Recomeço
23 Capítulo 23 - A ligação
Notas iniciais
Sam voltou para o bunker algumas horas depois com as compras. Porém, para desespero de Dean, mais uma vez o irmão esqueceu o primordial: a torta. Em seguida, Sam foi até uma das salas do bunker e começou a pesquisar sobre vampirismo a procura de uma cura para Mia e também pesquisou sobre os Cavaleiros do Inferno. Queria manter a cabeça ocupada. Queria parar de pensar em Claire. Mas quanto mais tentava parar de pensar nela, mais a imagem da garota vinha a sua cabeça. Mesmo assim ele não desistiu e continuou tentando se concentrar no trabalho. Apenas no trabalho. Fez as refeições no meio dos livros espalhados pela mesa. Fez algumas anotações de coisas que talvez pudessem ajudar. Não sentiu o tempo passar.
Em alguns momentos, Castiel, Kevin e Dean, aproveitando que Mia estava indisposta e dormia desde que eles voltaram do encontro desastroso com Ezekiel, se juntaram a ele na pesquisa. Porém nenhum deles encontrou algo sobre uma cura para o vampirismo. No entanto, Sam finalmente descobriu porque Belial voltou tão rápido do Inferno depois que Natalie fez o exorcismo. Um dos livros dizia que Cavaleiros do Inferno, por serem demônios mais fortes do que os outros, requerem um exorcismo especial. O ritual tem mais trechos em latim e a armadilha do diabo deve conter alguns símbolos específicos para impedir que o demônio encontre uma "brecha" para voltar. Com certeza, Bobby sabia disso porque Belial demorou vinte e cinco anos para conseguir voltar. Mas, pelo visto, Natalie usou um ritual comum e por isso Belial voltou bem mais rápido. De qualquer forma, os livros não mencionavam nenhum ritual capaz de prender Cavaleiros para sempre nas profundezas do Inferno, muito menos uma forma de matá-los. Mas Sam não ia descansar enquanto não encontrasse. Ao pensar na palavra "descansar", ele pegou o celular e viu as horas. Era pouco mais de meia noite.
Encostou as costas na cadeira e olhou em volta. Kevin, Castiel e Dean já tinham ido dormir há muito tempo. Só então Sam percebeu como estava cansado. Esticou os braços e as pernas antes de levantar. Deixou tudo como estava e decidiu que retomaria o trabalho logo pela manhã. Então resolveu tomar um banho e depois iria dormir.
Enquanto isso, Natalie saiu do quarto de Claire, onde passou praticamente o dia inteiro tentando distrair a amiga, e desceu até a cozinha. Pra variar, estava faminta. Aquele tipo de fome que surge no meio da madrugada. Fome de doce. Então ela teve uma ideia. Pouco tempo depois, ela havia terminado de fazer brigadeiro de panela. Pegou uma colher e puxou uma cadeira. Começou a comer saboreando cada colherada. Até que Dean apareceu na cozinha e ficou alguns instantes parado na porta. Natalie o olhou de volta e em seguida ele entrou.
– Deus... Você não tem uma calça? — reclamou ele ao notar que a garota vestia outro short.
Ele caminhou até a geladeira.
– Agradeça, Dean. Eu costumo dormir bem mais à vontade do que isso. — deixou escapar Natalie.
Dean ergueu as sobrancelhas ao imaginar como seria o "mais à vontade" da loira. Afastou aquele pensamento impróprio rapidamente e decidiu se concentrar no que veio fazer na cozinha. Então pegou a garrafa de água e fechou a porta da geladeira. Em seguida, pegou um copo no armário e se serviu. Virou-se e se apoiou na pia. Discretamente, olhou para as pernas da garota que estava de costas para ele sentada à mesa. Bebeu mais água. Ao ver que ela saboreava alguma coisa, quis saber:
– O que é isso?
– Isso é brigadeiro de panela. — respondeu ela.
No entanto, aquela era uma receita tipicamente brasileira e Dean nunca tinha ouvido falar daquilo. Então ele colocou o copo na pia e antes de se afastar, disse:
– Bem, boa noite.
– Você não quer experimentar? — ofereceu ela o fazendo parar na porta.
Por um momento, Dean se perguntou do que exatamente Natalie estava falando. Então perguntou:
– O quê?
Natalie sorriu confusa e mostrou a colher e a panela antes de responder:
– O brigadeiro.
– Ah... Não, obrigado. — dispensou ele se virando para deixar a cozinha.
