Reconciliação
1 Único
Notas iniciais
— Eles estão me dando muito trabalho. Consegue ver?
Vida espiou o campo de batalha abaixo de si com pouco interesse. Morte, sua irmã, lhe lançou um olhar de indignação.
— Está sequer ouvindo o que estou dizendo?
— Sim, estou — Vida suspirou. — Mas o que quer que eu faça? Não sou responsável por suas ações.
Humanos sempre tinha sido um tópico destoante entre as irmãs. A mais velha, Vida, tinha o mau hábito de sempre julgar-se correta pela experiência. Apesar disso, costumava ser a mais ponderada entre as duas. A mais nova, Morte, era mais humilde, porém seu temperamento era instável. Mesmo com as discordâncias, as irmãs caminhavam lado a lado há tanto tempo que já não podiam mais imaginar-se separadas. Aquele dia chegaria, porém nenhuma das duas tinha coragem de perguntar ao Tempo. Se os humanos eram sua discordância, o temor pelo Tempo unia as duas.
— Não. Mas você os influencia — Morte olhou-a de soslaio, cansada.
— E você não? — Vida rebateu. Morte odiava o fato de ela sempre ter uma reposta na ponta da língua. — Não seja hipócrita.
— Aqueles ali estão roubando meu papel porque querem que você continue ao lado deles. Mas você não faz questão nenhuma em tê-los por perto.
Vida ergueu uma sobrancelha, bem ao tempo de mais uma fileira de canhões dispararem. Morte sentiu dores de cabeça, porém fez o esforço de não demonstrar à irmã. Tinha uma reputação a zelar.
— O trabalho sempre fica comigo, no final das contas — foi o único muxoxo ao qual Morte dignou-se a expressar.
— Ah, criança... Não sabe como é difícil não ter uma causa. Eu a invejo em meio a tudo isso.
Morte abrandou sua agressividade, olhando para a irmã com curiosidade.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que todos a enxergam como vilã. Para alguns deles, entretanto, você é uma dádiva.
— Não compreendo. Pode me explicar? — Morte indagou com timidez.
Vida sentou-se ao pé da colina, convidando a irmã a fazer o mesmo. Morte acompanhou-a evitando olhar para o desastre abaixo de si. Apesar de amar cores, a combinação de vermelho, preto e branco deixavam-na nauseada nos últimos tempos. Bem como roxo. E amarelo. E marrom. E azul. Pensando bem, a única cor que Morte não sentia náuseas ultimamente era cinza. O céu cinzento lhe era reconfortante, mais do que um colorido ao nascer e por do sol.
— Há algo que os faça esquecer o que viram nos campos de batalha?
— Não — Morte piscou confusa.
— Sim. Há algo. Você. Só se apaga o resto de morte com mais morte.
— Oh.
O Tempo parecia estar de ouvidos atentos à conversa das duas. Morte quase se rendia a olhar para trás e encarar o pai de frente, porém estava disposta a ouvir a irmã mais velha enquanto ela tivesse algo a dizer.
— Tenho tanto medo deles quanto do Tempo. Os sobreviventes. Eles se agarram a mim implorando para que eu lhes leve até você. Mas não posso fazer isso, sou imparcial — Vida suspirou. — Como é para você esperar até que cheguem no tempo devido?
— Um exercício de paciência.
— Dizem que o Tempo cura tudo. Acho uma baboseira sem tamanho.
Ambas as irmãs riram com amargura, compartilhando um momento de silêncio precioso. Foi Morte quem o quebrou depois que o dia começou a nascer, cessando o barulho de rifles e canhões.
— Humanos são curiosos, não acha? Brincando de guerrear quando ficam entediados...
— Eles são terríveis, isso sim. Querem jogar a culpa toda em nós de suas escolhas. São eles os verdadeiros vilões, não você ou eu.
— Está sugerindo que somos as heroínas? — Morte ergueu uma sobrancelha, intrigada pela escolha de palavras.
— E por que não? Alguns deles mereciam a mim como penitência. O líder deles, por exemplo. Você seria gentil demais em levá-los cedo demais. Mas eu e você sabemos que não somos nós que determinamos quem vai e quem fica.
Novamente, Morte revirou os olhos ao pensar no terceiro indivíduo que nunca abria a boca para opinar ou defender-se. Porém, ainda assim a mais nova optou por aconchegar-se no braço da irmã. Aquela época havia estranhamente aproximado ambas. Quando ela acabasse, aí sim suas delimitações de heroísmo e vilania voltariam a serem os que conhecemos hoje. A Morte voltaria a ser a vilã e a Vida a heroína. Naquele dia, entretanto, as duas entraram num consenso de serem meras espectadoras de uma guerra que não as pertencia.
— Eu preciso ir trabalhar — Morte levantou-se, alongando o corpo. — Vem comigo ou vai ficar olhando?
— Preciso ir junto. Alguns deles me confundem na hora de levá-los de volta para casa. Confio mais em você do que em mim mesma para isso. Você é mais responsável.
Morte alegrou-se com o elogio, oferecendo o braço para caminharem juntas.
— Eu não queria me gabar, mas é meu trabalho.
— É... Eu sei — Vida suspirou ao aceitar o braço que lhe era oferecido. — Poderiam facilitar para o nosso lado.
— Se eu me aposentar, será você a ficar sobrecarregada com o trabalho.
Vida abriu um sorriso amarelo.
— E se eu me aposentar, nós duas deixamos de existir.
— Inteligente.
— Eu não queria me gabar, mas é meu trabalho — Vida replicou, sentindo-se bem mais velha que o de costume.
Então, ela e a Morte desceram a colina, fugindo do Tempo. Mal sabiam elas que o Tempo estava lhe dando vantagem para brincarem enquanto pudessem. O Tempo era um amigo... Contanto que soubessem o valorizar. Talvez ele fosse o vilão, afinal.
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