Recomeço
49 Capítulo 49 - Final
Notas iniciais
Era pouco mais de sete horas da manhã e Mia desceu as escadas do bunker tomando cuidado para não fazer barulho. Ela carregava uma mala em uma das mãos, com a outra segurava um envelope e tinha também uma mochila nas costas. Ao chegar na sala, ela parou perto de um sofá onde Castiel estava dormindo no meio de alguns livros.
Isso porque depois que Sam ligou, no fim da noite, contando por alto o que aconteceu no galpão, os dois ficaram acordados até de madrugada pesquisando sobre o exército de demônios libertado por Abaddon e Belial.
Em dado momento, Castiel pegou no sono. E enquanto ele dormia, Mia finalmente tomou a sua decisão em relação à proposta de Metatron. Decisão que ela começaria a colocar em prática imediatamente. E para isso, o primeiro passo era pegar a estrada sem olhar para trás.
Infelizmente, Mia não podia se despedir formalmente de Castiel, muito menos levá-lo com ela, mas mesmo assim, ela queria olhá-lo uma última vez antes de ir embora. Se despedir de alguma forma.
Ela não sabia quanto tempo ficaria fora, se podia mesmo confiar em Metatron e se aquilo realmente daria certo. No fundo, ela temia que alguma coisa desse errado no momento em que ela encontrasse o anjo escriba e pegasse a graça de Castiel de volta.
Isso porque se os anjos caídos estavam atrás de Castiel, certamente a graça dele poderia chamar a atenção deles de alguma forma. Além disso, Mia iria se encontrar com Metatron, que era tão ou mais odiado pelos anjos caídos do que Castiel. Por tudo isso, ela sabia que aquela não seria uma missão fácil. E também sabia que não seria fácil para Castiel, Kevin e os Winchesters entenderem e a perdoarem por entregar a Tábua da Palavra de Deus para Metatron.
Ao pensar nesta última questão, Mia olhou na direção da mesa onde Kevin costuma deixar a Tábua. E lá estava o artefato. Então, a garota caminhou até a mesa, abriu a mochila, pegou a Tábua e a guardou em um bolso interno e bem protegido da mochila. Em seguida, a fechou e se reaproximou do sofá.
Castiel continuava dormindo profundamente e completamente alheio aos planos da namorada. Por um momento, Mia pensou em desistir de tudo aquilo e simplesmente deitar no sofá com ele. Mas, Castiel precisava voltar a ser um anjo ou não teria qualquer chance de se defender dos outros anjos. Além disso, ela sabia que no fundo ele estava se sentindo inútil desde que virou um humano. E tudo que ela queria era ajudá-lo a voltar a ser o velho Cas. Primeiro porque o amava e não aguentava vê-lo sofrer com toda aquela situação, e em segundo lugar porque o sangue dele a ajudou a se curar do vampirismo. Não era exagero dizer que Castiel salvou a vida de Mia mais uma vez. E agora, ela sentia que precisava retribuir. O salvando também.
Pensando em tudo isso, Mia respirou fundo e colocou o envelope, que segurava até aquele momento, sobre um livro que estava em cima da barriga de Castiel.
Mesmo sabendo que ele poderia acordar, Mia se aproximou mais um pouco, abaixou-se e tocou os lábios dele suavemente com um rápido selinho. Em seguida, se levantou e o observou por mais alguns instantes antes de dizer num tom baixo de voz:
– Eu te amo, anjo. Não se esqueça disso. E... Me desculpe, mas eu preciso fazer isso. Por você. — e sentindo que ia começar a chorar se ficasse mais algum tempo ali, Mia encerrou — Eu preciso ir... Até algum dia, Cas.
Então, ela caminhou até a porta e saiu do bunker o mais rápido que pôde e sem olhar para trás. Logo chegou no Mustang e colocou as coisas no porta-malas. Em seguida, entrou e fechou a porta do carro. Se olhou pelo retrovisor e antes que começasse a chorar, passou as mãos pelos olhos. Depois disso, olhou para o bunker por alguns instantes e então deu partida.