– Você não sabe o que está perdendo. — disse ela e Dean parou mais uma vez e mais uma vez se perguntou do que Natalie estava falando. — Anda. Eu garanto que você não vai se arrepender. — intimou ela.
Dean se virou e hesitou por alguns instantes, mas por fim, caminhou até o armário, pegou uma colher, se aproximou da mesa, pegou um pouco do doce e provou. Fechou os olhos. Depois de torta aquilo era a coisa mais deliciosa que ele já havia comido.
– Isso é... — tentou definir ele, mas lhe faltaram palavras.
– Eu sei. Awesome! — ajudou Natalie.
Então Dean puxou uma cadeira e sentou de frente para a garota. Mas ao tentar pegar mais um pouco do doce, Natalie afastou a panela, franziu a testa e esclareceu:
– É meu.
– Só mais uma colher. Por favor. — implorou ele.
Natalie sorriu e resolveu compartilhar a panela com ele. Claro que Dean não pegou só mais uma colher. E enquanto Natalie também saboreava aquela sobremesa simples e deliciosa, ele perguntou curioso:
– Onde você aprendeu a fazer isso? Eu nunca ouvi falar de brigadeiro.
Natalie o encarou por alguns instantes enquanto se perguntava se devia confidenciar aquilo ou não. Mas em seguida, lembrou da trégua e imaginou que um pouco de conversa seria bom para manter a harmonia entre eles. Então, respondeu um pouco hesitante:
– Uma das funcionárias do orfanato, onde eu cresci, era brasileira. Às vezes, ela fazia esta sobremesa depois do jantar. Foi lá... Com ela que eu aprendi a fazer também. É uma das poucas boas lembranças que eu tenho daquela época.
Dean observou Natalie e percebeu certa tristeza naquelas palavras. Então lembrou da trégua e imaginou que um pouco de conversa poderia fazer bem à garota. E claro, Dean estava curioso em relação ao passado dela. Pensando nessas coisas, resolveu sondar:
– Então você cresceu em um orfanato?
– Sim. — respondeu ela um pouco triste e mantendo os olhos na panela.
Dean esperou que ela acrescentasse mais alguma coisa. Mas, como Natalie permaneceu em silêncio, ele a tranquilizou:
– Tudo bem. Você não quer falar sobre isso. Eu entendo.
– Não, não é isso! — disse ela prontamente — É só que... Não tem muito para contar.
– Ok. — assentiu ele.
Após um momento de silêncio, Natalie resolveu contar de uma vez:
– Não, tudo bem. Eu cresci em um orfanato. Em Minnesota. Eu fui pra lá depois que os meus pais foram mortos por aquele demônio. Eu não tinha outros parentes. Meus pais eram órfãos. Então, eu fui levada pra lá.
Ainda mais curioso, Dean indagou:
– Sobre os seus pais... Como foi exatamente? Desculpa perguntar isso, mas...
Natalie ficou alguns instantes em silêncio. Lembrar aquelas coisas era doloroso, mas por fim resolveu contar também:
– Bem, primeiro o demônio possuiu o meu pai. Depois ele matou a minha mãe.
– E o seu pai? — perguntou Dean com certo cuidado.
– Eu só lembro de ouvir ele gritando. Eu tinha sete anos e me escondi embaixo da minha cama. Eu estava tão assustada. Apavorada, na verdade. Ele ficou o tempo todo na sala. Quando eu voltei pra lá... Meu pai já estava morto. — recordou ela parando de comer o brigadeiro e então, continuou — Então, quando eu fiz dezesseis anos, eu deixei o orfanato. E percebi que eu tinha duas escolhas. Passar a vida inteira com medo e provavelmente morrer como os meus pais ou lutar para que aquilo não acontecesse com outras pessoas. Como você deve ter deduzido, eu escolhi a segunda opção. E foi assim que eu me tornei caçadora.
– Espera um pouco. Você está querendo dizer que aprendeu a caçar sozinha? — surpreendeu-se Dean.
– Eu sei, eu sou demais, né? — gabou-se Natalie.
– E como foi a primeira vez? — perguntou ele e ao perceber certa confusão no rosto da garota e como aquela pergunta soava estranha, corrigiu rapidamente — Digo! O primeiro caso! Como foi?
