Recomeço
10 Capítulo X - O grupo problema
Notas iniciais
Minha mente ficou pensando naquilo durante um tempão. Não sabia se isso era só imaginação da minha cabeça, ou se isso era algum tipo de epifania.
Mas isso era bem lógico...
Fechei o livro e coloqueio debaixo do braço. Comecei a andar até aonde Ben tinha marcado nos encontrar — por sorte, eu me lembrei, memo com a minha tontura horrível nesse lugar.
Encontrei-o e Kevin com um olhar de Nossa, eu já estava ficando preocupado.
Pigarreei e, depois de Ben me encarar com raiva, eu perguntei:
– Encontraram alguma coisa?
– Não — Kevin respondeu.
– Nem eu — Ben disse junto. — Só descobri que eles são muito antipáticos e nem olham na sua cara e... O que é isso no seu braço? — ele parou de falar quando viu o livro que estava debaixo de meu braço.
– Ah! Eu comprei.
– Comprou? Você comprou um livro quando deveria estar procurando por um maníaco? — falou nervoso.
– Eu posso explicar... — respondi nervosa e, sem esperar ele concordar ou não, continuei a falar — Eu entrei em uma loja, e conheci um Osmosiano chamado Gal'eigor. Ele me mostrou esse livro.
– Que você comprou. — Ben cruzou os braços.
Olhei para Kevin, que até agora estava quieto. Nunca o vi desse jeito... Então continuei a minha explicação encarando ele.
– Ele disse que confiava em mim e me vendeu esse livro. Suspeitei que ele pudesse saber mais coisas sobre o Agreggor, só que achei melhor fazer as perguntas com vocês.
– Tudo bem então, vamos até lá conhecer esse tal Gali'eigor.
– Gal'eigor — corrigi Ben.
– Tanto faz.
Nós andamos até a loja e, quando entrei lá, Gal'eigor logo me reconheceu e veio até mim.
– Gwen... Você voltou bem mais cedo do que eu esperava. E vejo que trouxe mais gente com você. — olhou para Kevin e Ben. — Quer comprar mais livros?
– Na verdade... Não — eu respondi de uma forma rápida.
Kevin andou até ele e olhando para baixo, encontrou os olhos enrugados do Osmosiano.
Gal'eigor ficou assustado com o olhar repentino de Kevin, e andando para cima dele, forçou-o a andar para trás, cada vez mais intimidado.
Olhei para o Osmosiano idoso, ele parecia um pouco atordoado com o que poderia acontecer.
– Queremos que você nos fale sobre Agreggor — Ben finalmente disse.
Gal'eigor engoliu seco, mas se recompondo olhou para Ben e respondeu:
– Vocês não são daqui... São? — sorriu.
– Queremos apenas que nos responda — Kevin disse.
– Certo. — ele suspirou — Não são mesmo daqui. Venham; se querem falar sobre ele, aqui não é um lugar muito seguro.
O idoso foi até a parede e colocou a mão direita entre um dos livros empoeirados da estante. Um tipo de porta escondida se abriu atrás dele na outra parede. Ele apontou para dentro.
– Entrem — disse.
Encaramo-nos por um bom tempo; depois entramos desconfiados do que poderia acontecer.
Seguimos Gel'eigor, que já havia entrado, e quando nós três entramos, a porta se fechou. Fiquei assustada... No que eu tinha me metido?
O lugar era muito esquisito e grande — o que parecia mais esquisito ainda, já que a loja era muito pequena. Parecia um tipo de sala só que sem janelas, mas cheia de portas. Havia apenas alguns bancos espalhados pelos cantos, mesas sujas e uma caixa grande que parecia ser o que os Osmosianos usam para guardar comida, o que quer que seja que eles comam.
Gal'eigor pegou alguns bancos e pediu para sentarmos.
Sentamos e esperamos ele falar algo, mesmo assim estávamos atentos se ele tentasse nos atacar ou qualquer coisa assim.
– Não se pode mencionar o nome de Agreggor aqui.
– Porque não? — Ben perguntou curioso.
– Nós, osmosianos, acreditamos que, se seu nome for mencionado por qualquer um, estão ligados a ele.
– Como?
– Agreggor é perigoso e procurado por mais de vinte Sistemas... É um dos criminosos mais perigosos em cento e vinte e seis Planetas. Tendo como origem o Planeta Osmosian, que é também o Planeta natal de mais outras centenas de procurados perigosos. Entendem agora? Todos desconfiam de todos aqui, vocês têm sorte de perguntarem sobre ele em um lugar pouco freqüentado como minha loja. E que eu seja confiável... — acrescentou. — Agora entendem por que eu tenho certeza de que não são daqui?
Eu, Ben e Kevin nos entreolhamos.
– Tentem ser mais discretos da próxima vez.
– Tudo bem, não somos daqui. — eu disse, suspirando.
Gal'eigor se levantou e, em um movimento rápido e inesperado, colocou uma de suas mãos no meu rosto e a outra no rosto de Ben puxando-as até retirar nossas Máscaras ID do rosto.
Quando entendemos o que ele ia fazer, nos levantamos em posição de batalha.
– Calma... Não vou fazer nada... Só queria saber quem vocês eram... — ele colocou as máscaras no chão e se sentou no banco de novo.
Nós nos sentamos novamente.
O Osmosiano porém estendeu o braço e tentou puxar o rosto de Kevin.
– AI! — ele gritou.
– Não está usando uma máscara? — ele perguntou assustado.
– Não! É a minha cara, seu idiota!
Ele abaixou o braço e fitou Kevin.
– Você é um Osmosiano? — ele perguntou.
Kevin encarou-o por um tempo, e depois de alguns minutos respondeu:
– Sou filho de osmosiano.
– Você quer dizer Osm'ozim, filho de mestiço?
– Sim.
– Interessante... Não sei se você sabe... Mas não existem muitos osmosianos que se relacionam com humanos. Vocês são humanos, certo?
– Isso — Ben sorriu — Sou Ben, essa é Gwen, minha prima, que por acaso é descendente de Anoditas. Não sei se você conhece a descendênc...
Dei um cutucão nele com meu cotovelo antes que ele pudesse terminar de falar e olhei para Gal'eigor, assustada.
Ele olhou para mim com um sorriso no rosto.
– Isso eu já suspeitei — ele disse.
– Como assim? — perguntei.
– Como você deve ter visto no livro que comprou, Anoditas são a fonte de energia que a maioria dos osmosianos precisam... O que significa que eles percebem de longe a presença de uma. Mas como você também é uma mistura de humanos, ficou difícil de identificar seu poder.
– Espera... O que você quer dizer com isso? — Kevin perguntou.
