Red Dead: Rebirth

6 Do Diário de Arthur Morgan p. 91


Passaram-se alguns dias desde o ataque do urso. Estou ainda em Willard's Rest, me recuperando dos ferimentos. Não foram tão graves assim, mas Charlotte insistiu tanto para que eu permanecesse que decidi por aceitar. Sabia que meu plano ainda era partir em busca de vingança contra Micah Bell, por isso sempre criava formas de me deixar ocupado. Como, por exemplo, com a reforma do estábulo há muito abandonado que havia nos fundos de sua casa, com o intuito de deixar Guinevere mais confortável e também, futuramente, para que ela pudesse ter um lugar para deixar seu cavalo, algo que ainda estava em seus planos. Havia também umas goteiras no telhado... Minha ajuda certamente levaria um ou dois meses. Certamente o Arthur Morgan antes da tuberculose não se permitiria a gestos tão altruístas e a essa hora estaria montado em um cavalo, rodando meio Oeste à procura de Micah. Mas deixei esse velho Arthur para trás há muito tempo, e agora já não tenho mais tanta certeza se a vingança ainda está nos meus planos. Charlotte não sabe disso, mas prefiro deixar as coisas assim. Ainda sou um hóspede, afinal.

Não nos falamos sobre o beijo. Creio ter sido melhor assim. Foi dado no calor da emoção. Mal consigo imaginar o turbilhão de sentimentos que passou em sua cabeça, ao me ver quase morto da mesma maneira que seu esposo. E saber que ela presenciou a morte dele e que não foi capaz de atirar, incapacitada pela vida de boa dama da sociedade que jamais deferiu um tiro em um ser vivo, fez me tornar ainda mais culpado. Culpado, pois sinto-me estremecido pelo beijo. Desde então, não paro de pensar nela em maneiras mais românticas... Ontem, pensei nela pela primeira vez de um modo mais carnal, e agora não sei mais como agir ao redor dela. Creio que estou sozinho nisso, pois sinto que ela me olha da mesma forma que antes, com um profundo respeito, admiração e, acima de tudo, amizade. Não que eu não sinta o mesmo, mas... Diria que meus sentimentos vão um pouco mais além do que isso. Temo que ela vá me expulsar quando souber disso. Que estou fantasiando coisas graças a um beijo dado em um momento de desespero. Com certeza vai me achar um canalha, um aproveitador por isso. E não poderia tirar sua razão.

No entanto, penso que ela deveria ao menos saber o que sinto. Talvez ela sinta o mesmo, quem sabe? Mas o temor de perder sua amizade sincera, algo tão raro para pessoas como eu, é mais forte. Não quero estragar algo tão precioso com uma fantasia de adolescente. Ou talvez, seja meu lado mais carnal falando mais alto. Há quanto tempo estava sem uma mulher? Um par de anos, pelo menos. Talvez fosse isso. Estava desesperado, louco por fazer sexo, e via na pobre Charlotte uma alternativa para saciar meus desejos. Talvez, uma ida ao saloon de Saint Denis resolvesse isso... Havia mulheres fáceis por lá, eu sabia. Dispostas a satisfazer as necessidades de um homem em troca de centavos. Não seria difícil recorrer a elas, embora não fizesse isso desde meus tempos de adolescente, quando as mulheres ainda eram um território pouco desbravado por mim. Mas ao mesmo tempo, não queria que Charlotte soubesse dessas minhas aventuranças com mulheres da vida. E ela acabaria descobrindo, pois de vez em quando ia à Saint Denis comprar mantimentos ou fazer retiradas em sua conta bancária. A mera hipótese de magoá-la com uma canalhice minha me causava sofrimento.

Talvez, eu esteja apaixonado de verdade.

E agora?


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Hoje aconteceu algo no mínimo inusitado, porém bastante sugestivo.

Charlotte decidiu comprar um cavalo. Havia ido sozinha a Saint Denis e feito mais uma retirada em sua conta bancária. Tinha agora dinheiro o suficiente para comprar um cavalo, que ela dizia fazer muita falta ali. Estava cansada de gastar dinheiro com os transportes de carruagem, além de achar o cavalo mais prático do que caminhar até Annesburg.

Fomos a Annesburg, montado em minha égua Guinevere. Charlotte estava muito animada e não parava de falar durante nossa cavalgada sobre os cavalos que já havia visto no estábulo. Percebi que ela planejava a compra do cavalo há meses. Queria que eu a ajudasse a escolher o animal certo, pois me sentia mais entendido no assunto do que ela, e desconfiava que o dono do estábulo queria lhe empurrar um cavalo mais caro, mas não necessariamente bom.

E, para surpresa de ninguém, foi bem isso o que ocorreu. Talvez por vê-la como uma grã-fina ingênua e facilmente ludibriável, o dono do estábulo enxergou nas boas maneiras de gente de cidade grande de Charlotte uma forma de lucrar generosamente. O animal que ele havia oferecido a ela era arredio demais, apesar da boa raça e linhagem, para não dizer do preço, quase o dobro, mas que não se sustentou nesse patamar tão logo eu reclamei. Não à toa ela estava com dificuldade em comprar um cavalo. Mas o problema não era só o preço. Como Charlotte era pouco experiente, precisava de um cavalo dócil, que lhe servisse bem como um companheiro, não necessariamente um puro-sangue inglês de corrida, arredio e nervoso, mas veloz. Analisei cavalo a cavalo. Vi seus dentes, ferraduras, músculos. Montei em alguns deles, e ajudei Charlotte a fazer o mesmo. No fim, acabamos por gostar do mesmo cavalo. Um Morgan macho, de pelagem marrom e algumas pequenas manchas brancas pelo corpo. Era bastante dócil. Tão logo ela cavalgou sobre ele, notei que havia se criado ali uma espécie de conexão, algo importantíssimo para se ter com um cavalo. Muitas vezes essa conexão que tinha com meus cavalos salvou a minha vida, e mesmo que Charlotte tivesse um estilo de vida bem mais... “pacífico” que o meu, era importante possuir algo assim. Por isso, esse Morgan foi o escolhido. Quanto ao nome, ela decidiu nomeá-lo como Caramelo. Um nome simpático, pensei.

