Recomeçar
9 Capítulo 9
Notas iniciais
— Emma...
— Regina...
As duas mulheres sussurram o nome uma da outra, ao mesmo tempo. O choque da realidade vindo com tudo.
Surpresas e assustadas olharam-se para si mesmas, para suas vestes, para o local onde estavam, os vidrinhos, agora vazios, da poção que tomaram, descansando em suas mãos, e as alianças de ouro, brilhando no dedo anelar de cada uma.
Regina foi a primeira a olhar para o corpo de Emma, apenas com o casaco do moletom que ela tanto gosta, e a calcinha de renda preta, bem visível aos seus olhos. Depois foi a vez de Emma analisar o corpo da outra, coberto por uma camisola um pouco transparente, e bastante curta. Era possível ver os seios da morena.
Mills, ao notar os olhares da loira em cima do seu corpo, levantou-se rapidamente, ficando de costas.
— Eu... Eu vou... Vou trocar de roupa. — E correu para o banheiro, deixando uma Emma perdida em pensamentos, com o que vira. Não como se nunca tivera visto antes. Já havia visto tantas vezes, que tinham decorado cada traço daquele corpo que gostou por tanto tempo, e tinha que admitir, ainda gostava. Mas era diferente olhar para ele agora, que tinha as memórias de quem era de verdade, de volta.
Acordando para a realidade, Emma também se levantou e foi até o guarda-roupa. Apesar de não se importar em ficar apenas de calcinha, até porque não seria a primeira vez que Regina a veria assim, ela precisava vestir algo, pois sabia que a morena iria ficar constrangida se a visse com pouca peça de roupa, cobrindo-a.
Abrindo sua gaveta de roupas íntimas, procurou por um short, mas desistiu logo que sentiu o vento frio bater em suas pernas desnudas. Então, acabou optando por pegar a sua calça do moletom, que estava jogado ao pé da cama, obra de sua ainda esposa, horas atrás, e vestir.
Quando voltou a sentar na cama, para esperar pela outra, ela sai do banheiro, agora usando um robe prata, e um pouco menos envergonhada. Ela olhou para a loira, que também lhe olhava, esperando que dissesse alguma coisa, e seguiu para a janela, observando o céu ainda escuro, mas agora com poucas estrelas.
— Regina... — Murmurou, movimentando-se na cama.
— Como foi que isso aconteceu? — Indagou mais para si do que para a outra, apoiando-se no batente.
— Você está arrependida de ter se casado comigo? — Indagou hesitante, realmente temendo a resposta. Já estava sendo triste demais, ter se lembrado de toda a verdade. Não queria ter que ouvir da outra, que se arrependia de tudo que viveram juntas, antes das lembranças.
— Eu não quero falar sobre isso agora... — Respondeu-lhe baixo. Sua respiração entrecortada. Estava nervosa com toda a situação. Não. Ela não se arrependia de ter se casado com Emma. Tudo que viveu foi montado em uma mentira, mas os sentimentos foram, e ainda são reais. Sempre foram. — Precisamos decidir o que vamos fazer agora... — Virou-se lentamente, mas sem encarar os olhos verdes, que lhe observavam atentamente. — Precisamos conversar com Gold e saber tudo que está acontecendo... Precisamos decidir quando vamos voltar...
— Você quer voltar? — Interrompeu-a, chamando assim, sua atenção para si.
— Nossa família e amigos estão em perigo... Precisamos voltar...
— Você quer voltar? — Voltou a indagar, agora num tom mais firme.
— Eu... Eu não sei... — Respondeu, entendendo o sentido da pergunta. Tapou o rosto com as duas mãos e respirou fundo. Não queria voltar a ter a vida que tinha antes de tudo acontecer. Estava feliz com o trabalho que tinha, com os amigos que conquistara, e com a sua família. Mesmo o último item já existindo em Storybrooke, não era a mesma coisa. Ela não queria que voltasse a ser como antes. Não queria voltar a morar sozinha na enorme mansão, tendo apenas visitas regulares de seu filho. Ela queria continuar tendo sua família, sendo como era atualmente. Como vinha sendo nos últimos meses.
Em silêncio, enquanto Regina travava uma batalha interna, Emma se aproximou da mesma, e lhe abraçou, na tentativa de lhe confortar e ajudar.
— Emma... — Murmurou, ainda com o rosto tapado. — Nós não...
— Desculpe-me... Por um momento eu me esqueci da nossa realidade. — Devagar, retirou seus braços da cintura da morena, afastando-se dela logo em seguida.
