Red Angel - Sonho de um anjo
27 Capítulo 27- Dor
Notas iniciais
Malina
Apesar do por fora ter aquelas estátuas e parecer uma espécie de templo antigo, por dentro parecia um estádio completamente normal, sem nada de muito divino a sair a sair das pareces, apenas um anjo junto ao ecrã gigante. Havia algumas colunas a enfeitar o local atrás das bancadas, mas nada de mais.
—É aqui que vai ser o jogo?
—Decidirem à última da hora mudar o jogo para o estádio da Zeus… É mesmo coisa do Kageyama. — Era obrigada a concordar com a Natsumi – Pergunto-me o que estará a tramar.
Nesse mesmo instante, ouvi alguns passos soarem por cima de nós, seguido de um peso enorme sobre as costas, como se alguém me observa-se de forma tão intensa como se me tivesse a tocar. Voltei-me para trás, olhando para cima, e lá no alto estava ele…
—Kageyama.
Todos os olhares se voltaram para ele e foi então que ele sorriu. E eu não pude evitar olhar para o Goenji. Vi-o de punhos fechadas e a tremer, provavelmente devido à fúria que sentia sentia ao pensar na Yuka. Agarrei o seu tenso punho e ele, surpreso, encarou, vendo-me sorrir com carinho. Não me disse nada. Limitou-se a encarar novamente aquele terrível homem, parando de tremer. Voltei a erguer a cabeça, vendo pelo canto do olho o Mamoru de cabeça baixa.
—Malina. — Assim que ouvi o treinador chamar-me, encarei-o – Endou. — O meu primo fez o mesmo — Tenho uma coisa que vos contar. — Soltei a mão do Goenji. Sentia que aquilo seria algo sério. E assim como nós os dois, todos olharam para o treinador.
—Diga. — Mas ele não abria a boca. Estava a hesitar. Dei uns quantos passos em frente, colocando-me ao lado do Mamoru, sem deixar de encarar o treinador.
—Vocês têm de saber. — Nesse instante, senti-me nervosa sobre o que poderia vir aí — É provável que o Kageyama… Tenha estado envolvido na morte do vosso avô. — Fiquei boquiaberta. Aquilo… Não era verdade.
—Na morte… Do nosso avô? — o Mamoru ainda conseguia pronunciar algo.
—Sim. — Eu só pude levar as mãos à boca, ainda em choque ao ver a imagem do avô passar na minha cabeça.
—Não… Não pode ser…
Fechei as mãos em punho sobre o peito, sentindo a raiva surgir em mim. Toda a raiva que sentia pelo Kageyama. Pelo que fez ao Kidou, ao Goenji e à Yuka. Pelo que fez ao treinador e aos veteranos da Inazuma Eleven. Pelo que nos tentou fazer na final contra da Teikoku… Sentia uma força e um ódio crescerem dentro de mim que me via incapaz de a controlar. Era como um tornada que se instalava no meu interior. Um poder de fúria que queria sair a qualquer custo e disparar para todos os lados.
—E porque lhes está a contar isso neste momento?!
—Sei que um treinador não deve preocupar um jogador, e muito menos antes de uma final, mas seria um erro ainda maior não vos dizer neste momento. — Sentia a minha respiração ficar cada vez mais pesada – Nós não jogamos a final do torneio por culpa de um troque sujo do Kageyama. Isso afeto-nos a todos. Amaldiçoou o nosso destino. Tornamo-nos amargos e acabamos por prejudicar o futebol. Cometemos um erro grave. Deixamo-nos dominar pelo rancor e abandonamos o futebol. Um desporto que nos unia bastante. — Sentia como as lágrimas queria sair a toda a força, mas a raiva que sentia naquele momento, ajuda-me a evitar que elas saíssem – Por isso mesmo, se pensam jogar futebol com um sentimento de ódio pelo Kageyama, renuncio já ao meu lugar de treinador e retiramo-nos do jogo agora mesmo porque não quero que o ódio tome conta daqueles que o que mais gostam no mundo, é futebol.
