Notas iniciais
kkkkkkk esse título parece que é um livro de autoajuda de Augusto Cury, né?? vamos ver o que vos aguarda....

Com a presença de apenas alguns raios de sol, o quarteto fez as malas para partir. “Fazer as malas” era apenas um modo de dizer, pois, tirando as mochilas de duas alças que Ian e Megan carregavam, não havia mais nada. Justin e Luce, assim que acordaram, tomaram um banho caprichado, infelizmente, de cuia. O banheiro da hospedaria ficava no fim do corredor e não tinha quase nada, a não ser um vão de três paredes e um buraco no chão que fedia muito.

– O que é isso?! – Justin tinha protestado, horrorizado.

– Isso é o que vai te servir de banheiro. – Megan tinha respondido de mau humor. – Se você acha que não está suficiente, vá arranjar um lugar melhor.

– Você devia estar acostumado, Justin. – Luce provocou — Seu quarto vive em estado muito pior.

Ele olhou para ela com os olhos cerrados. Esperou alguns segundos para ver se seu olhar surtia efeito, mas a garota o ignorava facilmente. Preferindo se contentar com aquilo a ir tomar banho no mato, Justin conseguiu por alguns breves momentos relaxar os músculos tensos no banho com água quente. “Pelo menos, o povo daqui esquenta a água”, resmungou para si mesmo. Depois dele, foi a vez de Luce. Não foi nem um pouco diferente com ela. O cheiro do banheiro era insuportável. Parecia que uma dúzia de vacas tinha cagado no local e espalhado bosta para tudo que é canto.

O café da manhã foi recompensador. Luce não tinha comido nada na noite anterior e estava mais do que fraca. Sua expressão parecia a de um defunto. Olhos afundados, pele branca, lábios sem cor. Ian pareceu ser o único a ficar preocupado. Ele não demonstrava, mas sentia certa simpatia pela menina. Talvez fosse pena mesmo. A coitada tinha passado por muita coisa. Um choque de realidade mudava qualquer um, por mais que estivesse psicologicamente pronto, o que nunca acontecia.

A refeição tinha sido farta. Havia frutas, sucos, pães feitos pelos camponeses, condimentos, café e leite. Luce atacou a comida ferozmente, mal dando tempo para respirar. Justin olhou para a irmã. Ela não tinha dormido direito a noite toda e, por causa disso, as olheiras ressaltavam o quanto estava cansada física e emocionalmente.

– Para aonde vamos? – ele perguntou quando terminou de comer.

Ian escolheu as palavras com cuidado. Megan não tinha mostrado interesse em responder. Ele sabia que esse desdém dela era causado, principalmente, por Luce. Em outras palavras, ela se sentia culpada pelo o que tinha feito. Castigara uma pessoa boa, impotente, desprotegida e indefesa. E demonstrava esse sentimento desse jeito meio torto e confuso. Aquilo foi a pior coisa já podia ter feito em toda sua vida: implantar o sentimento de culpa numa pessoa inocente da maneira mais cruel que existia, torturando-a. Luce também sentia certa inquietação na presença de Megan, algo ruim que ela não tinha noção do porquê.

– Nós vamos para um lugar mais apropriado. – respondeu, olhando para a mesa farta na sua frente e desejando que ainda houvesse espaço no seu estômago para outra xícara de café com leite.

Justin ia reforçar a pergunta, se referindo a que cidade especificadamente. Mas, concluiu que seria um lugar onde eles tivessem condições de viver como estavam acostumados, e isso incluía um banheiro normal, não aquele chiqueiro. Então, ficou satisfeito com sua dedução.

Luce, aos poucos, ganhava cor, e seus olhos restauravam aquele brilho vivo e animador que sempre estava presente. De barriga cheia, ela não tinha ficado satisfeita com a resposta e insistiu:

– Para onde vocês vão nos levar? – então algo se iluminou na sua mente. Ela sentiu o sangue gelar e a comida subir seu esôfago.

Mudando drasticamente de assunto, perguntou:

– Onde... está Anita?

Megan, finalmente, levantou o olhar para analisar o que falaria. Olhou para Ian, que assentiu.

– Não tivemos nenhuma notícia dela. – disse, simplesmente.

– Quer dizer... – Luce balbuciou.

–Quando achamos vocês na floresta, perto de riacho, não vimos nenhum sinal dela. – continuou a agente.

– Então, vocês nos salvam, mas deixam-na em apuros?! – gritou, com lágrimas nos olhos.

Justin sentiu um embrulho no estômago ao cogitar a hipótese de que Anita, provavelmente, estava morta, pois a tinha visto desmaiada na escada de emergência do aeroporto. Ele não se lembrava com exatidão; Phill tinha lhe dado uma pancada forte na nuca, fazendo-o perder a consciência, mas, se não fosse isso, Justin não via outras opções para o que poderia ter acontecido com ela.

– Luce... – ele começou, meio hesitante.

Assim que ela virou a cabeça em sua direção, sentiu uma mão fria envolver seu coração. Os olhos cor de mel da sua irmã, agora, estavam inchados e vermelhos, transbordando lágrimas. A voz ficou entalada em sua garganta.

