Recomeço
13 Capítulo 13 - Confidências
Notas iniciais
De dentro do carro, Sam viu Claire saindo da casa carregando uma enorme mala. Rapidamente, ele saiu do veículo, andou até a varanda e segurou a mala da garota oferecendo ajuda:
– Deixa que eu levo.
– Obrigada. — agradeceu Claire e em seguida olhou para dentro da casa e ficou parada por alguns instantes.
– Algum problema? — estranhou Sam.
– Não. É só que... Eu tenho a impressão de que se eu for com você, essa será a última vez que eu verei esta casa. Eu não vou voltar aqui nunca mais, Sam. — confessou a garota.
– Ainda está em tempo de desistir. — lembrou Sam e após uma pausa, acrescentou — Você não precisa deixar a sua vida pra trás, Claire. Independente dos motivos que você tenha para achar que precisa fazer isso.
Então, Claire olhou mais uma vez para o interior da casa, em seguida trancou a porta, olhou para o caçador e expôs:
– Que vida, Sam? Minha vida acabou no instante em que eu me envolvi com o sobrenatural. Não tem mais volta. E eu não tenho nada para deixar pra trás. Apenas uma casa e alguns móveis. Nada mais. — e em seguida desceu os degraus e acrescentou — Vamos.
– Vamos? — repetiu ele a seguindo — Claire, eu acho que você está se esquecendo de uma coisa.
Ao ouvir isso, a garota parou e se virou na direção de Sam antes de dizer:
– Eu não estou esquecendo nada, Sam. Mas pra que eu te conte a verdade, o motivo pelo qual eu preciso encontrar Ezekiel, nós precisamos ir até um lugar antes de você me levar pra... Sabe-se lá pra onde.
– Que lugar? — quis saber ele.
Claire voltou a caminhar e logo chegou no seu carro, uma Pajero preta. Em seguida ela abriu o porta-malas e Sam se aproximou e guardou a mala.
– Eu explico no caminho. — prometeu ela.
Sam olhou para o Camaro de Natalie a alguns metros e lembrou:
– Só tem um problema. Eu não posso deixar aquele carro aqui. Eu preciso devolvê-lo para a dona. E se nós não vamos mais voltar...
– Pra te dizer a verdade, eu ainda não entendi como a Natalie te emprestou aquele carro. — confessou Claire enquanto pegava uma corrente no porta-malas — Ela tem uma verdadeira devoção por aquele carro. Acredita que ela o chama de “meu bebê”?
Sam franziu a testa lembrando de alguém que ele conhecia muito bem e que também tinha aquele estranho hábito de tratar o carro como uma pessoa, e quis confirmar:
– Sério?
– Pois é. — assentiu Claire lhe entregando a corrente e em seguida, orientou — Coloque isso no Camaro e depois no meu carro.
– Eu acho que eu posso dirigir o carro da Natalie e você vai com o seu. — sugeriu ele sem querer ficar muito próximo da garota.
– Você dirigiu um dia inteiro e dormiu no meu sofá. E algo me diz que ainda está cansado. — argumentou Claire. — Deixa que eu dirijo por nós dois. Depois nós revezamos. Por favor. — e como ele permaneceu em silêncio e visivelmente relutante, ela brincou — A não ser que você não queira a minha companhia.
– Não, não é isso! — respondeu Sam prontamente e após pensar um pouco, concordou por fim — Ok. Você venceu. Você dirige primeiro.
Em seguida ele se afastou e colocou a corrente no pára-choque do Camaro. Depois voltou e colocou a outra extremidade na parte traseira da Pajero. Instantes depois, ele e Claire entraram no carro dela e ela deu partida levando o carro de Natalie com aquele tipo de guincho improvisado.
Enquanto isso, Natalie entrou no Impala e Dean também deu partida. Alguns metros adiante, e depois de olhar discretamente para o caçador várias vezes procurando uma forma e até coragem para dizer aquilo, a loira resolveu confidenciar uma coisa, mas evitou olhar para ele quando contou:
– Meus pais foram mortos por um demônio.