Natalie ficou alguns instantes pensativa e em seguida recordou:
– Bem, eu tinha dez anos e, portanto, ainda estava no orfanato. Só que ele tinha mudado para um novo endereço. Um prédio maior e com o aluguel mais barato. E com fama de mal assombrado. Típico, não? Então, na primeira semana, começou a acontecer umas coisas estranhas por lá. Quedas na temperatura, objetos se movendo sozinhos, crianças assustadas, vozes. Então eu comecei a fazer algumas perguntas para os funcionários e depois de muita insistência, um deles me contou que uma mulher tinha sido assassinada naquele lugar. O assassino tinha confessado o crime, mas nunca contou o que fez com o corpo. Eu já tinha desistido de encontrar alguma pista quando um dia, brincando sozinha em uma das salas de recreação, eu acertei um lustre com uma bola. Ele caiu no chão e, com isso, o forro soltou e veio abaixo. E lá estava o corpo, bem na minha frente.
– E o que você fez depois disso? — quis saber Dean.
– Descobri onde as funcionárias guardavam o álcool, roubei o isqueiro de uma delas e acabei com o estoque de sal do orfanato. Eu fiquei um mês de castigo por causa disso e ninguém naquele lugar me olhou do mesmo jeito desde então. Eles não entendiam por que eu tinha feito aquilo e ficaram com certo medo de mim. Mas o fato é que nunca mais a temperatura caiu por lá. Só no inverno, óbvio. — respondeu ela tranquilamente e com certo orgulho de si mesma.
Confuso e surpreso ao mesmo tempo, Dean perguntou:
– Como você sabia o que fazer? O sal? Queimar os ossos?
Natalie encostou as costas na cadeira e pensou um pouco antes de responder:
– Acho que eu ouvi em algum lugar. — e em seguida, continuou — Depois disso, eu só voltei a caçar quando saí do orfanato definitivamente. Eu vendi minha antiga casa, mas fiquei com o Camaro do meu pai. Ele adorava aquele carro. Então eu comecei a viajar pelo país. Ouvia um caso ali, ia conferir, conhecia alguns caçadores em bares de estrada, aprendia alguma coisa com eles. E há alguns anos, eu descobri que o demônio que matou os meus pais tinha voltado e estava possuindo uma mulher em Portland. Eu queria aquele caso. Eu queria mais do que tudo. Mas ao chegar na cidade, já tinha um caçador por lá. Bobby Singer. Ele me deixou trabalhar no caso com ele quando eu contei toda a minha história. E nós despachamos o desgraçado juntos. E salvamos a mulher.
Dean estava zonzo com a história de Natalie. Era triste, como toda história de caçadores, mas o primeiro caso tinha sido morbidamente hilário. Mas o que mais chamou a sua atenção foi ela ter mencionado como conheceu o Bobby. Então Dean pensou mais um pouco e resolveu aprofundar aquele assunto:
– Naty, o que você sabe sobre o pai da Claire?
A loira franziu a testa confusa e indagou:
– O que isso tem a ver com a conversa?
– Apenas, responda a pergunta. Por favor. — pediu Dean.
Apesar de não entender porque aquilo era importante, Natalie resolveu dizer:
– Ok... Não muito, na verdade. Quando eu conheci a Claire, ela já tinha descoberto que o pai estava morto e não quis mais falar sobre isso. Acho que no fundo ela se culpa pela mãe ter sido possuída depois que ela decidiu ir atrás dele. Por quê?
– Em nenhum momento ela te disse o nome dele? — questionou Dean.
– Não. Por quê? — disse a loira ainda mais confusa.
Dean a observou por mais alguns instantes e acreditou que ela estava falando a verdade. Natalie não tinha ideia de que já tinha trabalhado com o pai de Claire. Que os dois tinham despachado o demônio que matou os pais da loira. Não tinha ideia de que aquele caçador era também o pai de Claire.
– Por que, Dean? — insistiu ela.
Após um momento de silêncio, ele explicou:
– Porque nós dois o conhecemos. — e em seguida, revelou — Bobby Singer era o pai da Claire.
Natalie encostou as costas na cadeira mais uma vez, surpresa com o que tinha ouvido. Por um momento, pensou que Dean estivesse brincando. Mas já o conhecia o suficiente para saber que ele não brincaria com uma coisa daquelas. Mesmo assim, aquela coincidência era no mínimo desconcertante. Ela conheceu o pai da Claire. Dean conheceu o pai da Claire. Provavelmente, Sam também o conheceu. Pensando em tudo isso, ela perguntou:
– Você contou pra ela?
– Não. — respondeu ele.
– Por que não? — quis saber ela.
