Recomeços
1 Capítulo Único
Notas iniciais
~x~
A morte é o curso natural da vida. É o caminho que involuntariamente todos nós trilhamos, e é o que nos espera ao fim de nossa última jornada. Uma que nunca sabemos quando vamos trilhar. Pode ser hoje, amanhã, daqui a dez anos. Mas a única certeza que tenho — ou que qualquer pessoa pode ter — é que vai acontecer. Morrer é tão inevitável quanto se estar vivo. E a morte, bem como a vida, é imprevisível.
Tão certa quanto nossa própria morte é a certeza de que, um dia, também perderemos alguém que amamos. Alguém que admiramos. Alguém que fazia uma parte significativa de nossas vidas e que vai deixar uma marca. Um vazio que talvez jamais será preenchido, porque algumas pessoas são assim. Especiais. Únicas. Inesquecíveis.
Se eu pudesse dizer alguma coisa sobre Allison Argent, eu diria que ela é uma dessas pessoas. Ela deixou uma marca em todos nós. Uma marca que nem a morte, nem o tempo, e nem ninguém jamais poderá apagar. Não me esquecerei dela. E não me esquecerei dessa dor. A dor de perder uma amiga. E a dor de ver meu melhor amigo sofrer, porque o seu primeiro amor morreu em seus braços.
Eu gostaria de poder ajudá-lo. Gostaria de dizer que isso não é irreversível — por que quantas pessoas morreram e retornaram à vida nessa droga de cidade? —, mas eu sei que minhas palavras seriam vazias. Quase tão vazias quanto seus significados. Eu li em algum lugar que a dor deve ser sentida. Eu acredito que seja verdade. A dor deixa uma marca, também. E às vezes é a única maneira de nos ensinar duras verdades. Verdades que ninguém gostaria de aprender. Verdades que a vida vai ensinar, de qualquer maneira. Então, sim, eu gostaria de poder ajudá-lo. E eu vou. Do jeito que posso. Sendo eu mesmo, Stiles Stilinski, e esperando que, quando a dor diminuir, ele continue sendo ele mesmo, Scott MacCall. Talvez com algumas mudanças. Talvez com algumas atitudes diferentes. Mas, essencialmente, ele mesmo. Corajoso, altruísta, e de bom coração.
~x~
Stiles fechou o caderno e jogou a caneta em cima da mesa, soltando um pequeno suspiro. Dentro de alguns minutos ele se reuniria com o resto do grupo no cemitério, para eles se despedirem de Allison à sua maneira. Mas, até lá, tudo o que ele queria era um pouco de paz e tranquilidade. Em Beacon Hills, essas são coisas que não duram muito, e ele queria aproveitar enquanto podia.
A verdade é que a morte de Allison não era a única coisa lhe incomodando. Ele sentia esse vazio no peito, como se parte dele estivesse faltando. Como se o nogitsune tivesse arrancado uma parte do espírito do velho Stiles, deixando pequenos pedaços em seu lugar. Pedaços que o novo Stiles não tinha ideia de como reconstruir.
Stiles passou a mão pelos cabelos — estava começando a se perguntar se deveria deixá-los curtos novamente — e se levantou, virando-se em direção ao guarda-roupa para procurar alguma roupa decente para usar quando fosse ao cemitério. Ele ergueu os olhos e deu um pulo para trás, sentindo o coração bater mais rápido no peito.
Derek Hale lhe saudou com um sorriso de canto e sobrancelhas arqueadas.
"Derek", ele sussurrou, a mão esquerda apertando o peito. "O que você está fazendo aqui?"
Stiles não o vira desde... Bem, desde a última vez que o vira. E ele não estava certo quando isso tinha sido. Os últimos dias tinham passado rápido demais, e as memórias eram como uma espécie de borrão. Às vezes, ele se pegava fazendo coisas sem sentido, sua mente confusa ainda não recuperada completamente de todo o trauma envolvendo o nogitsune.
"Vim ver como você está", Derek disse, arrancando Stiles de seus pensamentos. "Então, como você está?"