Mas Charlotte não tinha roupas apropriadas para montar a cavalo. Os vestidos que usava, embora mais práticos do que as mocinhas de Blackwater e Saint Denis costumavam usar, ainda era pesado demais e que limitava seus movimentos. E isso atrapalhava Charlotte em passar confiança a Caramelo, pois o tempo todo ela estava preocupada que seu vestido pudesse rasgar. Havia, portanto, duas alternativas: uma sela para mulheres, que permitia que ela pudesse sentar com as pernas de lado, ou uma vestimenta para equitação feminina. Charlotte imediatamente rechaçou a ideia da sela feminina, e para nenhuma surpresa, quis a roupa de equitação, que consistia, na verdade, em um par de calças. A julgar pela etiqueta de mulheres da alta sociedade, era a única maneira de vê-las usando calças sem soar como algo enfadonho, mas ainda assim, era algo bastante moderno. Tão moderno que o dono do estábulo simplesmente disse que só encontraríamos algo semelhante assim em Saint Denis.

A ideia de ir a Saint Denis depois de tudo que aconteceu chegou a gelar minha espinha. Pensei em desistir disso, mas seria muita falta de educação de minha parte simplesmente deixar Charlotte ir até a cidade desacompanhada. E ela parecia tão animada por acompanha-la que simplesmente me sentia incapaz de dizer-lhe “não”. Pergunto-me agora se sou capaz de dizer “não” a algum pedido dela, na verdade. No fim, mesmo com meus instintos de bandido dizendo que revisitar Saint Denis era uma péssima ideia, decidi ir assim mesmo. Montamos em Guinevere e partimos. Sua animação era evidente ao longo da estrada pantanosa – animação esta que eu não compartilhava. Odiava a cidade e toda a modernidade que ela representava, mas não poderia culpar Charlotte. Havia crescido nesse meio e tinha uma perspectiva de vida diferente da minha. No fim, havíamos nascido em universos quase que opostos, mas apesar de sempre ter taxado as mocinhas ricas da cidade grande como fúteis e monótonas, Charlotte era diferente aos meus olhos. Talvez porque estivesse se desafiando com uma vida no campo, tal como seu falecido marido sonhava. Poucas mulheres teriam tido a coragem de morar sozinha naquela floresta, mesmo tendo aprendido a sobreviver com o que a Natureza poderia nos ofertar. E nesse aspecto, eu a admirava.

Cavalgamos por aquelas ruas asfaltadas, desviando do bonde barulhento e tomando cuidado com os pedestres mais distraídos. Guinevere estava claramente assustada com todo aquele barulho. De todos os cavalos que tive, ela era a égua mais desacostumada com os ruídos de uma cidade grande, por isso sabia que precisava ser paciente a cada relincho ou hesitação dela em continuar. Seu martírio acabou quando paramos diante de um prédio enorme, repleto de lojas sofisticadas. Tão logo avistei os primeiros chapéus pomposos de madame, sabia que era lá que Charlotte encontraria sua vestimenta para cavalgar.

Um costureiro, tão delicado quanto uma flor do campo, nos recebeu. Ofereceu-me inúmeras vezes um banho de loja, reclamando de minhas roupas, dizendo que eu me parecia um caipira. Ora, mas eu era um caipira! Pouco me importava se usava botas eslameadas e um chapéu de caubói, mas segundo o sujeitinho, minha roupa era “incrivelmente brega” com uma mistura de cores destoantes e que não combinavam. Respirei fundo várias vezes, torcendo para que Charlotte fosse rápida na escolha. Como se adivinhasse minha irritação, ela foi.

-Nossa, mas está bastante caro!

-Essas são as roupas de equitação mais modernas que encontrará em Saint Denis, mademoiselle! Valem cada centavo, pode acreditar...

Olhei para o livro no balcão. Assobiei, assustado. Mais caro que um conjunto de terno e gravata dos mais chiquérrimos! Um exagero, com toda a certeza.

-Charlotte, se quiser eu posso te ceder uma de minhas calças...

-Que deselegante!

-Ela vai montar um cavalo, não passear em Paris! – retruquei, irritado. Charlotte, entretanto, pareceu também não gostar muito da minha sugestão.

-Não se preocupe, Arthur. Eu posso pagar.

Retirando de sua bolsa um talão de cheques, ela assinou um com o valor exato das roupas de equitação e entregou ao costureiro, que obviamente parecia muito grato.

-Agora, vamos às medidas! – disse, pegando uma fita métrica e conduzindo Charlotte até os fundos da loja. Sabendo que essas medidas levariam alguns minutos, decidi esperar do lado de fora. Havia uma praça com uma fonte ali perto, o que me fez desejar desde a hora em que cheguei simplesmente sentar-me um pouco e descansar enquanto Charlotte cuidava de seus assuntos femininos.

E foi o que fiz por uns bons minutos.