Recomeços

10 Capítulo 10 - Aliados Inesperados


A menina se virou tão rápido que se desequilibrou e teve que se segurar na bancada para não cair.

- É... — disse a jovem tentando fazer com que seu cérebro voltasse a funcionar, se xingando mentalmente por estar fazendo papel de idiota frente ao seu mentor e à Rainha. — Não consigo me concentrar…

- Ah! — exclamou Rumpelstiltskin com um sorrisinho — Resolveu nos agraciar com sua presença, Regina?

A prefeita apenas o ignorou e aproximou-se da mais jovem com a elegância que era inerente a ela.

- Está tentando entrar em contato com a mente de sua irmã? — perguntou, encarando a jovem White fixamente.

- Sim... quero ajudá-la, trazê-la de volta. — respondeu a jovem tentando disfarçar o quão chateada estava, o quanto sentia falta de sua irmã, afinal desde que elas se reencontraram, dificilmente ficavam tanto tempo longe. — Ela odeia aquele lugar... Nós odiamos....

A mulher assentiu e permaneceu em silêncio durante alguns instantes, parecendo ponderar algo antes de se pronunciar novamente, ainda sustentando o olhar da garota.

- Vocês realmente falaram sério quando disseram que minha Maldição foi a melhor coisa que lhes aconteceu, não é? — perguntou com curiosidade e Alex assentiu.

- Sim... — ela respondeu em voz baixa, a tristeza quase a consumindo por completo — Senhora... Senhorita Mills — a jovem se corrigiu ao ver a sobrancelha de Regina erguida — Estar nessa cidade/reino nos trouxe algo que nunca tivemos na Floresta Encantada: a esperança da felicidade. — mais uma vez o silêncio se fez presente antes que seguisse — Não sei se a senhorita sabe, mas Dany e eu não somos irmãs de sangue. Fui deixada na porta da família dela quando eu era apenas um bebê e nossos pais me adotaram e cuidaram de mim. Algum tempo depois mamãe adoeceu e não resistiu. Papai se casou novamente com uma mulher horrível que nos separou. O homem que me adotou foi um ótimo pai e me ensinou tudo o que sei, mas também morreu... Pouco antes de a maldição ser lançada. — White preferiu deixar de fora que a causa da morte do homem fora o incêndio no castelo de Cinderella — Dany e eu demos a sorte de termos sido adotadas por famílias do mesmo reino, então fomos criadas praticamente juntas. — ela pensou mais um pouco antes de continuar, sentia a necessidade de explicar suas razões para a prefeita — Nunca tivemos uma perspectiva de futuro lá. Eu assumiria o posto de Chefe da Guarda do castelo e Dany seria obrigada a se casar com algum homem da nobreza e nós... Bom... Queríamos mais que isso. — os olhos da garota marejaram — Majestade, sei que tem suas diferenças com Snow e Emma, e estarei aqui para ajudá-la se precisar de mim, mas minha irmã é a única coisa que me restou. — ela finalizou com a voz embargada e respirou fundo, lutando contra a sensação de vazio.

Regina aparentou precisar de um tempo para digerir tudo o que a garota dissera e por fim assentiu com determinação, tocando seu ombro com uma das mãos em um sinal claro de conforto.

- Farei o possível para que vocês estejam juntas novamente. — disse de uma maneira firme e sincera, os olhos castanhos e penetrantes pareciam enxergar o fundo da alma da jovem White — Agora respire fundo e apenas imagine sua irmã ao seu lado, a uma distância em que ela possa escutar o que diz. Bloqueie todo o restante. Feche os olhos se isso for ajudá-la em sua concentração.

E foi exatamente o que Alex fez: fechou os olhos e materializou a presença de Dany ao seu lado sem pensar em nada mais. As duas se encontravam em uma sala vazia, com exceção da presença de duas portas de madeira escura. A garota sorriu e chamou a loira, porém um barulho quase ensurdecedor de algo que parecia estática de rádio se fez presente e estava atrapalhando bastante o contato. Não importava o quanto gritasse o nome de sua irmã, a mesma não parecia ser capaz de ouvir devido ao som alto que se fazia presente entre elas.