– Quero dizer que a energia de Anoditas alimenta os Osmosianos. Você é um e não sabia disso?
Kevin me encarou por um tempo.
Gal'eigor sorriu:
– Por que estão aqui, procurando por Agreggor neste fim de mundo?
Retirei meu distintivo do bolso e mostrei para ele.
– Somos Encanadores. — Kevin falou — Estamos aqui para prender Agreggor depois que descobrimos que ele tinha roubado o Mapa do Infinito. Precisamos do máximo de informação sobre ele, e relatos recentes dizem que ele voltou para cá depois de conseguir obter o mapa.
– Certo... — ele suspirou — Já estava na hora de alguém tentar fazer algo nesse planeta. Mesmo assim, vão ter que tomar atenção dupla para não serem percebidos, primeiro por serem Encanadores... E segundo por causa dela — ele apontou para mim, engoli seco e comecei a suar — Se descobrirem que você é Anodita... Já sabe o que pode acontecer.
Fiquei tremendo enquanto estava sentada naquele banco; depois que consegui me recuperar o bastante para poder falar, perguntei:
– Mas porque está nos ajudando? Você poderia muito bem nos trair ou algo assim.
Ele deu um sorriso fraco enquanto olhava para o chão.
– Agreggor já tentou, há muitos anos,dominar esse planeta. Muitos de nós morremos naquela época... Inclusive minha esposa. Por isso quero ajudá-los a detê-lo.
– Para se vingar... — Kevin comentou. Olhei para ele, e fiquei me sentindo pior do que antes.
Pensei que ele poderia estar entendendo muito bem o que Gal'eigor sentia, não por ele ter tido uma esposa, mas por perder alguém que amava muito.
– E também para que mais ninguém sinta o que eu senti.
– Nós vamos prendê-lo — Ben disse — Você tem a palavra de Ben Tennyson. — ele sorriu.
Percebi que Gal'eigor não havia notado que Ben era o portador do Omnitrix e que salvou o Universo inteirinho e blá, blá. Deve ser por isso que Ben falou "Você tem a palavra de Ben Tennyson.", para fazer a ficha de Gal'eigor cair.
– Você é Ben Tennyson, de Ben 10?
– Sim. — ele fechou os olhos com um sorriso orgulhoso no rosto.
– Sabe que você não é bem-vindo em nosso planeta... Sabe?
O sorriso dele sumiu.
– Como?
– Tente entender que Osmosianos não se relacionam muito bem com praticamente nenhum outro tipo de espécie do universo. Eles consideram os humanos inferiores, e acham que você não tinha honra alguma para se apossar do Omnitrix. Eles consideram a sua "salvação do universo inteiro" como uma tacada de sorte.
Ben ficou com a boca entreaberta. Pelo menos aqui ele não se gabava mais.
Fiquei pensando se Primus tinha idéia alguma de como os Osmosianos se comportavam, por que ele mandou um grupo cheio de problemas pra cá.
– Pelo que vejo vocês são o Grupo Problema... Ela é uma Anodita, você Ben 10... Quanto a você — ele olhou para Kevin — Qual é a sua parte neste Grupo, garoto?
Kevin deu de ombros.
– Talvez eu ainda não tenha descoberto — respondeu sarcástico.
– Se você tiver algo... É melhor descobrir logo, ou o resto vai descobrir antes de você. E não queremos isso. Queremos, filho?
Ele negou com a cabeça.
– Bom. — ele se endireitou na cadeira e continuou — Sobre Agreggor... Por onde começamos?
Depois do que se pareceram horas sentados naqueles bancos, perguntamos tudo o que queríamos saber sobre Agreggor. Eu então finalmente perguntei:
– Você tem alguma coisa que ele usou que eu posso rastrear?
Ele me olhou com cara de pensativo e respondeu:
– Não. Vocês vão ter que procurá-lo.
– Vai nos ajudar? — perguntei.
– Sinto muito, mas não posso fazer mais do que já fiz; tenho que ficar ou então alguém pode suspeitar de alguma coisa.
Nos entreolhamos, e levantamos rapidamente.
– Obrigada pela ajuda Gal'eigor... — eu disse — Mas precisamos ir e encontrar Agreggor.
– Esperem, — ele se levantou também e andou até uma caixa velha do outro lado da sala. — Eu lembro que tenho mais alguma coisa aqui para ajudá-los. — começou a revirar a caixa. Em sua mão estava um bastão de ferro com poucos centímetros de comprimento.
No começo, achei estranho, mas entendi antes mesmo de ele dizer o que era.
– Pertencia a Agreggor. Acredite ou não, encontrei isso depois de sua derrota no planeta. — ele entregou o bastão para Kevin. — Talvez você saiba usá-lo. — disse e depois virou-se a mim. — Pode ajudá-la a rastrear ele. — sorriu.
Minutos depois estávamos procurando por Agreggor no frio daquele planeta.
Eu queria ficar o mais focada possível na missão, mas quem disse que eu consegui?
Primeiro, eu ainda estava me sentindo bem fraca; segundo, eu fiquei com medo de saber o que Agreggor poderia fazer comigo se ele me encontrasse. Sei que eu parecia uma covarde. Mas eu admito que eu estava com medo, e muito.
Eu queria tanto voltar para casa e simplesmente deitar na cama, sem ficar precisando me preocupar se algum osmosiano maluco vai pular em cima de mim a qualquer segundo.
Ben parecia estar interessado na missão. Ele parecia sério, mas eu sabia que por dentro estava feliz por finalmente ter uma missão como essa: perigosa.
Eu estava tentando agir o mais normal possível, mas acho que depois do que Gal’eigor disse, era fácil de saber que é totalmente normal eu não me sentir bem naquele planeta sombrio. Ele era tudo o que eu não queria: sem o aconchego que você sente quando se está quente mesmo no frio de inverno, sombrio o que deixava o lugar menos aconchegante ainda e desconhecido. Quero dizer, Primus nos avisou que aquele lugar só era acessado por osmosianos e encanadores, o que significa que ninguém sabia exatamente a fraqueza de um osmosiano legítimo. Eu tinha certeza de que Encanadores e osmosianos não eram os únicos a entrarem lá, mas esse tipo de pessoal não pode ser tão amigável assim, de qualquer maneira.
Enquanto a Kevin... eu não sabia o que dizer. Ele estava quieto durante toda a viagem. Quando falava ele parecia outra pessoa, uma pessoa responsável e preocupada com o trabalho, nada mais. Eu queria tanto que ele viesse para o meu lado e me abraçasse. Eu já sabia como ele era, eu já tinha decorado tudo nele, e mesmo assim, eu ainda sentia que ele mudava a cada vez que eu ficava perto dele, mas algumas coisas nele nunca mudaram: seus olhos, mesmo tendo ficado mais escuros próximos daquela pedra ônix, tinham o mesmo tipo de olhar: sombrio, misterioso,intimidador, enraivado e fechado; só que ao mesmo tempo, eram quentes.
