matando o lobo?

— Ao lado do corpo, de pé, satisfeita com o trabalho feito. — O delegado explicou, limpando o suor da testa com um lenço que já vira dias melhores. — Era um bom lobo, o velho Tim... Essa garotinha vinha infernizando a vida dele nos últimos dias.

— De que forma?

— Espalhando esses panfletos absurdos... Aqui, veja! Uma mentira infudada contra um cidadão de bem da nossa comunidade! — O delegado dessa vez falou colocando toda sua indignação na explicação, enquanto passava o tal panfleto ofensivo para o homem.

Tratava-se de uma propaganda de geleias em um fundo quadriculado, cujo garoto propaganda era um lobo simpático. Precisou ler melhor para entender onde estava o problema.

— É uma propaganda interessante... “Nem todos os lobos devoram garotinhas, mas os espertos o fazem com a deliciosa geleia real da vovó! Venha já comprar a sua!” — Andrew leu com uma entonação teatral, então riu de leve pelo ridículo da situação. — Não é um bom slogan, admito, mas eu não diria que é uma ofensa específica para a sua vítima.

— Bem... — O delegado começou, mas hesitou visivelmente envergonhado. — Houve esse caso não resolvido bem no início de minha carreira, você sabe... Uma garotinha acusou o velho Tim de comer sua vovozinha com geleia e quase devorá-la também.

— E ele era inocente?

— Claro que era inocente! Acha mesmo que eu deixaria um vilão comedor de vovozinhas circulando por essa cidade sem punição? — O delegado questionou indignado, então Andrew preferiu outra abordagem.

— Ok, voltemos para o caso atual: qual foi a arma do crime? — Perguntou, enquanto dobrava o folheto para analisá-lo melhor depois. O delegado pareceu ficar novamente desconcertado.

— Bem... A arma ainda não foi encontrada. Mas o bosque, onde o corpo de Tim e a garota foram encontrados tem muitas raízes nodosas onde esconder uma arma! — O homem bigodudo constatou confiante.

— Ela teve tempo de esconder a arma, mas não de fugir do flagrante? — Andrew questionou com educação, para não inflamar ainda mais os nervos do delegado. Não esperou que ele respondesse. — A propósito, como os seus homens souberam que deveriam ir até a floresta?

— Ah, essa pergunta é fácil! O velho Tim nos ligou para informar que a menina estava novamente futricando perto de sua caba... Oh! Esqueci de mencionar: a menininha estava sempre por perto, acusando o velho Tim com o olhar!

— É uma informação bastante relevante, de fato. Na verdade, ajuda a construir todo um motivo para o crime, não é mesmo? — Andrew perguntou simpaticamente, para massagear o ego do velho delegado.

— Sim, exatamente! É o que tenho dito para os meus garotos, Lang, a pestinha tinha o motivo e a oportunidade! — O homem mais velho informou empolgado ao ver que alguém concordava com suas elucubrações. — Os outros detalhes a gente vai desenrolando depois, não é mesmo, detetive?

— Estou pronto para falar com a garota agora, se não se incomodar. — Andrew pediu hermético, confundindo um pouco o delegado com sua mudança brusca de assunto. — Em uma sala particular, de preferência.

— Bem, isso...

— Não é negociável. — Andrew completou a frase balbuciada do homem, com um sorriso simpático, mas firme. O delegado piscou ainda entre o confuso e o ofendido. — Que bom que concordamos em alguma coisa, meu caro.

***

A delegacia era pequena, mas a sala do delegado era bastante grande e espaçosa, Andrew havia notado. Sorriu para o homem assim que ele retornou com a garotinha sob sua custódia.

— Isso é tudo, meu senhor. — O detetive particular dispensou o delegado, enquanto voltava a sentar na cadeira de couro, que quase o engolia de tão grande. — Se aproxime, por favor, senhorita...

— Chapeuzinho vermelho. — A menina respondeu com um sorriso faltando dois dentes na frente.

— Como a Chapeuzinho vermelho que perdeu a vovozinha supostamente comida pelo... “Lobo Mau"? — Andrew leu o termo diretamente de suas anotações recém-feitas sobre o caso de quase 50 anos mencionado pelo delegado. Tinha estado ocupado na última hora.