– Eu não sei. O Sammy ficou meio chocado quando soube e, aqui entre nós, eu também. Nenhum dos dois soube direito como contar isso pra ela ou mesmo se devíamos dizer alguma coisa. — confessou Dean.
Querendo entender por que ele e Sam ficaram tão impressionados, Natalie continuou:
– Espero um pouco. Você e o seu irmão eram muito próximos do Bobby?
– Muito. — respondeu Dean e em seguida, explicou — O Bobby foi como um segundo pai pra mim e pro Sammy. Inclusive, nós estávamos com ele quando... Quando ele morreu. Lutando como sempre. Então nós fizemos o enterro de caçador e depois... Fizemos o espírito dele descansar.
Natalie estava atônita com aquelas revelações, mas pelo menos agora entendia porque Sam e Dean ficaram tão impressionados quando descobriram que Claire era filha de Bobby Singer e resolveram não contar nada. Devia ser estranho mesmo.
Ela mesma ainda não acreditava que tinha trabalhado com ele. Mas, ao contrário de Sam e Dean, pensou que talvez devesse contar tudo aquilo para Claire. Afinal, ela ia gostar de saber mais sobre o pai. Em seguida, Natalie descartou esta ideia. Talvez Claire preferisse não saber já que depois que a mãe foi possuída, a garota evitava aquele assunto. É... Talvez fosse melhor manter aquilo só entre eles. Pelo menos por enquanto. Afinal eles tinham outras coisas para se preocuparem no momento, como a situação da Sra. Rachel, os Cavaleiros do Inferno e Mia.
Enquanto os dois assimilavam as coisas que tinham ouvido um do outro, Sam saiu do banho. Vestiu um pijama leve. Em seguida caminhou pelo corredor em direção ao seu quarto. Porém, ao passar próximo do quarto de Claire, notou que a porta estava semiaberta. Parou. Pensou em bater e ver como ela estava. Hesitou. Estava decidido a sair dali e ir para o seu quarto, mas algo o impediu. Aquela preocupação com Claire o deteve na porta. Pelo menos, era assim que ele chamava: preocupação.
Sem conseguir mais resistir, ele se aproximou da porta e olhou para dentro do quarto que estava iluminado pela luz de um abajur.
Claire estava deitada na cama. Um cobertor a enrolava da cintura para baixo. Seu rosto estava sereno enquanto ela dormia. Mas Sam sabia que não era assim que ela devia estar se sentindo. Sabia que embaixo daquela superfície havia uma garota sofrendo.
Os cabelos acobreados da garota estavam soltos e caíam sobre as alças da camisola perolada que ela usava. Sam sorriu levemente ao perceber que até dormindo Claire era linda. Bobby ia ter que desculpá-lo, mas ele tinha feito uma filha muito linda e era difícil não reparar. Era difícil resistir.
Pensando nisso, Sam deu um passo a frente sem perceber e um dos seus pés esbarrou na porta fazendo um certo ruído, que àquela hora da madrugada, soou mais alto do que ele esperava. Imediatamente ele se afastou e resolveu ir para o quarto. Mas quando deu os primeiros passos, ouviu a voz da garota perguntando:
– Sam? É você?
Claire sentou na cama e vestiu o hobby que havia deixado sobre o cobertor enquanto olhava para a fresta da porta esperando por uma resposta. Sam hesitou, mas achou que seria infantil fingir que não estava ali. Então caminhou até a porta e bateu levemente nela antes de empurrá-la.
– Desculpe. Eu não queria te acordar. — lamentou ele parado na entrada.
– Tudo bem. Eu não estava dormindo, na verdade. — tranquilizou ela.
Os dois se olharam por alguns instantes até que Sam começou a fechar a porta e desejou:
– Boa noite, Claire.
– Você não quer entrar? — sugeriu ela de repente o fazendo parar. — Um pouco? Talvez?
Sam sentiu seu coração acelerar diante daquele convite. Ela havia mesmo feito aquela pergunta? Ele havia evitado Claire o dia inteiro, em alguns momentos até conseguiu parar de pensar nela, mas então, um simples convite, uma simples pergunta, trouxe todas aquelas sensações de volta. Todas as sensações que ele lutou para esquecer durante o dia inteiro estavam ali de novo. Sentia-se um adolescente perto de Claire. E como explicar para ela que sim, ele queria entrar, mas não, ele não devia fazer isso?
