Recomeço
7 Capítulo 7 - A proposta
Notas iniciais
Sentada na cama de Dean, Natalie esperava que ele ou Sam dissessem alguma coisa. Assim como Mia, a loira também não gostava muito de longos e constrangedores momentos de silêncio. E ficou aliviada quando Dean indagou visivelmente surpreso:
– Uma proposta? — mas em seguida, ele dispensou — Eu passo.
Sam encarou o irmão e perguntou:
– Dean, você não vai nem ouvir o que ela tem a dizer?
– É, Dean, você não vai nem me ouvir? — estranhou Natalie.
– Deixa eu pensar... — pediu ele levantando da cama e antes de se afastar, respondeu — Não.
Natalie observou Dean indo até o banheiro. Ele deixou a porta aberta de forma que ela pôde vê-lo lavando o rosto. Sam a olhava um tanto sem graça sem saber o que fazer e também sem entender por que o irmão se recusava a ouvir o que a garota tinha a dizer.
De repente ela se levantou, andou até o banheiro e se apoiou na porta, ficando entre os irmãos, e então anunciou:
– Mas eu vou dizer mesmo assim.
Dean revirou os olhos enquanto secava o rosto, depois pendurou a toalha e assentiu por fim:
– Ok, eu estou ouvindo.
Natalie tentou encontrar as melhores palavras e então começou a explicar:
– Claire Davis é uma grande amiga minha. Nós nos conhecemos há alguns meses e é ela que quer, ou melhor, que precisa encontrar Ezekiel. Ela não é caçadora, mas, de certa forma, ela sabe que toda essa droga sobrenatural existe e tenta lidar com isso da melhor forma possível. Claire é uma boa pessoa. E vocês precisam acreditar em mim quando eu digo que ela tem boas intenções. Além disso, eu passei o resto da madrugada pensando e percebi que os nossos interesses são bem parecidos. Eu e a Claire estamos atrás de um anjo caído, vocês estão atrás de todos eles. Ou seja, têm anjos para todo mundo, nós não precisamos brigar por causa disso.
Sam olhou um pouco intrigado para a garota e sentou na cama antes de perguntar:
– O que exatamente você está propondo?
– Que vocês não precisam me dizer onde Ezekiel foi deixado pelo caminhoneiro que deu a carona para ele aquela noite. Basta vocês me levarem junto quando forem atrás do anjo. — respondeu Natalie.
Dean franziu a testa e indagou:
– Deixa eu ver se eu entendi, em outras palavras, você está nos pedindo ajuda?
Natalie ficou um tanto incomodada com aquela pergunta, embora soubesse que era exatamente aquilo que ela estava fazendo. Sim, ela estava pedindo ajuda para eles, mas era difícil admitir isso com Dean a encarando com um irritante ar superior. Ela relutou um pouco, mas por fim, assumiu:
– Sim, eu estou. Não pense que eu estou feliz com isso, Sr. Convencido, mas digamos que eu percebi que é o único jeito de conseguir o que eu quero e o que Claire precisa. Então, por favor, me ajudem.
Dean pensou um pouco enquanto observava Natalie. Enquanto isso, Sam lembrou da conversa de algumas horas atrás e perguntou:
– Você tinha dito que não podia revelar quem era a pessoa por trás disso. O que te fez mudar de ideia?
– Eu percebi que é mais fácil a Claire me perdoar por ter revelado esse detalhe do que por perder a pista sobre o anjo. E se eu não contasse o que vocês queriam saber, era exatamente isso que iria acontecer. Vocês iriam embora e eu voltaria à estaca zero. — explicou Natalie.
– Faz sentido. — admitiu Dean e em seguida começou a escovar os dentes.
– E por que ela precisa tanto encontrar Ezekiel? — quis saber Sam.
Dean terminou de escovar os dentes e voltou para o quarto. Começou a tirar algumas roupas de uma bolsa enquanto esperava que a loira respondesse a pergunta de Sam. Mas como ela não respondeu, Dean salientou:
– Meu irmão fez uma pergunta. O que vocês querem com esse anjo? Ajuda espiritual?
Natalie revirou os olhos incomodada com a brincadeira e respondeu de forma evasiva:
– É uma longa história. E eu não posso contar porque é algo muito particular da Claire.
– E é por uma boa causa. — deduziu Dean com certa desconfiança.
– Exato. — afirmou Natalie.
