Red Dead: Rebirth

2 Do Diário de Arthur Morgan, p. 79


Notas iniciais
Não tenho muito o costume de escrever histórias em primeira pessoa - quem leu minhas fanfics sabe que o máximo que faço é intercalar POVs - e essa fanfic do Arthur vai por essa mesma linha. Se alguém como eu pôde ler o diário dele entre uma missão e outra certamente achou bem bacana a forma como ele se expressa por ali, e decidi manter esse mesmo tom. Boa parte dos capítulos serão assim, intercalados entre o ponto de vista de Arthur e o narrador. Espero que gostem. Boa leitura!

Canadá, 1? de ?? de 190?


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Canadá, 1? de Abril de 19??


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Desisti de datar meu diário. Aqui, enfurnado nessas montanhas do Canadá, simplesmente perdi por completo a noção do tempo. Creio que se passou quase um ano, pois estamos na primavera por aqui. Vejo muitas flores e o clima está muito mais quente do que quando chegamos. Presumo que estejamos em abril, agora quanto ao dia... Difícil dizer. Os índios por aqui não prestam atenção aos calendários dos brancos. Contam seus dias através da lua, do sol, das estrelas. Presumo que no final seja melhor assim.

Tão logo chegamos por aqui, em meio ao outono e suas folhas secas, minha presença por entre os indígenas canadenses não foi lá das mais agradáveis. Apesar de todas as recomendações de Chuva Caindo e dos outros Wapiti, os indígenas canadenses não gostaram de me ver em seu meio. Conquistei a confiança deles com o tempo, e devo dizer, não foi nada fácil. Ainda que não seja tão habilidoso com o arco quanto sou com uma arma de fogo, minhas habilidades com caça tornaram-me um pouco mais “tolerável” a eles.

Por conta disso, estou há muito tempo sem saber o que é o peso de uma arma. Alguns indígenas – aprendi aqui que é o mais correto a chama-los – tem algumas delas no acampamento, obviamente, rudimentares, talvez do tempo dos meus avós ou da Guerra Civil, mas portá-las por aqui me foi negado. Meus revólveres, rifles e pistolas estão guardados em uma caixa trancada, na tenda do líder deles. Nem mesmo Chuva Caindo tem o direito de mexê-las.

Este é outro fato que muito me entristeceu. Apesar de toda sua sabedoria, está cada dia mais claro que Chuva Caindo não é mais o líder dos Wapiti – na verdade, mais claro ainda é que os Wapiti em breve deixarão de existir. Ontem ocorreu o primeiro casamento entre uma das poucas mulheres Wapiti com um indígena canadense, e é nítido que muitos outros acontecerão. Boa parte dos homens Wapiti morreram, incluindo Águia Voando, o que deixa as mulheres com poucas opções dentre seu próprio povo. Não tardará mais que uma década até que os Wapiti sejam absorvidos por eles, sua cultura e seus costumes provavelmente apagados da face da Terra. Nunca pensei por essa perspectiva desde esse casamento, e apesar de ainda sentir o gosto bom de alce temperado com ervas em minha boca, temo que estou sendo testemunha ocular da completa extinção de um povo.

Apesar disso, sinto-me feliz e tranquilo aqui. Participo dos grupos de caçada pela floresta com os outros homens, ajudo a esfolar os animais, converso com todos. Até aprendi uma ou outra palavra de seu idioma. Não o suficiente para sustentar uma conversa por muito tempo, mas é nítido que ouvir um “obrigado” em seu idioma nativo os deixam mais contentes. E me esforço em assim fazê-lo, pois devo muito a eles. Se não fosse pelos esforços de Chuva Caindo e suas curandeiras, não estaria aqui, curado da tuberculose. Quando paro para pensar que, a essa altura, eu estaria provavelmente morto, engasgado no meu próprio sangue... Sinto um calafrio tenebroso.