Tentando controlar o impulso de uma resposta positiva, ele disse:
– Você deve estar cansada e com sono...
– Você está? — rebateu ela.
Não, ele não estava. Pelo menos não mais. Depois que ela perguntou se ele queria entrar, todo o sono e o cansaço haviam desaparecido inexplicavelmente.
– Não. — respondeu o Winchester.
– Nem eu. — confessou a garota e como ele permaneceu imóvel na entrada, ela indagou sorrindo levemente — Você vai entrar ou não?
Então, pela primeira vez desde que conheceu Claire, há poucos dias, Sam resolveu ouvir o que o seu coração realmente queria e entrou. Ao se aproximar da cama, Claire flexionou as pernas deixando espaço para que ele sentasse de frente para ela. E foi exatamente o que ele fez.
Então Claire e Sam se encararam mais uma vez antes da garota recomeçar:
– Eu senti a sua falta.
Sam franziu a testa e Claire consertou rapidamente e um pouco atrapalhada:
– Eu quero dizer que... Desde que nós voltamos daquela pensão, eu não te vi mais. Tudo bem que eu praticamente não saí desse quarto o dia inteiro. A Naty praticamente me obrigou a comer e depois ficou me fazendo companhia, contando histórias das caçadas... É óbvio que eu não ia te ver desse jeito... O que eu esperava?
– Talvez que eu aparecesse e batesse na porta do seu quarto? — brincou Sam.
Claire sorriu de volta e respondeu:
– É, talvez.
Após um breve momento de silêncio, Sam continuou:
– Olha, Claire, eu pensei em vir aqui, ver como você estava, mas eu não queria te incomodar. Além disso, eu estava fazendo algumas pesquisas. E eu pensei que depois do encontro com Ezekiel e das coisas absurdas que ele falou, você quisesse ficar um pouco sozinha e...
– Por falar nisso, o que Ezekiel te disse? — interrompeu a garota — Você ficou mais um pouco depois que eu saí de lá. Sobre o que vocês conversaram?
Sam lembrou das coisas que Ezekiel insinuou. Por mais que a ideia de ficar com Claire, no fundo, lhe agradasse, ele não podia querer aquilo. Não tinha o direito de querer. Então respondeu:
– Nada que valha a pena contar. — e antes que a garota insistisse, ele mudou um pouco de assunto — Por falar nisso, eu te devo desculpas. Pelas coisas que eu falei sobre os anjos, sobre Ezekiel em específico.
– Eu é que te devo desculpas, Sam. Porque você estava certo sobre ele. Eu me sinto tão idiota por ter rezado para aquele desgraçado. — disse a garota com um olhar distante.
– Vamos combinar uma coisa? Estamos desculpados. — sugeriu ele.
Claire sorriu e concordou:
– Estamos. — e em seguida, mudou um pouco de assunto — Mas tem algumas coisas que eu ainda não entendi. Por que você perguntou aquelas coisas sobre mim para o Garth? Por que você mentiu dizendo que ele estava de passagem quando na verdade foi você que o chamou naquele hotel? E por que, às vezes, você me olha como se estivesse diante de um fantasma? Ou um ET? E sabe o que é mais estranho? Quando o Dean me conheceu, eu tive a impressão de que ele me olhou do mesmo jeito. O que está acontecendo, Sam? Foi alguma coisa que eu fiz? Foi alguma coisa que eu disse? Ou vocês também acham que eu sou culpada pelo que aconteceu com a minha mãe? É isso?
– Não, Claire. Não é nada disso. Ninguém acha que você tem culpa, porque você não tem. O que aconteceu com a sua mãe não foi sua culpa, ok? Pare de pensar assim. — esclareceu Sam e só então percebeu que enquanto falava essas coisas, colocou uma das mãos sobre as mãos da garota.
No entanto, quando ele ia afastá-la, Claire a entrelaçou entre as suas. Sam a olhou sem entender. Ela estava mesmo fazendo aquilo? Por quê? O que aquilo significava? Significava alguma coisa ou ela também não percebeu que tinha feito aquilo?
Enquanto isso, a garota travava uma luta interna consigo mesma. Queria explicar por que tinha feito aquilo. Mas parecia errado. Até pouco tempo, ela estava noiva e até poucos dias ainda amava David. No entanto, desde que Sam apareceu na sua vida foi como se alguma coisa tivesse mudado dentro ela. Algo que ela não compreendia direito, mas que era mais forte do que qualquer outra coisa que já havia sentido. Mas ao mesmo tempo, ela sentia que ele estava mentindo sobre alguma coisa. Alguma coisa que ela deveria saber.