Sam e Dean se entreolharam. Por um lado queriam confiar em Natalie, mas por outro, era algo difícil, exatamente por não saberem por que era tão importante para Claire encontrar Ezekiel e por que Natalie fazia questão de manter aquilo em segredo. Foi então que Dean teve uma ideia e se comprometeu:
– Tudo bem. Nós vamos ajudar você e a sua amiga a encontrarem Ezekiel.
Natalie ficou visivelmente surpresa e sorriu aliviada por ter conseguido a ajuda que precisava. No fim, Dean não era tão irredutível e chato como ela havia imaginado. Pensando nisso, ela sorriu para ele mais uma vez e em seguida olhou para Sam, que também parecia surpreso pelo irmão ter concordado tão rápido em ajudar Natalie e a outra garota que eles só sabiam o nome.
– Nós vamos, é? — quis confirmar o mais novo.
– Mas com uma condição. — esclareceu Dean fazendo Natalie desmanchar o sorriso imediatamente.
– Qual? — quis saber a garota um pouco decepcionada.
– Claire vai ter que vir com a gente. — propôs ele.
– O quê? — perguntaram Sam e Natalie ao mesmo tempo e surpresos com a condição de Dean.
Então o Winchester mais velho olhou para os dois e confirmou:
– Isso mesmo que vocês ouviram. — e após uma breve pausa, explicou olhando para a loira — Sem ofensa, mas quem garante que essa Claire existe de verdade? Você pode muito bem ter inventado esse nome só para nos convencer a te ajudar a encontrar aquele anjo. Além disso, supondo que Claire seja mesmo real, e que a gente encontre o tal anjo, ela vai querer estar lá para vê-lo pessoalmente, não? Ou você acha que nós vamos encontrar Ezekiel e ele simplesmente vai concordar em ir até a casa da sua amiga tomar um chá?
Sam refletiu um pouco e concordou:
– Dean está certo. Embora eu não goste da ideia de envolver a sua amiga nisso, ela já está automaticamente envolvida. E se ela quer mesmo encontrar Ezekiel, então vai precisar vir com a gente.
– Claire não é do tipo de pessoa que se envolve com caçadores. — relutou Natalie — Na verdade, ela meio que... Odeia caçadores.
Dean franziu a testa confuso e indagou:
– Mas, de certa forma, você trabalha pra ela, não é? E bem ou mal, você é uma caçadora, certo? E se eu entendi direito, vocês têm uma certa amizade. Então como...?
– É complicado... — respondeu Natalie enquanto andava de um lado pro outro no quarto — Ela não quer envolver mais pessoas nisso e não gosta de trabalhar em equipe, principalmente com caçadores.
Sam suspirou e disse com ironia:
– Nossa! Ela deve ser uma pessoa adorável.
Natalie percebeu que Sam ficou incomodado com as coisas que ela havia dito e sentiu vontade de explicar por que Claire tinha uma certa antipatia por caçadores, mas desistiu em seguida porque isso a obrigaria a lembrar detalhes que ela mesma queria muito esquecer. Detalhes dolorosos que a colocaram naquela situação, que a fizeram querer ajudar Claire a todo custo. Então, ela afastou essas lembranças rapidamente e começou a pensar sobre a condição de Dean para ajudá-las a encontrar o anjo caído. E se convenceu de que era mesmo o único jeito. Neste momento, e sem o menor pudor, Dean tirou a camisa do pijama deixando o peito nu à mostra e perguntou naturalmente:
– E então, loirinha, como vai ser? É pegar ou largar?
Natalie olhou para aquela cena e sentiu seu rosto arder imediatamente. Mas não pode deixar de reparar no corpo do caçador há poucos metros dela. E não podia negar que ficou um pouco impressionada. Apesar de tudo, até que ele era bem bonito.
Dean a olhou confuso e só então se deu conta do que havia insinuado sem querer. Sam observou o constrangimento dos dois e Natalie virou de costas rapidamente.
– Você sempre tira a roupa na frente das visitas? — resmungou ela tentando soar natural.
Dean pegou uma camisa e começou a se vestir enquanto dizia:
– Eu não sei... Você sempre invade o quarto de homens solteiros?
Sam observou os dois novamente e deu um leve sorriso como se tivesse percebido algo diferente entre os dois. Em seguida tranquilizou Natalie dizendo:
– Pronto. Pode se virar. Ele já está... Decente.