Chegou o instante em que o ruído atrapalhou a concentração de Alexandra por completo e ela abriu os olhos, arfando, novamente se vendo na presença de seu mentor e da prefeita.

- O que é esse barulho horrível? — questionou ela sem fôlego e com dificuldades para respirar. Mills a encarava um tanto surpresa e Rumple tinha um meio-sorriso no rosto.

- Isso significa, dearie, que você obteve sucesso na magia, porém parece que a mente da senhorita Daniella está com um pequeno bloqueio. — o homem respondeu, materializando um copo com água na mão da jovem, que bebeu praticamente em um gole só, tamanha era a sede.

- Isso certamente se deve ao fato de ela estar na Floresta Encantada, mas com um pouco mais de treino certamente não será difícil contatá-la. Aparentemente você tem poder suficiente para isso. — Regina explicou — Parabéns, senhorita White. Conseguiu atingir a raiz da magia sem muitas dificuldades.

- Obrigada... — Alex conseguiu respondeu com uma leve falha na voz. O elogio de Regina conseguiu fazer algo que ela sentiu poucas vezes: borboletas no estômago. E naquele momento em que ela parava para pensar nisso, todas as vezes que sentiu foi por causa da prefeita. A jovem sacudiu esses pensamentos para longe, afinal não era hora de pensar nisso e, para tentar disfarçar seu devaneio, tomou uns goles de água. Precisava urgentemente falar com sua irmã e para isso tinha que trazê-la de volta para Storybrooke. Com sua determinação renovada ela abaixou copo de água. — Quero tentar mais uma vez. Nenhum bloqueio da mente dela vai me manter afastada! Acho que ser cabeça-dura é de família. — riu baixinho e notou a expressão um tanto divertida que pairava pelo rosto dos outros dois. Não demorou para que ela conseguisse se concentrar novamente e mais uma vez encontrasse com a Dany de sua mente, porém dessa vez sem os ruídos irritantes de estática.

- Dany? — Alex chamou esperançosa.

- Alex? — perguntou a loira confusa. Estava sonhando? Se sim, era muito estranho. Quase parecia conseguir controlar esse sonho.

Sem pensar muito e com os olhos marejados, a mais nova pulou na irmã e a agarrou em um abraço apertado.

- Gold e a prefeita tinham razão, a magia realmente funcionou! — o alívio em sua voz era muito palpável, principalmente para a mais velha que conhecia cada trejeito de sua irmãzinha — Você está bem?

- Confusa, com certeza, mas to bem. — respondeu a outra abraçando sua irmã mais nova. Estava com muita saudade, e precisava urgente conversar com ela, mas sabia que isso teria que esperar. — E você, sis, como ta?

- Tudo tranquilo por aqui, bom... Tão tranquilo quanto Storybrooke pode ser. — a jovem respirou fundo antes de continuar — Onde vocês foram parar?

- Ahh. — a loira suspirou, seus pensamento estavam em um turbilhão de lembranças. — Já fomos do castelo da Snow e do Charming até o Pé de Feijão. Conseguimos uma bússola... aparentemente ela vai nos levar de volta para Storybrooke.

Alex assentiu com um sorriso tranquilo no rosto, tendo a certeza de que não tardaria a se reencontrar com a loira.

- E falta mais algo para que vocês possam voltar em segurança? — questionou, não conseguindo conter a animação.

- Temos que achar a Cora... — disse Dany soltando um suspiro cansado, mas percebeu que sua irmã a estava olhando como se estivesse perguntando quem era Cora. — É a mãe da Rainha, a Cora. Ahh, por falar nisso, diz pra ela que eu lamento muito por isso.

A mais jovem franziu a testa à resposta da irmã e a encarou interrogativamente, claramente não entendendo a razão de suas palavras.

- A situação é tão ruim assim? — Alex perguntou e sentiu o suor escorrendo levemente pela face devido ao esforço que estava fazendo para manter a magia estável e seguir conversando com a mais velha.