Acho que ninguém tinha percebido isso, mas quando eu era pequena e tinha o conhecido, percebi aquela sensação boa e doce que seus olhos transmitiam. Mesmo sendo difícil vê-los, era uma sensação confortante. A outra coisa que nunca tinha mudado desde a primeira vez que eu me aproximei dele foram suas mãos geladas, mas o resto de seu corpo era quente e aconchegante, transmitindo a mesma sensação que seu olhar dava.
Percebi naquele momento que era porque, talvez, ele tivesse outra parte osmosiana, e suas mãos ficaram com as características frias deles.
Mas todas essas características eram dele e formavam a personalidade dele. E era assim que eu gostava... Kevin do jeito que é. Mesmo que a parte de ser um criminoso não me agradasse muito.
Eu sei que eu nunca admitiria nada disso pra ele ou pra qualquer outra pessoa, mas Kevin era uma das pessoas mais gentis e carinhosas que eu já conheci.
Eu só queria que ele deixasse essa parte carrancuda e estranhamente responsável de lado e viesse do meu lado.
Nós tínhamos voltado para a floresta, que agora estava mais escura – como se estivesse anoitecido. Eu podia ver dois satélites prateados no céu, nos ajudando a iluminar aquela floresta.
O rastro de Agreggor ainda estava fraco e parecia que ia levar algum tempo para encontrarmos ele.
Soltei um bocejo e Ben olhou para mim.
– Melhor pararmos para descansar. – comentou.
– Também acho – falei.
Mesmo estando longe a nave,caminhamos até ela. Como já tinhamos decorado a maior parte do caminho que percorremos, chegamos mais rápido até lá.
Finalmente tirei minha máscara e me joguei no colchão da nave. Ao meu lado, em outro colchão, Ben estava deitado com os olhos voltados para o teto.Pela primeira vez durante toda essa viagem, seu rosto mostrava preocupação.
Olhei para os lados e vi que Kevin não estava por perto.
–Você está bem? – perguntei.
Ele me encarou com seus olhos verdes e não disse nada por alguns minutos.
– Nervoso – respondeu, inseguro.
– Então somos dois – suspirei.
Eu sorri para ele, como se aquilo fosse diminuir nosso nervosismo.
Ele deu uma risada sem-graça, mas seus olhos voltaram para o teto, pensativos.
– Você está nervoso porque tem medo de não completar a missão? – perguntei, tentando continuar a conversa. – Qual é, Ben. Você nunca foi do tipo inseguro.
Ben fechou seus olhos e suspirou como se estivesse cansado da minha “intromissão” no que quer que fosse.
Olhei para ele ainda mais preocupada.
Então eu não era a única com medo de ser morta por um osmosiano.
– Eu sinto falta dela – Ben finalmente disse essas palvras o mais rápido possível.
Fitei-o e não acreditei no que tinha dito.
Julie.
Era nela que ele estava pensando.
Nesse momento eu senti um aperto no meu peito, culpando a mim mesma por não perceber uma coisa tão óbvia assim.
– É normal sentir falta dela. – respondi, sorrindo. – Dá para ver o quanto você... bom, você gosta dela. – tentei não falar a palavra com “a”.
– Acho que eu sinto mais do que isso por ela.
Levantei uma sobrancelha.
Esse era o mesmo Ben de antes? De repente ele aparece com esses assuntos melosos.
Foi então que eu percebi.
O planeta não tinha só me afeado. Tinha afetado Ben também. E ele estava com medo, com medo de não voltar mais – tentei evitar esse pensamento, mas ficava cada vez mais difícil. Assim como eu.
Esse lugar era pura insanidade, e qualquer um podia atacar você por razão nenhuma.
– Escuta, Gwen. – Ben virou seu rosto para mim. – Se alguma coisa acontecer...
– Cala a boca! – respondi sem pensar, antes que ele terminasse a frase. Dessa vez eu estava furiosa. – Não vai acontecer absolutamente nada! Você é Ben Tennyson. Você salvou o Universo Inteiro sem nenhum ferimento grave. E agora vem dizer que está com medo de um planeta como esse?
Ele arregalou os olhos para mim, surpreso com o que eu falei.
Eu mesma estava surpresa com o que acabara de falar. Mesmo assim, continuei a falar. Eu não gostava de ver meu primo assim. Eu já estava mal, e ele não ia me fazer sentir pior.
– Você não ficou com medo de entrar na frente do Fantasmagórico! Aquele bicho causa mais medo que esse planeta inteiro e você não disse nada ridiculamente medroso ou desencorajador! Então não venha me dizer que está com medo agora. Porque isso nunca vai fazer o seu tipo!
Recuperei o fôlego. Me senti aliviada, para falar a verdade.
Ele sorriu para mim depois de um tempo sem dizer nada.
Acho que o que eu falei ajudou. Não só ele, é claro, mas a mim também. Agora eu estava com tanta raiva que esqueci completamente do medo.
Para mostrar que eu terminara minha argumentação, virei meu corpo para o outro lado, olhando a parede.
Ouvi Ben dizer “Obrigado”.
Como queria mostrar que ainda estava brava com a total insegurança de sua parte, apenas encolhi os ombros e não me mexi mais.
Quando virei meu rosto para vê-lo, Ben já estava dormindo. Com certeza, estava aliviado.Seu rosto ficou relaxada e ele respirava mais lentamente.
Sorri, por saber que pelo menos alguém aqui já se sentia mais confiante.
Tentei fechar meu olhos para descansar e até que consegui tirar um cochilo de vinte minutos, por que então ouvi da porta de nave se abrindo e acodei em um salto. Olhei para o lado, e vi a sombra do corpo de Ben, anida dormindo. Alguém apagou as luzes...
– Kevin? – tentei falar o mais baixo possível.
Nenhuma resposta.
Esperei alguns segundos para ver se eu conseguia avistar alguém ou alguma coisa se mexendo no escuro, mas nada aconteceu.
Exalei profundamente umas duas ou três vezes e me levantei da cama. Pensei em acordar Ben, mas acho que não precisava já que não parecia ser algo realmente preocupante.
Talvez só fosse o barulho de algo caindo, e eu tenha ouvido coisas. Decidi ir até a sala de controles, mas não havia ninguém lá. Pior, nada estava funcionando... Estava tudo apagado.