A garota se virou devagar e olhou para Dean ainda constrangida. Então, com um ar de brincadeira ele fingiu que ia tirar a calça e a garota se virou novamente acreditando que ele ia mesmo ficar semi nu mais uma vez. Dean riu e Sam repreendeu:
– Isso não tem graça. Natalie, ele estava brincando. Pode se virar.
A loira respirou fundo visivelmente irritada e voltou-se para ele e Sam de novo. Então, ainda sorrindo, Dean esclareceu:
– Não tenha ilusões, loirinha, você não faz o meu tipo.
Natalie sorriu com desdém e devolveu a provocação:
– A recíproca é verdadeira.
Dean parou de sorrir e observou Natalie por alguns instantes. E novamente teve a sensação de já conhecer aquela garota de algum lugar. Mas se convenceu de que se conhecesse alguém tão chata e inconveniente como Natalie, se lembraria. Enquanto isso, Sam observou os dois se encarando e pigarreou antes de perguntar:
– Natalie, o que você nos diz? Sobre Claire vir com a gente.
– Eu concordo. — respondeu ela depois de pensar mais um pouco e perceber que aquela era a única forma de encontrar Ezekiel.
– Ótimo! Então onde ela mora? Qual o endereço? — prosseguiu Dean.
– Eu levo vocês lá. Ou ligo e ela nos encontra no caminho. — sugeriu Natalie.
– Nem pensar. O Sam vai buscar a Claire pessoalmente. — afirmou Dean.
– O quê?! — surpreendeu-se Sam sem concordar com aquilo — Eu vou?
– Desculpa, Sammy, mas nós precisamos saber se essa garota existe mesmo ou se a loira aí está tentando nos enganar de alguma forma. Então você vai até lá, tira a história a limpo e se a Claire for real e confirmar toda a história da Natalie, você a traz até a gente e nós vamos juntos procurar o anjo caído. — explicou o mais velho.
– Tudo bem. — concordou Natalie — Então eu levo o seu irmão até ela.
– Bela tentativa, loira, mas você é minha garantia e, portanto, não vai a lugar algum. — disse Dean.
– Garantia de quê? Do que você está falando? — perguntou ela confusa.
– Você é a garantia de que o meu irmão não está indo até uma armadilha. — respondeu Dean e em seguida, explicou — Se ele encontrar a tal Claire e confirmar a versão que você nos deu da história será a prova de que você está nos falando a verdade. Parabéns! Agora, se ele não achar essa garota, ou se ela não souber absolutamente nada sobre anjos caídos, ou se ele encontrar uma pessoa totalmente diferente ou se...
– Ok! Entendi. Eu sou a garantia. — interrompeu Natalie — Mas, pelo menos, me deixe ligar para ela. Claire detesta visita surpresa, ainda mais de desconhecidos. Ainda mais de um caçador...
– Por falar nisso, me dê o seu celular. — ordenou Dean de repente.
Natalie o olhou confusa e em seguida olhou para Sam. Não entendia por que Dean era tão desconfiado. A verdade é que por mais que quisesse acreditar naquela história, ele não podia arriscar. Ele já havia confiado demais nas pessoas e se decepcionado muito com elas. Desta forma, Dean tinha receio de que Natalie iria avisar Claire para que mentisse ou que iria contatar outra pessoa. Relutante, Natalie tirou o celular do bolso e entregou para ele. Ela sabia que estava falando a verdade, mas se essa era a única forma para Dean acreditar, então que fosse.
– Até o Sammy encontrar a Claire e confirmar a história do anjo, você não vai falar com ninguém. Muito menos avisar alguém que ele está a caminho.
– Nossa, Dean... A sua confiança nas pessoas é mesmo invejável. — ironizou Natalie.
Neste momento, Sam sacudiu um pouco a cabeça, levantou da cama e disse enquanto se aproximava do irmão:
– Você está esquecendo de um detalhe: eu. Eu não quero ir atrás de garota nenhuma, Dean.
– Qual é, Sammy? Se a Natalie estiver dizendo a verdade, então é só uma garota, não um demônio. — tranquilizou o mais velho.
– Uma garota que odeia caçadores. — lembrou Sam e em seguida, acrescentou — Acho que eu prefiro encontrar demônios.
– Mas se você encontrar demônios, será uma armadilha e, portanto, a prova de que a Natalie está mentindo. Então, reze para encontrar uma garota mesmo. — refletiu Dean sem levar o irmão muito a sério.