- Cora é uma crápula manipuladora. E infelizmente temos que achar ela para pegar as cinzas da árvore novamente. — respondeu Dany, tentando esclarecer um pouco da situação para sua irmã, que tinha as duas sobrancelhas erguidas em confusão à resposta da loira.

- Tenho até medo de perguntar sobre essas cinzas. — falou a garota em tom brincalhão — Quanto tempo você ainda acredita que vai demorar? Estou com saudades. — ela admitiu.

- Não sei... mais uns dias. — respondeu a outra pensativa. — Teremos que bolar um plano para pegar as cinzas novamente. E com a Emma desconfiando de mim.... vai ser chato. — ela soltou um suspiro resignado, afinal acreditava que havia feito o certo e ponto final. Ela viu novamente o ponto de interrogação que se formou no rosto de sua irmã. — Ahh, isso eu explico melhor depois…

Alex assentiu, preocupada e animada ao mesmo tempo, afinal a possibilidade de sua irmã retornar estava mais próxima a cada segundo que se passava.

— Eu realmente sinto sua falta, sis. — ela admitiu e então lembrou-se de algo bastante importante: no dia seguinte era seu aniversário — Você voltar para cá seria o melhor presente de aniversário possível. — falou baixo, esperando que seu desejo realmente se realizasse e ela tivesse a companhia da pessoa que lhe era mais importante.

- Vou fazer o meu melhor. — respondeu a mais velha, recebendo mais um abraço forte da mais jovem. A conexão entre elas acabou por ficar mais fraca e Alexandra sentiu-se ser puxada para fora dali e logo se encontrou na companhia de Rumpelstiltskin e de Regina. A garota sentiu-se tonta e precisou se apoiar na bancada para não cair.

- Elas estão bem. — falou ofegante, sentindo tudo girar.

- Respire e expire fundo, que essa tontura já vai passar. — disse Rumple lhe entregando mais um copo com água. — A srta. Daniella falou se tem algum plano para voltar para Storybrooke?

Alex demorou um pouco para responder, afinal novamente bebeu a água de um gole só.

- Aparentemente elas têm uma bússola que vai guiá-las de volta, mas falta pegarem cinzas que estão com Cora. — falou ela, procurando o olhar de Regina, estudando sua expressão.

- Com minha mãe? — questionou a prefeita parecendo atônita e encarou o Dark One com uma expressão que parecia ser preocupação.

A jovem White assentiu e também encarou o homem, que também similarmente transparecia preocupação em seu semblante.

- Se isso realmente for verdade a situação é pior do que imaginávamos. — ele disse por fim, apoiando-se na bengala. A de cabelos acinzentados franziu o cenho um tanto confusa.

- Em uma escala de um a dez o quão ruim é? — questionou a garota, voltando sua atenção à Rainha, que ficou com sua expressão sombria.

— É cem. — respondeu a morena, parecendo bem infeliz com a situação e voltou a encarar o Dark One — Ela não pode vir para Storybrooke... Talvez seja melhor impossibilitar o acesso a este mundo.

- Não! — exclamaram Alex e Rumple ao mesmo tempo no mesmo tom quase desesperado e o homem seguiu falando — Podemos fazer com que ela perca os poderes assim que chegar. Posso preparar uma poção com tinta de lula, com certeza tenho um pouco. — falou sem dar maiores explicações e sumiu para a parte de trás da loja, deixando Regina e Alex sozinhas.

Regina estava obviamente surpresa, com suas sobrancelhas levantadas, parecia ter se surpreendido com o que Gold havia falado.

Alex franziu a testa, um tanto chateada com a prefeita, afinal ela praticamente havia acabado de sugerir deixar sua irmã presa lá. Com isso ela se afastou, andando pela loja, dando um espaço entre elas, porém parou ao escutar a voz derrotada da mais velha.

