P.O.V. Henry.

Eu pude sentir a culpa na voz dela.

—Você está sofrendo por amor. Eu posso dizer.

—É. O amor não se importa com dinheiro.

—Me conta. Eu não vou julgar você, eu não sou ninguém para fazê-lo.

—O nome dela era Valerie. Eu sempre a amei. Ela era a garota mais bonita da nossa vila, mas ela não me ama, ela escolheu outro. Estávamos de casamento marcado, mas eu rompi com ela.

—É muito mais do que qualquer outro homem já fez. Você é diferente Henry. Você me lembra Paris, ele também era sensível, altruísta um verdadeiro cavalheiro. Os outros homens que conheci... eles não se importavam com o que nós queríamos, diziam que nos amavam, mas não era amor. Era desejo. Eles tomavam o que queriam, com ou sem o consentimento da pessoa "amada". Proponho uma parceria. Você é caçador e eu também. Vê? Não somos tão diferentes afinal.

Eu precisava saber.

—Podia ter deixado a outra bruxa me matar, poderia ter me deixado para morrer, mas não deixou. Porque não?

—Porque eu não sou como vocês. Sou uma defensora dos inocentes, da vida. Adoradora da natureza, da vida. O que vocês adoram é a morte. Prosperam no ódio e na escuridão, deturpando as palavras de homens infinitamente sábios, cheios de luz e amor. Transformando o amor em ódio, a esperança em medo, a sabedoria em ignorância.

Disse Ravenna com tristeza.

—Eu não adoro a morte!

—Não? Então, você não caça e condena pessoas por serem diferentes, por discordarem de você? Por acreditar em algo que você não acredita? Não torturou, matou, queimou outros? Você não sabe de nada caçador.

A casa dela era cheia de coisas penduradas no teto, estranhos símbolos desconhecidos e ela tinha muitas ervas e ainda mais livros. Inclusive...

—Uma bíblia?

Perguntei segurando o exemplar.

—Você talvez tenha lido o que está escrito ai, eu ouvi o irmão falar. Eu estava lá. Sou mais velha do que o primeiro exemplar deste livro que está segurando. E existiram tantos antes deste ai. O primeiro exemplar deste livro que você chama de Bíblia, o primeiro igual a este ai foi publicado em 19 de junho de 352 D.C. Um bando de clérigos com sede de Poder se juntou por meses e meses, editando, eliminando partes e até mesmo evangélios inteiros para transformar uma mensagem de perdão, igualdade e esperança em uma arma que até este dia... A Igreja que eles criaram usa para espalhar a violência, a vingança, o terror.

A indignação na voz dela era palpável.

Por cima eu vi desenhos, paisagens. Construções, cidades, coisas que nunca vi.

Peguei um dos desenhos. Era uma cidade, mas a estrutura usada nas construções não era como nada que eu já tenha visto.

—Gostou? Essa era a Roma da Época do Império. Estas coisas são colunas, a arquitetura greco-romana era muito mais evoluída e elaborada do que... tudo isso. Os Romanos eram um povo muito limpo. É engraçado, você sabe como os Romanos dominaram todo o mundo conhecido naquela época?

Fiz que não. E ela respondeu:

—Construindo estradas. A civilização romana não era perfeita, longe disso, mas era melhor do que isso. Mais limpa em certos aspectos, eles construíam catacumbas e aquedutos. As catacumbas construídas naquela época existem até hoje embaixo da imundice que Roma se tornou. Há uma parte dos antigos aquedutos que ainda está lá. Eu me lembro quando aqueles aquedutos se estendiam... pela cidade inteira. Me lembro de ir á inauguração do Coliseu.

Disse a bruxa mexendo algo no caldeirão. Eu sinto o cheiro é bom.

—Que tipo de poção está cozinhando ai?

—Sopa de legumes.

Respondeu enquanto descascava batatas. É errado que estou interessado no que ela já viu? No que viveu? Deus me perdoe.

-Você viu isso?

—Vi. Eu tenho quatro mil anos mais ou menos. Eu meio que parei de contar já faz alguns milênios. É a minha benção, minha maldição, meu fardo.