Algum tempo depois, Castiel começou a acordar e olhou em volta. Ao perceber que estava sozinho na sala, chamou com a voz sonolenta:
– Mia?
Como não teve nenhuma resposta, ele passou as mãos pelo rosto, bocejou um pouco e depois sentou no sofá, o que fez o envelope que Mia havia deixado sobre ele cair no chão perto dos pés dele. Então Castiel se curvou um pouco para pegar o envelope e depois apoiou as costas no sofá. Olhou em volta mais uma vez e repetiu o chamado:
– Mia?
Como novamente não obteve resposta, Castiel começou a estranhar aquilo. Olhou para o envelope em suas mãos e teve um pressentimento ruim. Resolveu abrí-lo. E o mal pressentimento se intensificou no momento em que ele viu de quem era aquela caligrafia.
Começou a ler mentalmente, ouvindo a voz de Mia na sua cabeça:
"Oi, anjo.
Bem, em primeiro lugar eu quero deixar uma coisa bem clara: Isto não é uma despedida, é mais como um... Até logo.
Eu precisei sair do bunker, Cas. Porque eu preciso fazer uma coisa. Uma coisa muito importante, mas que você não aprovaria. E, com certeza, você tentaria me impedir se soubesse o que é. Por isso, eu também não posso contar do que se trata. Mas, por favor, apenas entenda que, eu estou fazendo isso por você."
Enquanto Castiel continuava lendo a carta, Sam desligou o celular depois de conversar com Dean.
O Winchester mais novo estava dentro do carro de Claire, a garota estava ao seu lado no banco do motorista e os dois estavam parados no acostamento de uma estrada.
Eles tinham passado a madrugada procurando por Natalie no galpão e nas proximidades do lugar ou por qualquer pista que pudesse indicar o que Abaddon fez com a loira, mas não encontraram nada. Inclusive, o Camaro da caçadora também havia sumido, o que significava que Abaddon podia ter usado o veículo para tirar Natalie de lá e levá-la para algum tipo de esconderijo ou cativeiro.
Como não encontraram nada que pudesse solucionar aquele mistério, Sam e Claire deixaram o galpão. Tentaram convencer Dean a fazer o mesmo, mas o Winchester mais velho relutou e disse que ficaria mais um tempo no lugar procurando por alguma pista. No entanto, tudo que ele encontrou foram os pertences de Natalie. Armas, o celular, a mochila... Nada mais.
Então Dean ligou para o irmão para dizer que não tinha conseguido nenhuma pista do paradeiro da noiva. E que iria pegar a estrada e encontrar o irmão e Claire no caminho. Queria voltar para o bunker e de lá elaborar algum plano para encontrar Natalie.
– O que ele disse? — indagou Claire sem olhar para Sam.
– O Dean procurou por toda a parte, revirou o galpão mais uma vez, mas não encontrou nenhum sinal, nenhuma pista que possa levar à Natalie. — respondeu Sam.
Claire pensou um pouco e perguntou sentindo um aperto no coração:
– E o David?
Sam observou a garota por um tempo antes de responder:
– Depois que o Dean tiver saído de lá, ele vai ligar para a polícia. Quando eles identificarem o David, a família será avisada.
Ao ouvir aquilo, Claire sentiu que ia chorar e levou as mãos ao rosto. Se controlou e em seguida abriu a porta do carro e desceu. Sam fez o mesmo, deu a volta no veículo e começou a dizer enquanto se aproximava dela:
– Claire, o que está acontecendo? Eu sei que tudo isso foi uma grande tragédia, eu também estou destroçado pelo que aconteceu, mas eu sinto que tem algo além disso, algo que você não está me contando. Você está diferente comigo...
– Sam, este não é o momento ideal para nós discutirmos a relação. — interrompeu ela um pouca ríspida só então olhando para ele.
– E quando será este momento, Claire? Porque, honestamente, eu estou com medo de que quando este momento chegar não haja mais uma relação para ser discutida. — rebateu ele se alterando um pouco.