- Me desculpe, senhorita White. Não foi certo de minha parte sugerir que sua irmã ficasse lá. Não depois do que me contou ainda há pouco. — suspirou e seguiu sem deixar que a jovem respondesse — Qualquer assunto relacionado à mamãe me tira do equilíbrio. — falou de forma enigmática.

A garota assentiu, mas sua curiosidade veio à tona pois se lembrou do que Dany havia dito para ela também.

- Minha irmã pediu para te dizer que sente muito por ter uma mãe assim. — disse a menina lentamente, testando se poderia continuar o assunto e percebeu que a morena fez uma leve careta.

- É muito gentil da parte dela. — respondeu simplesmente e revirou um dos armários da loja do Dark One, como se procurasse algo e logo retornou à bancada com uma garrafa contendo um líquido âmbar e dois copos. A mulher encheu ambos até a metade e entregou um deles a Alex, logo bebendo o conteúdo de seu próprio como se fosse água. A jovem cheirou e fez uma careta, aquilo parecia álcool puro, mas deu um pequeno gole para experimentar; o gosto era tão forte quanto o cheiro. Regina pareceu não notar, pois encheu seu copo novamente e bebeu antes de tornar a falar — A convivência com Cora sempre foi muito difícil. Tudo o que aconteceu de ruim em minha vida foi graças a ela. — admitiu, enchendo um terceiro copo para si. Alex sentiu simpatia pela prefeita de Storybrooke, obviamente a convivência com a mãe dela era horrível e tomou mais um gole do que provavelmente era whisky, percebendo que o segundo gole não era tão forte como o primeiro. — Tenho muito receio do que pode acontecer se ela pisar nesta cidade. — Mills falou pensativa — Podemos todos estar em perigo, afinal é uma bruxa de poder gigante. — mais um copo de whisky — Por isso a bani para Wonderland. — disse, tampando a garrafa. Os olhos escuros refletiam a luta que se passava em seu interior.

- Eu lamento muito... — disse a jovem um pouco chocada com a história. Era difícil imaginar o que a mulher havia passado, pois no fim teve pais adotivos maravilhosos, e a própria mãe ser tão má, era horrível de se imaginar. Regina olhou para a de cabelos acinzentados fortemente abalada com a situação toda.

- Não é seu feito. — ela respondeu meio ríspida e saiu da loja em passos rápidos, o que fez Alex se perguntar se deveria ir atrás dela ou deixá-la se recompor.

Decidindo por não segui-la, a jovem simplesmente balançou a cabeça negativamente e bebeu o restante do whisky com uma careta, logo saindo da loja rapidamente, sem notar que Gold estivera observando a interação das duas.

A noite estava fria e estrelada do jeito que a garota adorava, então ela aproveitou para observar um pouco, antes de seguir o rumo em direção à lanchonete, porém parou ao notar Granny apressada com uma besta carregada em suas mãos.

- GRANNY! — chamou ela e correu na direção da mais velha — O que está fazendo?

- Caçando a Ruby. — respondeu a mais velha em seu habitual mau humor.

- O quê? — perguntou abobalhada, sem entender direito o que estava acontecendo.

- É a primeira noite de lua cheia depois de tanto tempo. — explicou a velhinha estressada, começando a andar para longe, tentando achar sua neta.

Lua cheia? Isso não fazia o menor sentido, a menos que Ruby fosse um lobisomem — o que fazia menos sentido ainda. Tentando descobrir o que estava de fato se passando, a garota se apressou para acompanhar a senhora e logo escutou um grande burburinho de vozes raivosas. Sem pensar duas vezes, a jovem White correu na direção dos sons e abriu espaço por entre a multidão. As pessoas apontavam tochas acesas para um grande e acuado lobo cinzento. Novamente Alex não pensou e correu na direção do animal sem se importar com os rosnados, ficando entre ele e o povo que ameaçava atacar.

Os gritos de indignação ficaram altos, os moradores de Storybrooke queriam matar a fera. Alex, hesitante, olhou para trás e encontrou naquele olhar lupino os olhos de sua amiga, ainda que aquilo não fosse da alçada de sua compreensão no momento. A garota continuou à frente da loba, com raiva dos cidadãos, que conseguiam ser tão facilmente influenciados.

