Red
13 Era Uma Vez Um Hospital...
Notas iniciais
Vagando pelo corredor onde seu quarto ficava, Luce ouviu delicadas e fracas notas de piano. Parou imediatamente de caminhar, pois até onde sabia não existia piano na casa. Tomada pela curiosidade, ela foi se deixando guiar através da melodia crescente e cada vez mais alta. Os sons eram harmônicos, mas um pouco melancólicos. Com eles, vinha a sensação de liberdade e paz, apesar de serem graves. Então, Luce se tocou de que apenas uma pessoa que ela conhecia poderia tocar desse jeito intenso e verdadeiro.
Foi num quarto no qual ela nunca tinha visto antes, considerando que conhecia metade da casa, que Luce encontrou Justin tocando piano. Ele era preto e jazia no centro do lugar, que possuía um sofá velho forrado por um pano igualmente velho, uma mesa com duas cadeiras e livros e mais livros bagunçados numa prateleira do tamanho e perto da mesa. Sua reação foi ficar em choque. Ela não adentrou no quarto, ficou observando-o por uma pequena brecha na porta entreaberta.
“Some things we don't talk about
Rather do without”
Luce não conseguia acreditar que acabara de descobrir o refúgio dele, do seu irmão que vive lhe atormentando. Ela cogitou a ideia de ameaçar ele, brincar com seus pontos fracos assim como ele já tinha tentado fazer com ela antes, mas lá no fundo ela sabia que ficar ali parada, assistindo-o demonstrar seus sentimentos, seria uma vitória bem maior do que qualquer outra coisa. Só não conseguia compreender o porquê da quantidade estúpida de livros. Desde quando ele lia? Que tipo de literatura o interessava?
“Ashamed and proud of
Together all the while”
A voz de Justin penetrava no seu ouvido tanto quanto em sua alma. Ele queria dizer alguma coisa com aquelas palavras. Algum tipo de mensagem, talvez um pedido de socorro. Angustiada, Luce empurrou a porta com força e entrou no quarto. Ele se assustou com a sua aparição repentina e se levantou do banco acolchoado.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou ele enraivado, mas, bem no fundo, com medo.
– Eu... – novamente, Luce não tinha uma resposta concreta para dizer – Eu...
– Não devia ficar espionando os outros. – reprimiu-a – Ou melhor, não devia ficar me espionando.
– Não era minha intenção – disse as palavras carregadas de desculpas.
– Então qual era?
Desde aquele incidente que ocorreu no jantar da semana passada, Justin e Luce não trocaram nenhuma palavra ou olhar. Ambos evitavam estar com o outro. Por mais que os dois tivessem gostado do beijo, eles não poderiam levar aquilo adiante. Justin se esforçava em apenas atingir ela, mas era inevitável querer algo a mais. Ou ele se deixava levar ou teria que parar, pois, mesmo não querendo acreditar, sabia que não era forte o suficiente para não querer algo a mais dela. Já Luce estava decidida de que o que aconteceu fora uma rebeldia do seu irmão, uma forma de deixa-la confusa, porém ela não estava mais. Com muito esforço, conseguiu se focar nas suas metas, sem deixar que os efeitos colaterais a atingissem.
– Você quer outro beijo meu não é? – Justin pirraçou-a, indo em sua direção para aproxima-los.
– Parece que você ainda não aprendeu a lição. – falou num tom tão sério que ele parou de andar – Eu não sou aquele tipo de garota que fica comovida apenas com um beijo de um menino qualquer.
– Um menino qualquer? – repetiu, dando uma risada irônica.
Luce o fitou por alguns segundos, esperando uma resposta que pudesse derrubar a sua. Como o esperado, nada saiu de sua boca. Ele se virou e voltou para o piano.
– O que são esses livros todos? – perguntou.
– Tudo, menos da sua conta. – respondeu sem paciência e lançando-lhe um olhar penetrante e ameaçador – Quer fazer o favor para a humanidade de sair do lugar onde você não é bem vinda?
Ela trincou seu maxilar com raiva. Ficou mastigando uma bola invisível de indignação e de incontáveis e diferentes tipos de falas que ela poderia usar como defesa daquelas palavras de frieza. Cruzou os braços num gesto de revolta. Pegou um livro e sentou-se na cadeira, olhando fixamente para os olhos de Justin. Este resmungou alguma coisa, mas preferiu não impedi-la de fazer o que pretendia.
– Você vai me responder ou vou ter que me virar sozinha?
Seu irmão foi até ela num movimento rápido e determinado. Ela chegou a achar que ele a espancaria pela agressividade que se movia, entretanto parou bem na sua frente, com os lábios e cenho franzidos.
– Aproveite seu dia lendo esses livros. – respondeu grosseiramente e depois saiu do quarto, batendo a porta logo atrás dele.