– O quê? Do que você está falando? — indagou ela um pouco confusa.
– Você sabe exatamente do que eu estou falando. — afirmou Sam e depois de pensar um pouco, explicou — Você está me afastando. Você está diferente comigo porque você acha que eu tive culpa no que aconteceu com o David. Mas quer saber de uma coisa, Claire? Eu passei a minha vida inteira achando que tudo de ruim e de errado que acontecia à minha volta era minha culpa. E então você apareceu e me aceitou do jeito que eu sou. Mais do que isso, você me fez entender que coisas ruins acontecem o tempo todo, que errar é humano e que eu não devo me culpar por isso, que eu não devo me culpar por ter começado o Apocalipse, pela morte da minha mãe e da Jessica, por ter confiado em um demônio ou por ter decepcionado o Dean e o meu pai inúmeras vezes. E então, pela primeira vez na minha vida, eu parei de me sentir um lixo, um monstro. Pela primeira vez na minha vida, eu me aceitei também e me perdoei pelos meus erros. E eu devo tudo isso à você, Claire. Então, não venha agora querer que eu me sinta culpado pela morte do David, porque eu não me sinto. Eu fiz o possível para salvá-lo. Nós fizemos. Mas coisas ruins acontecem, Claire. O tempo todo. E a morte do David foi uma delas. E eu sinto muito.
Claire observou Sam por algum tempo enquanto pensava nas coisas que ele havia dito. Então se aproximou dele e o abraçou forte. Sam retribuiu o abraço e Claire esclareceu:
– Eu sei que você não teve culpa e eu não estou tentando culpar você pelo que aconteceu, Sam. Mas... Eu não consigo parar de pensar no que Belial me disse. Eu não consigo parar de pensar que enquanto o David estava possuído, sofrendo, precisando de mim, eu estava com você. E que desde que eu reencontrei você, eu me esqueci completamente do David. Eu devia ter imaginado que os demônios iriam atrás dele, eu devia ter o protegido de alguma forma, tentado evitar... Mas ao invés disso, eu simplesmente virei esta página da minha vida e escolhi recomeçar ao seu lado, Sam.
Os dois se afastaram um pouco e se olharam. Então Sam deduziu:
– Você está arrependida de ter se envolvido comigo.
– Não. — negou a garota e então explicou — Eu só estou dizendo que o que aconteceu com o David, não foi sua culpa, Sam, foi minha. E enquanto eu não conseguir lidar com essa culpa, me perdoar e parar de me sentir um lixo, eu não posso continuar com esta relação. Eu não posso continuar com você.
Sam a olhou atônito e perguntou:
– Claire, o que você está dizendo? Você está terminando comigo? É isso?
– Eu preciso de um tempo, Sam. Eu preciso me afastar um pouco de você e de tudo isso. Me desculpe, mas... Eu não posso voltar com você para o bunker. — respondeu ela começando a chorar e em seguida, acrescentou — Sabe... Eu acho que este também não era o nosso momento de ficar juntos.
Os dois se olharam por alguns instantes até que Claire começou a se afastar e abriu a porta do carro. Sam deu um passo a frente e discordou:
– É sim! É o nosso momento, Claire.
– Sam... — começou a dizer a garota voltando-se para ele, mas parou ao perceber que ele estava tirando alguma coisa do bolso da jaqueta.
– Eu sinto que eu estou te perdendo, Claire, mas eu não posso aceitar isso. Eu não posso perder você. Eu não posso ver isso acontecer sem fazer nada para impedir. Eu não posso ver você indo embora sem tentar te convencer a ficar. — explicou ele segurando uma caixinha.
Ao deduzir do que se tratava, Claire tentou impedí-lo de continuar:
– Sam, por favor, não faça isso...