"Huh... Bem, eu acho. Considerando as circunstâncias", ele deu de ombros, "e você?"
"Eu? Bem. Tudo ótimo"
"Ah, que bom"
"É"
"E então, o que você realmente veio fazer aqui?", indagou Stiles, imitando o arquear de sobrancelha de Derek e caminhando até sua cama, sentando-se na ponta e indicando com a cabeça que Derek podia se sentar, também, se quisesse. "Veio conferir pra ver se eu sou eu mesmo?"
Derek se mexeu, inquieto, observando a cama sem saber se deveria ou não se sentar. Decidiu, por fim, ficar em pé. Apoiou-se com o ombro no guarda-roupa de Stiles e cruzou os braços sobre o peito, lançando um olhar intenso na direção do adolescente.
"Eu ia dizer que sinto muito, mas não sinto. Sim, eu vim verificar. Só para ter certeza de que está tudo certo. Como deveria ser"
"Isso não tá, não", murmurou o adolescente. "Mas legal da sua parte se preocupar comigo e com minha sanidade mental. Você sabe. Vir checar se eu ainda estava possuído porque se estivesse, você simplesmente não conseguiria viver com isso, e tal. Pois é. Sei que sou especial para você. Quase tanto quanto cocô de nogitsune. Se eles fizessem algum, quero dizer. Não que eu saiba se eles fazem ou não. Como é que eu vou saber? Mas, enfim, você entendeu. Muito especial, e tudo"
"Eu me importo com você", Derek deixou escapar, e depois corou. Stiles encarou o rosto do homem, sem ter certeza se ele estava falando sério ou não, e depois deu de ombros.
"Obrigado?, eu acho. Sei lá. É tudo tão confuso"
"Olha", disse Derek, desistindo de ficar em pé, e se sentando ao lado de Stiles na cama. Ele deu tapinhas desajeitados nas costas do garoto, e tentou abrir um pequeno sorriso sincero, que saiu mais como uma careta. "Eu sinto muito sobre Allison. Sei que nunca fui um grande fã dos Argent, principalmente depois daquela desgraçada da Kate ter colocado fogo na minha casa e matado boa parte da minha família, mas..." ele suspiro, uma expressão triste aparecendo em seu rosto, "ela era só uma garota. Corajosa. Forte. Determinada. E não acho que ela ia querer ver vocês chorando pelos cantos por causa da morte dela"
"Eu não estou chorando pelos cantos!", protestou Stiles, irritado.
"Na verdade, eu estava me referindo ao Scott", retrucou Derek, soltando uma pequena risada. "Você é um caso a parte, Stiles. Você é diferente"
"Diferente como?"
"Eu não sei. Só... só diferente"
"Diferente do tipo 'esse-cara-é-um-retardado-e-eu-quero-que-ele-morra ou diferente do tipo engraçadinho-mas-que-não-faz-meu-tipo-porque-eu-sou-muito-macho-para-admitir-que-me-importo-com-alguém'?"
"O que?", perguntou Derek, alarmado. "De que diabos você está falando?"
"Por que você está aqui?", pressionou Stiles.
"Eu já disse, Stiles"
"Não, Derek. Realmente. Será que você pode apenas... Sei lá, deixar de ser esse cara fechado por um segundo e... Não sei, apenas responder a pergunta? Eu sei que você não veio verificar se eu ainda era o nogitsune. Então por quê?"
"Você é importante para mim"
"Eu sou importante para o meu pai, e nem por isso ele entra de fininho no meu quarto quando está entediado. Por que, Derek?"
"O que você quer que eu diga?"
"A verdade"
Derek não disse nada. Apenas encarou as próprias mãos, como se fossem a coisa mais interessante do mundo, e ficou resmungando para si mesmo. Stiles revirou os olhos e bufou, impaciente.