- CALEM A BOCA! — gritou a jovem em pura irritação. — VOCÊS TÊM APENAS MEIO CÉREBRO, OU O QUÊ? O QUE ELA FEZ PRA VOCÊS A TRATAREM DESSE JEITO?! ELA PRECISA DE AJUDA E NÃO UMA CONDENAÇÃO DE MORTE!

O povo lentamente se calou, alguns até pareciam arrependidos. Ignorando-os, a menina se virou para Ruby, que estava deitada encolhida a encarando com admiração. Alex percebeu que ela estava com certa consciência novamente e se aproximou, dizendo palavras de conforto para sua amiga, que em instantes voltou à forma humana.

- Obrigada. — disse a morena parecendo extremamente agradecida, os olhos azuis um tanto marejados.

A jovem White abriu um sorriso largo e balançou a cabeça negativamente antes de abraçá-la.

- Não precisa agradecer, você é minha amiga. — falou e antes que Ruby pudesse responder a voz de David foi ouvida em um tom acusatório:

- Foi ele, Albert Spencer, quem matou Billy! Fez isso para incriminar a Ruby!

Houve uma grande comoção por parte das pessoas ali reunidas e logo as mesmas se dissiparam, certamente indo atrás de Charming e do homem que fora acusado. Alex franziu a testa à informação e olhou de maneira interrogativa para a amiga, que tinha a expressão um tanto triste.

- Quando me transformo eu perco a consciência. Realmente achei que eu tivesse matado o garoto. — respondeu um tanto abatida, mas logo que seus olhos encontraram os verdes da mais jovem ela sorriu verdadeiramente — Você me salvou, Alex. Agora posso fazer algo que tenho vontade. — Alexandra ergueu uma sobrancelha em questionamento, ao que a loba de pronto respondeu, seus olhos tomando um tom amarelado — Correr, a lua me chama. — e novamente se transformou na criatura lupina e cinzenta. Com um toque do focinho na mão da amiga, Ruby uivou e saiu correndo na direção da floresta, deixando Alex para trás com um largo sorriso e o sentimento forte de que mais uma vez a justiça havia sido feita.

No dia seguinte a jovem White acordou com o barulho abafado de alguém batendo na porta de entrada de seu apartamento e xingou baixo em seu típico mau humor matinal que estava particularmente pior, afinal dormira muito mal à noite certamente pela falta de Ruby. A garota suspirou pesadamente, uma vez que o visitante insistia nas batidas, e decidiu por atender de uma vez, assim poderia voltar a dormir. A jovem nem se importou com o fato de estar vestindo apenas uma grande camiseta preta com o brasão da casa de Slytherin bordado, a aura de sono ainda a envolvia. A garota também não se lembrou de olhar através do olho mágico para ver quem era e apenas abriu a porta apressadamente e não foi capaz de conter uma exclamação de surpresa ao notar a ilustre e elegante presença de Regina Mills parada ali em um de seus habituais terninhos bem alinhados.

A jovem White piscou uma, duas, três vezes e depois esfregou os olhos para tentar acordar direito, mas a imagem da prefeita não desapareceu, o que só podia significar que a mulher não era uma miragem e realmente estava ali parada à sua frente.

- Senhora Mills? — o tom de incredulidade na voz rouca de sono da jovem fez com que a morena erguesse uma sobrancelha e um sorrisinho minúsculo apareceu no canto de sua boca.

- Até onde me lembro ainda não sou senhora. — falou, o sorriso crescendo na mesma proporção em que o rosto de Alex ia tomando lentamente (nem tanto) a pura cor de carmim. A garota balbuciou algo ininteligível e abriu espaço para que a mais velha entrasse antes de fechar a porta atrás de si. Abriu a boca para questionar o que Regina estava fazendo ali, porém a única coisa que saiu foi uma exclamação de surpresa ao notar os olhos castanhos encarando-a de uma maneira intensa e estranha, despertando-a da névoa de sono e fazendo-a lembrar-se de que não estava em seus trajes mais apresentáveis.