Mas, ignorando o pedido dela, o Winchester se ajoelhou diante da garota, abriu a caixinha deixando um delicado anel à mostra e prosseguiu:
– Eu não posso deixar você ir embora sem antes te fazer uma pergunta. Uma pergunta que pode mudar tudo. Que pode te convencer a ficar. — e após um momento de silêncio, respirou fundo, tentou esboçar um sorriso e perguntou — Claire Singer, você quer se casar comigo?
Claire enxugou o rosto e observou Sam por algum tempo antes de conseguir responder:
– Eu quero, Sam. Mas eu não posso. Eu te amo, mas eu também não posso ficar. Eu sinto muito.
Em seguida, a garota fechou a caixinha que Sam segurava e olhou para ele uma última vez antes de se afastar e entrar no carro. Claire fechou a porta. Sam levantou ao mesmo tempo em que a garota deu partida.
O Winchester ficou olhando o carro se afastar por algum tempo e Claire o observou pelo retrovisor enquanto recomeçava a chorar.
Quando o veículo sumiu no horizonte, Sam olhou para a caixinha que segurava e mordeu os lábios com raiva. Então, olhou para a vegetação ao lado da estrada, ergueu o braço e jogou a caixinha o mais longe que pôde. Em seguida, se virou e começou a caminhar na direção oposta daquela que Claire havia seguido.
Meia hora depois, Dean passava pela estrada e reconheceu o irmão caminhando pelo acostamento. Então, parou o Impala e Sam entrou. Colocou o cinto de segurança e permaneceu em silêncio até que o mais velho perguntou com cuidado:
– Cadê a Claire?
Sam demorou, mas por fim respondeu com certa mágoa:
– Foi embora. Ela me deixou, Dean.
– Eu sinto muito, Sammy. — lamentou ele.
Sam pensou em tudo que havia acontecido e ponderou:
– Tudo bem. Ela escolheu assim e por mais que seja difícil compreender, pelo menos eu sei que a Claire está... Bem. Mas a sua situação é mais complicada do que a minha, Dean. Eu posso imaginar o que você está sentindo e eu sinto muito também. A Claire foi embora, bem ou mal, porque ela quis assim, mas a Natalie... Ela sumiu... E nós sabemos quem está por trás disso.
– Eu vou encontrá-la. — afirmou Dean e antes de dar partida, prometeu — Eu vou até o Inferno se for preciso, mas eu vou trazer a Naty de volta. Eu juro que vou.
Sam assentiu e os dois seguiram viagem sem dizer mais nada.
Quando os dois chegaram no bunker, no final do dia, encontraram Castiel na sala. Ele ainda estava no sofá e segurando a carta de Mia nas mãos, com uma expressão vazia e distante.
Sam pegou a carta e depois de ler o começo, continuou:
"Cas, você, o Kev, Sam e Dean vão notar que uma coisa desapareceu do bunker. E eu não me orgulho de dizer isso, mas fui eu que peguei. Mas, não se preocupe, eu sou maluca, mas nem tanto. Diga para o Kevin checar os e-mails dele e você vai entender do que eu estou falando.
Eu sei que mesmo assim, você não vai compreender totalmente porque eu fiz isso e talvez até me odeie um pouco num primeiro momento. Mas eu preciso fazer isso. Eu preciso salvar você, Cas, como você me salvou inúmeras vezes.
Certo ou errado, eu estou fazendo tudo isso por amor. Eu estou arriscando tudo, inclusive a sua confiança e a dos outros, por amor.
Eu só espero que você me entenda um dia. No dia em que eu voltar para você, anjo. Porque sim, eu vou voltar. Eu prometo. Mas por hoje, eu estou me despedindo. Por um tempo indeterminado.
Por favor, não venha atrás de mim.
Eu te amo, Cas. Não esqueça disso. E até um dia.
Mia."
Sam começou a dobrar a carta e Castiel saiu daquela espécie de transe e revelou:
– Ela levou a Tabua da Palavra de Deus. O Kevin disse que recebeu um e-mail com algumas fotos da Tábua. E que consegue continuar com a tradução desta forma.
Então o ex-anjo levantou do sofá, pegou a carta de volta e sem dizer mais nada, subiu para o quarto deixando Sam e Dean sozinhos.