— São muitas coisas para pensar, para decidir... — Balançou a cabeça de um lado para o outro, e seguiu em direção à saída do quarto. Emma observou-a sair, e seguiu-a logo depois, encontrando-a parada em frente ao quarto de Henry, que hoje, havia dormido com a porta aberta. Ela olhava para dentro do cômodo com um sorriso emocionado, e os olhos marejados. Devagar, Swan aproximou-se dela, parando ao seu lado. — Precisamos contar a ele... Chega de mentiras... Não quero esconder nada... — Emma assentiu em concordância. — Ele merece saber a verdade.
— Vamos primeiro decidir o que fazer... — A morena assentiu, ainda observando o menino, que dormia tranquilamente, com o abajur aceso, e o celular tocando uma playlist suave, para dormir. — Amanhã resolvemos essa situação... Vamos dormir, precisamos descansar... — Coçou o pescoço, sentindo o rosto queimar. Imagens vindas em flash, do que aconteceu há pouco.
— Eu... — Olhou rapidamente para a outra, com os mesmos pensamentos que ela, em mente, mas desviou a visão para o chão. — Como vamos fazer?
— Enquanto não contamos para ele, não podemos demonstrar mudanças... — Regina assentiu. — Não podemos dormir separadas, ou parar de agir como antes... — Fez uma pausa, esperando uma objeção que não veio. — Mas dentro do quarto, eu não me importo de dormir no chão... — Deu de ombros, e Regina assentiu, aceitando a condição.
— Será que só hoje, podemos dormir com ele? — Entrou no quarto, com passadas leves para não o acordar ainda. — Eu estou com saudades... — Sussurrou
— Vamos todos dormir em nosso quarto. — Sugere, vendo a outra se abaixar até a altura da cama do menino.
— Henry? — Chamou perto de seu ouvido, dando-lhe um beijo em sua testa, fazendo-o acordar logo em seguida.
— Mãe... — Abriu os olhos assustado. — Aconteceu alguma coisa? — Olhou de uma para a outra, que se mantinha em pé, logo atrás da mais velha.
— Está tudo bem, meu amor... — Sorriu-lhe. — Só viemos te chamar para dormir conosco hoje... — Ele franziu o cenho, estranhando a atitude.
— Tem algum motivo em específico? — Levantou-se, ainda sonolento, coçando os olhos e piscando diversas vezes.
— E precisa ter algum motivo para querermos que nosso filho durma conosco? — Emma quem indagou, entrando na conversa, aproximando-se também, e fazendo consequentemente, o coração de Regina bater mais forte, tanto pela aproximação, como pelo momento dos três ali, como uma família, exatamente como era antes de acordarem da maldição, trazendo então, um sentimento de nostalgia, e pelo pronome possessivo usado por Emma, para se referir ao Henry. Ela sempre ficava assim quando escutava a outra usá-lo. Até mesmo durante a maldição.
— Não, mas...
— Ah garoto, só venha com a gente... — Puxou sua coberta, e o puxou para fora da cama. Regina sentiu o coração sorrir, assistindo àquele momento entre os três. — Queremos dar uma de mãe coruja... Será que podemos?
— Podem... — Rebateu sorrindo.
— Então vamos, porque eu estou morrendo de sono... — Regina se levantou, passou o braço pelo ombro do filho, e seguiu para fora do quarto. Antes, dando uma última olhada em Emma, que tinha um sorriso maroto, descansando em seus lábios.
•§•
Na manhã seguinte, Emma foi a primeira a abrir os olhos. Olhou para o seu lado esquerdo, encontrando Regina e Henry, no meio das duas, dormindo tranquilamente, como dois anjos. Apesar de ter as memórias de volta, nada do que pensara a respeito da mulher ao seu lado, mudou. Como por exemplo, ela ser tão linda, até mesmo dormindo, com o cabelo bagunçado, e o rosto inchado de sono. Sempre adorou observá-la assim, e agora não seria diferente. As lembranças de volta só fizeram acrescentar informações em sua cabeça, mas não mudaram sentimentos adquiridos na ausência delas. Na verdade, só acrescentaram mesmo.
Emma não tinha dormido quase nada no restante da madrugada, pois não conseguira pegar no sono. Os últimos meses passando em sua mente, como em um filme da vida, e os últimos acontecimentos, tiraram metade do sono que tinha, quando se deitou para descansar, depois de trazer Henry para o quarto.
Devagar, levantou-se com o mínimo de barulho, deu um beijo na cabeça do garoto e em Regina, lembrando-se logo depois, que não podia mais fazer aquilo. Agradeceu por ela ainda estar dormindo, e caminhou para o banheiro, para fazer sua higiene matinal.
O dia seria longo.
