Recomeço

34 Capítulo 34 - A garotinha embaixo da cama


Notas iniciais
Vcs vão me matar se eu disser que a festa não vai começar neste capítulo? Calma que eu explico... Minha intenção era fazer um lance com "Antes" e "Agora" pra mostrar o flashback com Dean e Natalie crianças e o caso dos pais dela e depois o "Agora" mostrando o começo da festa. Mas o problema é que o meu flashback deu praticamente um capítulo inteiro e eu achei que ficaria muita coisa pra postar de uma vez só. Então, mesmo vcs dizendo pra minha pessoa parar de frescura e postar capítulos enoooooooooormesssssssssssss mesmo, eu fiquei pensando "E se eles dormirem e babarem no celular, no tablet, no computer e afins por minha culpa?" Mas não fiquem tristes porque na sequência eu vou postar a parte que seria o "Agora" e que vai mostrar o início da festa. Bem, ressalvas sobre o capítulo: Apresento-lhes Natalie Jones aos sete anos: http://img62.imageshack.us/img62/4404/fthh.png Apresento-lhes Dean Winchester aos doze anos: http://img43.imageshack.us/img43/962/fj4f.png A atriz fofinha chama-se Alyvia Alyn Lind e eu a vi pela primeira vez em outra série que eu amo chamada Revenge. E quando pensei em escrever este flashback imaginei ela como a pequena Naty. Já o ator é o Ridge Canipe e ele realmente interpretou o Dean na série. Inclusive a imagem é de um dos episódios que ele participou. No capítulo em questão teremos John Winchester, referências a Mary, ao Bobby e ao Zuzu (Azazel) e saberemos como o foi o primeiro contato de Deanalie e outras coisinhas fofas, tristes e instigantes... Farei mais ressalvinhas lá embaixo. Por enquanto fiquem com este capítulo saído diretamente do túnel do tempo...

Roseau — Minnesota — 1992

Na sala de estar, de uma casa de dois andares, afastada do centro da cidade, os gritos de Henry Jones podiam ser ouvidos durante o ritual de exorcismo que John Winchester fazia naquele exato momento enquanto era observado atentamente por Dean. Os gritos se misturavam com a risada do demônio que possuía a vítima.

– Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incuriso infernalis adversarii, omnis legio, omnis congredatio et secta diabolica… — dizia John enquanto segurava o diário aberto próximo ao peito.

Dias antes, ele e Dean estavam na Dakota do Norte quando ouviram relatos de tempestades elétricas e gado mutilado em Minnesota. Então, John resolveu ir imediatamente para lá pensando que talvez pudesse encontrar alguma pista do demônio de olho amarelo. Mas John acabou percebendo que aquele era apenas mais um caso de possessão demoníaca, sem nenhuma relação com o desgraçado que matou a sua esposa. Então, ele resolveu se concentrar naquele caso e fazer o possível para salvar a vida daquele homem.

Enquanto John pensava nessas coisas, Henry começava a se contorcer sob o efeito das palavras do exorcismo que ia ouvindo. O homem estava amarrado em uma cadeira, sobre uma chave de Salomão desenhada por Dean, momentos antes. Enquanto isso, o corpo de sua mulher jazia em um canto da cozinha. Henry havia matado a própria esposa há aproximadamente meia hora, depois que foi possuído por aquele demônio.

Horas antes, John havia encontrado Henry em um bar da cidade e notou algo diferente em seu comportamento. Ele estava puxando briga com outros sujeitos quando todos na cidade diziam que Henry era um sujeito calmo e responsável. Então John resolveu dizer a palavra Cristo perto dele. Ao ouvir aquilo, os olhos do homem ficaram pretos e, rapidamente, ele deixou o bar.

Ainda no bar, John descobriu o nome do homem e o seu endereço. Mas quando chegou na residência, acompanhado por Dean, a esposa de Henry já estava morta. Sem poder fazer mais nada pela mulher, John resolveu tentar salvar pelo menos o homem.