– A Mia foi embora levando a Palavra de Deus sabe-se lá para onde e por que, a Claire te deixou, a Naty sumiu e um exército de demônios está à solta. Ah! Sem falar nos anjos caídos e numa possível guerra vindo por aí. Ou seja, Awesome! Só que não é awesome. — resmungou Dean e em seguida se afastou e subiu as escadas também.
Logo Sam fez o mesmo e foi para o quarto que Claire ocupava. Abriu o guarda-roupa e passou as mãos pelas roupas dela enquanto Dean abria o guarda-roupa do quarto de Natalie e pegava uma das camisetas favoritas da garota. Uma que ela usava como pijama. A primeira que Dean a viu vestindo quando eles dormiram em um hotel em Kentucky. Uma camiseta do Led Zeppelin. O Winchester sentiu seus olhos arderem e ficarem úmidos de repente. Não saber onde Natalie estava e o que tinha acontecido com ela estava o torturando profundamente. Uma tortura bem pior do que o tempo que passou no Inferno.
Em seguida, ele foi até a cômoda e passou os dedos pelos inúmeros CDs que Natalie mantinha ali. E Dean lembrou das inúmeras vezes em que mexeu neles e a loira reclamou. Mas no fim, ela sempre gostava das músicas que ele colocava para tocar.
Dean se afastou dali e foi até a cama. Deitou abraçado com a camiseta de Natalie e a cheirou por algum tempo antes de fechar os olhos tentando conter a vontade de chorar.
– Onde você está, Naty? — perguntou-se Dean enquanto um desespero crescia dentro dele.
Em algum lugar longe dali...
Natalie começou a acordar sentindo o chão molhado embaixo do seu rosto. Ouviu o barulho do eco provocado por várias goteiras e abriu os olhos lentamente se acostumando com o novo ambiente.
Era um lugar horrível, sombrio, pouco iluminado, frio e desolador. Parecia algum tipo de galeria subterrânea cercada por grades por toda a parte.
A loira franziu a testa sentindo uma forte enxaqueca. Sua garganta também doía. Um pouco devido à sede que sentia e um pouco porque Abaddon tinha a sufocado algumas horas antes. Com certa dificuldade ela se sentou e viu que seus pés estavam amarrados com uma fita adesiva cinza. Suas mãos também estavam presas atrás do corpo.
Ela começou a lembrar do que havia acontecido. Depois que Abaddon a surpreendeu no galpão e a deixou desacordada, Natalie acordou em alguns momentos durante o caminho até aquele lugar e a ruiva deu alguns golpes na cabeça de Natalie. O último deles a deixou desacordada por horas e lhe causou aquela enxaqueca desconcertante.
Natalie esfregou os dedos uns nos outros procurando uma coisa e ao notar que o anel de noivado havia desaparecido, xingou:
– Bitch!
Em seguida, ela ouviu passos e olhou na direção de um portão a alguns metros de onde ela estava sentada. Logo, Abaddon o destrancou e entrou. Natalie revirou os olhos e disse com ironia:
– Awesome! Justamente quem eu queria ver agora!
A ruiva sorriu, puxou uma cadeira que havia em um canto e sentou-se perto da caçadora antes de dizer também com ironia:
– Desculpe por ter te deixado tanto tempo sozinha aqui, mas eu precisava recuperar este corpo. Eu gosto dele. Além disso, você estava desacordada, dormindo tão bonitinha e eu achei que você não iria se importar de ficar sozinha aqui. Então, o que você achou do seu novo lar?
Natalie olhou em volta e depois encarou Abaddon ao responder:
– Tão nojento quanto você.
– É bom você se acostumar, querida, porque algo me diz que você vai passar um bom tempo por aqui. Ou não. Bem, na verdade, tudo depende de você, Natalie Jones. — insinuou a ruiva.
A loira pensou um pouco e disse com raiva:
– Ok, diz logo de uma vez o que você quer comigo.
