No Hospital

Entro na recepção e pergunto por Yusuko e encontro o mesmo no quarto de descanso dos residentes, indago sobre Yume para ser atualizado sobre sua condição médica.

– Cara, ela chegou procurando por você estava com febre alta e se recusava a receber tratamento dizendo que era normal na condição em que ela se encontrava, porém desmaiou, internamos e entramos em contato com o médico dela lá do Panamá e ele informou que ela tem câncer de estômago foi diagnosticada há cerca de 1 ano fez.

Começou o tratamento e quimioterapia todavia não teve a regressão da doença e o corpo dela não possui mais condição para suportar o tratamento necessário então ela optou pelos cuidados paliativos para aumentar sua qualidade de vida, enfim é uma paciente terminal...

Conversamos mais um pouco e fui em direção ao quarto em que Yume estava internada para verificar como a mesma estava passando, chegando lá ela dormia, havia sido medicada com antibióticos e remédios antipiréticos, enfim não havia muito mais o que fazer enquanto médico.

Sentei-me na cadeira do acompanhante e iria esperar até ela acordar para saber o que havia feito ela me procurar e fiquei pensando na noite que tive, em June, acredito que agora ela iria me odiar, estava cansando de ter minha vida determinada pelo que as pessoas queriam de mim, ela chegou toda confiante que poderia me reconquistar e que eu morreria por tê-la em meus braços novamente só que as coisas não funcionam assim e como apagar todo o sofrimento de quando ela me deixou...

Aproximei a cadeira da cama e fiquei observando o rosto de Yume, por Zeus a doença havia sido implacável com ela, seus cabelos estavam mais curtos, ela estava bem mais magra, os lábios estavam rachados e feridos com certeza devido às sucessivas febres que ela devia estar enfrentando, era um quadro muito triste, ela sempre fora tão linda, acariciei seu rosto e vencido pelo sono adormeci na cadeira com a cabeça encostada na cama.

Acordei com as mãos de Yume acariciando meus cabelos, levantei-me e ela sorriu para mim, seus olhos estavam diferentes, tristes, lembrava olhos de um guerreiro cansado de lutar, conhecia bem aquele olhar, olhar de quem estava disposta a aceitar a morte porém ainda havia uma última coisa a fazer, o quê seria?

– Olá, desculpe-me, não queria acordá-lo, não resisti, sempre adorei passar a mãos em seus cabelos...são tão macios e possuem uma cor tão linda, adoro esse tom de castanho...- ela falou com a voz cansada.

– Yume, eu sei de tudo sobre a doença, eu sinto muito, gostaria de saber em que eu posso ajudá-la ainda sou um médico em formação...- eu disse apreensivo queria muito ajudá-la ela era uma pessoa que foi importante na minha vida e ninguém merecia morrer assim.

– Não vim procurar mais um médico, acredite eu já tive minha cota deles pelo resto da minha vida... bom como você sabe da minha situação vou direto ao ponto, eu menti e preciso que você cuide do nosso filho.- ela falou me interrompendo olhando nos meus olhos analisando minha reação.

– Como assim, você mentiu para mim em relação ao aborto? – perguntei visivelmente irritado.

– Desculpe-me, eu menti, pois não queria estragar a sua vida, e tinha realmente a intenção de abortar após a nossa conversa, porém depois do que conversamos aquele dia, eu comecei a querer essa criança, e um pouco antes dela nascer eu fui diagnosticada com o câncer, não quis me tratar inicialmente para levar a gravidez até o fim e não me arrependo disso, ele é lindo, seu nome é Katsuo.

E não adianta você continuar me analisando assim, ou ficar com raiva, no estágio em que estou, pouco me importo com críticas, aliás nunca me importei com a da maioria das pessoas– ela completou séria.

– Onde ele está agora?- perguntei entendendo o que ela queria dizer, discutir naquele momento não iria nos levar a lugar algum.

– No orfanato, junto com a sua namoradinha a Mino, eu o levei para lá ontem e expliquei a situação para ela, após um sermão dela, ela aceitou cuidar de Katsuo, foi gentil da parte dela já que o orfanato não aceita bebês, e ela me deu até cerca de duas horas atrás para não ligar para você e explicar ela mesma a situação.

– Ele não tem um ano ainda, minhas contas estão corretas?- perguntei

– Ele tem apenas nove meses- ela respondeu cansada

–Você foi diagnosticada com câncer e evitou tratamento durante meses para poder ter a criança, isso pode ter sido a diferença entre a vida e a morte, deveria ter se tratado- eu falei.

–Já não podia mais abrir mão dele Shun- ela falou com lágrimas nos olhos.

– Vou buscá-lo agora Yume, se precisar de alguma coisa chame as enfermeiras, por favor, descanse e não se preocupe mais, vou cuidar de vocês dois agora.- eu disse beijando-lhe suavemente a testa e deitando-a na cama.

– Obrigada, Shun- ela respondeu fechando os olhos e caindo no sono novamente.

