Recomeçar

1 Capítulo Único - Recomeçar


Notas iniciais
Olá leitores... Bem-vindos a mais um passeio pela minha mente louca e levemente interessante. Tenho que admitir que essa fic me trás sentimentos controversos, tristeza e felicidade ao mesmo tempo. Bom, espero que vocês gostem. Enfim, boa leitura...

Anthony caminhou lentamente pelo cemitério banhado pelo sol morno da tarde, seus passos suaves quase não faziam barulho na ruazinha de cimento. Depois de alguns minutos, chegou onde queria e se sentou no banco de madeira próximo ao túmulo.

“Oi, Paola. É, eu vim.” Disse para a foto na lápide enquanto abria a mochila para pegar uma caixinha de som, a mesma que usava para distrair sua melhor amiga durante o período em que ficou com ela no hospital. “Imagino a sua cara de indignação. Aonde quer que esteja agora tá gritando ‘Tony, seu idiota, eu morri, vai seguir sua vida’. Mas cuidar de você por dois anos não foi, nem de longe, o bastante pra me preparar pra sua partida.” Sorriu triste e ligou o aparelho, em seguida pegou uma garrafa de vodca, a abriu e começou a bebericar direto do gargalo. “E não pense que não sei o quanto isso é egoísta, afinal, eu vi o quanto você sofreu.” A vontade de chorar se fazia forte, por isso Anthony parou de falar um instante, passando as mãos no cabelo sem corte, colocando mexas atrás das orelhas que logo escorregaram de volta para o mesmo lugar. “Pelo menos voltei a ir pra faculdade, como me pediu. E pra surpresa de ninguém, estou levando bomba atrás de bomba o semestre inteiro. Aposto que se pudesse estaria me estapeando agora. Mas não posso evitar sentir sua falta. Você estava comigo nos momentos mais importantes da minha vida. Em todos eles.”

Anthony não aguentou mais segurar as lágrimas e deixou as gotas salgadas escorrerem por suas bochechas, caindo na calça jeans.

Quando os toques suaves de piano começaram a soar da caixinha de som, um sorriso saudoso surgiu no rosto tristonho.

“Mermaid, lembra? Sempre que tocava você começava a falar sobre coisas profundas. E às vezes meio tristes. Eu nunca entendi até ouvir depois da sua partida. Mesmo que estivesse tocando quando tivemos nossa última conversa. Um dia ainda vou cumprir todas as promessas que te fiz naquela noite.”

Uma voz soou às costas de Anthony, fazendo-o se sobressaltar. “Sabia que ainda ia te encontrar aqui.”

“Sam! Que susto!” Respondeu colocando uma mão sobre o peito, tentando acalmar o coração disparado. “Você deve me achar maluco por estar conversando com um túmulo.”

“Nah.” Samuel sorriu enquanto ocupava o espaço ao lado no banco cor de tabaco. “Eu faço isso com mais frequência que você, acredite. Às vezes venho aqui só pra contar como foi o meu dia.”

“É sério?” Anthony retribuiu o sorriso, tentando limpar as lágrimas de suas bochechas com os dedos.

“É. Pela primeira vez faço algo que irritaria a Paola sem ter a intenção de afrontá-la. A gente brigava pacas, mas sei lá...” O olhar acastanhado caiu sobre a foto no túmulo. “Até agora não consegui me desligar dela.”

“Entendo como se sente.” Concordou estendendo a garrafa de vodca. “Do céu ou do inferno, a Paola tá xingando muito a gente.”

“Imagino que sim. Conheço minha irmã.” Samuel riu tomando um gole generoso da bebida e deixando que o silêncio permanecesse por um longo momento até dizer. “Tony... Posso te fazer uma pergunta?”

“Claro. Manda aí.”

“Você, an... Gostava da minha irmã?”

“Não vou me fazer de bobo.” Anthony sorriu constrangido e pegou sua vodca de volta só para passar a unha brincando com o rótulo, e não ter que olhar para Samuel. “Me apaixonei pela Paola no colégio ainda. E por outra pessoa também. Ela sabia e tals, mas sempre deixou claro que éramos só amigos e eu fiquei de boas.”