Abaddon sorriu, levantou da cadeira e enquanto andava em volta, começou a explicar:
– Sabe, Naty, eu matei um anjo ontem. Ezekiel. E apesar de ter ficado um pouco... Fraca ao fazer isso, eu podia ter matado também o seu noivo e o seu futuro cunhado facilmente. Mas eu achei melhor deixá-los irem embora para que eles sofram um pouco com toda a desgraça que se abateu sobre eles. É bem mais divertido do que simplesmente quebrar os seus lindos pescoçinhos. E a Claire... Bem, por mais que eu queira matá-la, eu acho que ela ainda pode ser útil no futuro.
Natalie absorveu aquelas coisas. Ficou triste por saber que Ezekiel tinha morrido, mas aliviada pelos outros estarem vivos apesar de tudo que deviam ter passado depois que Abaddon a levou do galpão. Em seguida, voltou a olhar para a ruiva que continuou:
– Mas eu ainda penso em acabar com os Winchesters. Em grande estilo. — Abaddon se aproximou e sentou na cadeira novamente antes de prosseguir — Eu libertei um exército de demônios ontem, Naty. E eu já tenho a primeira missão para eles. E não, não é encontrar e exterminar os anjos caídos. Isso é o segundo passo, na verdade. Antes, eu quero que eles encontrem o esconderijo dos Winchesters, onde provavelmente eles estão mantendo o Crowley e onde aquele profeta também deve estar. Eu quero que eles destruam tudo e matem todos. Exceto, o Crowley. Este eu faço questão de matar pessoalmente. Bem, mas o fato é que para isso, eu preciso da localização do lugar. E é aí que você entra, sweetie.
Natalie ficou preocupada ao ouvir o que Abaddon planejava. E não podia deixar que ela colocasse aquilo em prática. Então respirou fundo e mentiu:
– Eu não tenho ideia do que você está falando. Os Winchesters não tem um lugar fixo, eles vivem pulando de hotel em hotel.
Abaddon riu levemente e esclareceu:
– Eu encontrei dois demônios esta semana, Naty. Eles costumavam servir ao Crowley, mas estavam completamente confusos porque há alguns dias, eles receberam uma ligação do ex-Rei, dizendo que era para eles libertarem uma refém. A mãe do profeta Kevin. E que no meio da ligação, o Crowley mencionou que Sam e Dean estavam o mantendo preso em um lugar que ele não tinha ideia de onde ficava, mas que definitivamente era grande e seguro. A minha aposta é que não era um hotel de beira de estrada. Eu sei que os Winchesters encontraram algum lugar, Naty. Um lugar fixo. Como uma base, um... Tipo de bunker. Então, por que você não poupa o meu trabalho de te torturar e me diz logo onde fica esta tal fortaleza?
Natalie pensou mais um pouco e mentiu mais uma vez:
– Se os Winchesters estão mantendo este tal Crowley preso em algum lugar, eu também não sei onde é. Eles nunca mencionaram nada disso comigo.
– É meio difícil de acreditar já que você ia se casar com um deles. Confiança é tudo numa relação. — disse Abaddon desconfiada.
Natalie sorriu levemente e pediu:
– Ah! Por falar nisso, será que você poderia devolver o meu anel? Eu gostei dele! Fica lindo na minha mão e...
A loira parou de falar quando a ruiva se aproximou e a segurou no pescoço a sufocando enquanto dizia:
– Ok, vamos esclarecer uma coisa, vadia. Eu sei que você está mentindo, eu sei que você sabe exatamente onde fica o esconderijo dos Winchesters. E até agora eu perguntei com educação, mas se você quiser, eu posso ser mais persuasiva. Então? Como vai ser?
Então, Abaddon soltou o pescoço de Natalie que tossiu por algum tempo antes de responder:
– Eu já disse, eu não sei do que você está falando.
Abaddon sorriu e encerrou em um tom ameaçador:
– Tudo bem, eu entendi. Você prefere do jeito difícil. É... Eu não posso negar que eu vou gostar de sujar as minhas mãos com você, Natalie Jones. Eu já volto.
