Red Angel
31 Capítulo 31- Verdades.
Notas iniciais
Pov Malina
Logo após as aulas da manhã terem terminado, fomos a correr para o campo de futebol treinar depois de nos equiparmos. Desde manhã que o meu mau pressentimento preexistia. Tentava esquece-lo e focar-me no próximo jogo, na final, que era o mais importante, mas inquietação perseguia-me. Seria a tal intuição feminina ou sexto sentido?
—Falhas-te por muito pouco, Shishido!- talvez isso o incentivasse mais do que lhe lembrar que falhou o remate ao bater na trave. Mas se não enganava, ele quase conseguiu fazer uma técnica!
—Pode não ter tanto efeito como o meu Dragon Crash, mas esteve muito!- não pude evitar ao vê-lo tentar desfazer os caracóis ruivos do nosso centro-campista. Os rapazes hoje estavam de bom humor!
—O que vos parece se chamamos a esta técnica GRENADE SHOOT?
—O quê? GRENADE SHOOT? Sim! Gostei!- deixei Megane e os dois outros dois com os nomes e corria até ao banco. Precisava de água.
Peguei na botija que me foi entregue pela Aki e virei-me para o campo. Todos pareciam empenhados e motivados para o próximo jogo. Os rapazes começavam a desenvolver as suas próprias técnicas, os passes estavam melhores e parecia que todos tinham um pouco mais de resistência no que respeitava a correr. Estavam finalmente a mostrar como queriam vencer. E o Mamoru também parecia satisfeito. O sorriso com que vinha para o banco enquanto observava a equipa denunciava-o completamente.
—Quanta vontade estão a pôr no treino, não é?
—Claro! Estão todos muito contentes porque o próximo jogo é a final da fase eliminatória!
—Se ganharmos vamos ao torneio, mas se não ganharmos também vamos! Vamos ao torneio, sim ou sim!
—Mamoru... Se não ganharmos não vamos. Isso é impossível.
—Mal posso esperar!- e desatou a correr para o campo sem me ouvir.
—Ah! Mamoru!- suspirei. Não valia a pena.
Nesse mesmo instante, entrou o no campo o Domon. Vinha a correr, parecia feliz e pronto para o treino, assim como se mostrava aquecido para começar. Misturou-se no jogo na sua posição e começou logo a pedir a bola, correndo como nunca o fizera pelo campo, deixando todos para trás. Tentei alcança-lo para lhe retirar a bola, mas ele nem me deixou aproximar. Era bom vê-lo assim! Talvez o mau pressentimento não passe da minha imaginação.
Não resisti a parar para observa-los a todos. Era bom estar naquela equipa. Porém, o nosso treinador é que nunca estava presente... Ou pelo menos nunca estava, porque parecia ter decidido aparecer. Será que queria ver como eram os nossos treinos e a razão das nossas vitórias? E nesse instante, também apareceu a Natsumi, aproximando-se dele, começando a conversar. Do que se trataria? Encolhi os ombros. Não era nada comigo, talvez apenas fossem falar sobre algo relacionado com a equipa e nos informassem mais tarde.
—O quê?! O ónibus?!- mas parei logo ao ouvir o desespero do treinador. Todos nós paramos- Mas me pediu tão repentinamente... Não trago a carta de condução, assim não posso.
—Não se preocupe. Se o veiculo se mover dentro do recito escolar, não necessita da carta. Se circular um pouco é suficiente, senhor Fuyukai.
—Sim, mas...- Ele não parecia nada confortável com a situação. Algo estava errado.
—Como?! Não disse que não podia negar-me um favor?- ele murmurou algo, limpando o suor que lhe escorria pela cara- Senhor Fuyukai?
—S-Sim.
Acabamos por decidir segui-los. A Natsumi também fez intenção de nos chamar para que os acompanhássemos. O que se estaria a passar? A Natsumi não nos dizia nada, seguia na frente com um satisfeito sorriso, atrás dele o senhor Fuyukai parecia extremamente nervosa e não deixava de levar o seu lenço à face, enquanto nós seguíamos atrás, calados, sem perceber o que se passava na verdade. E assim que chegamos à garagem onde se guardavam todos os ónibus da escola, o nosso treinador entrou naquele que sempre nos levava para os jogos, após a Natsumi lhe dizer várias vezes para o fazer. Todos nós ficamos do outro lado, aguardando o desfecho de todo aquele mistério.
—Quero que arranque e depois pare, de acordo?- o treinador não disse uma só palavra. Limitou-se a agarrar no volante, estático- O que se passa, senhor Fuyukai?
—N-Nada. É que...
—Ligue o motor de uma vez, por favor.
—Sim, em seguida.- Nada aconteceu após ele rodar as chaves- Oh. Não arranca. Que estranho. Talvez tenha acabado a bateria.
—Deixa de se fazer de tonto!- a voz alterada dela até me assustou. Se antes tinha uma mau pressentimento, então agora ele era péssimo.
