Tudo estava dando incrivelmente errado.

Eu havia feito tudo certo... Não deixei nenhuma prova do ritual, fiz parecer apenas um encontro infeliz de um lobo faminto e uma pobre velhinha indefesa. Até tive que cortar a barriga do animal e costura — lá novamente, inventando uma história "fantástica" de que um caçador anônimo, na tentativa de salvar minha querida vovó, cortou a barriga do lobo e como a percebeu morta, costurou a barriga do animal em um gesto de se redimir com seus deuses.

E quando voltei para casa, os aldeões me olhavam com indiferença. Eu poderia ouvir suas acusações de bruxaria por entre os becos em cada rua que eu passasse.

Ah... como era bom. Se eu pudesse, eu repetiria tudo de novo. Os gritos abafados na vovó e seus ossos quebrando. Seus olhos revirando para dentro das órbitas em meio a toda dor que o ritual poderia proporcionar... Eu me deliciava com todo aquele sofrimento. Até deixei o animal se alimentar das pernas de minha avó ainda viva. Como era bom... rasgar a garganta dela enquanto a olhava nos olhos.

Mas tudo tem suas consequências.

Cheguei em minha casa, velha e suja como sempre. Minha única companhia era meu cãozinho. Minha mãe, uma prostituta egoísta, estava com certeza em um bar conseguindo dinheiro com seu corpo já enrugado.

Aquele maldito cão me seguia por toda parte. Eu estava irritada com o fato de que poderiam me acusar e me punir se descobrissem tudo, e aquele cão não parava de latir por comida. Preparei um pouco de comida para o animal e aproveitei para colocar uma boa dose de veneno junto.

– Pode aproveitar, fiel amigo. Coma como se fosse a sua última vez — Deu uma risadinha seca enquanto o mesmo comia feliz. Ah, se ele soubesse se era mesmo a última.

O mesmo logo começou a engasgar e a se contorcer. O veneno estava funcionando. Ele vinha em direção a minha perna, latindo baixinho por piedade. Chutei sua barriga e ele caiu para o centro da cozinha. Sua morte foi lenta e ... deliciosa.

– Agora quero ver vir pedir comida novamente por aqui. — Vesti meu capuz e iniciei uma caminhada para dentro da floresta.

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A noite estava fria e nublada. A lua não se escondia mais por entre as nuvens, vestida com um capuz vermelho semelhante a mim. Eu estava caminhando à horas, e minha preocupação não parava de me consumir. Retornei para minha vila e apesar de não ser no horário de recolher, ela se encontrava deserta e sombria.

Me dirigi para a praça pública, onde poderia estar alguns dos cidadãos — a maioria fofoqueiras e prostitutas. Nada. Ninguém...

Uma sombra se ergueu mais adiante e me aproximei, com cautela. Quando cheguei mais perto, senti um cheiro horrível de carne morta.

Quando olhei melhor, me assustei. E-era...era... minha mãe.

Ela estava lá, jogada no chão sem roupa. Seu corpo estava todo arranhado e roxo, nos pescoços. Olhar vidrado, batom borrado. Expressão de terror...

Passos se aproximaram de mim, vários passos. Me percebi cercada pelos aldeões. Os olhei enfurecida, meu rosto coberto pelo meu capuz vermelho. Me ergui, trêmula, afinando a voz e juntando as mãos, inocente.

– M-minha mamãe... E-ela ta toda machucada. Ajudem-na. — O prefeito deu um passo a frente, segurando um pergaminho em suas mãos.

– Lilithy Caccano, você foi sentenciada... — Meu corpo tremeu.

– Não.. não — Murmurei.

– ... a morte na fogueira, por bruxaria.

– NÃO! OLHEM, EU SOU SÓ UMA MENININHA — Tirei meu capuz e os aldeões ficaram horrorizados. Muitos tampavam seus olhos com medo e outros desmaiavam. Fui em direção a fonte da praça e vi meu reflexo na água. Meus cabelos tinham falhas, meus olhos estavam vermelhos e meus ossos transpareciam na pele. Eu parecia... um demônio. — NÃO, NÃO... ISSO NÃO PO-

A unica coisa que me lembro antes de desmaiar foi meu reflexo.

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O cheiro forte de fumaça me lembrava vagamente de minha avó, fumando seu cachimbo. Me lembravam também dos homens que minha mãe trazia para casa, e dos cachimbos que eles fumavam depois do sexo.

Apenas poucos ousavam ficar perto da fogueira, entre os poucos estavam o prefeito e um padre, orando por mim uma última vez.

– Pai nosso que estás no céu.. — Ele começou. Revirei os olhos e sussurrei, seca.

– Ninguém pode ouvir. — Ri com a expressão de espanto do padre quando ele parou a oração e me olhou. Ele tentou continuar em meios a gaguejos, e o som de sua voz me queimava por dentro de um modo que eu não entendia.

As chamas estavam atingindo meus pés e estava na hora de dizer minha últimas palavras.

– Escutem bem, todos! — Olhei para a Lua. Ela parecia me observar, queimando naquela cruz, sem querer ajudar. — Daqui para frente, uma vez por ano, uma noite será como está. O céu se cobrirá de sangue e uma maré de terror cobrirá os homens. Vocês poderão se esconder em suas casas, embaixo de seus cobertores, abraçados com suas famílias. — Dei uma pausa e ri — Mas não irá adiantar... Nesse dia, uma jovem de 12 anos deverá ser sacrificada do mesmo modo que estão a derramar meu sangue. E se não o fizerem.. hehe.. Ela será possuída e irá matá-los. Um por um. E não irá parar até que eu queira.

Olhei para Lua Sangrenta e deixei as chamas me consumirem. Para onde eu ia, as chamas eram apenas um glorioso prêmio.

Eu não sentia mais dor. Muito pelo contrário, ela me era deliciosa. E agora... poderei ver a dor deles. A dor dos homens, quando tiverem de matar suas filhas. Queima-las e vê-las sofrerem nas chamas, como eu sofri a vida inteira. Como eu adoro ouvir os gritos das menininhas, implorando por piedade, assim como eu gritava quando minha mãe me batia. Agora, uma onda vermelha se aproxima... Uma onda vermelha por entre os homens. Que trará ódio, terro e guerra.

Ah...como é bom...

E não se esqueçam, crianças: Não saiam na floresta sozinhas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!