Após o episodio noite louca com a garota desconhecida e a surtada da Mino tudo aparentemente voltou ao normal, Mino continuava sendo minha melhor amiga, Takeo era meu tutor nos estudos e seguia minha vida tranquilamente quando reencontrei Yume pelos corredores da faculdade.
– Olá garotão!- Ela cumprimentou sorrindo.
– Oi.- respondi sem empolgação na voz.
Takeo havia me explicado quem era a Yume, ou pelo menos o que os outros achavam dela, ela era estudante de intercâmbio filha de pai japonês e mãe latina, desde que havia chegado à faculdade ela era tido como uma garota ‘fácil’ que transava com todos os garotos com quem saía e gamava alguns deles devido ser uma amazona na cama, nesse ponto sei que não é fofoca...
– Nossa que desânimo, achei que tivemos um momento legal e pelo que me lembro você gostou bastante, deveria ser mais agradecido, ah e você me deve uma camisa, esqueceu.- ela disse séria.
Retirei minha carteira do bolso para verificar quanto dinheiro possuía...
– Ei poxa não precisa ser assim, podíamos sair para almoçar daqui a pouco e ficamos quites.
Eu não entendia aquela garota, só sei que não queria que a noite de sábado se repetisse, era estranho ter tanta intimidade com alguém e agir como se nada tivesse acontecido, quando falei isso Takeo me chamou de mulherzinha, e disse que era melhor eu ir me acostumando a ser homem.
Topei o desafio de ‘não quero ser um homem como o descrito pelo Takeo’, aceitei almoçar com Yume e iria provar que nada aconteceria e não seria tratado como um objeto novamente, que se existia sexo deveria ter intimidade.
Essa é a parte da minha vida que me envergonho claramente, acabamos em um motel e perdi minhas aulas o restante do dia.
Perdoem-me todos os Deuses, Yume era gostosa demais para ser evitada, se ela me falasse que seu pai era Eros eu acreditaria sem pestanejar, o complicado é que para quem não tinha o costume de levar os homens a sério, nós começamos a ter uma espécie de relacionamento, pois nós encontrávamos cerca de 3 ou 4 vezes durante a semana, conversávamos pouco, quase nunca saímos e fazíamos sexo sem parar.
No restante minha vida continuava igual a não ser por Mino que toda vez que queria falar algo sobre a Yume fechava a cara, então para evitar discussão eu parei de mencionar o fato para a mesma, apesar dela saber claramente que estava saindo com a Yume
Após 5 meses dessa confusão, Ikki apareceu para fazer-nos uma visita, um belo dia saindo da minha aula de anatomia atravessando o estacionamento para pegar o carro, lá estava meu irmão encostado em uma moto Harley, com o capacete na mão, vestido de preto e o cabelo um pouco mais comprido.
Apressei meu passo e não me contive, abracei-o muito forte, ele retribuiu meu abraço, quando me afastei olhei para o seu rosto e vi seu sorriso meio debochado que só ele sabia dar.
– Continua o mesmo sentimental de sempre hein Shun.
– Ah Ikki, você some por um ano e quando volta não quer que sejamos sentimentais então não deveria desaparecer.
– Caramba Shun, tem muita garota bonita nessa faculdade, você está bem servido hein little brother.- ele afirmou com um olhar malicioso.
Ikki havia se tornado um belo exemplar do que seria um macho alfa descrito pelo meu amigo Takeo, ele era um predador natural e aparentemente seu jeito bad boy fazia um sucesso incontrolável entre as garotas.
Eu sabia na realidade o quanto daquilo era fachada, Ikki amara apenas uma garota em toda sua vida, e a viu morrer em seus braços, a partir desse momento acredito que ele tenha erguido um muro em volta do seu coração não permitindo que nenhuma outra garota ultrapassasse esse limite.
– Estou muito feliz que você tenha vindo para conhecer os gêmeos, e passar o natal em família, vai ser muito legal, a Saori está radiante com a expectativa de todo mundo reunido, o pior é ela brigando com a Shunrei para definir na casa de quem seria, isso porquê são vizinhas e adivinha quem ganhou a disputa?
– Saori!?- Ikki apostou
– Não! Dessa vez a deusa Atena perdeu.- eu respondi dando risada.