– Kevin? Você está ai? – novamente procurei por ele. Nada.
Desci para a porta da nave, e eu confirmei minha suspeita.
A porta estava aberta, mas agora ela subindo novamente e eu tinha a impressão de que eu não iria mais conseguir sair de lá.
O pior era que Kevin não estava em lugar nenhum...
– Não...
Alguém pegou ele...
Saí correndo, descalça e com meia parte da minha roupa de encanador no corpo. Consegui, por pouco, apertar meu corpo contra a pequena abertura da porta, antes que ela se fechasse, e meu corpo caiu no chão branco e gelado do lado de fora.
Meu rosto começou a congelar e meus braços descobertos começaram a tremer.
Meus olhos se apertaram no escuro e eu avistei uma sombra escura adentrando as árvores, pelo mesmo caminho que usamos para ir e voltar.
Levantei meu corpo e saí correndo atrás da sombra.
Isso era maluquice, mas eu sabia que se eu não fosse atrás daquela sombra, eu ia perder o Kevin.
Criei algumas plataformas de mana na minha frente para meus pés não congelarem naquele chão frio e corri o mais rápido que pude.
Quando fiquei próxima o suficiente da sombra, me assustei ao ver que Kevin estava sozinho.
– Kevin! – gritei, e ele parou.
Alcancei ele em cinco passos e ele se virou para mim surpreso.
– Gwen?
Envolvi meus braços com as mãos e bati meus dentes.
– O...O q-que v-v-você está fazend-d-do aqui f-f-f-fora? – perguntei.
Ele tirou a capa que estava em suas costas e me cobriu. No mesmo instante, meus dentes pararam de ranger.
– Achei ter visto alguma coisa aqui fora e a segui, — os olhos dele brilharam de um jeito estranho e eu sabia que ele estava mentindo.
– Mentira – falei, fuzilando-o com os olhos.
Ele ficou em silêncio, como se estivesse blefando.
– Não acredita em mim? – eu odiava o quão bom ele era em mentir.
– Não – falei o mais firme que pude. Porque era verdade, eu não acreditava que era isso. – Porque não me chamou? Ou o Ben?
– Assim como você, eu não tive tempo de sair levantando todo mundo para me seguir.
Olhei para o corpo dele.
– Mas teve tempo para vestir o traje inteiro, pegar uma máscara ID e o controle da nave?
– Eu não tirei o meu traje, e a máscara e o controle já estavam presos no meu cinto – respondeu antes mesmo de eu terminar a pergunta.
– Porque tentou trancar a gente na nave? – perguntei, interrompendo ele.
– Eu não tentei trancar vocês.
– Tentou sim.
– E porque você acha isso? – seu tom de voz aumentou um pouco.
– Você desligou a nave, e levou o controle com você... O que é isso? – perguntei percebendo pela primeira vez um pedaço de metal na mão dele. O objeto de Agreggor.
Agora sim eu podia suspeitar de algo pior.
– Kevin... o que você está pretendendo fazer? – comecei a ficar desesperada. Ele estava louco ou o quê?
Ele não me respondeu.
– Kevin, por favor, me responde. Por que você tentou me trancar naquela nave?
– Porque não é da sua conta. Volta pra nave.
– Não! – gritei, furiosa com ele ao finalmente entender o que ele ia fazer. – Você não vai lutar com ele sozinho! Ficou maluco?!
– Vocês não tem escolha, são muito fracos. Nem mesmo o Ben é capaz de derrotar o Agreggor.
– Temos, temos escolha sim! – comecei a gesticular feito louca – Podemos bolar um plano, encurralar ele. Podemos fazer uma armadilha, podemos derrotar ele e podemos voltar pra casa. Nós três! – senti meus olhos umidecerem mais do que o normal.
– Você fala isso como se eu não tivesse muita chance. – ele disse sarcástico.
– E-Eu não quis dizer isso... Eu só...
– Então me deixa em paz! – ele gritou como se aquilo fosse o ponto final da nossa conversa. Depois disso, ele deu as costas para mim e continuou a andar.
– Se você acha que eu vou deixar você sair andando atrás daquele cara sozinho, está muito enganado, — gritei e corri atrás dele.
Comecei a chorar de raiva e puxei-o pelo cinto. Pensei em usar um dos meus golpes para deixá-lo inconsciente e voltar para a nave. Mas quem disse que eu tinha coragem?
Kevin virou para mim novamente e eu finalmente disse, abraçando ele:
– Eu não posso perder você.
– Muito menos eu... – ele respondeu sorrindo de leve.
Sorri de volta, mas eu sabia que parecia um sorriso falso, porque eu sabia que ele não ia desistir dessa ideia maluca.
– Kevin, — falei firmemente – se você continuar com isso, eu vou parar você.
Ele sorriu e colocou sua mão na minha bochecha gelada.
Finalmente, ele me beijou. Depois de tanto tempo, era isso que eu estava esperando.
Eu queria mesmo ter aproveitado em como a boca dele tocava a minha, ou em como os braços dele apertavam as minhas costas. Mas eu sabia que aquele beijo tinha ar de despedida. Eu sabia que aquele idiota ia atrás do Agreggor, então eu ia ter que tomar medidas drásticas.
No mesmo momento em que ele me soltasse, eu ia deixá-lo inconsciente. Mesmo assim, tentei sentir todo aquele conforto de tê-lo comigo ainda que por apenas alguns segundos.
Kevin desenhou um caminho com seus dedos pelas minhas costas. Ele levantou minha camiseta por baixo da capa e passou a ponta de seu indicador desde a base da minha coluna até a parte de trás do meu pescoço. Aquilo me deixou arrepiada e eu me sentia cada vez pior por estarmos em um lugar como aquele...
Ele começou a apertar uma região do meu pescoço com força.
Foi aí que eu vi que ele tinha me engando.
Kevin soltou sua boca da minha e disse uma última coisa antes de eu apagar:
– Me desculpe.
Eu queria socar ele, mas um segundo depois, eu fechei meus olhos.
A última coisa que senti foram minhas lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas.
(fim PDV – Gwen)
Aos poucos, Kevin carregou a garota ruiva para de volta da nave. Ele usou o controle para subir e foi até o pequeno quarto com três camas. Em uma delas, estava Ben, dormindo como uma pedra. Depois do discurso que a prima havia dado, era difícil não ficar mais aliviado.
Kevin colocou Gwen na cama e a cobriu, tirando a capa de seu corpo. Ele olhou para ela por mais alguns minutos e limpou suas lágrimas com o polegar.
