O dia seguinte foi estranho, quero dizer, eu não queria ir para o quarto para acontecer aquilo, mas sim para conversar..

Agora definitivamente eu seria gay? Não sei, não me sinto assim, mas tudo ocorreria bem se eu estivesse com a Valéria.

O sinal bateu. Como sempre, tive de ir correndo para a sala. Não vi a Bárbara em lugar nenhum do colégio. Enquanto a professora se preocupava em explicar matemática eu me preocupava com o que tinha acontecido com a Bárbara, então comecei a falar por bilhetinhos com a Fernanda e com a Vale.

Elas não me responderam, só abaixaram a cabeça em sinal de negação. Mesmo assim, mandei outro bilhete, agora só para a Vale, pedindo para me encontrar depois da aula no ginásio — o lugar onde tudo aquilo tinha começado, e não por minha vontade.

Ao tocar as cinco horas, fui direto conversar com ela.

- O que realmente aconteceu ontem, Valéria? Quero dizer, eu não queria isso para a minha vida, eu gosto de você, sim, mas quero ir por partes!

- Pessoas fracas para a bebida acabam fazendo isso... Apesar de você não achar estar bêbada, e eu também não. É, sou uma negação em bebidas...

- Não tem graça. Eu não queria aquilo.

- Então suponho que agora teremos de nos casar!

Isso era tão natural para ela, mas muito estranho para mim. Afinal, o que eu deveria fazer?

- Suponho que devamos ir por partes, como por exemplo, namorar.

Foi a única ideia que surgiu em minha mente. Se namorasse com ela, estaria segura de mim mesma e quase feliz.

- Antes disso ainda vem o ficar Kate!

- Então combinado, estamos ficando.

Pela primeira vez consegui rir quanto a esse assunto, e se não fosse pelo mero detalhe de que minha mãe e meu pai iriam me matar e ver Bárbara infeliz, eu seria a pessoa mais alegre do mundo todo.

Suspirei.

- Você sabe que isso não vai ser nada fácil, não é?

- Sim, eu sei.. Mas vamos passar por cima dessa situação.

- É.

- Ontem eu conversei com a Bárbara, e disse que eu iria propor algo mais sério.. Sabe a quanto tempo gosto desse jeito de você?

- Não faço ideia. Err, mas agora preciso ir para casa. Mesmo.

- Tudo bem.

Nos despedimos, e agora eu poderia ir para casa e pensar, Pensar muito em o que eu poderia fazer, como agir, e no que está acontecendo.

Fui com a minha bicicleta (recuperada pela Valéria, que levou até a minha casa no fim das férias), fui até o porão da casa abandonada, mas que na verdade, naquele momento, servia de conforto e lágrimas para alguém.

Entrando naquela sala minúscula, vi de quem se tratava. Era Bárbara.

Ao tentar consolá-la, percebi que estando ali só pioraria a sua situação. Mas eu tinha de perguntar:

- Você gostava mesmo da Valéria, não é?

- Gostava. Mas não é por isso que estou assim. Kate, é por você! É você quem eu realmente amo. E só por isso me afastei.

O quê? Não consigo entender mais nada. Valéria gosta de mim, e eu gosto dela. Bárbara diz que me ama, mas para mim é só amizade. Me confundo com uma das amigas que diz não ser lésbica como as outras, e ainda tem um outro casal de amigas da Bárbara que estão juntas a tempo. É isso?

- Olha, isso é muita coisa para mim. Vou para casa, vai ficar aí?

- Vou. Preciso repensar tudo.

Enquanto pedalava até a casa do meu pai, pensei em como tudo era confuso. E qual ou quais pessoas iriam ficar machucadas com aquilo. E se eu me afastasse? Não quero, mas preciso.

Abrindo a porta da frente, logo percebi, obviamente, que meu pai não estava em casa. Pensei tê-lo visto em um bar próximo, mas nem me importei. Fiz minhas tarefas, o meu macarrão instantâneo, e recaptulei todas as últimas semanas.

Decidi sair sozinha de casa, ir para o shopping encontrar velhos amigos. Estavam lá Tom, Jade e Teresa. Éramos uma trupe no colegial!

- Ei, Tom! Posso andar com vocês?

- Achei que só andasse com as garotas agora..

- É, bem, estou um pouco confusa quanto a isso, então resolvi me afastar.

- Hum, ótimo.. Vem, agente vai no cinema! Foi só o que Jade respondeu.

Teresa estava distante, sempre olhando para o nada. Então me lembrei o porque daquilo.. Era óbvio, Tom gostava de mim na oitava série, e a Teresa, na mesma época, morreria por ele. Será que eles estavam namorando? Então, sussurrei para Jade:

- Desculpe a intromição, mas eles estão namorando?

- Quem? Tom e Teresa?

Fiz sinal que sim. Ela riu.

- Estão praticamente casados, você tem que ver!

A noite foi tranquila, sem preocupações. Encontrei com Gabriela e Fernanda, e como já estava sozinha, deixada por meus companheiros, resolvi continuar a noite com as garotas a minha frente.

Fomos na estação de trem, uma dupla de hippies tocando violão perto. Um longo passeio, com a brisa a tocar em meu pescoço pela força que levantava meu cabelo. Foi muito bom ter esse tempo, e somente relaxar por uns instantes, não pensar em absolutamente nada.