Sentia algo escorrer pelo meu braço a baixo. Era como água, mas preferia ignora. Sentia uma pequena dor nas mãos, mas a dor interior era ainda maior. Foi quando uma mão agarrou uma das minhas e puxou, fazendo-me abrir os olhos, encontrando os do Goenji que olhavam para mim com seriedade e preocupação. Foi então que as palavras do detetive me vieram à cabeça; que a culpa da Yuka estar em coma, era do Kageyama. Talvez ele estava a sofrer. Olhei para Mamoru, vendo o Kidou ao seu lado que acreditava que sofria pelo que passou com ele. E o meu primo… Também a fúria estava instalada no seu olhar.
Ambos respiramos bem fundo. Encaramo-nos e sorrimos. Até que senti uma forte dor na mão que era agarrada. Voltei-me para o Goenji e vi a manga do uniforme manchado de vermelho. Tinha acabado por espetar as unhas nas mãos de tanta força que fizera. Vi a mão do Goenji também ficar encarnada, mas ele não a largou e continuou a agarra-la com igual intensidade sem me dizer uma só palavra.
—Endou…
—Malina…
—Vá lá!
—Capitão!
—Malina!
Os nossos companheiros. Os nossos amigos estavam ali. Estavam do nosso lado. Estavam a apoiar-nos e a ver-nos sofrer sem poder fazer nada. Só os estávamos a preocupar sem necessidade nenhuma quando eles precisavam de estar bem para o jogo que se aproximava cada vez mais.
—Treinador… Equipa… Ter tantos amigos que se preocupam comigo e que partilham este meu gosto pelo futebol é muito bom. — Sorri, suspirando profundamente.
—Sim… Odeio o Kageyama, mas desta forma não se pode jogar futebol. O futebol é diversão… É emoção! — acabei por me entusiasmar, apertando as mãos e sentindo um pouco de dor. Sorri com o meu esquecimento tolo, vendo o Goenji fazer o mesmo.
—É o melhor desporto do mundo! Faz com que todos estejamos unidos partilhando a nossa paixão em torno da bola. Precisamente por isso, vamos jogar esta partida como fazemos sempre e procuraremos a vitória todos juntos.
—Claro que sim! Porque todos nós gostamos de futebol. — Todos os nossos companheiros sorriram. Olhei para o Mamoru e vi-o pedir-me a mão. Fiquei um pouco surpresa e hesitei, abrindo-a. Também aquela tinha sangue.
—Malina! Tu estás a sangrar!
—Tens de tratar disso imediatamente.
—Não se preocupem. São apenas uns golpes superficiais nada mais… — nesse instante dei um grito de dor. — Goenji! — vi-o fazer-me cara sério. Ele apertou-me a mão de propósito. E foi então que sorriu.
—Pensei que fosse superficial. — Fiz uma cara triste.
—E são… Mas dói. — Ouvi o riso de todos ecoar pelo estádio.
—Aki, trata da mão da Malina. É hora de se prepararem para o jogo.
—Sim. — Senti o calor da mão do homem que amava afastar-se da minha, antes de começar a correr com os meus companheiros para dentro do balneário.
O treinador e todos podiam confiar nas nossas palavras. Tinham sido ditas com todo o coração e sem qualquer hesitação nelas porque eles sabem o quanto amamos o futebol, conhecem-nos bem, não só como companheiros, mas como amigos que são. A última coisa que queiramos era manchar o futebol com ódio tal como fazia o Kageyama, porque era a nossa paixão, a de todos nós.