– Me desculpe mesmo, Gwen, — ele disse, triste. Não queria que fosse assim. Mas ainda havia uma pequena chance de ele ganhar, e era nela que ele tinha esperança. Para voltar para sua mãe, para seus amigos e para Gwen.
Ele deu mais um beijo de despedida nela e olhou para Ben.
– Me deseje sorte, — ele falou, mesmo sabendo que seu amigo não o ouviria.
Depois disso, Kevin foi embora atrás de Agreggor.
Gwen abriu os olhos uma hora depois. Quando se lembrou de tudo o que tinha acontecido começou a ficar desesperada e pulou da cama.
– Ben! – ela gritou balançando o primo. – Acorda! Acorda!
O menino grunhiu e seus olhos esverdeados se abriram duvidosos.
– Uh, o quê? – ele perguntou.
– Levanta, o Kevin fugiu! Ele foi lutar contra o Agreggor sozinho!
– O quê? – ele pulou da cama assim como ela. – Quando?
Ela começou a chorar e respondeu nos soluços.
– E-Eu não sei, acho que há uma ou duas horas atrás... Tentei convencê-lo a não ir mas...
Antes que Gwen pudesse terminar, ele saiu correndo e vestiu o resto de seu traje, sua prima fez o mesmo.
Quando ficaram prontos, tentaram sair, mas não consegiuram abrir aporta, já que tudo estava desligado.
Gwen começou a jogar mana pela porta, mas não fazia nem um arranhão. Ela então começou a atirar nas paredes e nada aconteceu. Mesmo assim, ela não parou e começou a descontar toda a sua ravia nas paredes e no chão da nave.
Ela só parou quando Ben colocou uma mão em seu ombro e a acalmou.
– Eu sei que você está com raiva – ele disse cochichando. – Mas agora não é hora para isso, Gwen.
Ela desabou no chão e o socou com toda sua força.
– Aquele idiota! – gritou – Achando que pode derrotar Agreggor sozinho. Achando que é incrível demais...
– Você não entendeu, não é? – Ben disse, não acreditando em como ela não havia percebido algo tão óbvio – Ele fez isso porque não quer que a gente se machuque. Por que não quer que você se machuque.
Gwen virou seus olhos vermelhos para o rosto do primo.
– Ele vai me machucar mais se fizer essas idiotices! Ben, se acontecer alguma coisa com ele... Eu mato ele!
Ben suspirou.
Garotas...
Mas naquele momento, mesmo sabendo a razão de Kevin tê-los trancado naquela nave, Ben começou a sentir o mesmo que sua prima.
Aquele idiota.
O pior era que quem estava sentindo mais era Gwen. Desde a vez no Mr. Smoothie, os dois têm agido de um jeito muito diferente. Ele sabia que eles tinham terminado, e que Gwen tinha sofrido demais com isso. Mas até para ele, tudo aquilo era um tanto estranho.
Ben nunca tinha visto sua prima agir daquele jeito. Nunca mesmo. Ele sabia que Gwen não contava muitas coisas para ele, e Ben não ligava tanto para isso porque a maioria eram coisas que ele nem ligava em saber. Mas dessa vez era diferente.
Ela estava escondendo alguma coisa que nem Kevin sabia... E era isso que estava fazendo ela se sentir tão mal. Tão depressiva.
Mas ele pensava naquilo depois. Ou então Gwen ia ficar pior do que já estava.
Ele mandou Gwen se levantar e tirou sua luva para mexer em seu relógio.
Chamar a atenção não importava mais.
Ben girou a base do relógio e a afundou quando viu o holograma de Friagem.
Friagem pegou Gwen no colo e ficou translúcido. No mesmo instante, eles passaram pelas paredes da nave e voaram direto para onde Gwen havia rastreado Agreggor pela primeira vez.
Quando os dois passaram perto de uma multidão de osmosianos, perceberam que mesmo invisíveis, podiam ser notados. Alguns viravam o rosto como se tivessem recebido um grande cutucão no ombro.
Ben e Gwen passaram por mais alguns prédios e finalmente chegaram no lugar que Gwen havia rastreado.
Eles pousaram na base do prédio e Ben voltou a sua forma normal.
Gwen entregou para ele uma máscara ID e colocou a sua antes que alguém notasse os dois.
– Ben – ela disse antes de saírem para procurar uma entrada. – Eu sei que isso não é uma das melhores idéias, mas... Não acha melhor pedirmos apoio para os Encanadores?
– Eu já fiz isso – ele respondeu e antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, cotinuou – Eu pedi para o vô Max um sinalizador. Ele já tinha feito algumas missões aqui em Osmosian junto com o pai do Kevin, então sabia pelo que nós íamos passar. Disse que se qualquer coisa acontecesse, eu deveria chamar por ele. Enviei um sinal enquanto eu estava colocando o traje. Daqui a algumas horas um grupo de Encanadores vai chegar aqui.
Gwen ficou chocada com o que o primo dela disse. E ao mesmo tempo se sentiu aliviada. Era incrível como Ben podia ser nesses momentos... Desde que os três chegaram no planeta, ele não abriu a boca uma vez alguma para dizer qualquer piada.
E ela sabia que Ben ia se tornar um ótimo líder.
Gwen deu um abraço nele e depois disse:
– Eu tenho sorte de ter um primo como você. – ela sorriu.
– Idem – Ben respondeu sorrindo.
Eles se encararam por alguns minutos e Ben falou:
– Nós vamos trazer o Kevin de volta. E nós vamos sair daqui.
Gwen sorriu mais uma vez para ele e seus olhos brilharam.
No final, aquela ia ser só mais uma das aventuras dos dois. Pelo menos eles esperavam, mas não tinham tempo para duvidar de coisa alguma naquele momento.
Com aquele sentimento de confiança os dois primos saíram e se misturaram na multidão para procurar alguma entrada no prédio.
Eles rondaram a base do edifício antigo e alto e encontraram uma entrada em um beco.
– Sempre em becos – Ben falou, cansado de se esconder em lugares escuros. – Tem certeza que é esse lugar? – ele perguntou olhando para a porta de metal. No chão, várias pedras estavam no chão, como se aquela porta estivesse escondida por um muro.
Gwen observou-a e viu que a fechadura estava arrombada.
Ben a empurrou para o lado e examinou a fechadura.
– Kevin – ele sorriu – Ele já arrombou a porta da minha casa desse jeito.
Gwen riu e sentiu-se mais confiante para entrar. Ben foi na sua frente e ela criou uma esfera de luz quando entraram no escuro.
Durante muito tempo, os dois andaram em um corredor estreito com uma escadaria que se aprofundava cada vez mais no chão.