– Sam, vamos combinar uma coisa? Seja honesto comigo. Hoje, mais cedo, você disse que confiava em mim. Então prove. Me diga o que está acontecendo. Eu vou entender. — pediu ela.
Sam sabia exatamente do que Claire estava falando. Ele estava mesmo escondendo algo dela. A verdade é que ainda não tinha encontrado um jeito de contar que conheceu o pai dela. Mais do que isso, que conviveu com ele, que trabalhou com ele, que Bobby tinha sido como um pai para ele. Um pai que Claire jamais teria. Jamais conheceria. E que morreu sem saber da existência da filha.
Sem saber por que, Sam lembrou da conversa que ouviu entre Claire e as garotas no corredor. Sobre o que ela achava dele. E as mãos de Claire diziam que era algo mais do que achá-lo um cara legal, bonito e fofo. Fofo? Geralmente, as pessoas o chamavam de aberração e por muito tempo foi assim que ele se sentiu.
– O que é, Sam? Me conta. — pediu ela o fazendo parar de pensar naquelas coisas.
Sam sabia que não era certo esconder o que estava escondendo. Mas como será que Claire reagiria se soubesse que Bobby morreu enquanto ajudava ele e Dean? Será que ela continuaria achando ele um cara legal?
Foi então que Sam percebeu que talvez fosse melhor Claire ouvir a verdade e assim se decepcionar de uma vez com ele. Então ele olhou Claire profundamente e resolveu contar:
– Claire... Sobre o seu pai...
O som do celular tocando fez o Winchester parar de falar. Os dois se olharam. Aos poucos, ela soltou as mãos dele e pegou o celular no criado-mudo enquanto levantava da cama. Atendeu:
– Alô? Sim, é Claire Davis. Sim... Ela é minha mãe. Por quê? O que aconteceu?
Ao perceber certa tensão na voz da garota, Sam levantou da cama e se aproximou preocupado enquanto ela andava de um lado para o outro ouvindo o que a enfermeira do Hospital de St. Louis relatava. De repente, Claire parou e ficou apoiada na cômoda que havia no quarto. Sam viu a tristeza se destacando no rosto dela até que ela murmurou tão baixo que ele mal conseguiu ouvir:
– Ok... Eu estou indo. Sim... Eu chego amanhã no final da noite.
Em seguida, ela desligou e Sam notou que os olhos dela estavam lutando contra a vontade de chorar.
– Claire... O que aconteceu? — perguntou ele com cuidado enquanto ficava na sua frente.
– É a minha mãe, Sam... Ela piorou. — contou ela com esforço e em seguida as lágrimas a venceram.
Instintivamente, Sam a puxou para mais perto de si e a abraçou forte.
– Eu preciso voltar para St. Louis... Agora. — continuou ela.
Sam lembrou das palavras de Ezekiel: "Vocês estão destinados a ficarem juntos, Sam. No amor e na guerra que vai começar em pouco tempo. Mas para que isso tudo aconteça, a Sra. Rachel precisa morrer. É a morte da mãe que vai aproximar Claire ainda mais de você."
Sentiu raiva. E sentiu a tristeza de Claire crescendo à medida que ela chorava em seu ombro.
– Eu não quero perder a minha mãe, Sam... Eu não quero... — disse ela aos prantos.
Sam a abraçou mais forte e então ele teve uma ideia.
– Você não vai. — afirmou o Winchester. Em seguida se afastou um pouco e enquanto mantinha as mãos nos ombros dela, orientou — Arrume as suas coisas e encontre o Dean lá fora. Eu encontro vocês no caminho. Eu vou precisar do seu carro, tudo bem?
– Como assim? — não entendeu ela – Sam... Espera... Por favor, não me deixe sozinha...
– Eu preciso fazer uma coisa antes, Claire. Mas eu encontro vocês no caminho. Eu prometo. — explicou ele e em seguida, acrescentou — E eu prometo que você não vai perder a sua mãe.
Em seguida, Sam deixou o quarto e Claire, ainda sem entender o que ele estava planejando, resolveu fazer o que ele tinha pedido. Então começou a arrumar a mala enquanto Sam trocava de roupa no outro quarto.
Enquanto isso, na cozinha, Natalie murmurou:
– Eu ainda não acredito que vocês conheciam o Bobby.
