Notas iniciais
Oi gente tudo bom? Espero que sim. Vamos conhecer um pouco mais dos hits de Lisa e ir às compras junto com eles. Espero que gostem.

Min Jun dirigia em silêncio o carro que ganhamos temporariamente da produção. Não era como se ambos quiséssemos conversar mesmo que houvesse uma câmera no painel aguardando para capturar alguma interação entre nós.

— Não que conversar? Eles devem querer que conversemos.

— Não.

— Mas você adora seguir o roteiro...

— Não estou afim de conversar com você, pois não tenho o que conversar com você – Ele não desviava os olhos da estrada.

— Tem certeza? Depois não vai dizer que sou eu quem não segue o roteiro... – Cantarolei.

— Certo, vamos conversar! Me responda uma coisa – Aguardei prontamente sua pergunta – Como você consegue ser tão irritante?

— Ah, acredito que seja uma espécie de dom divino, assim como o seu dom de ser um grande babaca! – Sorri para ele que comprimia os lábios numa linha fina e apertava as mãos no volante.

— Por que me colocaram para dividir um teto justamente com você? Uma artista fracassada que ainda acredita que é alguém? – Resmungou.

— Era eu quem deveria estar fazendo esta pergunta. Mas sem a parte da artista fracassada e tal – Cocei a cabeça envergonhada.

Era isso o que eu significava para ele? Apenas uma artista fracassada que acredita ser alguém? Eu era mais que isso. Eu era Lisa Scott. Dona do hit “My sister is a bitch” que ficou 7 semanas no topo da Billboard, que foi líder em vendas no iTunes e quem sabe se o Spotify existisse na época teria obtido milhões de reproduções. A duas vezes indicada ao Grammy com as duas únicas baladas dos meus dois álbuns “Get outta my Way (Whore)” e “I hope that you die soon”, a quebradora de correntes... Espere isso é Game of Thrones.

De qualquer forma eu era alguém, ou pelo menos havia sido alguém. Eu ganhei 4 Kids Choice Awards, afinal as crianças adoravam minhas músicas. Lisa Scott já havia sido importante e marcado o mundo de alguma forma. Pessoas em todo o mundo cantavam minhas canções e meus concertos costumavam lotar.

Ao mesmo tempo em que pensar nisto enchia meu peito de orgulho, algo dentro de mim se despedaçava apenas com a ideia de que isso tudo estava no passado e seria uma das histórias que contaria aos meus filhos e netos que poderiam se gabar de ter uma avó que já foi famosa em algum momento em sua vida.

— Chegamos – Anunciou seco, trazendo-me de volta de meus devaneios.

Frente ao supermercado uma pequena equipe de filmagem nos aguardava com suas câmeras e assistentes além de Genna que andava de uma lado para o outro com o telefone celular na orelha e um cigarro acesso na boca. Ela esbravejava com quem quer que fosse no telefone, alguém que provavelmente deveria ser seu ex-marido pelo assunto que conversava.

— Eu já disse que ele vai passar o final de semana na sua casa! Ele também é seu filho, mas que merda Ryan... Ah não, mas é claro que eu fiz ele sozinha, talvez eu realmente devesse ter dormido com o vizinho que dava em cima de mim...

Genna nos olhou com olhos arregalados quando Min Jun pigarreou anunciando nossa chegada.

— Há quanto tempo estão aí? – Tirou imediatamente o celular do ouvido.

— Acabamos de chegar! – Respondeu ele.

— Vocês ouviram muita coisa? – Indagou um tanto sem graça o que não era de seu feitio.

— Não nada – Respondi no mesmo instante – Não ouvimos nada – Balancei a cabeça em negativo freneticamente.

— Eu só estava falando com minha irmã sobre uma massa de bolinhos de chocolate.

— É claro, bolinhos – Concordei balançando a cabeça.

— Terminamos nossa conversa depois – Ela finalizou a ligação e enfiou o telefone no bolso da calça jeans rasgada – Cigarro? – Me ofereceu o seu.

— Não, eu não fumo mais – Min Jun me olhou com as sobrancelhas arqueadas.

— Cigarro? – Ofereceu ao meu marido.

— Obrigado, mas eu não fumo.

— Isso é bom, essa merda vai acabar te matando algum dia – Deu outra tragada no cigarro – Vocês vem comigo, agora!

A produtora nos conduziu até um carrinho de supermercado com uma câmera que nos acompanharia enquanto caminhássemos pelo ambiente.

— Aqui estão as instruções: Os dois devem conduzir o carrinho juntos, entenderam? Juntos! Eu sei que não estão se dando bem, eu vi as filmagens e aliás vamos falar sobre isso mais tarde, continuando, por favor finjam que está tudo bem e que estão interessados em comprar comida ou seja lá o que for que queiram comprar.

— A nossa geladeira está cheia.