Em seguida, a ruiva levantou e deixou Natalie sozinha naquele tipo de cela subterrânea que fez a loira se sentir no próprio Inferno. Ela começou a pensar em Dean e a ideia de que talvez não fosse vê-lo novamente, deixou seus olhos cheios de lágrimas.
Mas em seguida, ela respirou fundo e se controlou. Não queria que Abaddon a visse chorando quando voltasse. Além disso, chorar não ia tirá-la daquele lugar. Ela precisava manter a calma e pensar numa forma de escapar daquele cativeiro. E não ia desistir enquanto não conseguisse fazer isso.
Enquanto isso, Dean estava no seu quarto colocando algumas roupas numa mala. Sam entrou e perguntou:
– Dean, o que você está fazendo? Para onde você vai?
Enquanto tirava as roupas de dentro do guarda-roupa e colocava na mala, Dean respondeu visivelmente transtornado:
– Ela está em perigo, Sammy. Eu sinto. Eu preciso encontrar a Naty. Eu sei que eu acabei de voltar, mas eu não consigo ficar aqui sabendo que ela está lá fora, em algum lugar, com aquela vadia luciferiana.
– Dean, eu entendo que você esteja nervoso e preocupado, mas você não tem ideia de por onde começar a procurar a Natalie. — argumentou o mais novo.
– Não importa, eu vou dar um jeito. Eu vou invocar demônios e torturá-los até eles me levarem a Abaddon e encontrando ela, eu encontro a Naty também. O que eu não posso é ficar aqui no bunker, cercado pelas coisas dela e por um monte de lembranças.
Sam pensou um pouco e confessou com um olhar distante:
– É, esta parte eu entendo. Pra todo lugar que eu olho é como se eu estivesse vendo a Claire. Como se ela fosse aparecer a qualquer momento. Sabe... Seria mais fácil ser assombrado por um fantasma.
Dean fechou a mala, saiu do quarto e desceu as escadas seguido pelo irmão que recomeçou:
– Mas Dean, se você encontrá-la como vai ser? Abaddon não vai te entregar a Natalie a troco de nada. Aliás, é provável que ela mate vocês dois.
– Um problema por vez, Sammy. Primeiro eu tenho que descobrir para onde aquela ruiva dos infernos levou a minha baby e depois eu penso no resto, ok? — disse Dean ainda desnorteado.
– Dean, você não está raciocinando direito. Eu sei que é difícil, mas você precisa se acalmar um pouco... — aconselhou o mais novo.
– Como eu vou ficar calmo, Sammy, se toda a vez que eu paro para pensar, eu lembro da Naty dizendo que... Nunca, sob hipótese alguma, ela contaria onde o bunker fica? E se Abaddon quiser saber exatamente isso, Sammy? E se ela torturar a Naty para descobrir? Sabe... Eu não me importo que a Abaddon descubra nosso endereço. O bunker é seguro e se ela resolvesse fazer uma visita, nós daríamos um jeito nela. O que me preocupa é saber que a Naty... Não vai contar. Ela não vai contar, Sammy, mesmo que isso signifique ser torturada ou coisa pior... — Dean parou de falar por algum tempo tentando afastar estes pensamentos. Em seguida, orientou — Mas eu preciso que você fique aqui, Sammy. Que cuide de tudo. O Cas está arrasado, o Kevin vai voltar nos próximos dias, e seria bom se você conseguisse descobrir alguma coisa sobre este exército de demônios.
– Tudo bem. Então vai, Dean. E só volte aqui com a Natalie. — concordou o mais novo entendendo os motivos de Dean para deixar o bunker daquele jeito.
Em seguida, o mais velho o abraçou e disse:
– Se cuida.
– Você também. — respondeu Sam e quando o irmão se afastou e abriu a porta, ele o chamou — Dean!
– O quê? — indagou ele se virando para olhar o irmão.
– Boa sorte. — desejou Sam.