– E eu ainda não acredito que você aprendeu a caçar sozinha. E que acabou com o sal do orfanato. Como foi isso exatamente? — interessou-se Dean tentando não rir — Como você sabia o que fazer? E não me diga que você ouviu em algum lugar porque esse não é o tipo de coisa que uma garota de dez anos ouve por aí e...
– Eu adoraria contar, mas por hoje é só, Sr. Awesome. — interrompeu Natalie enquanto se levantava e caminhava até a pia levando a panela — Foram muitas revelações para uma noite só e meu cérebro está em curto circuito. Além disso, eu preciso terminar este brigadeiro.
– Ei! Volta aqui com esta panela. — protestou Dean levantando também e se aproximando da garota.
Natalie desviou dele protegendo a panela com o corpo enquanto Dean tentava pegar mais uma colher daquele doce viciante.
– Não! Só tem mais um pouquinho e é meu! — esclareceu ela enquanto desviava dele mais uma vez.
Dean tentou encurralar Natalie na pia e ela ergueu a panela tentando mantê-la longe do alcance dele. Desviou mais uma vez, pegou a colher, raspou o recipiente e levou o doce à boca. Dean finalmente conseguiu tomar a panela, mas enquanto se protegia de Natalie e raspava o conteúdo da panela, a garota abriu a torneira e jogou um pouco de água nele. Indignado, Dean acabou se distraindo e ela pegou a panela de volta.
– Isso foi golpe baixo, Natalie Jones. — reclamou ele jogando água na garota também e pegando a panela da sua mão.
– Eu vou te matar, Dean Winchester! — ameaçou a loira enquanto olhava para a camiseta do Metallica que vestia e que ele havia molhado levemente. — Mas antes, eu vou comer a última colher. — garantiu ela pegando a colher da mão dele e terminando com o brigadeiro.
Dean lhe lançou um olhar de decepção e riu em seguida. Natalie também riu depois que terminou de comer. Colocou a colher na pia. Dean colocou a panela. E então voltou a olhar para a loira e os dois foram parando de rir até que um silêncio se instalou entre eles. De repente, Dean riu de novo e enquanto se aproximava limpava o queixo de Natalie com o dedo, explicou:
– Com licença. Você tem chocolate aqui.
Em seguida, foi a vez de Natalie fazer o mesmo.
– E você aqui. — disse ela passando o polegar próximo aos lábios de Dean — Pronto.
E então eles se olharam de novo e pararam de rir mais uma vez. E novamente o silêncio se instalou.
– Brigadeiro, hein? — murmurou Dean tentando quebrar aquele clima estranho.
Estranho e bom ao mesmo tempo.
– Pois é... Brigadeiro. — devolveu Natalie sem saber o que falar.
Justo ela que sempre tinha uma resposta pronta na ponta da língua, sem explicação aparente, ficou completamente muda. Como se todas as palavras que conhecia tivessem sido apagadas do seu cérebro. Vai ver que ele estava em curto circuito mesmo depois de todas as coisas que ouviu e contou para Dean. E era estranho, mas ela gostou de conversar com ele sobre o seu passado. Até que ele era um bom ouvinte. Epa! O que foi isso? Um elogio? Um elogio para Dean? Natalie franziu a testa um pouco confusa consigo mesma e segurou na pia com mais força.
Dean deu um passo a frente. Até que olhando daquele ângulo, Natalie era bem bonitinha. Epa! O que foi aquilo? Um elogio? Um elogio para Natalie? Dean franziu a testa um pouco confuso consigo mesmo. Se aproximou mais um pouco e sem perceber sua mão encostou na mão de Natalie sobre a pia.
Neste momento, Sam apareceu na cozinha um tanto afobado e os dois se afastaram rapidamente. Claro que antes disso, o mais novo percebeu um certo clima estranho entre eles.
– Sammy, o que aconteceu? — quis saber Dean.
– É a mãe da Claire. Ela piorou. Nós temos que ir para o hospital.
Entendendo a gravidade que ela frase passava, Dean afirmou:
– Tudo bem, nós vamos.
– A Claire está arrumando a mala. Eu vou resolver uma coisa e encontro vocês no caminho. — encerrou Sam e em seguida saiu rapidamente da cozinha.
– Ei! Espera... — pediu Dean, porém o irmão não voltou.
Sam passou pela sala e pegou as chaves do carro da garota sobre uma mesa. Saiu. Entrou no carro.
– Eu vou ajudar a Claire e encontro você lá fora. — disse Natalie e em seguida saiu da cozinha enquanto Dean a seguia com o olhar.