– Ei! Eu ainda estou aqui. — lembrou a loira fazendo os dois a olharem — E não, eu não estou mentindo. Vocês querem ouvir a história diretamente da Claire? Muito bem. Vão em frente. Eu digo onde ela mora. — e olhando para Dean, alertou — Mas eu já vou avisando que é provável que ela odeie o seu irmão de cara e que tente... Se defender dele de alguma forma.
Dean ficou um pouco intrigado ao ouvir isso. Se Claire era mesmo de verdade, ela não devia ser do tipo muito amigável. De qualquer forma, ele precisava confirmar aquela história, descobrir se ela era real e se eles podiam confiar nela e em Natalie.
– Dean, eu não vou... — relutou Sam.
– Não se preocupe, Sammy. Ela vai gostar de você. Mexa no cabelo! Seja simpático! — aconselhou ele batendo no ombro do irmão e se afastando.
– É, se ela te dar alguma chance de falar... — completou Natalie prevendo qual seria a reação da amiga.
Então Dean abriu a porta, olhou para Natalie e orientou:
– Arrume as suas coisas. Nós vamos sair em no máximo uma hora.
– E eu posso saber pelo menos para onde nós vamos? — indagou ela dando alguns passos a frente.
– Tennessee. O Sammy leu algo no jornal que merece ser investigado. Depois que resolvermos o caso, nós vamos encontrá-lo com sua amiga. Isso se Claire existir mesmo. — respondeu Dean.
Sam olhou para os dois um pouco intrigado e perguntou:
– O quê...? Vocês vão caçar juntos agora?
– Não, isso seria impossível. Na verdade, ela vai assistir como um bom caçador faz o trabalho. — provocou Dean com um ar superior e em seguida, completou — Talvez ela até aprenda alguma coisa, além do que ela já sabe, claro. Espionar as pessoas, ouvir conversas atrás da porta, entrar onde não é convidada...
Natalie o olhou com desdém e sem querer discutir com ele, encerrou antes de sair de lá:
– Eu vou arrumar as minhas coisas, Sr. Convencido.
Então Natalie deixou o lugar e logo entrou no seu próprio quarto. Caminhou rapidamente até o telefone fixo em cima do criado mudo, mas antes de pegar o aparelho, ouviu passos e se virou. Neste momento, Dean abriu a porta e entrou tranquilamente.
– Que cabeça a minha... Quase que eu esqueci... — disse ele desconectando o telefone e pegando o aparelho.
Em seguida, ele viu o notebook em cima da cama e também o confiscou. Natalie o observou se afastar visivelmente irritada com aquele excesso de desconfiança. Antes de sair e fechar a porta, Dean sorriu e lembrou:
– Uma hora, loirinha.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Mia começou a acordar. Abriu um pouco os olhos e a primeira coisa que viu foi um raio de sol iluminando o anel que usava no anelar direito. Era o anel mágico que a impedia de entrar em combustão queimar e, consequentemente, morrer, caso ficasse exposta ao sol acidentalmente ou não. Sim, porque era isso que acontecia com todos os vampiros que não tinham um anel como aquele. Um anel com um feitiço feito por uma bruxa para impedir que algo trágico assim acontecesse. E desta forma, a primeira coisa que Mia lembrou quando abriu os olhos foi que ainda era uma vampira. E provavelmente seria vampira pelo resto da eternidade. Para sempre. E por mais que disfarçasse bem e afirmasse que estava tudo sob controle, estava ficando cada vez mais difícil ser daquele jeito. Ser uma vampira tinha as suas vantagens, mas, de uma forma geral, era um tragédia.
Mia resolveu afastar esses pensamentos antes que ficasse deprimida demais. Vampira já era difícil, mas vampira deprimida seria insuportável.
Além disso, ela sabia muito bem que não existia nada capaz de reverter a sua situação. Então, a única coisa que podia fazer era seguir em frente e conviver com aquilo. Para sempre.
Pensando assim, se acomodou melhor no peito de Castiel e fechou os olhos sentindo a suavidade da pele dele sob a fina camiseta de algodão que ele usava. Mais do que a suavidade, Mia podia sentir o calor do corpo dele embaixo do seu. Respirou fundo sentindo o cheiro bom que emanava de Castiel e o abraçou mais forte. Ainda dormindo, ele passou o braço em volta de Mia. E ela sentiu um leve arrepio diante do contato da pele dele sobre a sua. Era uma sensação ótima e prazerosa. O corpo quente de Castiel... O corpo humano de Castiel... O corpo repleto de sangue de Castiel... De sangue... De um sangue delicioso...