— Eu tenho a capa vermelha, não tenho? — Ela respondeu travessa, pouco assustada para uma menininha sozinha, sendo acusada de assassinato. — Onde está a sua?

— Não tenho uma capa vermelha. — Respondeu distraído, agora buscando a informação que havia lhe chamado a atenção na história do delegado. Além do sumiço da vovó e da acusação da netinha, três itens haviam sido roubados da casa da velhinha há 50 anos:

Três potes de geléia real e uma colherzinha de alumínio de um conjunto infantil de prato, copo e talher, bem comuns nas vilas do interior.

O conjunto era tão popular, que ele mesmo havia herdado um conjunto de prato e copo daqueles, com as iniciais de sua mãe gravadas, então a colher não parecia algo digno de ser roubado, mas as geleias...

— Sua capa não é vermelha como a minha, a sua é dourada, seu bobo! — Ela respondeu divertida, assistindo o homem levantar os olhos das anotações para encará-la, agora completamente atento.

— Do que você está falando?

— Da sua capa dourada, detetive Andrew! Aquela que você usou há três dias quando me visitou! — Ela esclareceu, mas só deixou Andrew ainda mais confuso.

— Não me lembro de ter falado com você há três dias... O que eu te disse? — Começou sem querer parecer cético, porque a menina estava colaborando... E tagarelando.

Já tinha solucionado casos mais misteriosos do que esse de olhos fechados, então sabia o protocolo: deixe-os tagarelar.

— Não foi nos seus três dias atrás, foram nos meus! — Chapeuzinho explicou travessa, deixando Andrew cada vez mais intrigado. — Você me disse que eu estava certa e que finalmente eu teria minha justiça.

— E o que mais eu te disse?

— Para te esperar na minha celinha hoje, a um quarto para meia-noite, porque hoje é lua cheia. — Ela informou com seriedade, mas estragou o efeito ao sorrir novamente seu sorriso banguela. — E como todo mundo sabe, capas mágicas só funcionam durante a lua cheia! Tem que ter a lua na ida ou na volta, se não elas nem ligam!

— Capas mágicas...

— Ah! Não se esqueça de trazer a sua! — Chapeuzinho o lembrou, enquanto se levantava e se dirigia a porta, mesmo sem ter sido dispensada. — Não se atra... Não, já sei que não vai se atrasar.

A menina abriu a porta e o delegado tropeçou para dentro de sua própria sala tomada, com o rosto vermelho feito um tomate.

— Err... Me chamou, Lang? — Perguntou, tentando disfarçar sua indiscrição.

Bundão... — Foi a única resposta que obteve, vinda de um sussurro em uma voz infantil.

— Feche a porta novamente quando sair, por favor, delegado.

***

— Capa mágica... Sei! — Andrew resmungou cético, não porque não acreditasse em objetos mágicos, e sim porque a capa que sua mãe lhe dera há alguns verões não era nada além de uma capa dourada extravagante.

Sua mãe era a criatura menos mágica que poderia pensar, estava mais para um general das tropas do rei, então qualquer presente dela era exatamente o que parecia ser!

No entanto, era um verdadeiro mistério como a garotinha sabia sobre o objeto. Levou a capa dourada consigo noite adentro, porque, fato misterioso ou não, apenas uma pergunta realmente precisava ser respondida naquela vila: quem matou o Lobo “Mau"?

O resto dos mistérios ele podia desvendar em seu pequeno apartamento, com suas pantufas velhas e o barulho das sirenes de ambulância, carros de polícia em perseguição e briga dos vizinhos.

Chegou à frente da delegacia quase no horário indicado, não tendo grandes dificuldades para adentrar o prédio pouco protegido. As celas ficavam nos fundos, e por ser uma cidade tão pacata, estavam completamente vazias, com exceção de uma.

— Pronta para me explicar do que se trata tudo isso, mocinha?

— Pronto para capturar um lobo muito, muito mau? — A garotinha retrucou, fazendo Andrew sorrir com tristeza.

— O lobo já está morto, pequena.

— Ainda não, mas vai estar logo, logo. Que bom que trouxe sua capa mágica. — Ela sorriu satisfeita. — Mas antes de cuidarmos do lobo, temos que passar em um lugar.

***

A casa que estavam agora fora abandonada há algumas décadas, mas ainda era uma cabana sólida, cheia de poeira e movéis cobertos com tecidos brancos, facilmente desbravada por uma garotinha determinada.

