Recomeçar
1 Ressuscitar
Notas iniciais
Não me lembro a última vez em que aguentei firme. Nunca consegui isso de fato. Eu tinha de recomeçar, voltar a fita e escrever um novo final, o final de uma nova vida. O pior era reabrir as feridas, encará-las quando queria escondê-las e trancá-las. Era preciso. Recomeçar. Realmente esta era a palavra certa, vendo em frente a pior cena — morte.
Quem já não pensou em suicídio diante de uma situação insuportável, ou simplismente por odiar ter de viver? Em meu caso, gostava de me machucar, machucar a mim mesma por dentro, uma mutilação espiritual. Além da física.
Eu já não tinha forças para lutar, queria correr mas não conseguia. Mas eu tinha de me ajudar. Poderia continuar como era, mas eu não queria assim e não sabia como sair do fundo do meu poço de quilômetros e quilômetros de fundo.
O sinal bateu. Guardei o diário. A sensação de tosquice daquilo era ridícula.
Voltei do hospital há uma semana, e desde então me obrigam à isso. Só me lembro de caixas de remédios e água — muita água, era o que eu tinha para vomitar. Queria mesmo morrer.
Todos prestavam atenção em mim. Os meus olhos de um azul profundo, o cabelo escuro com mechas loiras já feias, opacas, eu não devia chamar atenção. Era uma adolescente qualquer, Katherine, de 15 anos. Normal até chegarem ao histórico médico mantido em segredo de todos os colegas da classe.
Andei até o banheiro, minha mochila bege chamuscada e remendada pesada demais para a minha coluna. Olhei meu reflexo no espelho. Alguém teria contado de minhas tentativas de mutilação, até suicídio?
Minha garganta ficou seca. Ouvi murmúrios, então me escondi em uma das cabines — Bárbara.
\"Não sei o porquê, e nem como, mas ela estava no hospital há uma semana, tentou se matar.\"
\"Quem?\"
\"Kathy!\"
\"Sério? ...\" — A conversa continuava.
Enfureci. Meus olhos se encheram de lágrimas. Dei um murro na porta, estralei a mão. Andei com tanta pressa até onde elas estavam que destendi um músculo. Merda.
Segundos depois, estava segurando seu pescoço, esperando uma palavra para matá-la. Eu não era disso, mas se tinha coragem para tentar me matar, quem sabe? Ela não duvidaria depois de estar morta.
— O que FOI que você DISSE?
— CCaCalma Kath! — Fernanda implorava. E eu gostei disso! Mas a soltei.
— Eu só estava comentando!
— Como você SOUBE?
— A diretora.
Eu mato aquela vaca!
Saí dali para não cair na tentação de matar alguém ou de tentar me matar de novo.
Não queria ficar na escola. Eu já tinha faltado tantas vezes, isso não fazia diferença.
Peguei a minha bicicleta monark preta, velha e enferrujada, e fui dar uma volta. Uma, duas, cinco voltas por todo o bairro do centro. A minha mão, e o meu pé, estavam doloridos. Mais uma visita à clínica!
Na hora do fim da aula, fui direto para a casa do meu pai. Meu pai e minha mãe são separados, e eu posso ir em qualquer um dos dois apartamentos.
O Pai, Thor. Motorista de caminhão, só duas vezes por semana em casa. A mãe, Elizabeth: secretária, com mania de falar como uma atendente de telemarketing em brigas.
Com certeza naquele momento meu pai era melhor. Além de ele não estar em casa, lá perto, na Rua dos Mangarês, havia uma casa abandonada com um sótão — o das reuniões, que começaria em meia hora.
Fale com o autor