Recordos da Infância
1 Oneshot
Notas iniciais
Estava deitado na cama da enfermaria do colégio Namimori com um sorriso bobo. Olhava para o céu pela janela, esperando alguma linda colegial aparecer pedindo para que a examinasse, ou quem sabe uma mulher mais madura! Talvez uma nova e sexy professora aparecesse pedindo um comprimido para dor de cabeça e quem sabe, alguma companhia para relaxar e conversar.
Aproveitava o azul do céu e a agradável brisa da primavera que lembrava tanto seus dias na Itália, quando não era chamado para alguma missão ou convocado para se juntar ao esquadrão de assassinos. Riu um pouco ao relembrar o dia em que finalmente pode voltar aos seus dias tranquilos após voltar da base da Varia, após longos meses de discussão. Foi uma grande dor de cabeça recusar incontáveis vezes o convite para se juntar a eles.
– Shamal! Shamal! – Gritava o garoto, correndo na direção do jovem medico que acabara de entrar no grande jardim.
– Ah, Hayato. – Disse com um sorriso enquanto encarava o menor e desarrumava-lhe o cabelo. – Como tem estado? Faz algum tempo que não te vejo.
– Não nos vemos porque você não apareceu novamente. – Comentou emburrado, desviando o olhar.
– Adultos têm muitos afazeres, Hayato, mas acho que você não vai entender isso. – Riu divertido, com um tom de superioridade, enquanto via o pequeno garoto encara-lo irritado.
– Não sou criança! – Gritou e logo cruzou os braços.
– Diga isso quando virar um adulto. – Sorriu, abaixando-se para ficar a altura do outro e acariciando-lhe os cabelos.
– Vou crescer logo e serei um hitman muito melhor do que você! – Murmurou.
– Tem gente que mesmo quando cresce, não se torna adulto. – Deu uma risada abafada. – Tem que aprender algumas coisas a mais para poder se considerar um.
– Eh? Como o que? – Perguntou surpreso. Mesmo crescendo, você podia não se tornar um adulto?
– Um dia vai descobrir. – Riu malicioso, se divertindo com a ingenuidade do pequeno. — Você é muito novo para essas coisas.
O medico levantou-se e continuou a andar até a porta de entrada para a grande mansão. Era um antigo conhecido do chefe da família, então estava habituado a aparecer sem convite ou aviso prévio. Caminhou pelo jardim com uma leve risada, enquanto o garoto perseguia-lhe correndo e gritando.
– Não diga isso, Shamal! Vamos, me diga! Quero poder virar um adulto! – Gritava, puxando a roupa do outro e cutucando-o para que o escutasse.
– Quando crescer, descobrira sozinho. – Riu mais ainda, dando mais duvida e curiosidade ao menor.
Sorriu de leve, com nostalgia e logo depois gargalhou. Os anos passaram, mas Hayato continuava sem entender como “tornar-se um adulto”, mesmo com tantas lindas garotas colegiais em atraentes minissaias correndo atrás dele todos os dias... Nesse quesito, o Guardião Vongola da tempestade era realmente um aprendiz decepcionante.
Nesse quesito e no quesito de criatividade. Talvez até pudesse ser inteligente, mas criativo não seria uma descrição adequada. Mesmo na infância, vivia imitando descaradamente muitas coisa suas, desde o modo de andar, até a aparência.
– Shamal! Veio de novo! – Gritou sorrindo.
– Tinha coisas para fazer por perto e pensei em passar por aqui. – Disse sorrindo. – Mas então, diga... Onde esta Ângela?
– Ângela? Acho que está de folga hoje... Pelo que lembro, quem está substituindo ela deve ser Rosaline. – Comentou pensativo. – Se precisar de alguma coisa, posso chamar ela.
– Ro-Rosaline...? – Gaguejou, lembrando-se da imagem brusca e mal humorada da velha empregada da mansão, em contraste com a agradável e delicada Angela, que sempre o tratava com gentileza.