—Porque um fardo? Viu coisas incríveis, jamais morrerá.

Então, Ravenna se ajoelhou para poder olhar para mim, para ficar no meu nível de altura já que estou deitado numa cama.

—Oh, doce menino. A ideia de Imortalidade parece atraente até você descobrir que vai passá-la sozinha, vendo seus amigos, seus amados morrerem. Todos vão partir e você vai ficar para trás. Com as memórias dos seus amados. Eu pareço uma pessoa e biologicamente falando, eu sou, mas por dentro... sou uma peça de museu. Todo meu conhecimento, todas as minhas viagens, minhas histórias e não tenho ninguém com quem compartilhar e aqueles com quem eu compartilhei já se foram. É, morreram.

—E você se lembra de tudo?!

—Não tudo. Durante esta minha existência muito longa, eu tive a minha cota de amigos, inimigos, amantes, aventuras e descobri que os momentos realmente significativos, aqueles que importam... são vibrantes, o resto simplesmente... some. Desaparece, cai no esquecimento.

Falou enquanto fatiava as batatas e as adicionava á sopa.

—Já está quase pronta, você terá tempo de se lavar.

—Me lavar?

—A sujeira trás a doença Henry. Acredite. Lá fora há uma tina cheia de água.

A bruxa me deu uma barra de uma cor meio amarronzada.

—É sabão. Feito com óleo de oliva e jasmim. Faça bastante espuma, com água bem clara esfregue as mãos e a cara. E não deixe a espuma entrar nos olhos.

Disse ao me entregar aquela barra de sabão.

—Se não se lavar não vai comer.

Sem ter muita escolha sai da cabana que ficava no meio da floresta, árvores e lá estava a tina de madeira com água. A água estava fria, mas me lavei mesmo assim. Tive que me lavar mais de uma vez até ficar devidamente apresentável.

Então, aquela voz falou atrás de mim.

—Como eu previa, a água saiu preta. Precisa se lavar com mais frequência Henry! Tomar banho! Ah, como a humanidade ficou nojenta. Tome para se secar.

Falou Ravenna me estendendo um pano branco. Então ela completou:

—Por favor vá olhar a sopa pra mim, sim? Enquanto eu me lavo.

Vi uma oportunidade e agarrei. Voltei para dentro, peguei o frasco com a mistura que o meu comandante me deu, abri a tampa... porém, não consegui me forçar a atirar aquilo dentro do caldeirão.

Ravenna, bruxa ou não salvou minha vida. Está tratando meus ferimentos. Se ela não tivesse aparecido, eu estaria morto.

Então a bruxa de vestido azul veio entrando pela porta da frente, pendurando a sua capa num mancebo.

—Essa sua capa...

—É. É vermelha e com um capuz, uma amiga fez para mim como presente de agradecimento. Por um feitiço que eu fiz na neta dela.

A Capa de Ravenna era exatamente igual a de Valerie!

—E que feitiço foi esse?

—Um para proteger a criança de pessoas como você. Eu não concordo muito com a decisão que Eleonor tomou, mas ela fez o que achou que era melhor para a menina.

—E a menina tem um nome?

—Eu imagino que ela tenha. Deve ter mais ou menos a sua idade agora. Quando Eleonor a trouxe, ela era apenas um bebê. E era um bebê lindo. É uma pena. Infelizmente eu tirei daquela garotinha um pedaço de sua vida, de sua identidade, mas o feitiço a manteve segura. Vamos comer.

Acho que ela está falando de Valerie.

—Você sabe o nome da mãe da criança?

—Sim. Porque o súbito interesse nesta criança? Se quer saber a identidade da menina, pode esquecer. Eu não vou contar. Não vou deixar ferir uma criança inocente que não tem culpa alguma de ser como é. Como a natureza a criou. A natureza criou todas as coisas, mas foi o homem que decidiu o que era... Errado.

Agora estou intrigado. Eu nunca soube o nome da vó de Valerie. Mas, eu estava lá quando o lobo apareceu, quando Valerie e somente Valerie o entendeu. Falou com a criatura. Será Valerie realmente uma bruxa?

Porque ela foi capaz de se comunicar com o lobo e mais ninguém pôde?