– O quê? — indagou Dean sem entender direito por que Natalie tinha dito aquilo e sem ter certeza de que tinha ouvido direito.
Então ela respirou fundo tentando não pensar nas dolorosas lembranças que aquilo lhe trazia e olhou para Dean antes de explicar:
– Um demônio matou os meus pais há vinte anos. Foi por isso, por causa deles, que eu me tornei caçadora.
Após alguns instantes pensando sobre aquilo, Dean indagou:
– E por que você está me contando isso?
– Porque você perguntou, idiota. Ontem. — lembrou Natalie.
Por mais que tivesse ficado com vontade de perguntar mais sobre o passado de Natalie, Dean resolveu se calar. A verdade, é que não entendia por que ela resolveu lhe contar aquilo. O que tinha mudado de ontem para hoje entre eles? Será que depois dele ter pedido desculpas formais, agora ela estava pensando que os dois podiam ser amigos? Ou será que ela só quis contar por que percebeu que ele não é o idiota que havia imaginado?
De qualquer forma, Dean não estava pronto para aquela proximidade que podia nascer, caso ele fizesse mais perguntas para Natalie. Preferia que ela continuasse achando que ele era um idiota e preferia continuar a achando insuportável. Então se limitou a dizer com sinceridade:
– Eu sinto muito.
– Não sinta. — tranquilizou Natalie e em seguida, acrescentou — Eu mandei o son of a bitch para o Inferno há alguns anos com a ajuda de outro caçador. Seu nome era Bobby Singer. Eu ouvi dizer que ele morreu há pouco tempo. É uma pena. Ele era um bom caçador.
Ao ouvir aquele nome, Dean ficou sobressaltado e olhou para a Natalie surpreso e até assustado com o que tinha ouvido. Ela havia dito mesmo “Bobby Singer”? O mesmo Bobby Singer que ele e Sam conheceram? Aquele que era como um pai para eles e que foi morto por um leviatã?
Natalie olhou para Dean percebendo que ele havia ficado surpreso demais com o que ela havia contado, mas não quis perguntar por que ele teve aquela reação. Não queria que Dean pensasse que ela estava tentando se aproximar dele de alguma forma. Não queria fazer perguntas. Não queria respostas. Não queria conversar. Não queria nenhuma proximidade em relação à Dean Winchester. Ele era um idiota. Ainda não entendia por que tinha lhe confidenciado aquilo...
Então, ela manteve os olhos na paisagem da janela e Dean voltou a se concentrar na direção. Os dois eram orgulhosos demais para admitirem que queriam falar um com o outro.
Algum tempo depois, Claire e Sam chegaram ao Hospital Central de St. Louis. Ela parou os carros no estacionamento e ficou alguns instantes imóvel pensando. Não tinha certeza se Sam entenderia o que ela tinha a dizer. E não tinha certeza se ia aguentar ver a sua mãe naquela situação de novo.
Toda vez que Claire ia visitar a mãe, ela ficava profundamente triste. Mas pelo menos agora, ela tinha uma esperança real de que poderia reverter o quadro de saúde da mãe. Sam Winchester ia levar Claire até o anjo que ela tanto procurava.
– Por que nós viemos para um hospital? — perguntou Sam fazendo Claire voltar a si.
Então ela voltou-se para ele e respondeu:
– Porque é aqui está a verdade sobre mim, Sam. O motivo pelo qual eu preciso encontrar Ezekiel. — e após abrir a porta do carro, o chamou — Venha. Eu vou te mostrar.
Instantes depois, os dois observavam uma paciente na UTI pela janela de vidro que separava o quarto do corredor.
– Quem é ela? — começou Sam.
– Minha mãe. — contou Claire.
– E... Como ela veio parar aqui? O que aconteceu? — perguntou ele com cautela.
Claire não sabia como começar a contar aquilo, já que da última que disse para alguém que a sua mãe havia sido possuída por um demônio, acabou ouvindo de David que ela estava completamente doida. De qualquer forma, resolveu dizer de uma vez:
– Ela foi possuída por um demônio.
