Recomeçar
3 Sentimento
Eu a conhecia desde a maternidade praticamente, mas nunca havia visto ela assim. Jamais havia a olhado com aqueles olhos, nem mesmo depois de mudar tanto do ginásio ao Ensino Médio.
Conforme eu e Vale andávamos às margens do rio Jaraguá, percebi que pela primeira vez não reparava em outras pessoas, não tinha que olhar a quem me agradava ou não. Eu só conseguia olhar para ela.
Senti ela desconfortável, mas se acostumando aos meus olhares. E ela também me observava de um modo estranhamente familiar. Como costumeiramente os garotos me olhavam.
Um arrepio invadiu a minha espinha, e de repente parei de correr. \"Me faltou ar!\" Gritei à garota ainda correndo que me dava forças e me estimulava a continuar. Eu me esqueci de respirar?
No dia seguinte, quando saí da casa dela e fui tomar um banho e relaxar um pouco em casa, isso numa quinta-feira — ótimo, dia de dormir na casa da mamãe — Olhares tortos me seguiam, mas hesitei em olhar para alguém. Para a minha surpresa, Vale me esperava na frente do armário da escola. Abrindo um sorriso sincero e alegre, me deu a notícia:
- Vou estudar com você! Isso não é o máximo? Podemos nos ver todos os dias, estou em todas as suas aulas, e aproveitando as carteiras podemos sentar juntas!
- Ótimo! Falei com uma voz amargurada, e o sorriso dela se transformou em dúvida.
- O que você tem? Ela falou com uma voz de pena e decepção, como um cachorro abandonado.
- Nada. Dia de dormir na casa da mamãe.
- Ah! Era só o que ela poderia exclamar.. E eu não queria confundi-la com meus sentimentos estranhos, ainda mais sem nem saber direito por quem eu parecia estar me apaixonando.
Fomos o mais rápido o possível para a sala, chegando atrasadas pelo simples fato da extensão e do horário em que as aulas começavam. Caramba, como aquela escola era grande!
O Sr. Smith nos comprimentou, mas nos recusou a dar licença para sentar, com a cara carrancuda de um típico diretor de colégio, nos convidou a esperar ao terceiro sinal, depois do lanche. Eu teria uma oportunidade de falar com ela, mas ao mesmo tempo me sentia confusa e distante e não sabia o que dizer.
Estávamos andando, conversando simplismente sobre o filme assistido na noite anterior, \"Espelhos do Medo\", e então aconteceu.
Eu simplismente como de costume consegui cair do nada, mas alguém me segurou, e era ela. Pelo meu peso comparado ao dela não conseguiu, tentando me erguer sem sucesso.
Senti meu corpo inteiro tremer, e minhas bochechas como se estivessem inchando. Sei que ela percebeu. Não me surpreendeu ninguém aparecer, e só estávamos nós. A sós.
E pela segunda vez senti atração por ela, e ela parecia a única coisa a qual eu poderia... Talvez amar.
Tentei perguntar para ela o que eu queria saber. Se tinha namorado, namorada, talvez algué que gostasse... E se gostava de mim.
Sabia perfeitamente que não iria perguntar assim, na lata, mas do mesmo não consegui perguntar nada, porque o sinal tocou. Hora de encarar o mar de leões.
Indo para o corredor, sem acreditar, percebi ao colocar minhas mãos ao canguru de meu casaco, que ela colocou algo em meu bolso durante o tombo. Pensei provavelmente ser algo meu que tivesse caído pelo desastravel tombo, mas era algo dela. Era uma carta.
Não falei nada, nem olhei para o seu rosto, mas sabia que sorria. Sem querer, só pela visão periférica. Se fosse, não queria que acontecesse tão rápido. Queria desfrutar a cada instante, todos os momentos, a amizade e somente depois o amor de cônjuge.
Estava sonhando! Eu não sabia o que era, não abri a carta, e não quero criar falsas expectavivas. Não tinha um histórico com meninas, mas também não muito com meninos. Na verdade, me isolava.
E agora eu queria aparecer. Só para ela.
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