—S-Sim.- Rodou um vez mais a chave e aí sim, o motor começou a trabalhar.
—Vamos. Tire o veiculo.- Mas ele nem se mexeu- O que se passa, senhor Fuyukai?- olhei para ele e parecia desesperado. Qual era o problema?
—Não posso fazê-lo.- Fiquei surpreendida com a resposta dele e ao vê-lo baixar a cabeça sobre o volante.
—Por que razão?
—Por que não posso.- E então a Natsumi levantou uma carta que tinha em mãos.
—Nesta carta anónima, é explicado com todos os detalhes que o professor fez uma coisa imperdoável. Diga-me, senhor Fuyukai, não será que não se atreve a mexer o veiculo porque lhe fez algo que o torna um perigo tal como diz na carta?- Estava chocada. Isso era verdade?- Vamos. Dê-me uma resposta, senhor Fuyukai.- E o único que fez foi começar a rir, saindo do ónibus.
—Sim, é tudo verdade.- E ainda se ria disso?- Eu cortei os travões do ónibus.
—Mas porque motivo?!- agarrei logo a camisola do Mamoru. Foi um impulso repentino após o que acabara de descobrir.
—Para que não pudessem aparecer na final da fase eliminatória do torneio, claramente.
—Como disse?!- aquele homem não tinha escrúpulos! Continuou a andar para a frente do veiculo com um sorriso no rosto como se tivesse acabado de fazer algo de bom. Soltei a camisola do Mamoru de seguida. Estava furiosa e não queria magoa-lo ao puxa-lo para trás com força.
—Há pessoas que teriam levado um desgosto enorme ao ver-vos na final. E se o fiz é para não o terem.
—Como o treinador da Teikoku?!- olhei para logo o Goenji. Ele parecia furioso. O treinador olhou por cima do ombro, surpreso com o que ele dissera- A sério que não lhe importa o que aconteça aos seus alunos só para obedece-lo?- voltou-se para nós uma vez mais. Aquele seu sorriso começava a irritar-me.
—Por favor, não o tomem dessa forma. Vocês não têm ideia do que ele é capaz.
—Não, nem quero saber!
—Este instituto não precisa de uma professor como você!- e o nosso clube não precisava de um treinador como aquele- Considere-o como se fosse uma ordem do diretor e saia daqui!- voltou para a Natsumi ainda a rir.
—Então estou despedido. Estupendo! Fico muito contente. A verdade é que já estava farto deste trabalho de professor.- Aquele homem era desprezível- No entanto, aviso-vos que não sou o único espião que a Teikoku tem no Instituto Raimon.- Nesse instante voltou-se para nós ainda a sorrir- Não é verdade, senhor Domon?- todos encaramos o Domon. Estava chocada com a acusação dele- Bem, se me permitem...- Riu-se enquanto se afastava. Não conseguia deixar de encarar o Domon, mas ouvia os passos dele a afastarem-se.
—Então ele também é um espião da Teikoku?- Kurimatsu...
—Mas como é possível?- não Someoka...
—Domon, tu és um traidor?- Kabeyama...
Não consegui aguentar mais e corri para a frente do Domon antes que ele pudesse dizer algo. Magoava-me vê-los desconfiar de um companheiro.
—Parem de dizer essas parvoíces! O Domon não jogou futebol com todos nós? Como podem desconfiar de um amigo?- eu não queria acreditar que aquilo era verdade. Não podia ser. Não depois de tudo o que tinha visto. Voltei-me para o Domon, queria encara-lo e ouvir o que ele tinha a dizer- Eu confio plenamente no Domon, não é?- mas ele não me parecia bem.
—Olha, Malina... O Fuyukai disse-vos a verdade.
—Domon...
—Sinto muito!- sem me dar tempo para reagir, desatou a correr.
—Não! Espera, Domon!
—Não, Malina!- senti o Mamoru agarrar-me o braço assim que tentei começar a correr atrás do Domon, impedindo-me. Queria ir atrás dele ainda assim, mas talvez ele tivesse razão. Não era altura para tal.
—Vejam isto.- A Natsumi mostrou-nos a carta já fora do envelope- É o anónimo que contou tudo.- O Mamoru soltou-me e aproximou-se da carta.
—É a letra do Domon.
O mau pressentimento tinha acabado por passar quando tudo se revelou. Talvez fosse devido ao facto de no dia anterior o Domon ter ido mais cedo para casa, foi aí que tudo começou, antes de acabar daquela maneira. E ainda que o pressentimento tenha desaparecido, o pesar no coração era o que agora preexistia. Não pensei duas vezes em ir atrás do Domon, desta vez, o Mamoru não me impediu e decidiu acompanhar-me. Procuramos por todo o lado; pela escola, clube, campo de futebol, tudo... Mas nada. Até que o meu primo sugeriu o campo junto ao rio. Concordei. Ele tinha que estar ali. E realmente, era verdade, ele estava lá com a Aki!