Após absorver aquela informação, Sam perguntou:
– Quando?
Claire olhou para Sam um pouco surpresa com a naturalidade com que ele perguntou aquilo. Em seguida lembrou que diferente de David, Sam conhecia o sobrenatural. Mais do que isso, ele era um caçador. Mesmo assim, ela sorriu e repetiu:
– Quando?
– Algum problema com a pergunta? — estranhou ele e em seguida, explicou — Desculpe, Claire, mas para te ajudar, eu preciso saber de tudo, cada detalhe...
– Não tem nada de errado com a pergunta, Sam. — interrompeu Claire e após alguns instantes o observando, sorriu levemente e admitiu um pouco sem graça — É só que... Eu queria... Ter te conhecido antes.
Em seguida, ela voltou a observar a mãe deitada naquela cama de hospital e evitou olhar para Sam, embora tenha sentindo o olhar dele sobre ela. Isso fez o rosto de Claire ficar um pouco vermelho. A verdade é que ela não entendia por que tinha dito aquilo, muito menos por que tinha ficado tão sem graça. Se convenceu de que só estava tentando ser gentil com ele.
E a verdade é que Sam queria lhe dizer a mesma coisa. Ou até insinuar que talvez eles já se conhecessem e que, portanto, ela não precisava dizer que queria ter o conhecido antes. Mas achou que dizer isso, soaria como uma cantada. E Sam estava convencido de que não estava interessado em Claire.
– Então... Como aconteceu exatamente? — retomou ele.
Claire pensou um pouco. Não sabia como ser direta sobre aquele assunto. Era difícil contar aquelas coisas. Então resolveu, começar do princípio e perguntou:
– Sam, você conheceu o seu pai?
O Winchester olhou para a garota que mantinha os olhos na paciente na UTI e mesmo sem entender o que aquela pergunta tinha a ver com o que ele queria saber, respondeu:
– Sim.
– E como ele era? — continuou ela.
Sam pensou um pouco. Falar sobre o pai não era uma coisa muito fácil pra ele. A verdade é que Sam ainda sentia remorso por ter brigado tanto com John enquanto ele era vivo e por não ter tido tempo de dizer que o amava independente de qualquer coisa. Pensando nisso, ele tentou responder da melhor forma possível:
– A verdade é que eu passei a maior parte da minha vida, batendo de frente com o meu pai. Eu acho que com isso... Eu acabei perdendo a oportunidade de conhecê-lo de fato. Com certeza o Dean saberia responder essa pergunta melhor do que eu, mas o que eu posso dizer é que o nosso pai era... Um grande homem. O melhor caçador que já existiu. E que ele tentou ser o melhor pai para nós dois.
Claire olhou para Sam por alguns instantes. Sorriu levemente ao perceber como era difícil para ele falar do próprio pai, mas, ao mesmo tempo, havia ficado tocada pela honestidade daquelas palavras. Pelo visto, os dois tinham algo em comum porque ela também não se sentia confortável para falar do próprio pai. Mas por um motivo bem diferente. Então ela voltou a olhar para a sua mãe na cama e continuou:
– Bem, eu nunca conheci o meu pai.
Sam esperou que Claire prosseguisse, mas como ela permaneceu em silêncio, ele repetiu:
– Nunca?
Claire pensou mais um pouco e em seguida, prosseguiu:
– Nunca. Minha mãe dizia que estava tentando me proteger. Me proteger da vida que ele levava. Ela dizia que não queria que eu fosse criada daquela forma. E que era melhor ele não saber que tinha uma filha porque se ele soubesse, outras coisas saberiam também e viriam atrás de mim. E me machucariam para atingí-lo. E ela tinha muito medo que isso acontecesse. — e após uma breve pausa, Claire revelou por fim — Sam... Meu pai, assim como o seu, era um caçador.
Ao ouvir isso, Sam ficou visivelmente surpreso. Mas, ao mesmo tempo, isso explicava o que Claire tinha dito no dia anterior, sobre não ter tido sorte com um caçador. Era do próprio pai que ela estava falando.