– Quer que eu a chame? – Perguntou sem entender a reação do mais velho a sua frente. Precisava de algo ou não?
– Na-não é necessário. – Decidiu mudar de assunto, antes que ele insistisse em chamá-la. – Mas Hayato, como tem andado?
– Ótimo! Aprendi mais sobre o piano! – Seus olhos brilhavam e gesticulou a forma e a postura em que se deveria tocar.
– Ah, isso é ótimo. Mulheres gostam de músicos. – Comentou sorrindo, sentando-se no sofá de couro do grande salão.
– É mesmo? – Não entendia ao certo, e dai se as mulheres gostavam? – Ah, Shamal! Olhe! Olhe!
O garoto balançava os braços, com os olhos brilhando mais intensamente. Gesticulava para si mesmo, mais precisamente, para a região dos ombros ou algo do tipo.
– Hum? – Fez uma expressão de duvida e observou.
– Olhe melhor, Shamal! Vamos! – Sorria com aqueles olhos animados.
Olhar o que? O hitman observou mais cuidadosamente o garoto... Conhecia aquele modo de gesticular e aquele olhar. Era o mesmo que as mulheres faziam quando falavam “Então, notou algo diferente em mim?”
– Oh, mudou o corte, Hayato? – Falou sorrindo. Normalmente, quando diziam isso, a diferença só poderia ser o cabelo, certo?
– Isso também, mas observe melhor! – Gesticulou mais, começando a ficar emburrado.
Observou mais atentamente, procurando mais algum sinal de mudança. O que poderia ser...? Olhou fixamente o novo corte e...
– Ah! – Gritou, ao notar que era uma versão mais desarrumada de seu cabelo. – Hayato, está tentando copiar meu charme?
– Eh? Não gostou? – Parecia um pouco decepcionado... Achava que iria se sentir orgulhoso já que era a forma do mais jovem mostrar seu respeito.
– Deveria ficar com seu estilo próprio. – Suspirou, bagunçando o cabelo do pequeno mafioso. – Mas pelo menos teve bom gosto.
Gokudera apenas olhou para cima sorrindo, enquanto tentava arrumar o penteado novamente, tentando copiar, sem muito sucesso, o modo como Tridet Shamal sempre fazia.
Suspirou com o recordo. Não importa quantos anos passassem, seu aprendiz continuava com o mesmo corte de cabelo. Bem, não é como se ele se incomodasse ainda, já fazia tanto tempo que nem se dava mais ao trabalho de reclamar, além de não ter a mínima vontade dele próprio mudar o corte... A responsabilidade era do menor, não? E da ultima vez que o fizera, Gokudera ficara tão magoado que Shamal não se arriscava mais em tentar mudar novamente.
– Eh? Desculpa... – Murmurou mal humorado, enquanto se levantava após esbarrar no homem a sua frente. Fora arrastado por seu pai e Bianchi para uma festa de uma das famílias aliadas.
– Oh, deveria tomar mais cuidado, criança. – Provocou, dando um destaque na ultima palavra e fazendo o pequeno mafioso olhar para cima surpreso, reconhecendo a voz.
– Shamal? – Gritou, sem acreditar. – Mas... Mas... O que aconteceu com seu cabelo?
– Mulheres gostam de mudanças para sair da monotonia, um dia você vai entender isso. – Sorriu com certo deboche e arrumou seus cabelo, mais curto e bem mais repicado, dando um ar mais bagunçado que antes.– Parece que gostou tanto desse corte, então pode usar como se fosse seu.
– Mas... Porque...? – Perguntou ainda surpreso.
– Com uma criança correndo atrás de mim nas festas e reuniões e ainda copiando meu estilo, vão começar a pensar que tenho um filho. – Reclamou.