Enquanto ele jogava água benta no homem, Dean afastou o sofá e desenhou a armadilha do diabo no chão da sala. Depois, pai e filho conseguiram render o demônio com muita dificuldade, o amarraram e começaram o exorcismo.

Isso tinha sido há meia hora e o demônio ainda resistia. Ele gritava a cada palavra pronunciada por John e Dean observava o pai atentamente. John era o seu herói. Quando fosse adulto, Dean queria ser um caçador tão bom quanto ele, embora John já se orgulhasse do filho mesmo ele tendo apenas 12 anos.

De repente, John olhou para o filho e ordenou com a voz firme:

– Dean, mais água benta!

Rapidamente, Dean abriu a jaqueta de couro que vestia e retirou de um dos bolsos, um recipiente com água benta. Em seguida, começou a jogar a água na direção de Henry. Em contato com a pele, a água benta provocava queimaduras e fumaça.

Dean mantinha uma distância segura da armadilha do diabo. Não queria pisar acidentalmente na sua borda e apagar alguma parte do desenho feito com tinta vermelha. Da última vez que Dean fez um ritual de exorcismo com o pai, acabou se distraindo e apagando uma parte da armadilha com o pé. Na ocasião, John agiu rápido e refez o trecho do desenho impedindo que o demônio escapasse. Claro que isso não impediu John de chamar a atenção de Dean depois. Ele não gostava de ser rude com o filho, mas fez aquilo para o próprio bem de Dean e também do caçula Sam. Os dois tinham que ser ótimos caçadores ou alguma coisa acabaria os surpreendendo e os matando quando menos esperassem. E John, obviamente, não queria isso. O que ele queria era proteger os filhos os ensinando a se protegerem por si sós e, claro, encontrar o maldito demônio de olho amarelo que matou sua amada Mary.

Enquanto pensava em Mary, John sentiu ainda mais ódio do demônio que a tirou dele e que deixou os meninos sem a mãe. Então decidiu fazer de tudo por aquele pobre homem e ajudá-lo a se livrar do demônio que o possuía e que também tinha matado sua esposa. Pensando nisso, ele continuou:

– Ergo… Perditionis venenum propinare. Vade, satana, inventor et magister omnis fallaciae. Hostis humanae salutis. Humiliare sub potenti manu dei. Contremisce et effuge. Invocato a nobis sancto et terribile nomine. Quem inferi tremunt…

O demônio se contorcia, mas ainda encontrava força para gargalhar só para provocar os caçadores. Em alguns momentos, quando Henry conseguia assumir o controle do seu próprio corpo, ele gritava e chorava de dor e desespero. Principalmente porque, meia hora antes, Henry viu a vida se esvaindo dos olhos da esposa quando o demônio a matou usando as mãos dele para isso. E o demônio estava pronto para matar a filha do casal também, que tinha presenciado a cena e chorou assustada, quando Dean e o pai pararam na frente da casa e desceram do Impala.

Antes que os dois arrombassem a porta e a vissem, a garotinha de aproximadamente sete anos, correu para o andar de cima, entrou no seu quarto e se escondeu embaixo da cama. Não entendia o que estava acontecendo, não sabia quem eram aqueles homens, o que estavam fazendo ali e muito menos por que o seu pai havia matado a mãe dela.

Escondida embaixo da cama, a garotinha ouvia os gritos do pai no andar de baixo e os risos diabólicos que vinham dele, mas que de alguma forma, ela sabia que não eram do seu pai.

Ela tampou os ouvidos e fechou os olhos enquanto lágrimas de desespero e medo saíam de seus olhos verdes.

Mesmo com os ouvidos tampados, ela ainda podia ouvir os gritos e risadas que vinham do andar de baixo e também ouvia o homem que invadiu a sua casa dizendo coisas que ela não fazia ideia do que significavam:

– Ab insidis diaboli, libera nos, domine. Ut ecclesiam tuam secura tibi facias, libertate servire, te rogamus, audi nos!