Ainda mais curioso em relação àquilo tudo, ele perguntou:
– Como a sua mãe se envolveu com ele?
– Bem, ela era muito jovem, morava numa fazenda no Texas, e algumas coisas começaram a acontecer por lá. Tempestades elétricas, pragas, gado mutilado...
– Demônios. — deduziu Sam.
Claire sorriu levemente. Apesar daquela situação toda e de ser doloroso falar sobre certas coisas, era engraçado conversar com um caçador. Parecia que nada impressionava Sam.
Automaticamente, Claire lembrou de quantas vezes ela quis dizer aquelas coisas para alguém e teve medo de não ser compreendida. Ou de ser vista como uma doida, como David mesmo a chamou na noite anterior. E no entanto, lá estava Sam Winchester. Ouvindo atentamente cada detalhe que ela contava e encarando tudo com uma naturalidade absurda.
Em seguida, Claire afastou esses pensamentos e voltou a si. É claro que Sam encarava aquilo naturalmente. Ele era um caçador.
– Sim, demônios. — confirmou ela e após uma pausa, continuou — E então esse cara apareceu por lá. Exorcizou todos os demônios que tinham possuído alguns moradores e depois foi embora. Não sem antes se envolver com a minha mãe. E... Dormir com ela. Uma única vez, segundo ela. E aqui estou eu.
Sam pensou um pouco enquanto olhava para a mãe de Claire e então deduziu:
– Um daqueles demônios que o... Seu pai exorcizou voltou e fez isso com a sua mãe, não foi?
– Sim. E tudo... Por minha culpa... — disse Claire com dificuldade.
– Como assim? — não entendeu Sam.
Claire olhou mais uma vez para a mãe em coma e esclareceu:
– Durante toda a minha infância, adolescência... Por anos, eu implorei para que a minha mãe me contasse quem era o meu pai. Que me dissesse pelo menos o nome dele e eu mesma iria descobrir onde ele estava, se estava vivo, morto, mas... Ela sempre se recusou a me dizer. Até quatro meses atrás, quando eu fiquei noiva. Então, nós duas tivemos uma briga porque eu queria saber a todo custo quem era o meu pai. Porque eu não queria entrar sozinha na igreja. E então ela finalmente me disse o nome dele.
Sam olhou para a mão direita de Claire, notou que ela não usava nenhuma aliança e decidiu não tocar naquele assunto. Ao invés disso, perguntou:
– E o que você fez depois?
– Eu comecei a procurá-lo. Para isso, eu larguei o meu emprego, minha vida, minha casa, saí da cidade e fui atrás dele. Atrás de qualquer pista sobre ele. Mas quanto mais eu procurava pelo meu pai, mais eu descobria coisas sobre o seu passado, sobre o seu trabalho, sobre as coisas que ele fazia e sobre as coisas que ele matou. — Claire parou um pouco de falar ao lembrar de como aquelas coisas a assustaram na época e em seguida, continuou com muita dificuldade e sentindo muita culpa pelo que havia acontecido com a sua mãe — Até que uma dessas coisas me achou. Um demônio que ele tinha exorcizado quando conheceu a minha mãe. E então... Ele veio atrás de mim. Mas naquela noite... Eu não estava em casa. Minha mãe estava. Então ele a possuiu e a deixou assim... Em coma.
– Eu sinto muito. — lamentou Sam e em seguida perguntou — E quem fez o exorcismo da sua mãe?
– Enquanto eu estava na estrada procurando meu pai biológico, eu conheci alguns caçadores. E quando eu percebi que a minha mãe estava possuída, eu liguei para um deles. Garth. Ele não pode vir, mas mandou uma pessoa de confiança. Foi assim que eu conhecia a Natalie. — revelou Claire.
Sam ficou visivelmente surpreso. Por saber como Natalie e Claire se conheceram, mas principalmente por descobrir que Claire conhecia Garth. Lembrou da sensação de déjà vu que sentia em relação à garota e ficou se perguntando se em algum momento, Garth lhe falou sobre ela. Mas em seguida, afastou esta hipótese. Algo lhe dizia que não tinha sido daquela forma. Então resolveu continuar a conversa:
– Então Natalie fez o exorcismo, mas o demônio já tinha...