Assim que o treinador me disse que terminei de tratar das feridas e o treinador me disse que podia entrar no balneário para guardar as minhas coisas, vi a maior parte dos meus companheiros ainda sem a camisola colocada. Naquele momento, não foi algo que me intimidou. Qualquer uma se sentia envergonhada e constrangida com tantos homens à sua volta daquela forma, mas eu confiava neles e não conseguia deixar de olhar para as costas de cada um. Não numa questão de assédio, mas para as marcas que cada um tinha no corpo. Todos os duros treinos estavam ali refletidos para quem quisesse ver. Eu também os tinha apesar de não mostrar a ninguém, mas as nódoas negras nas minhas costas, comprovavam bem isso. E com certeza que a nossa vitória estava em todas as marcas que árduos treinos deixaram em nós
Aproximei-me do local onde deixaria a minha mochila, ao lado do Mamoru. Abri-a e retirei de lá a chuteiras do meu irmão, sorrindo para elas. Agora eram minhas, pertenciam. Tinha a certeza que me dariam o mesmo conforto e sorte que deram ao Hayato durante tantos anos e que me levariam à vitória com os meus companheiros.
Sentei-me no banco, tendo dois dos homens mais importantes para mim à minha frente, bem como uma das pessoas mais inteligentes e que mais admirava no mundo do futebol. Os meus três companheiros, os meus três grandes amigos, cada um à sua maneira, mas todos tinham um pouco do meu coração, assim como toda a equipa. Cada um deles era parte de mim e eu era parte deles.
Sorri para mim mesma. Precisava de me despachar, de me calçar e preparar para o jogo, o quanto antes. Só que ao baixar-me, senti uma leve tontura. Estava a sentir-me novamente quente por dentro. Seria a febre a voltar? Respirei fundo e tentei não pensar nisso. Ergui a cabeça e vi o Goenji de cabeça um pouco curvada. Com certeza estava a olhar para o seu colar.
—Tenho a certeza que ela está a ver. — Assim que terminou de vestir a camisola, encarou-me.
—Também acredito que sim e que nos está a dar formas.
—Claro! Ela quer muito que o irmão vença. — Sorriu antes de eu me baixar para atacar as chuteiras.
—Chuteiras novas? — levantei a cabeça e vi o Goenji diante de mim, a sorrir. Era impossível não fazer o mesmo.
—Sim. Eram do meu irmão mais velho. Ele deu-mas esta manhã.
—Não sabia que tinhas um irmão mais velho.
—Tenho. Chama-se Hayato. Esteve vários anos em França a jogar futebol.
—Entendo. — Vi, então, o seu sorriso desaparecer – Estás um pouco vermelha. Ainda tens febre? — tinha-me esquecido que os rapazes ficaram a saber da minha constipação. Também é normal, acabei por faltar ao último treino antes da final e tive de os avisar para não os deixar preocupados.
—Claro que não! Deve ser da ansiedade de jogar a final. Eu também estou…
Vi-o curvar-se até estar com a face tão próxima da minha que era capaz de lhe sentir a respiração, quando senti os seus quentes lábios sobre a minha testa.
Dessa forma a febre só iria aumentar!
—Estás um pouco quente. E ainda… Mais vermelha. — Vi que também a sua face ganhou alguma cor, fazendo-o desviar o olhar rapidamente, tal como os meus olhos encontraram o chão devido ao que acontecera – É melhor… Pedires algo à Aki para baixar a tua febre.
—Sim… É melhor.
Afastou-se sem me dizer nada mais. Libertei todo o ar que tinha nos pulmões, como se tivesse aprendido novamente a respirar. Levei as mãos à testa, sorrindo que nem uma tonta, mas assim que olhei para os dois rapazes à minha frente, vi Mamoru e o Kidou sorrirem para mim de forma provocadora, o que com certeza me deixou ainda mais encarnada.
—Oh… Vocês. — Ambos se encararam, encolheram os ombros e sorriam antes de se voltarem para a frente.
Eles sabiam bem aquilo que sentia pelo Goenji. Era um sentimento tão grande que mal me cabia no peito, assim como era aquele pelo futebol. E era esse sentimento que nos ajudaria a vencer. Um sentimento comum que tornaria a Raimon a melhor do país.
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