De repente, algo aconteceu. Um silêncio absoluto se instalou na casa e Henry abaixou a cabeça vencido pelo cansaço. De relance, olhou para a cozinha e viu o corpo da esposa no chão, próximo a pia. E desejou morrer. Henry nunca sentiu tanta vontade de morrer como naquele momento. Não podia continuar vivendo sabendo que suas mãos tinham sufocado Sarah quando o demônio a estrangulou. Mesmo não sendo sua culpa, e sim do demônio que havia o possuído, Henry não conseguia se perdoar. Ainda mais porque sua filhinha, sua garotinha, sua princesa, presenciou tudo. Como ele explicaria aquilo para uma criança de sete anos se nem ele mesmo conseguia entender o que estava acontecendo? Até o dia anterior, ele não fazia ideia de que o sobrenatural existia e agora sentia algo maligno dentro de si. Foi quando ele sentiu uma forte enxaqueca e sua garganta queimando. Automaticamente, ergueu a cabeça e abriu a boca. Viu uma fumaça preta saindo de dentro de si enquanto perdia completamente as forças e o resto da vontade de viver. Fechou os olhos e esperou aquela tortura acabar.

Finalmente, a fumaça preta saiu completamente e mergulhou no chão da sala queimando um pouco o assoalho antes de desaparecer por completo.

Esta foi a última coisa que Henry viu quando abriu os olhos levemente. Em seguida, seus olhos se fecharam de novo e sua cabeça pendeu para baixo.

Dean olhou atônito para o pai que fechou o diário, cruzou a armadilha e checou os sinais vitais de Henry. Em seguida, ele se afastou visivelmente desolado.

John não precisou dizer nada porque Dean entendeu perfeitamente o que havia acontecido. Infelizmente, Henry Jones não tinha resistido. Ele estava morto.

Dean caminhou devagar até a cozinha e viu o corpo da esposa de Henry no chão. John se aproximou, abaixou ao lado dela e fechou seus olhos. Depois voltou-se para o filho e ordenou:

– Vamos, Dean. Antes que a polícia apareça. Nós temos que ir.

John levantou e saiu da cozinha, mas Dean hesitou um pouco. Quando ele ia se virar para deixar o cômodo também, algo na porta da geladeira chamou a sua atenção e ele parou. Caminhou até ela e pegou uma foto que estava presa com um imã. Reconheceu o casal na foto. Eram Henry e sua esposa Sarah. Mas o que chamou mais a atenção de Dean foi uma terceira pessoa na foto. Uma garotinha loira no meio dos dois. Os três estavam sorrindo e pelo fundo da foto, ele deduziu que a família estava em algum parque de diversões.

– Dean, vamos! — chamou John enquanto abria a porta da sala.

O garoto correu depressa até lá segurando a foto e quando parou na frente de John, contou:

– Papai, eles tinham uma filha.

John fechou a porta imediatamente e olhou para a foto. Precisava agir rápido. Se a menina estava na casa, ele precisava descobrir se ela tinha outros parentes que pudessem cuidar dela, agora que havia ficado órfã. Então John abaixou para ficar na estatura do filho e orientou:

– Dean, você tem uma missão. Encontre a garota e a mantenha segura. Ela deve estar muito assustada com tudo que aconteceu, então tente acalmá-la e a leve até o carro. Depois, me espere lá enquanto eu descubro se ela tem algum parente que possa ficar com ela, ok? Agora vá.

Imediatamente Dean obedeceu a ordem do pai e subiu as escadas apressado. Procurou a filha dos Jones nos dois banheiros que haviam no andar superior, depois encontrou o quarto dos pais e olhou em tudo, no armário, atrás das cortinas, embaixo da cama, na varanda, até dentro de um baú enquanto chamava:

– Loirinha? Cadê você? Loirinha?

Em seguida, Dean saiu daquele quarto e caminhou pelo corredor. No final dele havia outra porta. Então, ele foi até lá e empurrou a porta lentamente. A madeira rangeu um pouco e com isso, a garotinha ficou ainda mais assustada e se encolheu ainda mais debaixo da cama. Ao parar na entrada, Dean ouviu um soluço abafado e acendeu a luz.