Não tive notícias de Dutch ou de qualquer outro membro da gangue. As notícias mal chegam aqui, pois a tribo sequer mantém contato com o mundo exterior. Ouvi dizer que ora negociam peles em troca de medicamentos e outros insumos, mas até o momento não tive contato com esses comerciantes, e duvido muito que tenha. Afinal, Chuva Caindo contou ao chefe que eu sou um fora-da-lei, foragido, e creio que esse tenha sido o fator primordial para não ter sido muito bem aceito por eles, mas entendia seus motivos. Era uma questão de demonstrar confiança. Muito embora o Canadá parecesse longínquo, cometi tantos crimes que meu nome poderia chegar a ouvidos de suas autoridades. Mas agora, ninguém se importava muito com o meu passado, apenas se eu era capaz de trazer um cervo bem gordo todos os dias para o almoço.



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Chuva Caindo veio me procurar para conversar.

Nos últimos tempos, não temos conversado muito, creio que mais por falta de assunto do que por qualquer outro problema. Já conversamos tanto sobre mim, sobre ele, os problemas do mundo e meu passado que acreditava não haver mais nada a se dizer além de coisas triviais de nosso cotidiano na aldeia, mas o velho Wapiti sempre tinha algo na manga para me surpreender.

Essa manhã, perguntou-me sobre Mary.

Há muito tempo não falava sobre ela – diria até que não pensava sobre ela – mas ouvir seu nome suscitou lembranças, boas e ruins. Foi a primeira vez que me perguntei se ela estava viva ou morta. Uma tolice, pois o que poderia matá-la? Ninguém sabia sobre nós dois, sobre nosso amor juvenil assassinado pelas diferenças sociais e por minha vida bandida, e talvez fosse melhor assim. Ela estava a salvo dos Pinkertons e de quem quer que fosse que ainda estivesse atrás de mim. Mas agora, me perguntava se ela estava bem, se soubera de meu envolvimento na morte de Cornwall. Provavelmente sim, e imagino o quão chocada estaria por me ver envolvido no assassinato de um homem tão proeminente quanto ele. Sem dúvida, uma sentença eterna à Morte, e duvido que ela desejasse estar de um homem eternamente “procurado vivo ou morto”, como eu.

Creio que ele percebeu meu coração partido pelo inevitável. Disse-me algumas palavras acalentadoras, mais por educação que qualquer outra coisa. E logo em seguida, disse a que veio. Perguntou-me o que eu achava de uma das indígenas Wapiti. Deu-me o nome de três delas, que sabia que estavam atrás de um homem para desposar. Um homem indígena, sempre pensei, mas nem no mais imaginável dos cenários poderia suspeitar que Chuva Caindo me desejasse entre os pretendentes. Sábio como era, percebeu que eu não andava de olho em nenhuma delas. Não porque não fossem bonitas, longe disso. Duas delas eram exuberantes, mas o fato é que, naquela aldeia, me sentia pisando ainda em gelo fino, de modo que olhar para qualquer uma daquelas mulheres poderia ser quase que uma sentença de morte, ou no melhor dos cenários uma expulsão.

Não sei o que Chuva Caindo pretendia com aquela conversa. Se a intenção dele era simplesmente me integrar ainda mais à aldeia e cessar de vez com qualquer desconfiança, ou porque minha atual solidão chegava a lhe dar pena. Mas comecei a ficar temeroso com relação a meu futuro entre eles. Talvez porquê, no fundo, eu seria sempre o homem branco a seus olhos – aquele que o expulsou de suas terras, matou, torturou... Como se eu tivesse que carregar para sempre o fardo daqueles que tanto oprimiram o seu povo. E talvez, a única saída seria casar-me com uma delas. Dar-lhe filhos mestiços. Misturar-me. O problema é que eu não amava nenhuma delas. Talvez estivesse velho demais para amar outra mulher, talvez o mais sensato fosse realmente aceitar esse casamento arranjado, mas isso era o certo a se fazer?

Pedi a Chuva Caindo um tempo para pensar, muito embora tanto ele quanto eu já soubéssemos da resposta.



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Estou há alguns dias negligenciando meu diário, mais por falta de tempo devido aos últimos acontecimentos do que mero esquecimento. Muita coisa aconteceu, em tão pouco tempo. Escrevo sob uma fogueira, a caminho dos Estados Unidos. Estou partindo do Canadá, sentindo mais dor do que qualquer outra coisa. Não dor física, mas emocional. Descubro agora que ela pode doer tanto quanto uma facada ou flechada.

