Recomeçar

4 Frustração


Entramos então na sala, a aula da Sra. Tyller já tinha começado. Ótimo, pensei, assim ia poder ler a carta a vontade quando a Valéria não estivesse olhando. Não prestei atenção, não ri com os outros, não falei com ninguém, nem olhei para ninguém — além da Valéria. Estava em um sonho, em minha transe, hipnotizada com a beleza de seus cabelos curtos e desgrenhados, como quem quer ser prático e rápido. Isso trazia muito da personalidade dela, pelo menos do pouco que a conhecia e que já gostava.

Era toda cheia de energia e vitalidade, e disposta a tudo e enfrentar a todos para defender algo. Naquele dia, no porão, foi o que ela fez por mim... Me defendeu com uma força enorme, como se pudesse quebrar os ossos dos meninos se tentassem me agredir.

De repente, tudo parou. Estávamos nos olhando, e a Sra. Tyller me pedia para ir ao quadro fazer a maldita equação. O que era aquilo afinal? Para mim, um monstro de sete cabeças, não prestei atenção de nada do assunto e ela me perguntava? Puro sarcasmo, era o que via em seus olhos caídos, de um nojo quase idoso.

Mas Valéria interrompeu. Disse que ela queria ir, novamente tentando colocar barreiras a minha volta para que não fosse encaminhada ao supervisor.

Olhei o seu caminhar ao quadro, a cabeça erguida como quem dizia \"E agora, o que você vai falar?\" Tyller não tinha nenhuma desculpa para me odiar, mas fazia isso com ímpeto, e Valéria não tinha que interromper... Mas fez isso. Para me proteger.

Depois de terminar a conta com impecável exatidão, Vale foi ao banheiro. Aproveitei o minuto para tentar ler a carta, mas em mim algo aconteceu. Dentro, eu podia sentir, vinha uma dor já conhecida, e o arrependimento pela insulina. Era uma crise de diabetes. Talvez por isso Tyller tanto me odiava, tanto me desprezava, pois geralmente em suas aulas isso acontecia — quando acontecia, quase sempre era em suas aulas.

A dor se transformou em um véu preto cobrindo o meu rosto, e quando acordei, estava em casa. Não exatamente a minha casa e de meu pai, mas a casa da mais despresível pessoa que eu já conhecera. Minha mãe.

— O que aconteceu? Perguntei como se acordasse de um sonho, ou um pesadelo, que fosse!

— Bem, você não tomou a insulina no horário certo. O que você sempre faz. Então desmaiou e agora está melhor. Não se importa com a sua vida garota?

— Na verdade sinto repulsa por ela. As palavras saíram cuspindo como fogo. — Você nunca entende, não é? Se preocupa se eu tomo os remédios, se não vou morrer, mas não percebe que com o que faz morro muito mais rápido e da forma mais dolorosa.

Ela suspirou.

— Sua amiga está aqui. Acompanhou desde o hospital. Será que devo falar ainda?

— Eu sei. Não vou vê-la. Também isso agora mal me importa, só quero ficar sozinha. Agora saia do meu quarto!

— Fique sozinha. Vou trazer o seu jantar às nove horas.

— Que seja. Estou sem fome. Não venha, a porta estará trancada, nem perca o seu tempo.

— Não sairá desta casa até o fim das férias. Ouviu?

Eu havia esquecido das férias. Agora discutindo com a minha mãe, nem fugindo consiguirei sair. O que fazer?

Ela continuava me esbaldandom com palavras sujas e de arrependimento e dor. Enfim, consegui dizer. — Saia daqui. Agora.

Pense. O que eu posso fazer? Posso ler a carta. É o mínimo.

Kath

Sei que não está bem, e queria conversar com você. Será que você pode sair de casa nas férias? Preciso mesmo falar contigo. Beijos Vale.

Obs.: Na casa da árvore, perto do velho carvalho, às três do dia vinte e sete?

Não era o que esperava. Mas com certeza teria de conquistar Vale aos poucos. Principalmente por mal saber a sua opção sexual. Na verdade, sinto que não sei nem a minha depois daquela corrida, daquela noite falando sobre tudo com Vale. Só tinha algumas informações. Que ela já namorou, mas não sabe com quem. Que até já ficou grávida, o que diria ser uma heterossexual, mas que abortou. Muitas coisas, eu preciso colocar tudo em ordem em minha mente.

Ela já tinha um namorado — ou namorada, talvez mais de uma pessoa — ficou grávida, abortou e fugiu. Veio para Jaraguá, era de Florianópolis. Seus pais a rejeitaram a saber do filho, do fumo e da bebida. O que ela escondia por trás de seus belos e grandes olhos negros?

Kath correu para a porta, mas estava trancada. Podia ouvir murmúrios de uma amiga preocupada, e de uma mãe besta que dizia para não se preocupar. Kath berrou.

— Valéria, não vá. Não ouça o que ela diz, eu não estou bem. Precisamos conversar, lembra?

Mas ao se aproximar, a voz não era de Valéria. Era de Bárbara, a menina que, se fosse por Kathy, estaria morta.

Bárbara já fora sua melhor amiga, pelo menos até o ginásio. Eu, Kath, havia mudado muito. Minhas roupas normais agora eram negras e entristecidas, o olhar também negro, de um sarcasmo enorme. Tirava sarro da vida. Se pelo menos fosse a Vale eu ficaria feliz. Como jamais fiquei. Infelizmente para mim, não era.

Ela também havia mudado, haviam boatos de homo ou bissexualidade, quanto a isso só respondia de imediato \"De onde tirou isso\". Ela estava realmente mais bonita, Kath nunca ligara para este fato, que agora parecia importar.

Comecei a esmurrar a porta. Gritei para minha mãe abrir, mas foi inútil. Por mais que não falasse mais com Bárbara, ou que a tivesse enforcado, queria pedir perdão. Por tudo. Uma onda de remorso me atingiu, e a semana seguinte foi de pura dor e irritação, o pirralho do sobrinho batendo à minha porta.

Vá embora, me deixe em paz, quero dormir! Vá assistir seu canal ridículo de \"Dora a aventureira\".

Surtei, sim. Uma semana em um quarto fedendo a naftalina e tendo que aturar comentários escrotos de minha mãe sobre \"Você não come direito\", e brigas de tremer o prédio, era demais.

Entrei no msn. Ao virar a carta, tinha visto que Valéria deixou o seu msn, burra! Só percebi quatro dias depois!

Sem vontade de colocar online e aturar pessoas induportáveis perguntando como estava, se melhorei, simplismente a adicionei. E esperei. Ela não estava lá, e eu estava disposta a deixar o computador ligado 24 horas para tentar encontrá-la. E conversar.

Notas finais
Oi pessoas! '0' Queria aproveitar o meu espaço aqui pra mandar um beijo pra yo querida, linda, absoluta e maravilhosa, pra minha tia que chegou de Criciúma, e pra duda que não é da história da yo mas é minha irmã! .3. Só porque a yo é muito querida >.< Beijos da wik :**