- Creio que acabei por acordá-la, senhorita White. — disse a prefeita parecendo divertida com a situação em que Alex se encontrava e a jovem sentiu seu rosto virar um pimentão.

- Preciso de dez minutos, sinta-se em casa, prefeita. — disse a garota sem esperar pela resposta da mulher e correndo na direção de seu quarto para poder trocar de roupa. Uma regata preta, um short jeans e um par de chinelos. A garota amarrou os cabelos e foi ao banheiro escovar os dentes, voltando à sala com pressa. — Desculpe, senhorita Mills, agora sim bom dia.

- Bom dia senhorita White. — respondeu a morena com um sorriso de canto, obviamente divertida com a situação e entregou para a de cabelos acinzentados um pacote redondo e ligeiramente achatado. — E... Feliz aniversário.

Alex arregalou os olhos em choque, afinal nem tinha lembrado que era o dia de seu aniversário. O fato de Regina ter lembrado e tirado um tempo para ir até o apartamento e ainda lhe trazer algo era algo que a jovem nunca esqueceria.

- Eu... — ela disse, pegando o embrulho com cuidado e abrindo, logo o cheiro delicioso de maçã com canela invadindo suas narinas — Obrigada! — exclamou, tentando impedir seu estômago de dar sinal de vida — Como? — questionou, querendo entender como a mais velha sabia sobre a data.

- Eu conheço cada habitante da minha cidade, senhorita White. Geralmente não dou atenção a meros detalhes como aniversários, mas sei que esta data é especial para a senhorita e não poderia passar em branco. — o tom de voz de Mills demonstrava sua seriedade e ela lhe entregou um livro — Este é o livro com o qual iniciei meus estudos de magia, acredito que lhe será bastante útil. Ainda que não esteja em inglês, sei que isso não será um empecilho.

- Não mesmo! Muito obrigada! — respondeu a jovem agradecida a Regina ter se lembrado e se importado com ela assim e logo se encaminhou para a cozinha, que ficava junto a sala de estar e jantar, colocando a torta em uma travessa, uma a qual ela tinha certeza que Dany aprovaria. Quando pensou nisso se sentiu murchar um pouco, ela havia prometido que voltaria para seu aniversário. Rapidamente Alex se sacudiu mentalmente, não iria pensar negativamente, e colocou uma água para ferver, se virando para a morena. — Gostaria de um café, um chá?

- Um chá preto e sem açúcar, por favor. — a resposta da mulher foi bastante polida e a jovem assentiu, ajeitando os preparativos para o café da manhã em silêncio, tentando não fazer papel de besta na presença da prefeita. Assim que estava com tudo pronto: a torta cortada, o chá de Regina e seu próprio chocolate quente com canela, a de cabelos acinzentados educadamente puxou a cadeira para que a mais velha se sentasse.

- Cavalheirismo é algo que está em falta neste mundo. — a morena gracejou e piscou para Alex, demonstrando que havia aprovado sua atitude.

- Concordo plenamente com isso, prefeita. — disse a loira com um sorriso. A mulher então se sentou e Alex ajeitou a cadeira dela, antes de se sentar em sua própria cadeira a frente da mais velha. — O cavalheirismo e o respeito são grandes qualidades, que infelizmente estão em falta. Era isso que incomodava muito a Dany e a mim no nosso reino. Sem falar todas aquelas regras e obrigações que uma “mulher de verdade” deveria ter.

Os lábios de Mills se crisparam, formando uma linha fina de desaprovação quando a mesma assentiu.

- Mentes pequenas são o câncer da humanidade em qualquer lugar ou tempo. — comentou a mais velha bebericando de seu chá enquanto Alex concordou com a cabeça enquanto servia os pedaços de torta a ambas. Ambas comeram em silêncio, até que a jovem o quebrou, mudando completamente de assunto:

- Você fez um trabalho impecável como prefeita de Storybrooke durante esses anos todos. Ninguém nessa droga de povo teria essa capacidade.

