Recomeço
1 Capítulo 1
Ayumu entrou no apartamento escuro e logo procurou pelo interruptor. As lâmpadas iluminaram uma sala bagunçada: alguns móveis ocupavam grande parte do espaço, espalhados de qualquer jeito, um sofá e uma poltrona estavam encostados em uma parede, cobertos por plásticos meio empoeirados e, no meio da sala, empilhavam-se algumas caixas, lacradas.
Ele trancou a porta atrás de si e olhou em volta, desanimado. Essa era a pior parte das mudanças: desempacotar, limpar e organizar. E ainda por cima teria que fazer tudo sozinho. Caminhou pelo apartamento, inspecionando. Todos os móveis haviam chegado, apesar de nem todos estarem intactos – teria que fazer algumas reclamações na empresa de mudança. As caixas também estavam todas lá. Agora era só começar.
Checou seu relógio: já passava das 11h da noite. Não adiantaria ele começar naquele momento. Ao invés, arrastou a poltrona para perto da janela, retirou o plástico e jogou-se nela, tirando o terno e afrouxando a gravata. A vista do 12º andar era agradável; ainda mais porque a cidade não possuía toda aquela louca e exagerada iluminação de Tóquio. A maior parte da iluminação vinha da lua e das estrelas.
Ayumu permitiu-se sorrir levemente; era tão reconfortante poder olhar as estrelas. Há muito ele não tinha a chance de ver um céu tão estrelado. Pela enésima vez naquele dia, perguntou-se se estava realmente fazendo a coisa certa. Acostumara-se, apesar de tudo, à agitação de Tóquio, aos recursos e benefícios que só uma metrópole podia oferecer.
E, pela enésima vez, lembrou-se da verdadeira razão por que se mudara da capital. Não fora porque se cansara de Tóquio, fora porque queria recomeçar sua vida.
Seis meses antes, seu irmão mais velho, Kiyotaka, um dos melhores detetives do país, desaparecera sem deixar nenhuma pista além de um misterioso telefonema, dizendo que iria atrás das Blade Children. O que isso significava, Ayumu não fazia idéia. O que ele sabia é que Madoka, sua esposa, ficara devastada; Ayumu fora morar com ela principalmente para garantir que ela não vivesse em depressão.
No entanto, dois meses depois, Madoka o abandonou também. A única coisa que deixara para ele fora uma breve carta, explicando que encontrara uma pista sobre o paradeiro de Kiyotaka e iria perseguir essa pista. E como ela sabia que Ayumu iria querer juntar-se a ela, não deu chance para que isso acontecesse. Assim como Kiyotaka, desapareceu da noite para o dia, sem deixar pistas.
Naquele mesmo dia, Ayumu decidiu que já não havia mais nada para ele em Tóquio. Terminou o último ano colegial e resolveu que faria faculdade em outra cidade. Qualquer cidade longe de Tóquio, longe das lembranças vazias, a única coisa que sobrara para ele.
E assim, um dia depois da formatura, lá estava ele, cercado de caixas, a mais de 500km de Tóquio, numa cidade com pouco mais de 150 mil habitantes, buscando uma nova vida.
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