Luce respirou fundo, fechando seus olhos e massageando suas têmporas. Quando os abriu de volta, examinou o livro em sua mão. Não ficou chocada ao perceber que ele se tratava do estudo da música. Sem se interessar muito, o abriu em qualquer página e se deparou com o capítulo que falava sobre tons e semitons. Ela leu alguns parágrafos, mas parou logo em seguida. Com certeza esse assunto não tinha nada haver com ela. Ainda curiosa para ver se encontrava coisas que pudessem falar mais sobre Justin, Luce foi parar perto do piano. Nele, havia a partitura de uma música chamada Never Say Never – The Fray. Aqueles símbolos, linhas, desenhos... Nada fazia sentido para ela. Passou sua mão delicadamente sobre as teclas brancas e o imaginou tocando. Mesmo com seus infinitos defeitos e suas tristezas, Justin ainda conseguia ser sincero e sentir um pouco de paz quando fazia o que gostava.
Ela olhou ao seu redor e suspirou. Havia muitos livros para lhe fazerem companhia, mas duvidava de que algum deles pudesse dizer alguma pista do que aconteceu com ele, mas nunca saberia se não tentasse.
[...]
Hoje era um dia importante para todos os cidadãos estadunidenses. Estava programado para, às nove horas, acontecer a grande inauguração do Hospital New Life. O hospital que custou mais da metade do salário do povo e que seria recompensado por melhorias nos serviços e baixos preços para o mesmo. Ele levou três meses para ser construído sob a vigilância da CIA e de agentes especiais do governo, e, hoje, além da CIA, estaria presente o exército norte-americano e a polícia de Nova York.
Megan se encontrava ao lado de Ian, ambos armados, ao lado da entrada principal. Lá, cada pessoa que passasse, teria que atravessar por um detector de metais e uma inspeção de um policial. Paul, o irmão de Ian, estava disfarçado de cidadão comum que veio ver a inauguração.
Havia outros homens dentro do hospital, em cada sala e corredor. O exército se concentrava na periferia do local e outros faziam parte da vigilância para que ninguém tocasse nos maquinários de alta tecnologia ou em outros tipos de aparelhos perigosos.
Ed também estava presente, Phill lhe fazendo uma péssima companhia. Ele levava consigo uma arma de cano curto dentro da jaqueta e um maço de cigarros no bolso da calça.
– Não, John. Eu quero que você faça o que mandei ao meu sinal. – insistiu Ed pela décima vez, falando pelo celular e procurando algum lugar com sombra naquela manhã quente de verão. – Somente ao meu sinal.
– Algum problema, chefinho? – Phill se aproximou dele.
– Só os mesmos contratempos de sempre – disse calmamente, soltando a fumaça do cigarro pela boca em forma de anéis que pairavam no ar. – Eu quero que você se prepare. Daqui a alguns minutos, essa belezinha não vai passar de destroços.
Phill sorriu com seu chefe, um sorriso maldoso e muito amedrontador.
O presidente se encontrava na frente do hospital, com dois seguranças reforçados de armas. A inauguração estava prestes a começar. Depois do discurso de alguns minutos da autoridade máxima do local, o presidente cortou a fita vermelha que impedia a passagem para a porta, inaugurando assim, oficialmente, o mais novo hospital dos Estados Unidos.
As pessoas começaram a entrar gradativamente depois de passar pelos procedimentos que aquele evento requeria. Megan mandou um olhar para Ian, que assentiu sutilmente. Se a perguntassem, ela diria que não, mas estava um pouco nervosa. A agente já havia passado por situações infinitamente piores que aquela, porém, por alguma razão que fugia da sua compreensão, ela tinha uma péssima sensação, como se algo de muito ruim fosse acontecer. O pior era que não conseguia imaginar o que poderia ser. Terroristas não tinha cabimento, pois para entrar as pessoas teriam que passar por um detector de metais... Foi então que uma ideia bem maluca e praticamente impossível passou pela sua mente. E se houvesse alguém infiltrado nas forças armadas? E se essa pessoa fosse um terrorista ou algo do tipo? Ela sacudiu a cabeça levemente, tentando espantar esse pensamento. Isso era impossível de acontecer.
Conforme o plano, alguns agentes da CIA iriam entrar no hospital como cidadãos normais, é claro que com armas escondidas. Um deles era Paul. Nesse momento, ele estava passando pela porta e fez um sinal discreto indicando que tudo estava bem até agora, o que fez Megan se sentir um pouco melhor.
O sol estava ficando cada vez mais forte. Metade das pessoas já estava dentro do hospital. Ed era um dos próximos. Com uma naturalidade fingida, ele saiu da fila e acabou, sem querer, passando em frente à Megan. A conexão de olhares foi imediata e muito aterrorizante. Primeiro, ela pensou que estivesse vendo uma alucinação de sua mente, mas, infelizmente, aos poucos, ele foi se aproximando dela até onde seu orgulho permitia. Ele não chegou muito perto. Mesmo com óculos escuros, cabelo preso e uma roupa especial, Edward reconheceu o primeiro e último amor da sua vida. Seu coração bateu dolorido no peito. Todas as perguntas entaladas em sua garganta com o passar do tempo se fizeram pesar pela primeira vez. Ele quase abriu a boca para falar, mas algo maior que ele o impediu.
Tudo foi muito rápido. No instante seguinte em que a bomba implodiu, Ed e Phill já estavam a quilômetros de distância do local. O presidente também havia saído do local, por medidas de segurança, logo depois que fez seu discurso e oficializou a inauguração do que, agora, não passava de destroços do que, há alguns segundos atrás, fora o hospital mais moderno do mundo.
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