Mia abriu os olhos de repente e percebeu que involuntariamente havia aproximado a sua cabeça do pescoço de Castiel. Seus lábios estavam a milímetros da pele dele. E por um instante Mia observou atentamente o relevo das veias que existiam naquela região do pescoço. E pôde sentir, quase visualizar o sangue que jorrava por ali enquanto ouvia o coração de Castiel batendo.
Mia sentiu que seus olhos estavam ardendo e seus dentes haviam ficado doloridos como se implorassem para que ela perfurasse aquela carne macia, aquele corpo... E saciasse a fome...
Com muito esforço, Mia controlou aquele instinto assassino que existia dentro dela. E apesar de ter conseguido, sentiu-se péssima, como se realmente tivesse atacado Castiel.
Revirou os olhos e cuidadosamente afastou o braço de Castiel de cima da sua barriga. Então começou a se afastar devagar tomando cuidado para não acordá-lo e sentou na cama. Passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo antes de levantar e ir até o banheiro. Se apoiou na pia e se olhou no espelho.
– Droga, anjo... Por que você tem que ser tão delicioso? — resmungou ela.
Em seguida, Mia abriu a torneira e jogou um pouco de água fria no rosto. Ainda sentia seus olhos queimando e só parou de lavar o rosto quando aquela sensação passou. Depois, ela escovou os dentes e em seguida tirou a roupa com certa raiva de si mesma. Ligou o chuveiro, entrou e fechou a cortina do box. Então deixou que a água morna percorresse todo o seu corpo e fechou os olhos tentando relaxar um pouco. Finalmente conseguiu parar de pensar em sangue e sentiu-se melhor.
Mas de repente, um barulho chamou a sua atenção e ela abriu os olhos assustada. Não demorou muito para deduzir que o barulho foi causado pela porta do banheiro sendo aberta e depois fechada por alguém. E não foi difícil deduzir quem era esse alguém. Hesitante, Mia abriu um pouco a cortina e viu Castiel próximo da pia. Imediatamente ela fechou a cortina e voltou para debaixo do chuveiro. Mas esperou alguns instantes até conseguir formular uma pergunta simples.
– Cas, o que você está fazendo aqui?
Ele olhou para o box e viu a sombra de Mia atrás da cortina bege. Sorriu e se olhou no espelho antes de pegar a escova de dentes e o creme dental. Mia revirou os olhos e disse um tanto sem graça:
– Tem gente.
Depois que terminou de escovar os dentes, ele simplesmente respondeu:
– Eu sei.
Mia suspirou e esclareceu:
– Cas, caso você não saiba, quando uma pessoa está no banheiro, a outra pessoa espera lá fora. Um por vez, entendeu?
– Caso você não saiba, você demora demais no banho, Mia. Além disso, o banheiro é relativamente grande. Acho que cabe nós dois. — argumentou ele enquanto tirava a camisa.
Mia olhou novamente pela fresta da cortina e viu Castiel tirando a calça do pijama. Voltou imediatamente para debaixo do chuveiro e perguntou ainda mais surpresa:
– Cas, o que diabos você está fazendo?
– Você é inteligente, Mia. Sabe muito bem o que eu estou fazendo. — respondeu ele para surpresa da garota.
Então Castiel terminou de se despir ao mesmo tempo em que Mia puxou a toalha que estava pendurada no box, se afastou um pouco do chuveiro e se cobriu. Mas quando ela ia desligar o chuveiro, foi surpreendida por Castiel abrindo a cortina, entrando no box e ficando de frente para ela. Completamente nu. Imediatamente, Mia fechou os olhos com força e os cobriu com uma das mãos. Castiel sorriu e provocou:
– Abra os olhos, Mia. Não tem nada aqui que você já não tenha visto antes.
Mia pensou um pouco e percebeu que ele tinha razão. Então obedeceu e olhou primeiro para o rosto de Castiel. Tentou se concentrar apenas no rosto, mas não resistiu por muito tempo. Então, ela acabou o olhando da cabeça aos pés e lhe dando uma boa "secada" sem perceber. Em seguida, e muito sem graça, ela olhou para o lado e se concentrou nos azulejos. Nos desenhos dos azulejos. No relevo dos azulejos. No rejunte dos azulejos. Quando se recuperou um pouco, ela explicou:
– Cas, quando alguém está tomando banho, a outra pessoa espera a sua vez.