— De quem é essa casa abandonada?

— Da minha avó. — A menina respondeu, dando pulinhos ao finalmente descobrir uma velha cristaleira rota. — Aqui está!

Deu duas viradas à esquerda e três a direita na maçaneta de prata do móvel antigo, que logo soltou um grunhido e deu espaço para uma passagem escura, da altura da menina.

— Para onde isso leva?

— Para a coleção da vovó.

— Que cole... Minha nossa! — Andrew havia se abaixado para entrar pela passagem e assim que Chapeuzinho puxou a cordinha da luz, se surpreendeu com as paredes preenchidas do piso ao teto com os mais diversos tipos de artefatos. — Por que diabos sua avó tinha uma coleção de armas antigas?

— Porque as geleias que ela fazia eram deliciosas, muito cobiçadas! — Chapeuzinho respondeu com simplicidade, escolhendo uma arma em formato circular, com cara de bastante afiada, para si.

— De jeito nenhum, mocinha! Nada de armas afiadas! — Andrew ordenou, enquanto tirava o objeto da mão da garota com cuidado. — Perdeu o juízo?

— Então escolha você uma arma! Não dá para matar o Lobo Mau com beijinhos e abraços! — A menina retrucou indignada, fazendo Andrew se perguntar em que porcaria de universo paralelo havia se metido ao permitir que aquela loucura fosse tão longe.

— O lobo já está morto, garota! Só me resta saber se foi você quem o matou ou não! — Concluiu exasperado, fazendo a menina o encarar com muita seriedade para alguém tão jovem.

— Escolha sua arma e eu te mostro como você está redondamente enganado. — Ela retrucou decidida, fazendo o homem revirar os olhos antes de escolher aleatoriamente uma besta chukonu.

Checou rapidamente o artefato, que já estava carregado com suas dez flechas, prontas para serem disparadas uma atrás da outra em menos de dez segundos. Andrew apoiou a arma no ombro, mesmo sabendo que não a usaria de jeito nenhum essa noite.

— Satisfeita?

— Muito!

— E agora? — Perguntou com impaciência.

— Agora a gente vai atrás do Lobo Mau. — Ela falou em um tom perigoso, depois sinalizou com a cabeça para sua capa. — Abaixe o capuz. Isso... Agora me dê a mão.

Andrew segurou a mão pequenina, completamente engolida pela sua mão de adulto. Chapeuzinho sorriu, antes de abaixar o capuz também. Sentiu um repuxo no umbigo e sua mão foi largada pela da menina logo em seguida.

Tirou o capuz dourado para ver se ela não havia escapado, mas lá estava ela, o olhando com a mesma cara sapeca de sempre.

— Vamos logo, parece que está vindo uma tempestade daquelas! — A garotinha informou, depois saiu em disparada para fora do esconderijo secreto da vovó. E porque Andrew já tinha jogado para o alto seu manual de detetive e seu bom senso, foi atrás dela.

***

Tinha que admitir, o dia claro ainda era um toque particularmente perturbador em toda a situação, mas ao menos era óbvio que ainda mantinha sua sorte intacta, já que estava tendo a oportunidade de conversar com a garotinha de capa vermelha sem nenhum adulto por perto.

Sua mãe teria ficado enlouquecida com a situação, mesmo que soubesse que a menina não corria riscos com ele: “não fale com estranhos, Andie, e não se atreva a se desviar do caminho!”

— Então você precisa que eu devolva essa arma para a coleção da minha avó, sem a minha mamãe saber? — A garotinha de seis anos perguntou desconfiada, então Andrew lhe deu um sorriso amarelo antes de responder.

— E a mantenha carregada para mim, sim?

— Você é muito estranho...

— Eu sei, desculpa por isso!

— É estranho, mas é mais divertido do que os adultos que encontro por aqui. — Ela sinalizou feliz, aceitando a grande besta da mão do homem de capa molhada. — Ok, o que mais eu tenho que fazer?

Andrew pensou, de cenho franzido, tentando achar uma maneira de encontrar a conexão entre tudo aquilo. Lembrou de pequeno objeto em seu bolso esquerdo, algo que talvez o ajudasse a desvendar aquele mistério no futuro.