“Pera, como assim? Você gostava de duas pessoas ao mesmo tempo?” Replicou com uma sobrancelha erguida.

“Estranho, né?” Para acompanhar o sorriso envergonhado, agora havia um rubor nas bochechas de Anthony. “Antes dos quinze anos, eu julgava muito pessoas com relacionamento aberto, trisais, quem tinha curiosidade com threesome, etc. Aí foi só entrar no ensino médio e, ‘Paah’, caio de amores por duas pessoas. Um crush tremendo que não passa.”

“E quem era a outra pessoa?” Samuel se inclinou um pouco para entrar no campo de visão do amigo, mesmo que ele ainda lhe evitasse.

“Alguém com quem eu não teria a mínima chance” Anthony respirou fundo juntando o máximo de coragem que conseguia para olhá-lo nos olhos. “Mas que eu gostaria muito ter.”

“Você tentou chegar nessa pessoa? Porque eu nunca dei em cima do cara que gosto e meio que me acho um otário por isso.” E foi a vez de Samuel ficar com o rosto corado.

Anthony sentiu o coração acelerar e sua voz acabou saindo trémula. “O... O cara?”

“Sim. O cara.”

“Bom... Como alguém que foi suavemente rejeitado pela melhor amiga e não contou o que sentia pro cara por quem sempre foi apaixonado, acho que você devia dizer pra ele o que sente. A dúvida é pior do que a rejeição.” Aconselhou mesmo tendo sentido o peito afundar por imaginar que poderia ter tido uma chance e a jogou fora por não achar que tinha.

"Você acha mesmo?”

"Com certeza. E pode contar com meu apoio pro que precisar, Sam. Sempre."

"Tony, você é o melhor..."

"Disso eu sei.” Interrompeu rápido por não que querer ouvir a palavra amigo naquele momento. “Agora conta mais sobre o tal carinha.”

"Ah, eu posso até contar.” Samuel sorriu, embora a vermelhidão de seu rosto tenha se acentuado quando tocou com timidez a mão de Anthony, entrelaçando seus dedos devagar. “Mas eu prefiro que seja em um jantar num lugar bem bacana. Se você quiser sair comigo."

"Meu Deus.” Anthony arregalou os olhos para as mãos unidas e conforme o choque ia passando, sua expressão suavizava e o contato ia sendo quebrado. “Ah, droga! Eu não acredito nisso."

"Desculpa.” Samuel cobriu o rosto, sentindo-se mais envergonhado que em qualquer outra ocasião de sua vida. “Pensei que..."

"Não! Não é isso.” Interrompeu de novo, dando um tapa na própria testa. “Eu gosto de você, Sam. Sempre gostei. Esperei anos por esse convite. É que... Eu to sem estrutura pra sair com alguém agora."

"Você tá sem estrutura, eu me sinto sem chão...” Dessa vez, Samuel apenas estendeu a mão, sem querer ser invasivo. “Talvez a gente possa se ajudar. Distrair um ao outro ou sei lá. O que custa tentar?"

Anthony ficou um tempo olhando para a palma aberta em sua direção até que por fim sorriu, entrelaçando seus dedos novamente.

Sete Meses Antes

“Tony.” Os toques suaves de Mermaid – Yuna preenchiam o quarto de hospital quando Paola chamou o melhor amigo, tirando a atenção dele do celular.

“Sim, meu xuxuzinho?” Respondeu com um sorriso gentil.

“Estou sentindo que é hoje. Eu vou morrer.”

“Não fala assim.”

“Ah, qual é, seu otário?” Ela se mexeu com dificuldade, virando-se na maca para poder encará-lo melhor. “Olha meu cabelo que coisa horrível. Sem falar que estou parecendo um fantasminha de tão pálida. Já estou nessa merda de sobrevivência há dois anos. Pra ser bem sincera me sinto bem ansiosa pra descobrir a aventura seguinte. Mas antes... Eu quero te pedir que me prometa três coisas.”