– O box é relativamente grande. Acho que cabe nós dois. — argumentou ele sem tirar os olhos dos dela e com um leve sorriso.
– O que deu em você? — indagou Mia intrigada.
– Amor. Saudade. Desejo. E... Outras coisas que eu ainda estou tentando entender e me acostumar. — respondeu Castiel pausadamente enquanto a olhava profundamente e após alguns instantes, explicou — Mia, eu me apaixonei por você, há alguns meses quando eu entrei no seu quarto e te observei dormir. E desde então você foi despertando coisas em mim que um anjo convencional nunca poderia sentir. Mas eu senti mesmo assim. — e após uma breve, ele continuou — E desde que eu me tornei humano, é como se tudo isso tivesse se multiplicado por... Infinito. Eu te amo mais a cada dia, Mia, e eu sinto que se eu não viver esse sentimento intensamente, eu... Vou enlouquecer. É isso que você quer? Me enlouquecer?
– Cas, eu... — tentou dizer ela, mas parou quando ele deu alguns passos em sua direção.
– Pare de me afastar, Mia. Pare de fugir de mim. Pare de fugir do que eu e você estamos querendo desde que nos reencontramos em Mystic Falls. — pediu ele — Eu sei que você está um pouco diferente agora e que tem medo de me machucar, mas isso não vai acontecer. E sabe por que? Porque você me ama também. E não se pode machucar quem se ama. Você mesma disse isso. E eu acredito em você. Porque eu confio em você, Mia. Mas você precisa confiar em si mesma também.
– Nós não devíamos estar discutindo a relação embaixo do chuveiro. — tentou encerrar a garota.
– Nós não devíamos estar discutindo a relação em lugar nenhum. — corrigiu Castiel enquanto se aproximava e segurava o rosto de Mia entre as suas mãos — Não fale mais nada. Não pense em mais nada. Apenas feche os olhos, Mia. — e como a garota relutou, ele insistiu — Feche os olhos, meu amor.
Então Mia resolveu acatar aquele pedido e fechou os olhos. E logo, ela sentiu a respiração de Castiel no seu rosto antes dele tocar os seus lábios suavemente. Mia correspondeu, mas ainda sentia-se insegura. Não queria machucá-lo. Não se perdoaria se alguma coisa acontecesse a ele por sua culpa. Mas parou de pensar nisso quando percebeu que Castiel tentava tirar a toalha que ela segurava com força contra o corpo. Então, ele aproximou os lábios da sua orelha e sussurrou:
– Também não tem nada aqui que eu já não tenha visto antes. Eu conheço cada centímetro do seu corpo, Mia...
Quase sem perceber, ela soltou a toalha que caiu no chão do box. E então Castiel aproveitou para se aproximar mais do seu corpo macio e quente e a guiou sutilmente em direção ao chuveiro.
Mia não sabia definir o que era melhor. O beijo apaixonado de Castiel, a água morna envolvendo seus corpos como se quisesse reduzí-los a um só, o corpo nu dele contra o seu ou a sensação indescritível que tudo isso junto lhe causava.
De repente, ela sentiu as mãos dele deslizando delicadamente pelo sua barriga até encontrarem a sua cintura e repousarem nela. Sem conseguir resistir, ela cravou os dedos nos cabelos de Castiel e o puxou mais para perto de si enquanto o beijava arduamente. Então ele a envolveu com um abraço apertado e a sensação de peito nu contra peito nu causou um arrepio e um estremecimento de desejo e prazer nos dois. Mia podia ouvir o coração dele batendo cada vez mais acelerado assim como o seu.
Castiel afastou os lábios dos de Mia e viu que os olhos da garota haviam mudado de cor e aparência. Mia estava sentindo novamente aquela vontade de provar Castiel em sua essência mais pura. De provar o seu sangue. Mas ele pareceu não se intimidar. Tinha certeza que Mia não ia fazer isso. Tinha certeza que ela era mais forte do que aquele instinto e que os dois iam encontrar uma forma de vencer aquilo. Eles sempre davam um jeito. Agora não seria diferente.