– Ah achei que ia morrer de tédio aqui, pelo visto me enganei.- respondeu Ikki rindo também.
Ikki trabalhava como os olhos da fundação ao redor do mundo, nunca parava muito tempo em um mesmo lugar, viajava identificando lugares para possíveis investimentos e onde precisava da ajuda da fundação e era extremamente competente nisso.
Para nossa primeira festa de natal juntos seria feito um baile na mansão do Shiryu, a mesma ocorreria dali 3 dias, assim como Ikki, Hyoga havia vindo de Asgard acompanhado pela Hilda, os dois pela última vez que havia conversado com ele estavam se entendendo.
Mino não poderia ir, pois iria fazer a festa para as crianças no orfanato, e Takeo que também convidei estaria de plantão nesse dia.
Após chegarmos ao meu apartamento acomodei o Ikki no quarto de hospedes, ele informou que iria tomar banho e dormir muito que fazia uns 3 dias que não dormia direito.
Estava pensando em ir ao mercado uma vez que a despensa estava vazia, quando meu celular tocou e atendi era Yume, estava determinado quando ela ligasse a conversar com ela e dar um fim ou tentar transformar o que tínhamos em alguma coisa decente.
Marcamos como sempre no apartamento dela dali uma hora, quando cheguei lá, bati na porta e ouvi um entre, ao entrar me deparei com Yume sentada no chão e encostada no sofá com olheiras e cabelos despenteados e usando roupas amassadas, estranhei ela estava sempre impecável em nossos encontros...
– Sente-se Shun!- ela disse apontando o sofá.
Sentei-me ao seu lado no chão, ela recostou a cabeça em meu ombro e começou a chorar.
– O que houve?- perguntei aflito.
– Ah Shun, desculpe-me eu cometi um erro de conta... não era para ter acontecido isso...- ela disse soluçando.
– Acontecido o quê?- estava mais aflito ainda.
– Estou grávida!- ela me informou.
Não me lembro o que pensei na hora, confesso que desde quando segurei os gêmeos do Shiryu no colo essa ideia percorre meus devaneios, mas quando ela ocorre eu vejo a June como mãe da criança...
Abracei-a mais forte, aquela criança era responsabilidade minha e ela também, eu sabia o que devia ser feito e iria fazê-lo.
– Tudo bem, não tem problema sempre quis ser pai!- eu disse afetuosamente.
– Sério, mas você é tão jovem, é mais novo do que eu.- ela disse parando um pouco de soluçar.
– Na minha família, já passamos por tanta coisa que nós sentimos um pouco com cerca de 40 anos, tenho um irmão um ano mais velho que eu, que já é pai de gêmeos- respondi sorrindo querendo quebrar a tensão.
Pela primeira vez nos meses que estávamos juntos conversamos como amigos, e confesso que foi agradável, Yume também contou sobre a família dela, que ela havia sido criada pelo pai que a mãe fugiu com outro homem quando ela tinha 3 anos...
Quando saí de lá, senti que nos tornamos mais íntimos dessa vez em que não transamos, do que nas outras, combinamos de nos ver no outro dia, nunca havíamos combinado nada, nosso encontros nunca foram planejados, basicamente ele ou eu ligava e nos encontrávamos.
Contei para o Ikki o que havia acontecido, e disse que iria pedir Yume em casamento no dia seguinte, pois era a coisa certa a fazer, achei que meu irmão fosse entender minha atitude e até mesmo me apoiar, mas sua reação não foi o que eu esperava.
– Você é um idiota pior do que eu pensava, Shun, primeiramente como você transa com uma garota que mal conhece sem usar camisinha, isso porque você está estudando para ser médico, imagina que maravilha de médico você será, e outro detalhe importante, você tem certeza que esse filho é seu...
Prosseguimos nessa conversa durante algum tempo, apesar das argumentações válidas de meu irmão eu havia tomado uma decisão, por mais que dissessem que poderia assumir um filho sem ter que ficar com a mãe, o que povoa meu consciente era a imagem de crianças criadas longe de seus pais, Yume era visivelmente problemática e precisaria de alguém por perto, talvez ela mudasse, dizem que a maternidade pode efetuar um milagre na vida da mulher.