A luz era um pouco fraca, mas dava para ver que definitivamente era o quarto de uma criança. Tinha um guarda-roupa branco, um baú de brinquedos e uma cama com uma colcha branca repleta de ursinhos desenhados. Dos lados da cama, dois criados-mudos com dois abajures. Nas paredes, havia também algumas prateleiras com ursinhos de pelúcia e outros brinquedos. Dean estranhou a ausência de bonecas. Garotas adoravam bonecas. Concluiu que aquela fugia um pouco do padrão.

Por fim, havia também uma poltrona lilás e uma cortina branca na janela que balançava à medida que o vento entrava no quarto.

Então Dean deu alguns passos e enquanto explorava o cômodo com os olhos, foi dizendo:

– Loirinha? Oi. Você está aqui? Não precisa ficar com medo. Eu sei que você está assustada, mas eu não vim aqui para te machucar. Nem eu, muito menos o meu pai. Nós só queremos tirar você daqui. Te ajudar.

Dean tinha certeza de que a menina estava escondida ali em algum lugar. Podia ouvir sua respiração um pouco ofegante. Ela devia estar chorando ou ter parado de chorar há pouco tempo.

Enquanto ele examinava cada lugar do quarto onde uma criança podia se esconder, a menina observava os pés daquele garoto passando de um lado para o outro do seu quarto e fazendo o assoalho ranger a cada passo que dava.

De repente, Dean parou e olhou para a cama. Só faltava checar ali. Então se aproximou do móvel enquanto a menina ficava ainda com mais medo.

Dean se abaixou e ficou de joelhos do lado da cama. Se abaixou mais e ergueu um pouco a colcha e olhou para debaixo do móvel. E finalmente descobriu onde a filha dos Jones tinha se escondido. A reconheceu imediatamente. Tinha o cabelo loiro e com alguns cachos nas pontas. Seus olhos era verdes e sua pele bem clara e delicada. Ela era bonita. Parecia uma boneca. Por que será que ela não gostava de bonecas se ela mesma parecia uma?

Dean ficou a observando encantado enquanto ela o olhava com medo e pressionava os lábios tentando conter a vontade de chorar.

Então ele voltou a si e tentou tranquilizá-la mais uma vez:

– Ei... Está tudo bem. Você está a salvo agora. O demo... O monstro já foi embora. Não que monstros existam... Bem, na verdade... Eu não sei o que estou dizendo, me desculpe. Mas você já pode sair daí. Está tudo bem agora.

Ela balançou a cabeça para os dois lados discordando daquela ideia e permaneceu ali encarando o estranho.

– Qual o seu nome? — perguntou Dean tentando puxar assunto e ganhar sua confiança. Como ela permaneceu calada, ele resolveu se apresentar, mas com um nome falso — O meu é Jimmy. Ãn... Jimmy Page.

– Como o do Led Zeppelin? — indagou a menina para surpresa de Dean e depois, acrescentou — Meu pai gosta do Led Zeppelin. Ele coloca pra mim ouvir todos os dias.

– Seu pai tinha... Digo, tem bom gosto. — elogiou Dean sem querer contar que o pai da menina estava morto. E ao perceber que ela parecia mais calma, esticou a mão e pediu — Vem comigo.

A menina balançou a cabeça mais uma vez indicando "não" e se encolheu mais um pouco. Dean respirou fundo. Aquilo estava começando a irritá-lo. Tudo bem, a garota tinha perdido os pais, aquilo era muito triste e trágico, mas ele só estava tentando ajudá-la e, claro, cumprir a missão que o seu pai lhe designou. Pensando nisso, ele resolveu tentar mais uma vez e disse a primeira coisa que veio na sua cabeça, mas com uma voz muito calma e a olhando com firmeza:

– Olha, eu não sou seu inimigo, ok? Você pode confiar em mim. Por favor. Eu só quero te levar pra um lugar seguro e tudo vai ficar bem. Eu prometo. Agora segura a minha mão, loirinha.