— Me entregue isso aqui quando nos encontrarmos novamente, ok? Para eu saber que tudo foi real. — Fechou a sua mão grande sobre a mão da garota, que não vira o que havia recebido.

— Ok, Andrew.

— Mais uma coisinha de nada... — Pediu fazendo careta. Chapeuzinho riu, aceitando mais um pedido do detetive engraçado. — Como funciona esse negócio de capa mágica mesmo?

***

— Eu já estive aqui antes, então o melhor é que você vá pelos fundos! — Chapeuzinho avisou, ao mesmo tempo que um trovão retumbava ao longe. Andrew se viu impelido a obedecer a menina. Simplesmente havia algo muito familiar naquele tom de voz mandão.

Fez o que foi pedido, afinal o lobo estava definitivamente morto agora e, segundo o delegado, ele morava completamente sozinho. O que era uma violação de cena do crime e invasão de propriedade, para quem já tinha “sequestrado” a única suspeita de um assassinato?

Tentou ver se a porta dos fundos estava aberta e como o esperado para uma vila pacata, a tranca cedeu sem grandes esforços. Revirou os olhos para si mesmo, porque parecia que o destino queria mais é que ele se afundasse até o pescoço naquela confusão.

Andou pé ante pé no piso de madeira antigo, se mantendo silencioso. Se assustou com um movimento no corredor, ao mesmo tempo que um raio cortara o céu tempestuoso. Trombou com a estante atrás de si.

O som dos pequenos objetos caindo da estante no chão foram abafados pelo trovão que seguiu o clarão anterior. Andrew fez uma careta para o golpe de sorte e demonstração de amadorismo, apoiando a besta na mesa da cozinha, enquanto tentava catar as pequenas colheres colecionáveis do chão.

Uma em particular lhe chamou atenção, porque às iniciais gravadas eram bastante familiares, havia crescido vendo-as quase todos os dias da sua infância. Que coisa... Curiosa.

— Não vai tentar me devorar dessa vez, Lobo Mau? — A voz da garotinha soara ameaçadora no outro cômodo. Andrew sabia que tinha que impedi-la de fazer uma besteira na casa, mas o que o alarmou realmente foi ouvir uma voz gutural responder à pergunta.

Não sei como chegou aqui, mas não vai conseguir o que quer, Chapeuzinho. Eu sou um lobo mudado agora.

Andrew guardou a colherzinha na capa, enquanto a outra mão tateava a mesa, a procura da besta. Se posicionou na soleira da porta, a ponta da primeira flecha mirando o lobo de costas para ele.

Como aquilo era possível? Esse lobo não havia morrido?

— Ou talvez seja o mesmo lobo que percebeu que, matando a vovozinha, perdeu também a geleia real em que lambuzava suas vítimas, antes de devorá-las! — Chapeuzinho gritou para o lobo velho, de pêlos grisalhos.

— Você é mesmo uma menininha muito pertubada... Estou ligando agora mesmo para a polícia, então você tem exatos cinco segundos para sair da minha cabana! — O lobo começou a contagem, fazendo a menina hesitar, então sair porta a fora. — Alô, é da delegacia? Aqui é Tim Lobo... Sim, da cabana perto do lago. O delegado disse que era para ligar para vocês, caso a garotinha voltasse a me importunar...

Andrew abaixou a besta, voltando para a porta dos fundos. Estava muito confuso, porque era como ter um dejá-vu de algo que sabia que não havia vivido!

Puxou o capuz sob a cabeça assim que sentiu a chuva lhe açoitar no rosto, tentando ver por onde a garota havia fugido. Sua capa dourada, molhada do jeito que estava, não seria o chamariz de sempre, do mesmo jeito que a vermelha da menina também não estava se destacando entre os troncos das árvores.

Ouviu passos pesados as suas costas.

— Chapeuzinho, o qu- — Nunca completou a frase, porque precisou usar todo o seu instinto de sobrevivência para atirar no vulto enorme que pulou sobre si.

As flechas da chukonu dispararam ainda mais rápido do que os dez segundos prometidos, o impacto dos projéteis pontudos mudando a trajetória do corpo enorme. Andrew assistiu o lobo cair de lado no chão da floresta, as gotas de chuva encharcando os pelos grisalhos, que deixavam entrever costelas que não se moviam mais.

Céus, o Lobo Mau agora estava definitivamente morto!