– Feito um estrago na minha mãe? Sim. Eu ouvi dizer que muita gente não sobrevive ao exorcismo. Então pode-se dizer que, de certa forma, a minha mãe teve... Sorte. — completou Claire e após lembrar daquela noite em que Natalie desenhou a armadilha do diabo no seu quarto e amarrou a sua mãe em uma cadeira no centro dela, continuou — A Natalie não teve culpa, eu sei disso. Mas desde então, ela vem tentando me ajudar porque no fundo ela se sente culpada pelo que aconteceu.
Após pensar um pouco sobre as coisas que tinha ouvido, Sam quis entender:
– E o que isso tudo tem a ver com Ezekiel?
Então Claire lembrou da noite em que sofreu o acidente de carro, de Ezekiel caindo do céu no meio da estrada, daquela luz cegante em volta do anjo, dele arrancando a porta do seu carro e curando a sua perna e respondeu:
– Há alguns meses, eu estava saindo daqui... Atordoada, na verdade, e eu sofri um acidente. Eu desviei de um anjo na estrada e acabei capotando o carro. O anjo, como você já deve ter deduzido, era ele. Ezekiel. Então, ele me curou, Sam, de todos os ferimentos e depois... Simplesmente foi embora. É por isso que eu preciso encontrá-lo. Se ele fez aquilo por mim, quem sabe ele pode fazer o mesmo pela minha mãe?
Sam olhou para Claire com certa compaixão. Não queria desanimá-la, mas a maioria dos anjos, pelo menos a maioria que ele conheceu, não se importava muito com as pessoas. E por mais que Ezekiel tivesse ajudado a garota, o anjo estava apenas arrumando a bagunça que ele mesmo causou ao provocar o acidente. No entanto, Sam não teve coragem de dizer essas coisas para Claire. Ao invés disso, a olhou nos olhos e prometeu:
– Eu vou te ajudar a encontrar Ezekiel.
– Obrigada. — agradeceu a garota com uma mistura de alívio e de tristeza pelas coisas que ela havia contado.
Em seguida, Claire olhou a mãe mais uma vez pelo vidro e começou a se afastar. Foi então que tomado por uma curiosidade aparentemente sem explicação, Sam perguntou:
– Claire... Qual era o nome do seu pai?
A garota se virou parando no corredor e olhou para ele um pouco confusa. Não entendia por que aquele detalhe era importante, mas se ela já havia contado coisas bem mais relevantes para Sam, um detalhe a mais, um detalhe a menos, não faria diferença, certo?
Então o observou por mais alguns instantes e respondeu por fim:
– Bobby Singer.
Sam não saberia dizer por quanto tempo ficou parado ali olhando para Claire e sem conseguir esboçar qualquer reação. Aquela revelação o pegou completamente desprevenido. Nunca imaginaria, nem mesmo nos seus pensamentos mais malucos, que aquela garota há poucos metros dele tinha o sangue do Bobby correndo nas veias. Chegou a pensar que talvez tivesse entendido errado, mas descartou essa ideia logo em seguida. Havia entendido perfeitamente bem. Claire tinha mesmo dito, em alto e bom tom, aquele nome. Bobby Singer. E isso intensificou ainda mais aquela sensação estranha que Sam tinha em relação à garota. Seu rosto familiar, o fato dela conhecer Garth e agora ela era filha do cara que foi um segundo pai para ele e Dean?
Sam ainda assimilava aquela informação, quando Claire disse:
– Sabe o que é mais irônico? Eu deixei a minha vida pra trás pra procurá-lo, eu causei todo esse sofrimento pra minha mãe, eu joguei um relacionamento no lixo, para no fim descobrir que o meu pai... Morreu há dois anos. Foi tudo em vão, Sam. Eu nunca consegui encontrá-lo. Eu nunca vou saber que tipo de homem ele foi. Se nós éramos parecidos... É tarde demais pra isso.