No meio do caminho, Gwen começou a sentir uma tontura e Ben segurou sua mão para prosseguirem. No fim da escadaria, encontraram mais uma porta, só que esta tinha controles no lado, como se a porta só se abrisse com uma senha. Mais uma vez, os controles estavam destroçados. Como se alguém com pouca paciência para decifrar códigos tivesse parassado por lá.
Gwen engoliu em seco e esperou Ben para prosseguir. Ele hesitou, mas empurrou a porta de metal aos poucos. Os dois suspiraram de alívio ao verem que era apenas um elevador, mas começaram a se perguntar o que teria lá em baixo de tão importante para ficar a tantos metros abaixo do chão. O elevador se assemelhava àqueles que os mineiros usavam.
Ben tirou o sinalizador de seu avô do cinto e colocou-o no chão. Ele sabia que se descessem mais um pouco, seu avô perderia o sinal e adeus para reforço.
Os dois primos entraram no elevador e desceram a única alavanca que tinha no lugar. O pequeno cubículo de metal tremeu antes de descer e os dois se seguraram nas grades enferrujadas do elevador.
Alguns segundos depois a parede em frente aos dois deu lugar a uma enorme câmara com luzes fracas e azuladas, dando um ar frio e sombrio.
O elevador parou e os dois primos saíram, eles observaram o lugar e procuraram por qualquer coisa suspeita.
O problema era que tudo naquele lugar era suspeito.
Gwen observou melhor o salão e começou a ficar cada vez mais desconfiadado que aquilo poderia ser.
O salão tinha um formato irregluar.
As paredes de tijolos tinham inúmeros cilindros grandes de vidro com líquidos azulados enfileirados. Mesas estavam dispostas nos cantos das outras paredes com tubos de ensaio e papéis com escrita. Algumas delas estavam quebradas no chão como se alguém tivesse caído bem em cima dela.
No outro lado do salão, em frente aos primos, uma máquina enorme estava sobre uma plataformade cinquenta centímetros ou menos. E aquilo parecia já ter sido usado inúmeras vezes.
Um laboratório.
– Ben – Gwen tentou falar, mas ele a interrompeu.
– Eu sei – disse ele olhando para os cilíndros de vidro.
Dentro deles, além do líquido azul, haviam vários corpos de aliens.
Eles se aproximaram dos tubos e olharam para um alien que lembrava uma enorme água-viva azul.
– Eles estão... mortos? – Ben perguntou.
– Não – sua prima respondeu – Está vendo aqueles cabos? – ela apontou para alguns tubos acinzentados que passavam pelo corpo do alien água-viva, os cabos subiam até o topo do cilindro e se conectavam a uma enorme caixa de metal. – São tubos de respiração ligados a caixas de contenção. Eles só estão desacordados. Talvez com o efeito de alguma droga.
Ben observou o alien por mais alguns segundos e viu algumas marcas que com certeza não faziam parte do corpo dele.
– O que será que Agreggor está fazendo com todos eles? – perguntou.
– Eu não sei, mas é melhor nós encontrarmos ele e Kevin antes que ele nos ache. Depois cuidamos dos aliens.
Ben concordou e finalmente desprendeu seus olhos do alien água-viva.
Os dois andaram pelo enorme salão. Eles se escondiam entre as paredes pois ainda tinham medo de que alguém pudesse estar lá.
Ben e Gwen ouviram um barulho vindo de alguma outra sala, como se alguém tivesse jogado algo muito pesado no chão.
– O que foi isso? – Gwen perguntou, assustada ainda mais ao sentir o tremor no chão por causa do barulho.
Antes que Ben pudesse responder, uma parede à sua esquerda explodiu e alguma coisa foi arremassada para o outro lado do laboratório.
A sombra fez um enorme buraco na parede e depois caiu no chão com força, imóvel.
Ben e Gwen se aproximaram e correram até a sombra ao perceberem que era Kevin.
Gwen virou o corpo dele para deixar sua barriga para cima e o observou. Kevin estava cheio de buracos e rachaduras no traje, e seu rosto estava com hematomas no olho esquerdo e na testa. Sua boca estava toda rachada e sangrando. Gwen tirou sua luva e sentiu a pressão no pescoço dele.
Ele só estava desacordado... e horrivelmente ferido.
– Kevin – Ben tentou acordá-lo.
Dois olhos castanho escuro se abriram e encontraram dois pares de olhos verdes brilhando com preocupação.
– O que vocês estão fazendo aqui?! – ele gritou.
– Fazendo nosso trabalho – Ben disse dando de ombros.
– Vão embora!
– Não – Gwen respondeu.
Uma outra sombra saiu do buraco feito pelo corpo de Kevin.
Os três rostos se voltaram para a sombra, e Kevin tentou se levantar junto com os dois. Gwen o empurrou para mais longe, pois não queria que ele se aproximasse mais de encrenca. Como se aquilo fosse adiantar.
A sombra se aproximou mostrando ter um metro e noventa de altura. Um osmosiano de sobretudo vermelho sangue aberto, calças cinzas e botas de combate pretas apareceu. Ele tinha cabelos negros compridos até as costas mas era calvo no topo da cabeça, dando lugar a dois pares de escamas.
O que mais chamava a atenção nele eram seus olhos cansados. Duas íris castanhas com um brilho vermelho intenso e assustador.
O homem deu um sorriso sinistro.
– Vocês finalmente chegaram, — falou com uma voz gélida e roca.
Ele se aproximou balançando em sua mão direita uma enorme lança de metal.
– Agradeço ao Levin por devolver minha arma – ele disse. Gwen lembrou-se que a lança era o objeto que Gal’eiggor havia lhe entregado. – E agradeço a ele por trazer vocês dois até mim, sem que eu precisasse mover um dedo.
Ben cerrou os punhos e gritou:
– Você é Agreggor, não é?
O homem abriu ainda mais seu sorriso sinistro.
– Bravo – respondeu.
– O que fez com esses aliens? – Ben perguntou apontando para os cilindros de vidro.
– Preciso deles para meu plano, não que vocês precisassem saber. Já que eu vou matar vocês de qualquer jeito.
– Vão embora daqui! – Kevin gritou para os dois entrando na frente de Ben.
– Como se isso fosse possível, — Agreggor falou.
Ele apontou para o elevador com a lança e um raio de energia saiu da ponta do objeto, como um relâmpago.
O elevador explodiu e tijolos caíram em cima dele, tampando a saída.
Kevin grunhiu, e gritou novamente:
– Deixa eles irem. Não são eles que você quer...
Agreggor aproximou-se mais do grupo.