Então, ele a olhou novamente e em seguida afastou os cabelos molhados da garota e beijou seu pescoço suavemente descendo em direção ao seu ombro que também beijou e mordiscou levemente fazendo a garota ficar arrepiada instantemente. Depois a olhou de novo e viu que os olhos de Mia ainda denunciavam o estado sedento em que ela se encontrava. O olhar de Mia parecia implorar para que ele parasse com aquilo porque tinha medo de não resistir e atacá-lo, mas ao mesmo tempo, aquele mesmo olhar também parecia implorar para que ele não parasse.
Enquanto Mia travava uma guerra interna consigo mesma, Castiel segurou o seu rosto entre as suas mãos e a olhando apaixonadamente, se declarou:
– Eu te amo.
E ao ouvir essas palavras, alguma coisa aconteceu dentro de Mia. Uma coisa boa e inexplicavelmente simples. Isso porque ela se deu conta de que a única coisa que a mantinha humana era o amor que sentia por Castiel e que se ela não vivesse aquele sentimento intensamente, acabaria se perdendo de si mesma. Além disso, Castiel estava certo quando afirmou que ela não o machucaria. Por mais que sentisse vontade de mordê-lo e uma curiosidade mórbida em relação ao sabor do seu sangue, Mia não seria capaz de fazer algo assim porque o amava com todas as suas forças. E não se pode machucar quem se ama. Quantas vezes ela repetiu isso para si mesma e como pode se esquecer?
Ao se dar conta dessas coisas, aparentemente tão óbvias, Mia sentiu que conseguia controlar a vampira dentro de si e deixar apenas o lado humano a guiar naquele momento. E foi exatamente o que ela fez.
– Eu também te amo, anjo. — retribuiu ela com um sorriso apaixonado.
E então Mia procurou os lábios de Castiel e o beijou com ímpeto enquanto ele a empurrava contra a parede. A água do chuveiro escorria pelas costas de Castiel ao mesmo tempo em que ele envolvia o corpo de Mia com seus braços e ela retribuía os seus carinhos e o puxava para mais perto de seu corpo. Como se fosse possível...
A cada instante, seus corpos se envolviam e se exploravam mais. As carícias se tornavam cada vez mais intensas e suas respirações ficavam ofegantes a medida que eles se deixavam levar por aquele momento de paixão e desejo. E desta vez, eles não foram interrompidos por ninguém...
XXX
Algum tempo depois, Sam e Dean saíram do quarto carregando duas mochilas com suas roupas e objetos pessoais e trancaram a porta. O mais novo se afastou um pouco e se aproximou da porta do quarto onde Mia e Castiel estavam. Mas quando ia bater, a garota abriu a porta e saiu seguida por Castiel e por Vincent. O casal parou de sorrir quando viram os Winchesters e se olharam como se tivessem sido pegos no flagra. Ou quase.
– Bom dia, meninos! — disse Mia um pouco sem graça e tentando quebrar o silêncio.
– Bom dia... — respondeu Sam enquanto observava o leve sorriso que o casal tentava disfarçar e seus cabelos molhados.
– Está tudo bem? — perguntou Dean.
– Tudo perfeito! — respondeu Mia.
– Não podia estar melhor! — acrescentou Castiel sorrindo discretamente para a garota.
Sam e Dean se entreolharam deduzindo por que Mia e Castiel estavam tão felizes até que a garota quebrou o silêncio mais uma vez ao perguntar:
– O que nós estamos esperando?
– Eu. — respondeu Natalie que também havia saído do seu quarto instantes antes e se aproximava deles.
Mia olhou surpresa para os três e esperou que eles explicassem o que aquilo significava. Até onde ela havia percebido, Dean não tinha acreditado na história de Natalie e havia deixado bem claro que não ia ajudá-la com a questão do anjo caído. Mas agora as coisas pareciam ter mudado de alguma forma já que lá estava a loira novamente e, aparentemente, ela iria com eles. Como nenhum do três se manifestou, Mia resolveu perguntar:
– Como diria o Garth, o que eu perdi?
Desta vez, foi Natalie que ficou surpresa. Inclinou um pouco a cabeça e perguntou incrédula:
– Garth? Vocês conhecem o Garth?
– Você conhece? — indagou Sam igualmente surpreso.
– Todo mundo conhece o Garth. — respondeu ela sorrindo e em seguida, explicou — Nós trabalhamos juntos algumas vezes. Ele é uma figura...
– Nem me fala... — murmurou Sam.