Automaticamente, Sam lembrou de Garth. Pelo visto, Claire não tinha mencionado aquele nome para ele quando o conheceu. Não. Com certeza, Claire devia ter dito. Afinal, como se procura alguém sem dizer o nome para a outra pessoa? Mas então por que Garth não mencionou nada para ela? Por que ele não contou nada para a garota? Por que deixou ela sem saber quem o pai havia sido? A única coisa que Claire parecia saber era que Bobby havia sido um caçador que morreu há dois anos. Apenas isso. Por que Garth não contou para Claire que conheceu o pai dela? Será que tinha contado? E por que não mencionou nada para ele ou para Dean? Era difícil entender o que se passava na cabeça de Garth, mas por algum motivo que Sam não entendia direito, talvez pelo choque que aquela notícia lhe causou, ele também preferiu não dizer nada para Claire naquele momento. Pelo menos, não até conseguir falar com Garth e descobrir o que ele sabia exatamente sobre aquilo e se tinha dito algo mais para Claire. E precisava ligar para Dean também. Precisava contar aquilo, dividir aquela revelação com alguém ou acabaria enlouquecendo.
– Você está bem? — estranhou Claire ao notar que Sam estava um pouco pálido.
Só então ele saiu daquele estado de choque e desconversou:
– Acho que eu preciso de um pouco de água.
Claire sorriu e encerrou:
– Ok. Eu te espero no carro.
Sam viu Claire se afastar, mas ainda ficou algum tempo parado sem conseguir se mexer.
Claire Davis era filha de Bobby Singer...
Quando finalmente conseguiu se recuperar por completo, ele tentou ligar para Garth e para Dean enquanto andava de um lado pro outro no corredor do hospital. No entanto, ambos os celulares caíram na Caixa Postal.
Queria ir até o estacionamento, mas ao mesmo tempo, não sabia se iria conseguir agir naturalmente perto de Claire depois do que ela havia contado. E ficou pensando se em algum momento ela não iria soltar um "Idjit" ou "Balls" como o pai dela costumava fazer. O pai dela. Bobby Singer.
Ao pensar nisso, Sam teve certeza de que Bobby nunca soube que tinha uma filha. Com certeza teria mencionado alguma coisa em algum momento. E isso tudo era uma pena porque Sam também tinha certeza de que Bobby ia gostar de saber daquilo. Ia ficar bem mais chocado do que ele, mas ia gostar da notícia. Bobby, o Bobby que ele e Dean conheceram, com toda aquela sua rabugice típica, era o pai de uma garota meiga, bonita, delicada, inteligente, charmosa...
Sam balançou a cabeça sem entender por que estava usando tantos elogios para se referir a Claire. Era só uma garota. Em seguida, resolveu fazer um grande esforço para agir naturalmente e por fim foi até o estacionamento.
Algum tempo depois e após um longo momento de silêncio enquanto Claire dirigia, Sam resolveu fingir que tinha dormido. Mas a sua cabeça estava a mil pra ele conseguir dormir de verdade.
Ele não saiu do carro quando Claire parou para almoçar, e só saiu para jantar porque estava com muita fome. Mas passou a viagem inteira em silêncio. Em alguns momentos mexeu no notebook. Tudo o que ele queria era chegar logo em algum hotel para poder ligar para Garth ou Dean sem que Claire percebesse.
Enquanto isso, Natalie começou a fechar os olhos sem perceber enquanto Dean continuava dirigindo o Impala. Passava das dez horas da noite. De repente, Dean sentiu um leve peso sobre o seu ombro e inclinou um pouco a cabeça para ver o que era. E percebeu que era Natalie encostando a cabeça nele enquanto cochilava.
A princípio, ele pensou em sacudir o ombro para afastá-la dali imediatamente, mas, sem entender por que, resolveu deixar pra lá. Em seguida, lembrou da história que Natalie havia contato, sobre o que a levou para aquela vida de caçar coisas e o nome conhecido que ela mencionou: Bobby Singer.