—Por muito que corresse e me esforçasse, nunca conseguia alcança-lo. Mas com eles os dois é diferente.- De quem estaria a falar?- Eles não correm à minha frente e sim a meu lado. Com o Endou e a Malina tenho a impressão de que sempre estarão a meu lado, correndo comigo.- Estava emocionado com as palavras dele, e o Mamoru não estava diferente pelas lágrimas que lhe apareciam ao cantos dos olhos- Mas agora todos devem estar muito chateado comigo.
—Ei Domon!- o grito do meu primo apanhou-me de surpresa e quando vi, já lhe tinha lançado a bola que trouxera o tempo todo, a qual o Domon apanhou logo- Vamos jogar futebol!- e começou a descer sem esperar por mim.
—Espera, Mamoru!- e comecei a segui-lo- Vamos Domon, despacha-te! Corre!
—Vou já!- era bom ver finalmente um sorriso na sua face.
Rapidamente juntamo-nos às crianças que estavam no campo a jogar. Eu fiquei do lado deles tentando tirar a bola ao Domon enquanto o Mamoru defendia tudo o que nós rematávamos, fosse eu, fosse o nosso defesa que se divertia a jogar futebol. O Domon não era má pessoa, nunca o vi como o tal, nem quando revelou ser um espião da Teikoku. Se ele nos salvou, se ele enviou aquela carta à Natsumi, era porque já era um integrante da clube... Era parte da Raimon! Um companheiro com quem jogar e divertir e jogar futebol.
—Vamos lá! Outra vez meninos! Agora vamos conseguir tirar-lhe a bola.- Infelizmente não conseguimos fazê-lo e o Domon ficou a bola, rematando uma vez mais, mas o Mamoru defendeu.
—Falhei outra vez.
—Estiveste lá perto!- tentou passar-lhe uma vez mais a bola, mas os rapazes foram mais rápidos e um deles tirou-lhe. Deram-me as mãos e começamos a correr para o lado oposto do campo, como se fugíssemos dele- Mas o que estás a fazer Domon?! Vamos, concentra-te!
Tive que parar e comecei a rir, os rapazes pareciam espantados a olhar para mim, mas só me apetecia rir. Estava feliz! Sentia-me tão feliz, tão realizada a jogar futebol com os meus amigos, a divertir-me tanto, que sem me aperceber, as lágrimas começaram a escorrer. Os rapazes e a Aki ficaram logo preocupados comigo ainda que dissesse que estava bem, mas assim que o Goenji apareceu, fiquei pior, acabando por fazer figura triste e atirar com a bola para o rio. No final o Mamoru acabou todo molhado, eu a morrer de vergonha e os rapazes sem perceber o porquê do meu primo rir com o que eu acabara de fazer.
*
—Agora sem o senhor Fuyukai é como se o ar fosse mais puro.- Fechei o armário após arrumar a minha mala, ouvindo os rapazes. Mas aquilo tinha sido um pouco mauzinho por parte do Kabeyama.
—É como quando num video-jogo derrotamos o boss.- Passei pelo Kurimatsu, vendo-o novamente agarrado à Nintendo, sentando em cima da nossa única mesa, ao lado do Goenji que me desde estando numa postura séria e de braços cruzados, sorriu-me e eu fiz o mesmo.
—A verdade é que estiveste muito bem! Foi muito impressionante.- Olhei para o Kazemaru um sorriso especifico na face. Será que aquele elogio à Natsumi queria dizer alguma coisa? Infelizmente ele não percebeu ficando a olhar para mim de forma estranha. Ri-me e recompus-me.
—Sim, realmente teve muito estilo na hora de despedir esse professor espião! Que nível impressionante!- a Natsumi merecia todos os elogios depois daquilo.
—É verdade. Teve muita classe!- concordava com a Aki.
—A mais poderosa de todas as ajudantes!- ri-me. A Haruna estava bem impressionada.
—Assim sim, podemos enfrentar a final!- assenti de imediato ao comentário do Someoka. Sem o Fuyukai, era menos um peso em cima de nós!
—Eu só digo uma coisa...- o Megane parecia bem sério. Agora que reparava, desde que entrara na sede, notei que ele estava a ler uma série de folhas que tinha na mão. O que seriam?- Segundo as normas do torneio, não é permitida a participação de equipas sem um treinador e responsável do mesmo.
—O quê?!- o espanto foi geral. Só agora é que nos diziam isso?!
—Natsumi, tu sabias disso?- o Mamoru foi o primeiro a contestar.
—Cla-Claro que sabia!- aquele corar repentino denunciava o facto dele não saber- Por isso, agora mesmo, ordeno-vos que encontrem um novo treinador! Considerem-no uma ordem do presidente da junta escola. E despachem-se!
Claro! Era muito fácil falar! O que iríamos fazer agora?!
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