Ela pensou mais um pouco e sem entender por que, resolveu aceitar a ajuda daquele garoto misterioso. De alguma forma, sentiu que realmente podia confiar nele. Jimmy não ia machucá-la. Então, ela segurou a mão dele e deixou que ele a ajudasse a sair dali.

Instantes depois, já de pé, os dois ficaram frente a frente se olhando. Em seguida, Dean olhou em volta e perguntou:

– Você não gosta de bonecas?

– Eu odeio bonecas. — confessou a menina.

– Por quê? — estranhou ele.

– Elas me assustam. Eu não gosto. — respondeu ela evasivamente.

Dean sorriu levemente e comparou:

– Sabe, você parece com o meu irmão, mas ele tem medo de palhaços.

Ela não respondeu nada. Ficou olhando para os pés antes de voltar a olhar para Dean e perguntar:

– O que aconteceu com os meus pais? Por que meu pai machucou a minha mãe? Por que ele estava gritando? Ele está bem? Minha mãe está bem? Ela está bem, não é?

– Eu sinto muito... Eu não sei como contar isso para uma criança. — respondeu Dean sem saber como ou mesmo se deveria contar para a menina o que havia acontecido.

– Eu não sou criança, eu já tenho sete anos. — protestou ela franzindo um pouco a testa e completou — Meu pai me disse que eu sou uma mocinha.

– Desculpe, mas pra mim você continua sendo uma criança. — disse Dean.

– E você? É criança também? — interessou-se a menina.

– Não, eu já sou adulto. Eu tenho doze anos, mas já vi e vivi tanta coisa que me sinto bem mais velho. Sei lá... Com uns quinze. — explicou Dean.

Ao ouvir isso, ela o mediu da cabeça aos pés e disse:

– Você é meio baixo pra alguém que tem doze anos.

Dean a olhou um pouco ofendido e resmungou:

– Sabe... Eu não estou gostando desta conversa. Então, vamos recomeçar, qual o seu nome?

Ela o encarou por um instante e por fim respondeu:

– Natalie.

– Ok, Naty. Nós precisamos sair daqui. Vamos. — pediu ele segurando a mão dela e a puxando um pouco para saírem dali. Quando os dois deixaram o quarto, Dean orientou — Olha, Naty, quando nós chegarmos na sala, eu quero que você feche os olhos e só abra quando eu disser que pode, ok?

Ela assentiu e quando desceu o último degrau da escada, fechou os olhos como ele havia pedido e segurou a mão dele com mais força com medo de tropeçar em algum móvel. Em seguida, os dois passaram pelo corpo do pai da garota sem que ela visse e saíram da casa. Dean abriu a porta traseira do Impala, ela entrou e se acomodou no banco.

Dean sentou no banco da frente e se virou para trás para olhá-la enquanto Natalie observava a sua casa com um olhar triste.

– Eu não vou ver os meus pais de novo, não é? — perguntou ela de repente.

Dean ficou com muita pena da menina quando ouviu aquilo. Queria poder explicar para ela o que havia acontecido e confortá-la de alguma forma, mas tudo que conseguiu dizer foi:

– Eu sinto muito.

Natalie ficou em silêncio. A resposta daquele garoto respondeu perfeitamente a sua pergunta. Ela não voltaria a ver os pais. Nunca mais. Não entendia direito por que o seu pai tinha feito aquilo com a sua mãe, mas lembrou que Jimmy mencionou um monstro. Natalie sabia que o seu pai nunca machucaria a sua mãe daquele jeito, devia ter sido o tal monstro.

Ela começou a sentir uma tristeza profunda ao perceber que seus pais não voltariam. Eles estavam mortos. O monstro tinha feito aquilo. E agora ela estava completamente sozinha no mundo.