Em seguida, começou a pensar que, de certa forma, Sam estava certo. Ele e Natalie eram um pouco parecidos. Os pais dela tinham sido mortos por demônios, assim como os seus. E ao imaginar por tudo que Natalie devia ter passado até chegar ali, no seu ombro, Dean sentiu certa compaixão por ela.
De repente, ao passar por um buraco na estrada, o Impala balançou um pouco e Natalie abriu os olhos. Ao perceber que tinha dormido no ombro de Dean, ela se afastou rapidamente. Sentiu que seu rosto estava ficando vermelho e olhou pela janela para que Dean não percebesse. Ele achou divertido o constrangimento dela e sorriu levemente antes de dizer:
– Não se preocupe. Sua cabeça é leve. Deve ser porque só tem vento aí dentro.
Natalie sorriu com sarcasmo e resmungou:
– Hilário.
– Ei! Por que seu rosto está vermelho? — observou ele e em seguida, provocou — Humm... Parece que alguém ficou com vergonha.
– Eu só... Estou com calor... — gaguejou ela e em seguida abriu um pouco janela — Essa lata velha esquenta, sabia? — provocou Natalie.
– Não fala assim do meu bebê! — reclamou Dean.
Ao ouvir a forma como Dean se referiu ao Impala, Natalie franziu a testa e pediu irritada:
– Dá pra parar de me imitar, por favor.
– Como é? — não entendeu ele.
– Primeiro Awesome, depois meu toque de celular, e agora você vai ficar chamando essa lata velha de "meu bebê"? — explicou ela.
– Eu sempre chamei o meu bebê de meu bebê. — esclareceu Dean.
– Ah... Sério? — duvidou Natalie.
– Sério. — afirmou Dean e em seguida, acrescentou — Se tem alguém imitando outro alguém aqui, essa pessoa é você. Você está me imitando, Natalie Jones! E convenhamos, é uma péssima imitação.
– Por que eu imitaria alguém idiota como você? — indagou ela.
– Das duas uma: ou você quer parecer uma idiota também ou você não me acha tão idiota assim. De qualquer forma, no fundo você quer ser igual a mim. — sugeriu ele deixando Natalie sem reação por alguns instantes.
– Desta vez, você se superou, Dean. Esta foi a coisa mais idiota que eu já ouvi na minha vida inteira. E acredite, eu já ouvi muita coisa idiota por aí. — debochou Natalie depois de algum tempo digerindo o que tinha ouvido. E enquanto abria a bolsa e pegava o celular e o fone, encerrou — Bem, antes que você venha com mais uma teoria absurda, do tipo "nós somos parecidos", eu vou ouvir a única coisa que me acalma nessas horas: Led Zeppelin. Com licença, Sr. Awesome.
Natalie colocou os fones nos ouvidos, encostou a cabeça no banco e fechou os olhos enquanto Dean a olhava intrigado. Talvez Sam estivesse mesmo certo.
Em St. Louis, David saiu de dentro da casa de Claire e caminhou pelo jardim até entrar em um carro estacionado ali. Então, ele sentou ao lado de Abaddon e a olhou por alguns instantes antes de responder:
– Ela não está mais aqui.
Abaddon ficou visivelmente irritada e frustrada com aquela notícia enquanto David continuava a encarando com um olhar estático e vazio.
Isso porque ele não tinha mais controle sobre si mesmo desde a noite anterior, quando a ruiva o abordou naquele bar. Lá, Abaddon havia lhe passado um pouco da sua essência, o obrigando assim a fazer tudo que ela ordenasse que ele fizesse.
No entanto, a ruiva tinha mais planos para David do que simplesmente controlá-lo daquela forma. Na verdade, ela estava reservando o rapaz para outro alguém. Para outro demônio. Tão poderoso quanto ela. Alguém de sua família.
– Pra onde aquela vadiazinha foi? — se perguntou ela e em seguida olhou para David e sentiu algo nele. Algo que ele trouxe quando saiu da casa. Algo que estava impregnado nele. Então, os olhos de Abaddon ficaram negros de repente e ela disse com ódio — Eu sinto cheiro de Winchester.
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