Fui expulso da aldeia. Ou melhor, “gentilmente convidado a me retirar” da aldeia, apesar do quão absurdo isso possa soar. Culpa minha, penso agora. Não sabia que recusar o casamento entre uma das indígenas poderia soar como algo tão ofensivo, preconceituoso. Infelizmente, foi dessa forma que o chefe interpretou minha recusa, achando que “eu não queria misturar meu sangue branco com o sangue imundo de uma pele vermelha”. Eu jamais pensei dessa forma, apenas não queria prosseguir adiante com um casamento sem amor, apenas por mera formalidade ou maneira de me integrar a eles. A gota d’água foi a insinuação de que eu estava olhando maliciosamente para uma das jovens mencionadas por Chuva Caindo em uma de nossas conversas, coisa essa que não existiu.

Agora, refugiado no calor da fogueira, percebo tudo que aconteceu. Essa moça estava, na verdade, interessada em mim. E eu, tolo demais, não percebi. Não percebi suas verdadeiras intenções quando ela me dava um pouco de sua comida para provar, ou me mostrava seu belo trabalho de artesanato com flechas de caça. Talvez esses nomes não tivessem surgido à toa da cabeça de Chuva Caindo, mas sim, foram algumas das moças Wapiti quem procuraram-no para perguntar se eu era casado ou qualquer coisa do tipo. Penso agora que minha ingenuidade ao tratá-las cordialmente, sem pensar em como poderiam ver meus gestos, ajudou a alimentar falsas esperanças nessas pobres jovens e talvez até em seus pais. E agora, como já havia expressado meu desejo de não me casar com nenhuma delas, não restava outra opção senão partir.

Chuva Caindo ficou a se desculpar todo o tempo, enquanto me devolvia o meu equipamento. Recebi minhas armas de volta, ao menos. E também, uma égua selvagem que havia domado recentemente e havia chamado de Guinevere. Ainda estava um tanto arisca, irritada ao meu toque, mas sabia que a confiança com ela viria com o tempo na estrada. Não sabia ao certo para onde iria. O Canadá ainda era muito selvagem, pouco desbravado, de modo que Chuva Caindo me alertou quanto a presença de índios hostis. Morrer emboscado por flechas depois de ter sido curado pela tuberculose era uma enorme estupidez, por isso decidi voltar aos Estados Unidos. Ir para algum Estado onde ninguém me reconhecesse, adotar uma identidade nova e recomeçar. Dessa vez, como um homem honesto. Talvez bom, quem sabe. Desde a descoberta da tuberculose, não era mais o mesmo. Olhava para o mundo com bons olhos, enxergando mais as coisas boas que nele havia do que as ruins. Seria bom ter a oportunidade de ser esse homem bom, agora sem a Morte inevitável pela tuberculose no horizonte a me rondar.

Recordo-me de ter uma balsa em Annesburg para Nova Iorque. Lá, ninguém me reconheceria. Não que fosse meu desejo ir para o que mais se tinha de extremo da tal “civilização americana”, mas sabia que de lá eu poderia partir para qualquer lugar do mundo. Não queria mais a cidade, mas sim o campo. Talvez Austrália, Brasil ou Argentina. África, quem sabe. Seria necessário apenas embarcar em um daqueles navios enormes, encarar meses de viagem – sem tempestades inesperadas pelo caminho, assim espero – e me tornar um novo homem, livre de meu passado e para começar uma nova vida.

Mas antes, teria que passar por Annesburg. Onde minha cabeça estava à prêmio. Tudo porque estava ao lado de Dutch quando ele teve a ideia estúpida de matar um magnata dos negócios em plena vista. Contar com a falta de memória das pessoas era muito arriscado, por isso joguei minha navalha fora, decidido a deixar a minha barba bastante longa, por mais repulsivo que eu me tornasse. Mas sabia que abdicar um pouco de vaidade e até mesmo de higiene seria necessário, se quisesse embarcar naquela balsa sem que me reconhecessem como o “assassino de Cornwall”. Todo cuidado era pouco.

Notas finais
É, Arthur... Passar por Annesburg será complicado... Muito arriscado, não? Obviamente ele não vai passar despercebido... Veremos o que vai acontecer no próximo capítulo. Até lá! E deixem reviews!