- Obrigada senhorita White. — respondeu a mulher parecendo satisfeita, mas ao mesmo tempo soltou um suspiro. — Mas te garanto que muitos discordarão de você. Afinal de contas, era a Rainha Má que comandava a cidade. Nem mesmo meu filho quer ficar comigo, então não devo ter sido tão boa assim.

A jovem balançou a cabeça negativamente e encarou os olhos castanhos e tempestuosos da Rainha, tentando escolher as palavras certas para usar.

- Acho que você não deve levar em consideração a opinião de um povo movido pelo ódio, Majestade. — ela falou com um suspiro resignado — Ontem mesmo um grupo estava com a ideia idiota de assassinar a Ruby apenas por ela ser diferente deles! — a revolta em sua voz era gritante — Eles que se dizem tão bons e tolerantes são os primeiros a atirar pedras em quem não é igual... Literalmente. E sobre Henry... — seu tom abrandou-se — Ele é um bom garoto e com certeza ama você. Apenas está confuso com todas essas mudanças em sua vida. É muito para assimilar. — Alex deu uma pausa em sua fala, os olhos verdes buscando os castanhos — Ele ficou extremamente preocupado no dia em que... Aquele moço voltou à vida. Henry teve medo de que ele fosse machucá-la.

A mulher ficou em silêncio por vários minutos, obviamente absorvendo as palavras da cabelos acinzentados. O silêncio para Alex não foi de maneira alguma desconfortável.

- Agradeço, senhorita White. — disse a mulher com apreço — Mas creio que não será tão fácil ele enxergar algo que não seja aquilo que ele leu no livro.

A frase da morena arrancou um leve sorriso da mais nova, que sabia exatamente como lidar com essa questão.

- Sozinho com certeza será difícil, mas com a companhia certa... Tenho certeza de que facilitará bastante. — falou ela, deixando nas entrelinhas a vontade de ajudar, assim permitindo que Regina tirasse as próprias conclusões sobre suas palavras.

A morena a encarou profundamente, como se estivesse avaliando Alex.

- Não entendo seu interesse tão profundo em me ajudar, senhorita White. — disse enquanto se apoiava o cotovelo na mesa e a cabeça na mão olhando fixamente a mais jovem. — Não sou exatamente uma donzela em perigo, sabe? Sei lutar minhas próprias batalhas.

A jovem sustentou o olhar da mais velha sem fraquejar e certamente a mulher havia feito um ótimo questionamento ao qual ela própria não tinha uma resposta exatamente concreta.

- Eu... — a jovem iniciou, perdendo-se um pouco no que ia falar, afinal como responderia algo que nem ela mesma sabia? — Quer dizer... Você tem força mais que suficiente para lutar suas próprias batalhas e as batalhas de todos os habitantes dessa cidade se essa fosse sua vontade, mas... — ela respirou fundo, se colocando na mesma posição da prefeita — Você não precisa carregar tudo sozinha nas costas. Quer dizer... Não que não seja capaz, porque você já provou inúmeras vezes que é... Criando o Henry, lidando com as questões da cidade e tudo mais... — Alex sentiu que estava falando demais e certamente se continuasse iria apenas passar mais vergonha ao tentar se explicar, então apenas tomou mais um gole de seu chocolate, tentando esconder o rubor que novamente tomou conta de seu rosto.

- Entendo. — disse a mulher com o que parecia um sorriso de canto, obviamente achando o constrangimento da jovem engraçado. — Obrigada pela ajuda.

Dentre todos os cenários possíveis que a garota imaginara naqueles segundos, em nenhum deles Regina agradecia, então foi uma grande surpresa que acabou acarretando em um engasgo e um acesso de tosse.

O que fez a prefeita soltar uma risadinha, parecendo divertida com a situação a qual Alex se encontrava, fazendo, é claro, a jovem ficar ainda mais constrangida, apesar de ter achado o riso da mulher fofo. Com certeza era uma das poucas pessoas que viram ela sorrir de alegria e se sentia grata por essa oportunidade.