Isso realmente era verdade, Hayato o copiava e seguia tanto, que os boatos já estavam se espalhando. Além disso, o garoto parecia mesmo se orgulhar do corte, seria crueldade demais manda-lo cortar só por egoísmo do hitman dos mosquitos. Os boatos afetavam a imagem do medico com as mulheres e poderiam afetar o menor com os comentários maldosos dos herdeiros de outras famílias... Crianças são muito maldosas nessa idade.
– Mas... – Reclamou, sem saber ao certo como dizer. – Shamal!
– O que foi, Hayato? – Perguntou distraído. Havia acabado de passar a bela e nova herdeira da família Granata e ele precisava se apresentar o quanto antes.
– Nada... – Murmurou emburrado. – Vou me esconder da minha irmã agora.
– Hayato? – Chamou, enquanto o pequeno se afastava rápido, talvez chorando. – Essas crianças confusas...
Suspirou cansado... Crianças são mesmo confusas. Levou um bom tempo ate entender que Hayato ficara assim porque considerava o corte como uma “conexão” entre eles já que o hitman sempre sumia pelo mundo por causa de mulheres, trabalhos e certas burocracias incomodas. Sempre teve que ficar cuidando de Hayato como se fosse um verdadeiro irmão mais velho... Alguns diziam que era como um “pai”, mas nunca que aceitaria isso! Não era tão velho a sim para ter “dons paternos”.
Fechou os olhos para sentir melhor a brisa, até que escutou o som de uma explosão, seguido por um leve temor e o cheiro de pólvora. Estavam causando problemas novamente... Só esperava que nenhum deles se machucasse. Shamal não cuida de homens.
Sorriu ao escutar o grito desesperado de Tsuna, seguido pela risada animada de Yamamoto. Era bom que eles não tivessem se ferido na explosão, mas o comitê disciplinar faria o favor de manda-los para a enfermaria... Quanto trabalho desnecessário...
– ... Hibari-san não tem piedade. – Choramingou Tsuna, enquanto arrastava a porta da enfermaria e entrava.
– Ele sempre foi assim, ne. – Riu Yamamoto, entrando em seguida.
– Como ele ousa fazer isso com o Jyuundaime? – Reclamou Gokudera gritando, seguindo fielmente seu chefe e posicionando-se ao lado dele. – Ei, Shamal, faça seu trabalho e cure-o.
– Eh? Não cuido de homens. – Reclamou o medico distraído, encarando-os ainda deitado na cama da enfermaria. – Já são grandes o bastante para cuidarem dos próprios ferimentos. As coisas estão ai na mesa, é só pegar.
Levantou a mão com preguiça e indicou onde estava cada coisa, ignorando os gritos de seu aluno enquanto o Vongola tentava acalma-lo e o guardião da chuva continuava rindo.
– Faça seu trabalho, medico pervertido! – Gritou Gokudera, ameaçando pegar suas dinamites.
– Estou fazendo o bastante só de deixa-los entrar nessa sala. – Argumentou o medico, bocejando.
– Como? – Gritou mais ainda com as dinamites em mãos. – Deixe comigo, Jyuundaime, darei um jeito nele.
– Não se estresse, Gokudera. — Falou o guardião da chuva, segurando-o.
– Você já é grande o suficiente para tratar dos próprios machucados... – Comentou o mais velho, que começou a rir de leve e continuou com um tom de deboche. – Mas ainda não se tornou um adulto, não, Hayato?
– Seu... – Sussurrou, com a raiva quase incontrolável, enquanto Tsuna tentava impedi-lo. Já doía o bastante por culpa do Hibari, com a explosão, não sabia se sobreviveria.
– Calma, Gokudera... Não precisa se estressar tanto. — Continuou Yamamoto, tentando acalma-lo.
O jogador de beisebol riu da situação e Shamal o acompanhou, enquanto Tsuna se desesperava cada vez mais, quase desmaiando pela dor e o nervosismo... Shamal observou os tres com um sorriso. Finalmente seu jovem aluno havia conseguido bons amigos... Pelo menos, agora, poderia dar mais valor a própria vida... Finalmente havia encontrado bons motivos para continuar vivo.
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