“An... Ok. Pode falar.” Anthony se forçou a sorrir mesmo que a vontade fosse chorar.

“A primeira: não deixe ninguém fazer velório pra mim. Conversei isso com todo mundo só pra garantir. Já se despediram da garota que eu era quando dei entrada nesse hospital, não quero que ninguém se despeça desse troço.”

“Não fala desse jeito, menina.”

“Promete logo.” Paola revirou os olhos.

“Ok, eu prometo.”

“Segundo: quero que volte a ir pra faculdade e siga sua vida. E, pelo amor de Gustavo e Karen, não fica indo visitar minha lápide no cemitério. Sempre odiei coisas mórbidas em vida, quero que respeite isso quando eu morrer.”

“Vou tentar.” Anthony achou melhor não dizer eu prometo com todas as letras porque provavelmente seria uma mentira.

“Terceiro...” Paola fez uma pausa longa antes de concluir a linha de pensamento. “Por favor, diga ao Samuel o que sente.”

“O que?!” A pergunta foi feita em um tom pouco mais alto que um sussurro, porém os olhos arregalados demonstravam bem que era uma exclamação.

“Promete.”

“Não. Isso eu não posso.”

“Promete, caralho.” Paola se exaltou e acabou tossindo forte ao ponto de sair sangue, não foi de propósito, mas ela gostou que tivesse acontecido porque deu ênfase à sua próxima frase. “É a última coisa que to te pedindo, Tony.”

“Tá bom!” Anthony, com seu eterno coração mole, acabou cedendo. “Eu prometo.”

“Obrigada.” Ela deixou um sorrisinho sincero brotar em seus lábios ressequidos, e isso fez a promessa insana valer a pena para seu melhor amigo.

(...)

“Sam? Sam? Samuca?” Chamou o irmão que cochilava ressonando baixinho na cadeira ao lado de sua maca.

“OI!” Samuel acordou sobressaltando-se para fora da cadeira. “Me desculpa por cair no sono, é que...”

“Relaxa, pode sentar, eu não preciso de nada.” Paola o tranquilizou. “É que... Eu estou sentindo que está perto. Bem perto. Quero dizer uma última vez que eu te amo, irmãozão.”

Geralmente aquele homem grandalhão e forte não se permitia chorar na frente de ninguém, mas ali foi impossível segurar. “Eu também te amo. E eu... Preciso falar uma coisa.”

“Sou toda ouvidos.”

“Um dia espero que não seja, mas por enquanto ainda é bastante difícil pra mim tocar nesse assunto. Só que não posso deixar você ir sem saber quem eu sou de verdade...”

“Samuca, acho que você não entendeu o conceito de ‘eu estou morrendo’.” Paola o interrompeu com uma leve revirada de olhos. “Passa logo pro final.”

“Ok. Aqui vai.” Engolindo em seco, ele fechou os olhos com força e disse. “Eu sou gay.”

Os três segundos posteriores, onde reinou o total silêncio, foram os mais longos da vida de Samuel, porém um suspiro escapou de seus lábios quando, ao invés de ter qualquer reação negativa, sua irmã apenas caiu na gargalhada.

“Eu sei disso, negão.” Paola sussurrou, pois ficara sem forças para falar. “Ou tu achou mesmo que gostar de futebol e cerveja ia te fazer escapar do meu gaydar?”

“Você não sabe o alívio que me dá te ouvir falando assim.” Samuel sorriu e chorou ao mesmo tempo enquanto se esticava para pegar um lenço e limpar as gotículas de sangue que o riso fez escaparem para a boca de sua irmã.

“Você é engraçado, irmãozão. Me bateu um sono agora. Vou tirar um cochilo.”

Essa foi a última vez que Samuel ouviu a voz de Paola.

Notas finais
Então, galeres? O que vcs acharam? É triste e pacífico ao mesmo tempo... Estranho, eu realmente não sei o que sentir lendo isso... xoxo Atenciosamente, Leonardo A. Guedes.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!