- Então, a magia ainda é estranha para a senhora aqui neste reino? — questionou a de cabelos acinzentados, achando melhor mudar de assunto, para um bem mais seguro.

Regina assentiu, respirando fundo e encarando a jovem de maneira penetrante, mas com um brilho jocoso no olhar.

- Por favor, senhorita White, não me chame de senhora. Me sinto mais velha do que aparento. — e sem deixar que a mais nova respondesse, continuou em um tom maior de seriedade — Para mim a magia continua falhando com frequência, está bastante instável, e para a senhorita?

- Bom... só se você me chamar apenas de Alex... — retrucou a jovem, e continuou quando a prefeita assentiu com um sorriso. — Está cada vez mais fácil acessar a magia e sinto menos fraqueza quando a uso. — explicou a jovem pensativa e fez uma simples demonstração, sem dificuldades. — Mas não sinto inconstância... Talvez porque eu aprendi aqui, e não no nosso reino?

A expressão no rosto da mulher tornou-se pensativa durante alguns instantes, mas por fim ela concordou novamente com a cabeça.

- É bastante possível, Alex. — a prefeita pareceu testar o nome da jovem e, por alguma razão desconhecida, Alex teve aquela sensação esquisita de borboletas no estômago, mas não deu muita atenção, afinal Mills franziu a testa e seguiu com um novo questionamento — Sua magia só deu sinal aqui em Storybrooke?

- Bom... sim. — disse ela e então passou a explicar como Dany e ela haviam achado os livros de magia na biblioteca e começaram a fazer as traduções. Ficaram meses nisso até que conseguiram. — E a primeira vez que realmente fizemos alguma magia foi naquele dia na delegacia.

Novamente uma centelha de diversão transpassou os olhos castanhos da prefeita à menção do dia da delegacia.

- Você quis dizer: o dia em que você e sua irmã acharam que o espectro era um dementador e tentaram utilizar o feitiço do Patrono para derrotá-lo? — questionou bem-humorada.

- É... bem... — murmurou envergonhada novamente. — Pode ser que a gente tenha levado Harry Potter um pouquinho a sério demais — ela falou um pouco divertida, dando umas risadinhas, as quais Regina acompanhou. Afinal de contas, foi um pouco bobo e idiota o que elas fizeram.

De repente ambas pararam de rir, algo havia mudado no ar. Não, na magia! Algo parecia estar chegando.

- Vamos. — Mills falou, levantando-se da cadeira ao mesmo tempo em que Alex. Sem esperar por qualquer resposta por parte da mais jovem, apenas aproximou-se da mesma e uma nuvem de fumaça roxa envolveu-as, tirando ambas dali e praticamente de maneira instantânea estavam paradas à beira de um velho poço.

- Por que estamos aqui? — White questionou, mas logo teve a resposta não por parte da prefeita.

- Porque senhorita White, creio que você terá um presente de aniversário. — respondeu uma voz atrás das mulheres, Alex quase pulou para fora de seu corpo, tamanho o susto que levou. Já Regina não parecia afetada, a de cabelos acinzentados achou que ela previa algo assim. Elas se viram e constataram que era Rumple ali, apoiado em sua bengala, com um sorriso de quem havia conseguido seu objetivo, assustá-la. — Ah, aí vem.

Antes que a jovem pudesse fazer algum comentário, um par de mãos que se agarrou na borda do poço pelo lado de dentro e logo uma cabeça loira apareceu, era Emma.

- Uma ajudinha aqui... — ela falou parecendo cansada e irritada. Nada muito fora do comum. Alex foi a única que se mexeu para ajudar ela e Snow. Só faltava Dany, quem obviamente Alex esperava com ansiedade, mas estava demorando para aparecer, o que fez a jovem começar a se preocupar. Ela escutou o Dark One soltar um suspiro e fazer uma magia, logo a última que faltava apareceu levitando na frente deles.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.