Na verdade éramos ambos estragados, ali naquela história não existia inocentes a não ser a criança que iria nascer, era apenas nela que devia pensar agora, quanto ao fato de ser ou não meu filho eu não tinha dúvida quanto a isso, eu simplesmente senti que a vida que se iniciava naquele ventre estava ligada a minha.
No dia seguinte minha programação normal, fui à faculdade terminar de entregar algumas coisas antes de estar livre para o feriado de natal, fui ao orfanato deixar os presentes das crianças e contei para Mino o que estava acontecendo, o sermão que tomei da mesma foi algo parecido com o do Ikki, perguntei-me se eles não haviam combinado antes.
Passei em uma joalheria e comprei um anel de noivado, simples porém muito bonito, fui para casa de Yume e não encontrei a mesma no local, havíamos combinado aquele horário no dia anterior.
Esperei na frente da casa dela no carro por duas horas, choveu, e a chuva parou e nada dela aparecer, deixei um bilhete na porta e fui embora muito preocupado, quando estava a caminho de casa, ela me liga no celular e informa que estava no hospital.
Segui para o Hospital, dei meu nome na recepção e pedi para visita-la ao entrar no quarto, Yume está deitada e recosta-se na cama ao me ver, parece que Ela envelheceu cerca de 10 anos em um dia.
– Olá Shun, desculpe-me, eu fui fraca demais depois que você me deixou ontem eu me desesperei novamente e fui até a casa de uma amiga, ela me arrumou um remédio abortivo e eu tomei mais até do que deveria, depois me droguei, tive uma overdose e vim parar aqui. – ela explicou de cabeça baixa, visivelmente abalada.
– E o bebê?- perguntei com um nó na garganta.
– Virou apenas mais uma coisa errada que fiz na minha vida e vou deixar para trás.- ela respondeu com a voz vacilante.
– Não entendo, porque você fez isso, poderíamos ter sido felizes, nos 3 como uma família- eu afirmei com tristeza.
– Uma família, ah vai me falar que você iria ficar comigo, casar, montaríamos uma linda casa com jardim e etc, justo comigo, uma qualquer, nem minha mãe me quis, e você iria querer- ela disse com tom sarcástico.
Coloquei a caixa do anel em suas mãos, ela abriu e ficou visivelmente supresa, sua feição passou de surpresa para desanimada e ela falou.
– Você é bom e perfeito demais para ser verdade, teria sido um ótimo pai, mas eu não nasci para ser mãe, um dia você vai encontrar alguém que te mereça...
De repente ocorreu uma transformação ali, em seu rosto e postura, ela era aquela garota que encontrei novamente na balada, e começou a sorrir.
– Ah Shun, você é muito bobo mesmo, o filho nem mesmo era seu, só te chamei aquele dia por você ser esse cara legal demais – ela afirmou utilizando o seu melhor tom irônico.
Eu peguei sua mão e beijei carinhosamente, olhei em seus olhos e falei:
– Obrigado Yume, por tentar fazer com que eu me sinta melhor, todavia eu sei que o filho era meu, eu senti a energia dele interligada com a minha naquele dia...
Por favor, fique com o anel, e lembre-se que você pode ser melhor, sempre podemos, eu vi pessoas que eram horríveis se sacrificarem pelos outros...
Eu sinto que você é muito mais do que isso que você está tentando representar agora...
Adeus!- terminei meu discurso com um beijo delicado em sua face.
Ela não falou mais nada e eu virei minhas costas e me retirei, quando saí do quarto pude ouvir que ela estava chorando...
Nossa história havia acabado e por pior que tivesse sido o final eu não sentia raiva por ela, apenas compaixão e empatia. Meus erros ali eram tão grandes como os dela, ou até maiores.
Fui procurar o Ikki e com ele voltei a ser o menino chorão que sempre fui, contei toda a história e ele limpou minha lágrima com os dedos e disse:
– Shun, uma coisa que percebi nesse mundo é que a maioria das pessoas representam, ninguém gosta de demonstrar os sentimentos, aquilo que realmente é.
Todos aqui usam mascaras, ocultam-se, é quase que basicamente uma regra de sobrevivência...hoje você está assim, mas deve ser forte o suficiente para enxugar as lágrimas e seguir em frente, senão não poderá dizer nunca se tudo pelo que passou valeu a pena.
Fim dos Flashbacks.
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