– Que mundo pequeno... — refletiu Dean enquanto se perguntava se não foi através de Garth que ele conheceu Natalie e de alguma forma esqueceu a garota. Em seguida, afastou esse pensamento porque tinha certeza que não havia sido desta forma. Mas definitivamente, Natalie lhe era familiar e ele queria descobrir por que. E percebendo que Mia ainda esperava uma explicação, resolveu contar — A Natalie vem com a gente. Nós decidimos ajudá-la com o anjo caído. E o Sammy vai atrás da Claire.
– Quem é Claire? — perguntou Castiel.
– Alguém adorável que não gosta de caçadores. — respondeu Sam visivelmente insatisfeito e depois, acrescentou — Era ela que a Natalie estava protegendo. Por algum motivo Claire precisa encontrar esse Ezekiel e nós resolvemos ajudar.
– Depois, é claro, de confirmarmos toda a história. — acrescentou Dean.
Mia e Castiel ainda digeriam aquelas informações quando Sam olhou para o estacionamento e lembrou:
– Eu vou precisar de um carro.
Os cinco se olharam e momentos depois estavam parados em frente ao Impala, ao Mustang e ao Camaro 76 preto que pertencia a Natalie. Foi Mia que começou a dizer:
– Sammy, não me leve a mal, eu até emprestaria meu carro, mas você sabe como ele está uma bagunça. Eu não sou a pessoa mais organizada do mundo e você não se sentiria muito à vontade nele.
Em seguida, foi Dean que argumentou:
– E eu emprestaria o meu bebê, como já fiz várias vezes, mas isso significaria que eu teria que ir no carro da Natalie. Pode me chamar de paranoico, mas eu não confio muito em mulheres no volante. Principalmente depois que eu quase foi atropelado por uma delas em um estacionamento.
– Obrigada por me lembrar! — disse Mia com ironia sabendo que Dean se referia ao fato ocorrido há alguns dias, quando ela se distraiu com Castiel, não enxergou Dean no estacionamento de uma lanchonete e quase passou por cima dele.
Então, um pouco relutante, Natalie tirou as chaves do bolso e entregou para o Winchester mais novo junto com um pequeno papel onde anotou o endereço de Claire. E então, ela disse:
– Tudo bem. Vá com o meu. Talvez Claire te receba ao ver que você está com o meu carro. Ou talvez fique ainda mais desconfiada, pense que você me sequestrou, me torturou e me matou e resolva fazer o mesmo com você.
– Quanto otimismo... — resmungou Sam antes de abrir a porta do carro e entrar — Bem, se eu sobreviver, nos vemos no bunker. — disse ele para todos e em seguida deu partida e se afastou.
Natalie olhou confusa para Dean e perguntou:
– Bunker? O que é isso? Alguma boate?
– Tente de novo. — aconselhou Dean enquanto Mia e Castiel também o olhavam sem entender porque ele e Sam iriam levar as garotas para o esconderijo que eles faziam questão de manter em segredo.
Foi então que o casal deduziu o por que. Só havia uma explicação para aquilo. A carona de Ezekiel devia ter terminado no Kansas. Era lá que ele estava ou esteve recentemente e era de lá que eles iriam seguir o seu rastro e encontrá-lo. E sobre o esconderijo, quando a situação se resolvesse, as garotas encontrassem o tal anjo e decidissem ir embora, Mia poderia compelí-las a esquecer onde o bunker ficava.
– Então nos vemos no Tennessee. — encerrou Mia se referindo ao caso que iriam investigar por lá.
Em seguida, ela se afastou com Castiel e os dois entraram no Mustang. Vincent entrou pela janela e se acomodou no meio da bagunça que estava acumulada no banco de trás.
Dean viu o carro de Natalie se afastando e entrou no Impala. A loira fez o mesmo e ao notar que Dean estava rindo, ela perguntou um pouco irritada:
– Qual é a graça?
Dean fez um esforço para parar de rir e respondeu antes de dar partida:
– Você pode ter um Camaro, mas está bem longe de ser um doce.
Natalie revirou os olhos e resolveu ignorar a brincadeira de Dean. E só então, ela reparou melhor no Impala e ficou visivelmente intrigada.
– O que foi? Algum problema? — estranhou o Winchester percebendo que Natalie havia ficado mais estranha do que ela já era.
– Não... — mentiu ela enquanto examinava o carro mais uma vez e tinha uma estranha sensação de déjà vu.
Natalie não sabia explicar como, mas definitivamente, tinha certeza de que já havia estado naquele carro antes. De alguma forma o Impala lhe parecia... Familiar.
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