– Obrigado. — agradeceu o mais velho e antes de sair, aconselhou — Sammy... Tranque a porta do quarto da Claire. Não entre mais lá. Eu sei que você está sofrendo, cara, e eu queria dar um conselho melhor, mas... Eu não sei o que dizer numa situação dessas. Eu sinto muito.
– Obrigado, Dean. Você disse. — agradeceu o mais novo.
Então, Dean saiu do bunker e caminhou até o Impala. Colocou a mala no porta-malas, entrou no carro e deu partida.
Castiel viu o carro se afastando da janela do quarto. Em seguida, pegou a carta de Mia no bolso do casaco e a leu mais uma vez. Depois ficou olhando para o horizonte e se perguntado por que ela havia feito aquilo, para onde tinha ido e o que estava planejando exatamente.
Naquele momento, Mia dirigia seu Mustang por uma estrada. Decidiu que pararia para dormir em algum hotel e que assim provavelmente, Metatron entraria no seu sonho e diria onde encontrá-lo.
Respirou fundo e segurou entre os dedos o pingente do colar que usava no pescoço. Sentiu com as pontas dos dedos as palavras que estavam gravadas ali: Miastiel forever.
Sorriu ao lembrar de Castiel e acelerou um pouco o carro enquanto naquele momento o ex-anjo sentava na poltrona do quarto e olhava para aquela carta mais uma vez.
Mia estava certa quando disse que ele a odiaria num primeiro momento. Castiel sentia-se abandonado, por mais que ela tivesse dito que iria voltar um dia. Era como se o fato dele ser humano e completamente inútil o tivesse deixado de fora daquela missão misteriosa. Além disso, Mia havia levado a Tábua da Palavra de Deus. Que tipo de missão justificaria trair a confiança de todos daquele jeito? Que tipo de missão justificaria um roubo?
Se um lado de Castiel estava magoado com a partida da garota, o outro ansiava pelo seu retorno. Sentia-se perdido sem Mia. Vazio, sozinho, triste.
Enquanto isso, Sam olhou o quarto de Claire uma última vez e inevitavelmente lembrou de alguns momentos que os dois passaram ali. Em seguida, se virou, saiu de lá e seguiu o conselho de Dean. Trancou o quarto.
Claire seguia viagem rumo a St. Louis. Queria estar por lá quando a família de David fosse avisada da morte dele. Queria ir ao velório. Era o mínimo que podia fazer por David e talvez assim aquela culpa parasse de consumí-la. Pelo menos um pouco.
Claire ligou o rádio e estava tocando Empty Road da Natalie Walker. Começou a lembrar de Sam e de todos os momentos que passaram juntos. E em tudo que havia acontecido nas últimas horas.
Acelerou o carro e começou a chorar à medida que a música tocava.
Claire não podia imaginar, mas naquele momento, em algum lugar entre o Céu e a Terra, Bobby Singer ouvia os soluços da filha. Sentia a sua dor.
Do outro lado, Bobby também acompanhou os últimos acontecimentos e depois de pensar sobre todos eles disse sem perceber:
– A Claire precisa de mim. A Mia estava certa, todos eles vão precisar de mim. Eu preciso voltar.
Sentado ao lado do caçador no banco, David sorriu levemente e perguntou:
– E como você vai fazer isso, Sr. Singer?
– Se eu soubesse, não estaria conversando com um fantasma neste momento. — resmungou ele e em seguida, xingou baixinho — Idjit.
David sorriu e voltou a olhar para o horizonte. Teve a impressão de ver duas pessoas adiante. Seus avós. Então, ele levantou e antes de ir ao encontro deles, pediu:
– Se você descobrir como voltar, diga para a Claire que não foi culpa dela. Nem do Sam. E que eu estou em paz.
Bobby assentiu e em seguida observou David se afastando e encontrando seus familiares até que os três desapareceram e o caçador ficou completamente sozinho de novo.
– Balls! — resmungou Bobby.
FIM (Fim nada, logo logo tem continuação. Oxi!)
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