"Você não quer dizer. Certo. Tudo bem. Direito seu. Só vai embora, ok? Eu não tenho tempo ou paciência para joguinhos. Na verdade, estou cansado de jogos para, tipo, uma vida inteira. Tudo o que eu quero é ir encontrar meus amigos no cemitério, colocar flores no túmulo da Allison, e encontrar uma forma de seguir em frente depois de tudo isso. Eu só quero recomeçar. Então se não vai ajudar, não atrapalha"
Stiles se levantou, pronto para pegar seu equipamento de lacrosse, caso fosse necessário, para expulsar Derek de seu quarto, quando sentiu uma mão puxando-o para baixo. Ele caiu sentado na cama, e franziu o cenho para Derek.
"O que é agora, Hale?"
"Você quer saber porque eu vim"
"É. Foi o que eu disse nas primeiras quinhentas vezes", Stiles revirou os olhos. "Mas se..."
"Stiles, fica calado", resmungou Derek. Stiles parou de falar e lançou um olhar entre exasperação e irritação na direção de Derek. "Eu sou bom em recomeços"
"O que?", indagou Stiles, confuso.
"Eu disse que eu sou bom em recomeços. Então se você realmente estiver procurando por um..." Derek ergueu a cabeça, seu olhar encontrando o de Stiles. Ele sorriu, tímido, e segurou a mão de Stiles, apertando-a de leve. "Eu sou bom em recomeçar"
Dizem que para o bom entendedor, meia palavra basta.
Stiles era um bom entendedor.
Ou ao menos ele esperava que fosse, porque se tivesse entendido errado, inclinar-se na direção de Derek e acabar com a distância que os separava com um beijo, seria, provavelmente, um erro (que possivelmente resultaria em um soco na cara, ou em uma mordida de lobisomem).
Mas, se fosse mesmo um erro, Derek também estava disposto a cometê-lo. Não houve socos na cara ou mordidas. Mas não era por isso que, pela primeira vez desde a morte de Allison, ele estava feliz.
Ele estava feliz porque aquele era o seu recomeço.
E era o melhor de todos.
~x~
Hoje faz três meses desde que a Allison se foi.
Todos nós seguimos em frente. E ela não foi esquecida. Nem nunca será.
Eu realmente gostaria de dizer que as coisas mudaram em Beacon Hills desde que tudo aconteceu. Gostaria de dizer que não há mais perigos, que não estamos todos correndo risco de morte, que não há lobisomens e outras criaturas rondando por aí machucando pessoas — mas, se eu dissesse isso, estaria mentindo.
A verdade — por mais maluca e improvável que possa parecer — é que as coisas continuam as mesmas. Claro que há algumas mudanças, mas não tão grandes quanto eu pensei que seriam. Acho que, no final das contas, todos nós tivemos um recomeço.
Scott e Kira começaram a namorar sério agora. Sei que ele ainda sente falta de Allison. Sei que, às vezes, ele ainda olha para o nada com aquela cara de tacho, e sei também que é nesses momentos em que ele pensa nela. Lydia também seguiu em frente. Pela primeira vez em toda sua vida, provavelmente, ela está dando uma pausa em namoros, e tirando um tempo para si mesma. O que eu acho bem legal.
Isaac ainda não voltou de viagem, embora Chris Argent esteja na cidade. Honestamente, eu não sei como ele consegue. Perder a esposa, a filha, e agora ter que lidar com Kate-barra-criatura-assustadora. Deve ser enlouquecedor. Mas ele não está sozinho. Por mais improvável que possa parecer, ele e Derek meio que firmaram uma espécie de amizade. Ela tem seus limites, claro, mas, ainda assim...
E Derek... Ele me deu um recomeço. Não sei bem onde estamos, ou o que somos, mas sei que gosto de sua companhia. Gosto de tê-lo ao meu lado. Não tenho ideia de quando comecei a me sentir diferente por ele. De quando a admiração se transformou em algo a mais — e nem sei quando ele começou a se sentir diferente por mim. Nunca conversamos sobre isso. Sei que, eventualmente, é uma conversa que precisaremos ter. Mas, por enquanto, estamos levando aos poucos.
Talvez as coisas tenham mudado, afinal.
Mas nós continuamos essencialmente os mesmos.
E, no fim das contas, não é isso o que realmente importa?
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