•§•
Emma e Regina sempre acordavam juntas. Trocavam alguns carinhos e declarações, conversavam um pouco, e depois de se espreguiçarem, também juntas, levantavam-se, e cada uma seguia o seu caminho. Em um dia, Emma seguia para o banheiro, enquanto Regina acordava Henry e seguia para preparar o café-da-manhã. E em outro dia, faziam o contrário, com Emma acordando Henry, e preparando o café logo depois.
Dessa vez, em muitos meses vivendo juntas, foi diferente. Quando Regina abriu os olhos, estava sozinha na enorme e macia cama que compartilhava com Emma, e sentia uma sensação incômoda de vazio em seu peito.
Ela sabia o motivo daquela sensação ruim.
Gostaria que tudo tivesse sido apenas um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Todavia, sabia bem que havia sido bem real, e as evidências estavam bem ali, para comprovar tudo.
Percebeu que estava atrasada, ao olhar para a mesa de cabeceira e enxergar as horas, e se levantou correndo para o banheiro. Afinal, a vida não tinha parado só porque havia se lembrado de quem realmente era, e havia sido no passado.
•§•
Como encarar Emma, sabendo de tudo? Como reagir na frente de Henry, sem que nada fique estranho para nós, ou para ele? Eram as indagações que tomavam a cabeça de Regina, quando ela chegou à cozinha, encontrando esposa e filho, tomando o café-da-manhã.
— Bom dia, mãe. — Henry cumprimentou, esperando por seu beijo, que logo recebeu, quando a morena passou ao seu lado, evitando olhar para a loira, e antes de se sentar entre ele e Emma, o fez.
O garoto observou as duas mulheres, que estavam agindo como se fossem invisíveis uma para a outra, e estranhou o fato. Não era comum, uma das duas chegar à cozinha de manhã cedo, sem falar ou mesmo olhar, uma para a outra, e não se cumprimentarem com um beijo. Exceto se estivessem brigadas. Havia algo de errado e Henry sabia disso. Só não fazia ideia do que poderia ser, embora desconfiasse que tinha alguma coisa a ver com a visita de dois dias atrás, do homem misterioso que sabia o seu nome.
— Vocês brigaram? — O garoto solta de repente, antes mesmo que Regina respondesse o seu cumprimento.
— Por quê? — Emma indaga alarmada, temendo ter demonstrado alguma coisa.
— Estão agindo de forma estranha desde ontem... — As mulheres se olharam assustadas. Não estavam prontas, nem com tempo, para dizerem tudo a ele. Nem sequer haviam conversado sobre o assunto, desde a descoberta.
— Não se preocupe, meu amor. Não estamos brigadas. — Regina garantiu e encarou Emma. Ao vê-la assentindo disfarçadamente, esticou-se um pouco e tocaram seus lábios de forma suave, fazendo ambos os corações palpitarem com o contato, e Henry pigarrear por causa da demora de um simples selinho.
Ao se afastarem, as mulheres abriram os olhos e se olharam sem graça, mas sorrindo do menino, que apesar de estar sorrindo, ainda sabia que existia algo errado. Mas se elas não queriam dizer, ele não iria ficar forçando.
— Será que podemos correr? — Regina olha para o relógio da parede. — Estou atrasadíssima para o trabalho. — Acrescenta aliviada por perceber que o assunto anterior, morrera.
— Eu também estou. — Emma diz, já se levantando e recolhendo os pratos da mesa. — Henry, vai abrindo o carro... Já chegamos.
O menino assente, todo animado por saber que não iria só abrir as portas, e saiu correndo para fora da cozinha, deixando as duas mulheres sozinhas.
— Será que podemos conversar sobre essa situação, à noite?
— Claro... — A morena passa as mãos no cabelo, colocando-os para trás da orelha, mesmo sem estar precisando, agoniada por ter ficado sozinha com a outra. Estava sentindo-se envergonhada pelo beijo que deveria ter sido rápido, e acabou demorando mais do que devia, então tentava não manter contato visual com a loira.
— Regina... — Chama-a, tocando-a no braço, fazendo-a parar o que fazia, para lhe observar. Encaram-se profundamente, por um longo momento. Olho no olho. Várias coisas passando por ambas as cabeças, desde memórias antigas, a memórias atuais, até Emma sorrir, ainda a encarando, quebrando o encantamento que estavam, e se afastar um pouco. — Tenha um bom dia... — Diz por fim, num tom sussurrado, segurando a vontade de beijá-la, como sempre fazia todas as manhãs, antes de descerem para o carro.
— Você também... — Regina diz meio aérea, observando a outra se afastar para fora do cômodo, e ficando sozinha com seus pensamentos, e os dedos tocando os lábios, que minutos atrás, tinham sido tocados por outros.
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