Algum tempo depois, John saiu da casa e entrou no carro. Olhou para o banco detrás e também ficou com muita pena daquela criança. Não tinha encontrado nenhum indício de que ela tivesse outros parentes e isso o deixou ainda mais sensibilizado. Então a olhou com carinho e perguntou:

– Natalie, você tem alguém que possa ficar com você? Alguém com quem os seus pais costumavam te deixar quando eles saíam?

Ela balançou a cabeça negativamente. John pensou um pouco e sem ver outra alternativa, deu partida e disse:

– Ok, vamos tirar você daqui.

John dirigiu o resto da noite e pelo retrovisor viu que em nenhum momento, a menina dormiu, nem sequer cochilou. Natalie permanecia com o olhar fixo e vazio na paisagem. Sentia uma dor profunda e uma tristeza enorme. Não conseguia tirar da cabeça as coisas que viu e ouviu. Estava apavorada e sentindo muita falta dos pais. Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo. Queria acordar. Queria esquecer.

Pela manhã, John parou em uma lanchonete e comprou um lanche para o filho e outro para a garota. Depois disso, entrou no carro e prosseguiu com a viagem. Dean entregou o pacote para Natalie, mas ela não se moveu para pegá-lo. Então Dean argumentou:

– É a minha torta favorita. Acredite, você vai gostar. É... Awesome!

Natalie saiu daquele estado de choque por um instante e olhou para o menino e para o pacote que ele segurava na direção dela. Mas o que mais chamou a sua atenção foi aquela palavra: Awesome. Natalie achou engraçado o jeito que Jimmy falou aquilo e gostou da expressão. Esboçou um leve sorriso e, por fim, aceitou a torta. Logo que deu a primeira mordida percebeu que Jimmy estava certo e murmurou:

– É awesome mesmo.

– Eu avisei. — brincou Dean enquanto comia o seu pedaço também.

John seguiu dirigindo até anoitecer. Uma chuva forte começou a cair quando eles chegaram nos arredores de Saint Paul.

Natalie cochilava no banco detrás e ouviu quando Jimmy falou com alguém no celular:

– É impossível. Nós acabamos com aquele fantasma, tio Bobby. Sim, nós salgamos e queimamos os ossos dele. Claro que eu tenho certeza. Sim, o meu pai estava comigo. — e depois de uma pausa, finalizou — Ok, eu vou falar com ele mesmo assim.

Dean desligou o celular um pouco aborrecido enquanto Natalie absorvia o que ele havia dito. Na época, ela não entendeu direito o que aquilo significa e pensou que talvez tivesse dormido e imaginado aquilo. Mas aquelas palavras ficaram armazenadas na sua memória e três anos depois, ela iria acabar com o estoque de sal do orfanato para combater um fantasma.

John percebeu que Dean estava estranho e perguntou:

– O que aconteceu, filho?

– Papai, lembra daquele caso em que nós trabalhamos há umas duas semanas? Do espírito vingativo? O tio Bobby leu no jornal que aconteceram mais mortes como aquela por lá. Mas eu salguei e queimei os ossos. O senhor mesmo viu. — relatou Dean.

John lembrou do caso e cogitou:

– Deve ter passado alguma coisa, algum detalhe, talvez o espírito esteja preso em algum objeto pessoal. Bem, depois que nós resolvermos a questão da Natalie, nós vamos voltar para Portland e rever este caso, ok?

Dean assentiu, embora no fundo estivesse um pouco decepcionado consigo mesmo. Ele sabia que aquele tipo de coisa podia acontecer. Isso porque, às vezes, um caso estava aparentemente resolvido, mas então dias depois, você descobria que não. Mesmo sabendo que imprevistos como aquele aconteciam, Dean não gostava de decepcionar o pai. Queria ser um grande caçador como ele. Tinha que ficar mais atento, consertar o possível erro que cometeu e não deixar nenhum detalhe passar da próxima vez.

De repente, Dean lembrou de Natalie no banco detrás e se virou para vê-la. Aparentemente, ela estava dormindo e não ouviu nada da conversa. Melhor assim. Uma criança de sete anos não precisava saber daquelas coisas. O que Dean não sabia era que Natalie não estava dormindo de verdade.