— A questão não é abastecer sua geladeira, mas promover um momento de interação entre o casal, e claro que seja um momento romântico de compras à dois. Quando eu der o sinal as suas mãos devem se tocar enquanto empurram a droga do carrinho – Ela prendia os cabelos loiros encaracolados num coque enquanto se abanava com calor – E o principal, por favor nada de brigas estúpidas, estou cheia delas. A equipe de filmagem também estará logo atrás de vocês. É hora do show.

Pegamos o carrinho indicado e adentramos o grande supermercado. Toda uma equipe nos seguia enquanto tentávamos nos manter o mais tranquilos possível. Nossas mãos estavam lado a lado, próximas o bastante para nos tocarmos “acidentalmente” a qualquer sinal de Genna e constrangidos o bastante para rezar que ele nunca desse esse sinal.

— O que você quer comprar? – Indaguei repetindo a frase escrita na plaquinha de Genna.

— Estou com vontade de comer comida coreana – Leu a resposta com uma interpretação melhor que a minha – Acho que vou comprar alguns ingredientes pra fazer Kimchi... – Ele não soava tão frio como de costume, definitivamente ele era um bom ator.

Mas o que diabos era kimchi?

Genna prosseguia sinalizando para que mantivéssemos uma conversa, o problema é que eu não sabia sobre o que falar com meu adorável marido.

— Eu nunca comi comida coreana. É tipo sushi? – No mesmo instante ele me lançou um olhar mortificante.

— Sushi é comida japonesa – Sorriu em sua boa interpretação de marido compreensivo – Não coreana.

— Hum... interessante – A música ambiente do supermercado mudou para uma que me soava familiar, familiar até demais.

— Devemos ir à sessão de verduras e comprar algumas folhas de acel...

— Ai meu Deus! – Gritei o interrompendo – Tá ouvindo isso? – Olhei para ele com um sorriso maníaco.

— Isso o que? – Indagou assustado enquanto toda a equipe me observava com olhares arregalados.

— É a minha música! – Segurei em seus braços e o chacoalhei – É a minha música, é a minha música... Oh oh oh Rich – O soltei e comecei a dançar – Oh Rich tananananan, my sister is a bitch! Oh Rich, Oh Rich, she’s a fucking bitch...ieeee ieee...

— Lisa! Lisa! – Gritou Genna e parei de me sacodir – Menos, bem menos.

— O que é? Dançar virou algo proibido agora? – Respondi chateada – E não é todo dia que as pessoas ouvem minhas músicas.

— Senhorita Scott, nós temos uma gravação para terminar e isso não ajudará em nada. Agora vamos continuar tudo bem? – Concluiu entredentes.

— Eu não tenho culpa se brigou com o ex-marido – Resmunguei enquanto voltávamos a empurrar o maldito carrinho.

Min Jun nos conduzia pelo supermercado como alguém que conhecia os corredores como a palma de sua mão. Seu rosto parecia sério e concentrado, direcionando toda sua atenção aos ingredientes necessários para sua receita coreana. Ele sequer havia notado quando a produtora sinalizou para que nossas mãos se tocassem por acidente. Então tive que ser a responsável por tocar sua mão e parecer tímida. A questão é que eu não sou tímida e esse tipo de contato nunca me constrangeria.

Sua atenção voltou-se para nossas mãos quando o toquei “sem querer”, olhei em seus olhos aguardando por alguma reação, assim como todos também parecia esperar por algo. Seus lábios se abriram e logo se fecharam, era como se ele estivesse assustado com o contato repentino e inesperado. Seus olhos voltaram-se então para Genna que ansiava por algo maior.

— Acho que vamos precisar de um pouco de alho! – Constatou voltando a empurrar o carrinho me levando consigo.

— Eu só fiz o que a Genna pediu – Murmurei – Você estava tão distraído que...

— Vou levar um pouco de pimenta. Gosta de comida apimentada?

— Ah, gosto, eu gosto sim – Respondi estranha — Você não gosta muito de contato não é?

— Não gosto do seu contato – Respondeu atento às pimentas vermelhas e verdes numa banca de madeira dando ênfase ao “seu”.

— Só pra constar eu não tenho nenhuma doença contagiosa, não que eu saiba. E que fique registrado que eu estou apenas obedecendo ordens, eu nunca encostaria um dedo em você se não fosse por obrigação.

— É um alivio saber disso – Colocou as pimentas no carrinho e deu meia volta deixando-me para trás.

Corri feito uma idiota para alcança-lo. A equipe nos aguardava no corredor dos salgadinhos.

— Compraram tudo o que precisam? – Indagou Genna.

— Sim, acho que podemos terminar por aqui!

— Mas é claro que não, hoje é o dia do casal, vocês devem almoçar fora em um restaurante que nós preparamos. Não é porque não tiveram uma Lua de Mel que não terão momentos românticos. Vamos lá, eu preciso ganhar dinheiro com vocês. Vamos, vamos!

Parecia que meu dia infernal estava apenas começando.

Notas finais
Gostaram? Em breve veremos o que acontecerá neste almoço. Até mais!