Orfanato

Entro no orfanato extremamente afobado, caramba eu sou pai, estou ansioso, quero ver o rosto dele, será parecido comigo ou com Yume, não acredito ainda que isso esteja acontecendo.

Dirijo-me ao escritório de Mino, abro a porta e ela está sobre a mesa mexendo em alguns papéis, entro e olho para ela que me faz sinal de silêncio e aponta um berço improvisado no escritório desses que possuem rodinha para movimentar pela casa.

Aproximo do berço e vejo o garotinho que ali dormia despreocupado ele possui bastante cabelo para um bebê eu acho, a cor de seu cabelo lembra o meu e de repente ele boceja e abre os olhos e fica me observando, seus olhos são de um castanho esverdeado, ele sorri e senta-se no berço e depois se apoiando na borda fica de pé.

Mino se aproxima coloca as mão no meu ombro e percebe meu sorriso bobo na cara.

– É não dá para dizer que não seja seu filho, é a sua cara.- ela fala com carinho.

– Você não está brava, você não gostava da Yume? Aliás peço desculpa por isso- eu pergunto segurando Katsuo em meus braços e brincando com ele

– Shun, ele é lindo e é seu filho foi um prazer cuidar dele, estou acostumada é a minha profissão e quanto a Yume, aquela mulher que veio falar comigo ontem merece compaixão e não raiva- ela disse olhando para o vazio visivelmente impressionada com estado de Yume.

–Acredito que ela tenha mais alguns meses de vida apenas, é muito triste vê-la assim!- eu disse chateado com um aperto inexplicável no peito.

Abracei forte aquele menininho e beijei-lhe repetidas vezes tentando recuperar o tempo perdido, mas ele estava ficando irritado no meu colo.

– Coloque-o no chão, ele quer brincar e engatinhar, precisa ler alguns livros sobre crianças, nessa idade eles não gostam de colo.- Mino disse rindo.

Coloquei-o no chão e fiquei observando ele engatinhar e brincar com os brinquedos que Mino colocou ali também, sentei-me para brincar com ele e descobri que poderia fazer aquilo o dia todo.

– Mino, nós podemos ser amigos de novo? acho que vou precisar de seu entendimento com crianças...- eu falei encarando seu rosto.

– Sabe Shun, nós nunca deixamos de ser amigos!- ela disse sorrindo e eu soube que estávamos bem novamente.

O restante do mês foi bastante atribulado envolvi minha família, Saori e Seiya foram extremamente atenciosos em comprar todo o enxoval necessário já que tinham experiência recente com Akemi, eu fui morar provisoriamente na casa deles, no quarto ficávamos eu e meu pequeno filho.

Pedi afastamento da minha residência e alternava os cuidados entre Katsuo e Yume que necessitava ficar internada para receber tratamento, estava sendo preparado um quarto na casa do Seiya com toda infraestrutura necessária para receber um doente no estágio de Yume assim ela poderia ter o conforto necessário nos últimos dias de sua vida.

Em paralelo me recusei a atender todas as ligações de June para mim, tinha mais o que pensar e fazer, depois me resolveria com ela, o problema foi que ela me esperou um dia na saída do hospital em uma das visitas que fui fazer para Yume.

– O quê você está fazendo aqui?- perguntei

– Você não atende minhas ligações, precisava ver como você estava com tudo que está acontecendo.- ela disse com a voz triste.

– E você sabe de tudo que está acontecendo?- perguntei irritado.

– Sei sim, voltei a conversar com Mino, ela sempre foi minha amiga e não deveríamos brigar por causa de homem, afinal você não quer ficar com nenhuma de nós duas- June disse sendo sarcástica.

– Está vendo o motivo pelo qual não atendia suas ligações, não gosto desse joguinho, não gosto de sarcasmo!- eu disse indo em direção ao estacionamento.

– Shun, por favor, espera!- ela disse segurando o meu braço.

Eu me virei, ao segurar meu braço a velha corrente elétrica que conhecia com o seu toque percorreu meu corpo, será que sempre responderia dessa maneira a essa mulher...

– Fala, mas seja breve, preciso ir ver meu filho- disse firme.

– Quero estar na sua vida, nem que seja como amiga, poderia por favor me aceitar dessa maneira, Você se lembra né, ainda sou eu aqui a garota que cuidou de você naquela ilha...- ela disse com lágrimas nos olhos.

– Será um prazer ser amigo daquela garota novamente!- eu disse com sinceridade, nunca poderia me esquecer do que ela já havia feito por mim.

Ela sorriu e enxugou as lágrimas que teimavam em escorrer pela face:

– Tenho um pedido então para lhe fazer, poderia conhecer seu menino, comprei uma roupinha linda para ele.

A verdade é que estava feliz em tê-la novamente em minha vida, poderíamos ser amigos afinal, só precisava voltar a enxergá-la com outros olhos até por que o meu compromisso agora era com meu filho e a mãe dele e um verdadeiro homem arca com suas responsabilidades.

Notas finais
pessoal, reta final agora! finalmente acabando a fic...abraços