Momentos depois, John parou o Impala em frente a um orfanato em Saint Paul. Uma forte tempestade caía na cidade naquele momento. Mesmo assim, ele resolveu sair do carro. Deu a volta segurando um enorme guarda-chuva preto e abriu a porta detrás. Pegou Natalie no colo. Ela estava um pouco sonolenta, mas passou os bracinhos em volta do pescoço dele para não cair.

Dean queria se despedir da garota, mas imaginou que ela não estava muito a fim de conversar naquele momento. E ainda estava muito abalada com o que tinha acontecido com os pais. Então John começou a se afastar e Dean observou os dois do carro enquanto a chuva continuava caindo impiedosamente.

À medida que John caminhava, Natalie balançava um pouco nos seus braços. Então em dado momento, ela abriu os olhos devagar e olhou para o Impala. E viu Dean a olhando de volta. Ele deu um leve sorriso e acenou discretamente para ela.

Apesar do choque causado pela morte dos pais, Natalie ainda encontrou força para sorrir levemente para Dean. E ainda conseguiu brincar de certa forma, mostrando a língua pra ele.

Dean franziu a testa sem gostar da brincadeira e Natalie o olhou uma última vez antes de fechar os olhos de novo e repousar a cabeça no ombro de John.

Ele subiu os degraus e entrou no orfanato. Lá dentro, inventou uma história qualquer, entregou alguns documentos da menina e preencheu uma ficha.

Sabia que mais cedo ou mais tarde, a polícia e alguma assistente social iriam procurar a criança, então usou um nome falso, Robert Plant, para não deixar vestígios.

John não queria problemas com a polícia. Tudo que queria era criar os filhos da melhor forma possível, ensina-los a se protegerem enquanto ele procurava pelo demônio do olho amarelo. Mas, obviamente, ele ficou sensibilizado por aquela tragédia envolvendo a família Jones. E Dean também ficou. Tanto que ele falou de Natalie incessantemente nos dias que se seguiram e pediu para o pai levá-lo até o orfanato para visitá-la. Mas John lhe disse que eles não podiam voltar lá, pois a polícia devia estar no meio das investigações e era muito arriscado.

Com o tempo, Dean foi esquecendo aquele assunto e anos depois já não lembrava mais de Natalie.

Nos primeiros dias no orfanato, ela passava a maior parte do tempo sentada no parapeito da janela, do quarto que dividia com outras meninas. Ficava olhando a rua lá fora e imaginando se um dia veria aquele carro preto de novo. Se um dia aquele garoto e o seu pai voltariam para visitá-la. Se trariam seus pais de volta...

Mas eles nunca voltaram. Muito menos, os seus pais. E pouco a pouco, Natalie foi se esquecendo de Jimmy e do pai dele. Um pouco devido à tristeza e ao estresse pós-traumático causado pela perda dos pais e também porque ela era muito criança naquela época e acabou esquecendo os detalhes com o passar do tempo.

Meses depois, sem conseguir explicar a morte dos pais da criança, nem encontrar o homem que deixou a filha do casal no orfanato, a polícia encerrou o inquérito sobre a família Jones.

Notas finais
Ressalvas: Sobre os nomes falsos usados por Dean e John, Jimmy Page e Robert Plant são respectivamente guitarrista e vocalista do Led Zeppelin. Assim como Sam e Dean, Natalie também tem uma fobia: ela não gosta muito de bonecas. No futuro o Dean vai fazer algumas piadinhas a respeito... Entenderam de onde Natalie tirou o "awesome" e seu amor por tortas? E com quem ela aprendeu que para despachar um ghost vc deve salgar e assar bem? Pois é... Foi com o Sr. Awesome. Apesar de triste, achei fofa a forma como Deanalie se conheceu, o primeiro diálogo e tals. Adorei escrever a participação de John Winchester!!! Inté o próximo capítulo, sociedade, e me digam o que acharam deste aqui!