– Até pensei em deixá-los ir. Mas depois do perigo que esse moleque mostrou, quando descobri quem ele era – ele apontou para Ben para a lança – não posso deixar de me precaver. E você – ele apontou para Gwen – Você é uma Anodita. E mesmo que sendo pela metade... Posso me aproveitar muito do seu poder.
– Como se eu fosse deixar – ela respondeu o mais firmemente possível. Por dentro ela estava com medo, mas já estava cansada de ficar chorando.
– Acredite... Você não vai ter muita escolha mesmo.
– Não vamos ter escolha uma ova! – Ben gritou.
Agreggor sorriu e falou, ignorando Ben:
– Últimas palavras? – no mesmo momento, ele deu um grande pulo e moveu sua lança para pousá-la sobre a cabeça de Ben.
Ben foi rápido o bastante e transformou-se no Bola de Canhão, formando um grande casulo contra a lança.
A arma de Agreggor ricocheteou contra o escudo de Ben e fincou-se no chão a poucos metros.
– Uma coisa interessante sobre osmosianos... – Agreggor pousou sua mãos sobre Ben, antes que ele pudesse reagir. – É que podemos sugar e devolver energia.
As mãos brancas de Agreggor soltaram a mesma energia que sua lança e eletrocutou Ben.
O escudo do Bola de Canhão se desfez e ficou imóvel no chão grunhindo.
– Mas tenho certeza de que você já sabia disso – o osmosiano disse, deixando Ben cair no chão.
Ele pegou sua lança e se preparou para atacar Gwen e Kevin, que estavam tentando ficar o mais longe da luta.
Antes que Agreggor pudesse dizer algo, uma luz verde se acendeu e apagou rápidamente, e antes o que era o corpo do Bola de Canhão, agora estava Fogo Selvagem.
– Acha que se livrou de mim assim tão fácil? – Ben perguntou jogando duas bolas de fogo contra Agreggor, lançando-o para longe de Gwen e Kevin.
Ele correu até o corpo do osmosiano para não perder tempo e começou a atacá-lo com todas as suas forças.
Gwen tentou ir até lá, mas Kevin a segurou pelo pulso.
– Kevin, me deixa ir! – ela disse tentando soltar-se.
– Não, você não vai lá. Eu disse para deixar isso comigo, mas você não me ouviu.
– Acha que eu posso ficar sentada esperando você ser morto? Está muito enganado!
– Acha que eu posso fazer o mesmo?
Ela ficou com mais raiva e puxou seu pulso com toda sua força para ir atrás de Agreggor.
Gwen correu até Agreggor e tentou prendê-lo com seu mana. Em alguns segundos, o osmosiano absorveu sua energia e a enfraqueceu.
Agreggor pegou Ben depois de se desviar de algumas de suas bolas de fogo e o arremessou contra Gwen. Os dois se levantaram o mais rápido que puderam e Ben mudou de forma. De Fogo Selvagem, para Enormossauro.
Ben pegou uma caixa enorme de ferro e a arremessou contra Agreggor que a pegou como se fosse isopor. Gwen aproveitou a chance e lançou mais raios de mana contra ele.
O corpo grande foi arremessado e bateu contra a parede próxima da máquina sobre o pedestal. Ben correu até Agreggor e afundou seus dois punhos contra ele, formando uma enorme cratera no chão. O chão tremeu, mas o teto continuou no lugar.
Gwen pegou Agreggor novamente com seu mana e o jogou novamente contra o chão como se ela estivesse segurando um enorme martelo. Ela repetiu o movimento até se cansar.
Ben pegou o osmosiano e o jogou contra outra parede. Ele caiu no chão formando outra enorme cratera e começou a se levantar enquanto tremia de dor. Ele colocou uma mão sobre a caixa de força ao seu lado e começou a absorvê-la.
Ben e Gwen correram até ele para tentar impedí-lo de voltar a se fortalecer... mas eles finalmente conseguiram tirar toda a paciência de Agreggor.
– JÁ CHEGA! – ele gritou e descarregou uma enorme potência de energia contra os dois primos.
Eles caíram no chão e seus corpos começaram a exalar fumaça. Ben levantou-se, ainda na forma de Enormossauro e tentou repetir o golpe com seus punhos. Mas dessa vez, Agreggor bloqueou-os com seus antebraços. Depois, segurou Ben e o jogou contra a parede o mais forte que pôde. As dez toneladas de Ben logo viraram um corpo imóvel bem menor no chão. Agreggor foi até ele, com sua lança o eletrocutou mais uma vez. Ben gritou de dor e foi jogado pelo osmosiano mais uma vez.
– Acha mesmo que aquilo era tudo o que eu tinha? – Agreggor perguntou, agachando-se ao lado do menino de cabelos castanhos. – Pois aquilo não foi nem o começo, garoto.
Ele chutou Ben na barriga e virou seu corpo para ficar de rosto voltado ao teto.
Agreggor virou sua lança com a ponta virada para o peito de Ben, e se preparou para encravá-la lá.
Antes que pudesse, um anel de mana envolveu sua cintua e Agreggor foi jogado para longe de Ben.
Gwen começou a arremessar o máximo de raios que pôde.
– Fica longe dele! – ela gritou sem parar para descansar.
Ela deu um salto e chutou-o no rosto. Ele cambaleou para trás e quase deixou sua lança cair. Gwen não ia para até deixá-lo inconsciente no chão, o que o deixou mais nervoso ainda.
Ele a pegou pelo pescoço quando teve chance e a lançou no chão.
Aggregor fincou sua lança contra a mesma caixa de força que usara e através de sua arma, conduziu a energia até suas mãos.
Gwen tentou impedi-lo, mas tinha medo de ser eletrocutada novamente. Ela tentou ficar o mais longe possível de Agreggor e fez um escudo para evitar suas rajadas de energia.
Ela foi enfraquecendo aos poucos e sabia que não podia esperar ajuda de ninguém. Nem de Ben que estava incosciente no chão do outro lado do laboratório, nem de Kevin, que estava ferido demais para fazer qualquer coisa.
Agreggor aproximou-se dela enquanto jogava outras rajadas de energia e quando a encurralou, fincou sua lança em seu escudo e começou a absorver todo o mana dela até a cúpula violeta em volta de Gwen sumir por completo. Um brilho rosado passou da lança para Agreggor e ele respirou profundamente.
– Há quanto tempo eu não sinto esse tipo de poder? – ele falou sorrindo, enquanto se aproximou da garota meio Anodita. Ela estava com medo dele, e ele sabia disso.
Gwen iluminou sua mão e tentou socá-lo, mas Agreggor a desviou facilmente. Ela tentou dar outros golpes de luta para afastá-lo dela, mas quanto mais ela tentava, mais ele se aproximava. Até que Gwen se distraiu, e ele a pegou pelo pescoço pendurando-a facilmente a alguns centímetros do chão.