E pior, ele, Andrew, era o verdadeiro assassino! O homem olhou desnorteado para a besta em suas mãos, então para o corpo a sua frente. Pelos bules da Fera, precisava sair dali, precisava se livrar daquela maldita arma!

Fechou os olhos e sentiu um puxão desconfortável no umbigo, forte o suficiente para ser lembrado, mas não tanto para distrai-lo de seus problemas. Agora precisava ser prático: se o que o delegado disse estava correto, os oficiais chegariam à cena do crime a qualquer minuto, com o corpo ainda morno, então...

Espera, onde estava o corpo? E a chuva? Para onde havia ido a tempestade?

Não, aquilo não podia ser correto! A tempestade podia até ter se encerrado bruscamente, mas o céu, mesmo na lua cheia, não podia estar tão iluminado assim! Aproveitou que agora podia ver melhor o caminho de terra batido, para se afastar do que deveria ser uma cena de crime, mas era...

Apenas uma floresta vazia.

Seguiu para o único lugar em que poderia deixar a maldita besta agora: de volta no esconderijo secreto da vovó!

***

Se Chapeuzinho vermelho ensinara o funcionamento das capas direito, precisava pensar no lugar que queria estar e a capa mágica o levaria para onde, ou melhor, quando devia estar. O puxão no umbigo lhe avisou que o truque havia funcionado mais uma vez.

Abriu os olhos para a noite nublada de lua cheia, surpreso em reconhecer os arredores da vila pacata. Estava em frente ao pequeno prédio da delegacia! Quando fez menção de entrar, o delegado saiu pela porta, parando surpreso ao vê-lo ali.

— Detetive Lang! Que bom que está aqui! O senhor não vai acreditar, a pestinha... Sumiu! — O homem falou chocado, com uma expressão que não combinava exatamente com a de um oficial pronto para achar quem quer que fosse.

— Sumiu?

— Como num passe de mágica!

— Bem, talvez ela tenha finalmente voltado para o lugar de onde ela veio, quem sabe? — Andrew falou dando de ombros, recebendo um olhar assombrado do delegado.

— Perdão?

— Volto para checar isso amanhã, ok? Agora preciso tirar essa capa molhada, estou congelando até os ossos... — Reclamou para si mesmo, mas o delegado ainda estava escutando.

— E por que o senhor está molhado, detetive Lang?

— Nem queira saber, delegado, nem queira saber...

***

Em seu quarto de hotel, Andrew tentava entender o que havia acontecido, tentando entender se aquilo sequer poderia ser real! Uma garotinha do passado havia atraído ele ali para cumprir alguma vingança antiga viajando por meio de capas?

Ficou encarando sua capa dourada secando perto da lareira, até três toques na porta o assustarem. Uma camareira anunciou sua presença.

— Sim? — Andrew perguntou curioso, dando toda a deixa que a jovem precisava.

— Uma senhora mandou isso para você, disse para que a encontrasse no lobby do hotel. — A camareira repassou o recado do jeito que havia recebido, fez uma vênia leve e sumiu de vista.

Andrew olhou para a colherzinha de alumínio que havia deixado com Chapeuzinho no passado e que alguém havia enviado para ele agora no presente. Sorriu ante a perspectiva de finalmente entender o que diabos havia acontecido!

Desceu as escadas do hotel de dois em dois degraus, pois se quem havia entregado a bendita colherzinha que ele roubara da casa do Lobo Mau agora era uma senhora, isso só podia significar que...

— Mamãe?!?!

— O que eu falei sobre confiar em estranhos, Andrew Lang?

Notas finais
Uma curiosidade: o conceito foi inspirado em um dos estilos de plot da série alemã Dark e quem me conhece sabe que eu adoro usar algumas referências das minhas inspirações, então vocês podem achar que a capa dourada de Andrew é uma homenagem a capa de chuva amarela de Jonas (teria sido digno), porém a capa na verdade é uma referência a adaptação de Chapeuzinho vermelho feita por um escritor chamado Andrew Lang (sim, eu sei, eu sou absurda) cuja chapeuzinho tinha, na verdade, uma capa dourada que a protegeu de ser comida pelo lobo mau (queimando a boca dele, no caso), exatamente o que nosso detetive fez aqui nessa história (sem a parte da queimadura).

Bem, bem... É isso!
Bjuxxx
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!