– Tem uma coisa – enfim conseguiu falar – que preciso te contar. Anita... No dia que fomos capturados, ela... – ele desviou o olhar, pois não queria continuar vendo a expressão de Luce, mas, no fundo, ele sabia que não era só por isso – Eu a encontrei morta.

Justin mordeu o lábio inferior, se controlando ao máximo para não vomitar a comida. Ele não gostava dela, era óbvio, mas nunca desejou que ela morresse. Se sumisse da sua vida já estaria bom, só não esperava que fosse de uma maneira tão drástica. Luce não aguentou e desabou no seu próprio colo. Megan saiu da mesa e foi para fora do lugar. Ian ficou sentando sem saber o que fazer.

[...]

Eles foram para a cidade não muito conhecida chamada Lhasa. Ela não se diferenciava muito das outras cidades chinesas, tinha centros turísticos, monastérios para os monges meditarem. As casas tinham, praticamente, a mesma aparência. Muitas construções antigas restauradas, especialmente, para atrair turistas. A viagem tinha sido longa e cansativa. O quarteto tinha partido do vilarejo às cinco da manhã e chegaram na cidade às sete e meia.

– Nós não vamos ficar aqui, vamos? – Luce indagou enquanto pegavam um transporte público em direção à Ferrovia Qinghai.

Durante a viajem, os dois irmãos tinham se comportado bem. Eles percorreram duas horas de carro em silêncio, mas com os pensamentos a cem por hora. Como tudo que é bom dura pouco, Luce quebrou o silêncio que preenchia os quatro sem se importar com as consequências.

– Não. – retrucou Megan, friamente.

Justin observava a cidade e as pessoas com atenção. Ele nunca tinha estado em outro lugar a não ser os Estados Unidos. Agora, podia perceber com mais clareza que havia muita coisa que não sabia, muita diversidade concentrada em apenas um lugar. Ele achava interessante a fisionomia asiática. Os olhos puxados para o lado despertavam uma curiosidade nele. Porém, para as pessoas daquela cidade, Justin não passava de um turista americano que se encanta com qualquer coisa que não seja da terra dele. Por causa de sua beleza um tanto diferente – olhos verdes e cabelo sedosamente preto -, ele despertava interesse nas jovens que estavam presentes. E, é claro, adorou isso.

Ao chegaram na estação ferroviária, o quarteto se direcionou à bilheteria para comprar as passagens. Antes de saírem dos EUA, Eric Stark tinha providenciado identidades falsas para Justin e Luce. Ele também pediu segredo em relação à sua identidade. Não queria que seus filhos desconfiassem de quem era realmente. À medida que as coisas iam ficando mais graves no seu país, ele criava uma leve impressão de que não voltaria a vê-los, então preferiu que Justin e Luce vivessem uma vida sem ter que levar consigo esse tipo de lembrança; o seu pai tinha mentido para eles o tempo todo. Ele estava enganado, pois os dois irmãos já desconfiavam de alguma coisa suspeita quando descobriram as armas em casa.

No momento em que Ian e Megan cuidavam de providenciar as passagens, Luce puxou Justin para um canto, assim eles poderiam conversar sem terem dúvidas de que alguns dos adultos os ouviriam.

– Você vai mesmo com eles? – ela perguntou, lançando-lhe um olhar significativo.

– Eu tenho opção? – indagou, já sabendo aonde aquela conversa iria parar. – Se eu não for com ele, como posso voltar para casa?

Luce sentiu as palavras entalarem em sua garganta. Ela apenas não confiava o suficiente no jovem casal.

– A gente poderia ligar para o nosso pai e...

– Ei, Luce, olha. – ele segurou firmemente o punho dela e ela fixou seus olhos no par de esmeraldas na sua frente – Eu, igual a você, não quero ter que fazer isso. Também não confio naqueles caras.

Pareceu impossível, mas as palavras de seu irmão trouxeram a ela um pouco de confiança, e ela acreditou nele.

– Ei, garotos! – Ian chamou.

Os dois se aproximaram.

– O nosso trem já vai sair. – disse, entregando-lhe os bilhetes.

A viajem até Pequim durou três dias. Enquanto a locomotiva se aproximava da capital chinesa, o clima entre os quatros se mantinha constantemente perturbado. Não por parte de Megan e seu namorado, mas, sim, pelo casal de irmãos. Ambos ainda tinham dificuldade em aceitar que aquela era a realidade, que não haveria como voltar para casa, pois esta se encontrava num cenário de guerra. Luce chegou a perguntar sobre seu pai, Eric. Ian tinha respondido, dizendo que ele, infelizmente, morrera quando tocaram fogo no seu escritório. Não era verdade, entretanto o agente prometera que não ia contar sobre seu chefe.

Na segunda noite, Justin teve uma insônia e decidiu ir até a janela de vidro e ficar observando a paisagem e admirando a noite estrelada. Sua irmã dormia na cama ao lado. Sua respiração constante e leve indicava que estava sonhando. Megan e Ian dormiam no quarto ao lado. Ele voltou a olhar pela janela, se impressionando como os acontecimentos recentes tinham mudado o rumo de sua vida. Cinco dias atrás, a única preocupação dele era tocar com sua banda, beber e perturbar sua irmã, agora, o futuro era muito incerto. Foi então que Justin entrou num estado de negação.

Notas finais
Tá, ESSE merece um review né gente?