Agreggor fitou os olhos dela e Gwen começou a sentir um medo inexplicável subir sua espinha. Aqueles olhos estavam ainda mais vermelhos e com mais fome. As marcas escuras embaixo deles ficaram ainda mais profundas.
– Você tem bastante poder para alguém metade Anodita. – ele sorriu – Isso é bom...
Foi aí que ela se sentiu mais fraca. Era como se ele estivesse tirando todo o seu sangue de seu corpo. Uma parte muito importante dela. Ela podia sentir sua pele ressecando, seu rosto formando olheiras, seu corpo virando pele e osso.
Antes que ela conseguisse dizer algo, caiu no chão tremendo e grunhindo, mas com dúvida do porquê de Agreggor ter parado de sugar seus poderes.
Ele agachou ao seu lado e disse:
– Pegar sua força desse jeito é muito sem graça. – ele levantou seu olhar para Kevin, que tentava andar sem se apoiar nas paredes. Agreggor sorriu ao ver o olhar ameaçador do garoto. Ele sabia. Sabia que Kevin gostava dos dois, principalmente da garota. – Sabe porque eu queria vocês dois aqui? Por causa dele – mesmo Gwen não podendo virar seu rosto, ela sabia que Agreggor se referia a Kevin – O pai dele me prendeu no Vácuo Nulo e como ele já está morto, decidi me vingar do filho dele, que também eu já conhecia. E sinceramente, eu não gosto dele. Então saiba que não é nada pessoal o que eu vou fazer com você e seu priminho ali. É pura vingança contra o Levin. Nada mais...
Ele pegou Gwen pelo pescoço mais uma vez e a jogou contra o chão ao mesmo tempo que sugava seus poderes.
– Como eu já estava sendo procurado pelos Encanadores, pensei “Porque não trazer o Levin aqui?” Então eu invadi o computador dos Encanadores e sugeri vocês como melhores colocados para essa missão. E aqui estão vocês... Minha sorte foi descobrir que você ia me fortalecer ainda mais.
Aquilo era inútil, mas ela tentou se levantar apoiando-se com seus braços finos e fracos. Parecia que ela ia se quebrar a qualquer instante.
Gwen grunhiu ao sentir Agreggor empurrando-a para o chão novamente.
– Chega de conversa, — ele falou.
Gwen virou seu rosto para ver que ele segurava sua lança do mesmo modo que fazia para Ben. Ela não conseguiu fechar seus olhos, só ia fechá-los no último segundo.
Foi aí que Kevin pulou em cima de Agreggor e o afastou dela. Gwen virou seu rosto para ver o que tinha acontecido e ficou com medo.
Kevin tinha absorvido energia... Seu corpo inteiro estava conduzindo eletrecidade do mesmo jeito que ele fazia quando criança. Gwen se levantou lentamente e foi ajudar o primo, mas pelo canto do olho observava a luta entre Agreggor e Kevin.
Agreggor usava sua lança para acertar Kevin, mas ele a desviava.
Kevin puxou a arma dele e a jogou para longe. No momento em que a soltou, sua mão começou a brilhar com a corrente de eletricidade e ele tentou acertá-la em Agreggor. O osmosiano segurou seu punho com força e tentou puxar Kevin para dar um soco. deixá-lo desnorteado por alguns segundos e alcançar sua lança.
O garoto mais novo, porém, conseguiu desviar, pegou seu braço com as duas mãos e bateu o corpo de Agreggor no chão.
Uma cratera se abriu e o barulho foi pior do que o próprio Ben fazia com o Enormossauro.
Kevin tentou lançar um relâmpago de energia contra Agreggor, mas ele se lavantou mais rápido e ambos se imobilizaram.
Kevin e Agreggor estavam segurando as mãos um do outro com força. Ambos tentavam se empurrar para ganhar mais força e rachaduras começaram a se formar embaixo de seus pés.
As mãos dos dois começaram a brilhar com eletricidade e aos poucos a sala começou a se encher de luz. Houve um barulho de explosão e os dois corpos voaram em direções opostas.
Agreggor se levantou mais rápido do que Kevin e disse, olhando-o com ódio enquanto andava até Gwen e Ben:
– Não aguento mais você!
Gwen tentou puxar Ben do chão, e ele se levantou com o resto de sua pouca força. Ben entrou na frente da prima e fez uma posição de proteção contra Agreggor.
O osmosiano pálido riu e com um movimento do braço, jogou Ben a metros de distância
Gwen começou a recuar até tropeçar e cair no chão. Ela tentou invocar mais de seu mana, mas nada veio. Ao invés de tentar deixar Agreggor, ela agora estava tentando apenas fugir dele.
Não tinha mais como esconder todo o medo que ela estava sentindo. Seus olhos começaram a brilhar e ela fazia o máximo para se afastar de Agreggor.
O osmosiano olhou para Kevin, que estava se levantando do chão e falou:
– Assista isso, sabendo que foi tudo culpa sua, Levin. – ele se aproximou mais de Gwen e agachou à sua frente.
Gwen sabia que qualquer outro movimento que ele tentasse fazer contra ela, podia deixá-la inconsciente, ou pior.
Ela nunca pensou nesse tipo de coisa, apenas quando parecia que não havia mais nenhum tipo de esperança para sobreviver. E isso era apavorante.
Agreggor colocou sua mão no pescoço dela pela terceira vez e começou a apertá-lo com força. Ela tentou tirar a mão dele, mas sabia que estava fraca demais até para aranhá-lo. O pior era que ela podia sentir o resto de seus poderes indo embora de seu corpo.
– LARGA ELA! – Kevin gritou.
Ele olhou para alguma coisa que pudesse absorver... Não queria mais sugar nada, pois sabia como podia acabar tudo isso. Ele ia ficar louco, ia começar a se perguntar porque está ajudando Ben, ia querer ir embora e acabar com qualquer um que entrasse em seu caminho.
Gwen começou a gritar com os resto de seu fôlego. Seus olhos não conseguiam mais criar lágrimas e seus músculos começaram a relaxar, como se ela fosse uma boneca de trapos.
Kevin olhou para os lados e encontrou o corpo de Ben estirado no chão. Seu braço esquerdo mostrando o relógio verde, e Kevin correu até ele.
– Desculpe, cara – ele disse, colocando sua mão sobre o relógio – Mas é pela sua prima.
Ele fechou os olhos, sentindo toda a energia do relógo indo em direção ao seu corpo.
Foi aí que ele percebeu que não era mais um humano... Mas tinha se tornado em uma mistura dos principais aliens de Ben.
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