Recomeço
1 Capítulo I
01/05/1998
Nymphadora verificou mais uma vez seu bebê dormindo no berço e se inclinou para lhe dar um leve beijo na cabeça, sussurrando:
– Se eu não voltar, espero que um dia você me entenda. Fique bem, meu anjo.
Saiu do quarto devagar e, sem acender as luzes, atravessou a sala tentando não esbarrar em nada. Quando abriu a porta da frente, a luz da sala se acendeu e ela ouviu uma voz que, pelo tom, lhe deu calafrios.
– Posso saber onde você pensa que vai?
Ela se virou devagar.
– Mãe? O que está fazendo acordada à meia-noite?
– Estou atenta a cada mínima movimentação nessa casa. – Andrômeda respondeu com o olhar frio fixo na filha. – Onde está Teddy?
– Dormindo no berço. Eu preciso ir, mãe...
– Ir aonde?
– Encontrar Remus. Toda ajuda é necessária agora, não posso deixá-lo sozinho!
Andrômeda se levantou, sem desviar o olhar.
– Será que entendi bem? Você vai abandonar seu filho para ir para a guerra?
– Teddy não está abandonado, mãe, está com você! E eu sou uma auror, tenho treinamento de combate suficiente.
– Sério? – A mulher riu com sarcasmo. – Por acaso você sabe por que a licença maternidade das aurores é mais longa do que a das outras funcionárias do Ministério? Nenhuma bruxa em sã consciência tem condições de entrar em combate em menos de um ano após dar à luz, quanto mais em duas semanas, Nymphadora!
Tonks encarou a mãe, sua mão ainda na maçaneta da porta aberta.
– Eu sinto muito. Eu preciso ir.
Ela saiu, mas Andrômeda segurou a porta, impedindo de fechar. Largou a porta aberta e avançou com passos firmes na direção do portão do jardim, onde poderia aparatar após deixar os limites da casa.
– Volte já aqui!
– Eu não sou mais uma criança, mãe!
– Você tem família, Dora! – Andrômeda levantou a voz. – Tem que pensar no seu filho!
– Mas eu estou pensando nele! É para garantir o futuro do Teddy que eu vou ajudar Remus!
Deu as costas para a mãe e seguiu em direção ao portão.
– Você não vai fazer isso... Nymphadora!
– O que é agora?
Ela se virou, impaciente e viu que Andrômeda tinha a varinha em mãos. Não teve tempo de pensar em pegar a sua, o último lugar em que pensou ter que duelar era sua própria casa.
– Stupefy!
Tonks foi atirada alguns metros para trás, desacordada. Andrômeda correu até a filha para verificar se estava ferida.
– Eu disse que você ainda não estava pronta para voltar à atividade. Um dia vai me agradecer por isto.
Então, levitou a jovem com cuidado para dentro de casa outra vez.
02/05/1998
Regulus acordou debaixo d’água. Nadou para a superfície o mais rápido que pôde e, mesmo no escuro, conseguiu perceber onde estava. Ainda era aquela caverna e vários corpos mortos boiavam ao seu redor, mas, diferente de antes, eles não o atacavam. Pareciam estar realmente mortos agora. Descobriu com alívio que sua varinha ainda estava no bolso de suas vestes, então a primeira coisa que fez foi lançar um feitiço.
– Lumus!
Sua voz estava rouca, como se não a usasse há muito tempo. Suas percepções estavam corretas. A ilha estava ali no meio do lago e vários cadáveres putrefatos boiavam na água. Nadou rápido para a margem, para longe da ilha. Por quanto tempo ficara ali? Por que os inferi estavam inanimados? Eram muitas perguntas, mas ele não tinha real interesse nas respostas. Apenas foi em direção à saída da caverna. Por algum motivo desconhecido, a magia do local tinha enfraquecido consideravelmente, de modo que a saída daquele local estava visível.
Uma vez fora dali, Regulus aparatou para o primeiro lugar que veio à mente: sua casa. O casarão em Grimmauld Place, 12, ainda estava de pé, mas tinha algo de estranho ali. A casa estava às escuras, sem movimento, parecia vazia. O rapaz abriu a porta e deu de cara com o corredor empoeirado. Sua mãe nunca deixaria a casa naquele estado, o que teria acontecido?
– Mãe? Pai? Kreacher?
Ele entrou e fechou a porta. Em menos de um minuto estava correndo para a cozinha, devido ao susto com um vulto de poeira que saiu do tapete e foi em sua direção. Estranhamente aquele vulto lembrava muito o diretor de Hogwarts.
– Mas que diabos foi isso? E onde está todo mundo?
Olhando em volta, percebia-se o claro abandono da casa. A cozinha tinha camadas de poeira tanto no chão quanto na mesa e utensílios. Quanto tempo ele ficara fora? De repente, ouviu uma voz conhecida ralhando em voz muito alta contra as pessoas que invadiam a casa e proferindo inúmeras ofensas. Ele sorriu e correu na direção de onde vinha a voz, o corredor de entrada pelo qual passara antes.
– Mãe! Mãe!
Mas não havia ninguém ali. A voz que ralhava se calou.
– Regulus? É você mesmo?
Regulus percebeu que a voz de sua mãe vinha de um quadro em tamanho natural que estava escondido atrás de cortinas no corredor.
– Mãe? – Ele se aproximou e tocou o quadro. – Onde está todo mundo? Onde está o meu pai? E Kreacher?
– Ah, meu querido... – O quadro respondeu com um suspiro. – Você esteve fora por tanto tempo... Seu pai se foi pouco depois que você sumiu e eu ainda fiquei anos sozinha aqui. A partir daí, estou apenas nesse quadro. Mas é tão bom ver você, meu querido! Ultimamente só vejo invasores na nossa casa, ralé e traidores do sangue. Que bom que voltou para retomar o que é seu por direito.
Regulus não levou muito tempo para entender. Seja lá quanto tempo havia passado naquele lago, era muito tempo. Seus pais estavam mortos e a casa abandonada, mas havia algo de estranho ali. Toda vez que Walburga mencionava os invasores, ela não conseguia dar maiores explicações, como se um encantamento a impedisse de passar informações. Ele não se importou com isso no momento. Apenas se deitou encolhido aos pés do retrato e chorou.
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