Instantes depois, ele também saiu de lá e foi para o quarto trocar de roupa. Quando terminou, pegou a mochila e colocou nas costas. O diário do pai, que estava em um dos bolsos, caiu no chão. Dean voltou e o guardou na mochila novamente. Fechou o zíper e saiu do quarto. Ao chegar do lado de fora do bunker, viu que Natalie e Claire estavam dentro do Camaro e que a loira tentava a todo custo fazê-lo funcionar, porém sem êxito. Depois de colocar a mochila no porta-malas do Impala, Dean gritou:
– Qual o problema com a lata velha?
Mesmo no escuro, Dean pôde ver Natalie o fuzilando com o olhar ao ouvir aquilo. Então lembrando-se da trégua se aproximou e apoiou-se na janela e refez a pergunta de outra forma:
– Qual o problema?
– Não está funcionando... Eu não entendo... — disse a loira aflita.
– Não se preocupe. Depois eu dou uma olhada nele. — propôs Dean.
– Mas como nós vamos até St. Louis? — perguntou ela.
– Dean abriu a porta e respondeu:
– No Impala.
Natalie hesitou. Lembrou do que aconteceu na cozinha e da conversa civilizada e até agradável que tiveram. Por mais que no fundo tivesse gostado daquilo, ela não queria que aquela proximidade entre eles crescesse. Talvez fosse melhor evitar Dean por um tempo. Talvez fosse melhor voltar a brigar com ele. Pelo menos até entender o que aconteceu exatamente na cozinha. Ou o que teria acontecido se Sam não tivesse aparecido.
Por outro lado, Natalie sabia que aquela era uma situação de emergência. Eles precisavam levar Claire até o hospital. Ela precisava fazer um esforço pela amiga. Então revirou os olhos e desceu do carro seguida por Claire.
Depois que os três entraram no carro, Dean deu partida e olhou Claire no banco detrás pelo retrovisor. Ela não tinha dito uma palavra sequer e estava com os olhos inchados.
– Claire, eu lamento muito pela sua mãe, de verdade. Mas eu preciso saber. O que o Sammy te disse exatamente? — perguntou ele.
Claire enxugou o rosto e respondeu com esforço:
– Que ele precisava resolver uma coisa antes e que nos encontraria no caminho. Ah! E que não ia deixar a minha mãe morrer.
No banco da frente, Natalie franziu a testa e indagou:
– O que ele quis dizer com isso?
Dean pensou um pouco e logo deduziu o que o irmão estava planejando.
– Eu já sei pra onde ele foi. — disse o Winchester e em seguida acelerou o carro.
Algum tempo depois, Sam chegou na pensão onde todos eles haviam estado mais cedo. Desceu do carro e se aproximou da entrada. Bateu na porta com força e insistentemente até que Roger a abriu assustado.
– O que...? — começou a dizer o homem, mas parou quando Sam empurrou a porta e entrou.
– Eu preciso falar com Ezekiel! Onde ele está? — disse o Winchester com raiva.
– Ele não está aqui... — respondeu o homem e então Sam se aproximou dele e o segurou pelo colarinho da camisa.
– Pare de mentir! Eu preciso falar com ele! Agora! — gritou enquanto segurava o homem com mais força.
– Solta ele. — ordenou uma voz calma e conhecida.
Sam demorou alguns instantes para soltar o homem e se virar em direção àquela voz. Era Ezekiel parado há alguns metros deles.
– Você quer falar comigo? Pois bem, eu estou aqui, Sam. Vamos conversar. — propôs o anjo.
Sam não conseguia esquecer que Ezekiel tinha se recusado a ajudar a Sra. Rachel e que se ele tivesse aceitado ajudá-la ainda aquela manhã, poderia ter evitado toda aquela situação. Talvez eles estivessem quase chegando em St. Louis e daria tempo de salvá-la, mas agora, tudo era mais complicado.
Pensando em tudo isso, e sentindo uma grande raiva por Ezekiel ter feito Claire sofrer com ao dizer que não podia interferir, Sam se aproximou rapidamente do anjo, fechou a mão e acertou o queixo dele com o máximo de força que pôde.
Ezekiel tombou no chão um pouco atordoado com o golpe. Sam deu mais um passo e o anjo ergueu a cabeça. O encarou. E de repente, os olhos de Ezekiel ficaram iluminados por uma espécie de luz branca e azulada.
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