Recomeçar

4 Capítulo 4 -CRISE!


Notas iniciais
++



Hermione abriu a porta da geladeira extremamente
irritada. Aquilo não poderia estar acontecendo, realmente não poderia. Quer
dizer... Tudo bem, Harry entrava e saia de seu apartamento na hora que bem
entendesse, mas afinal ele era o HARRY! O Harry que ela conhecia desde que
tinha onze anos. O Harry que sempre fora seu melhor amigo. O Harry com quem ela
se escondia atrás da escada... Bem, é melhor deixar isso para lá. Lançou um
olhar mortal para a sala onde Draco Malfoy, Vincent Crabbe e Blaise Zabini,
acredite quem quiser, assistiam televisão.



Eles tentavam entender as regras do futebol, mas nenhum
parecia estar tendo muito sucesso. Crabbe perguntava se os jogadores eram anões
muito pequenos que estavam presos dentro da “caixa preta”. Draco dizia que não,
deveria ser algum feitiço de redução temporário. Zabini permanecia em silêncio,
tentando entender por que nenhum deles usava uma vassoura ou tinha varinha e,
“por que diabos todos os jogadores estão correndo atrás de uma única bola? Que
coisa mais idiota!”.



Nisso, Hermione pensou soltando um suspiro, ela tinha que
concordar com Zabini. Decidiu então que não ficaria por perto para continuar
ouvindo a discussão que acontecia na sala. Decidiu que iria ler a lista
telefônica de trás para frente se fosse necessário.



Mas estava faminta. Abriu novamente a geladeira e pegou
um pedaço de torta o levando até o microondas. Esperou pacientemente, batucando
os dedos na pia. Ouviu uma movimentação estranha na sala e tentou não se
importar. Afinal, eram apenas os três piores sonserinos assistindo televisão na
sala de sua casa! Por que ela deveria se importar?



A movimentação cessou quando Blaise entrou na cozinha e a
olhou com a testa franzida, como se estivesse confuso com alguma coisa. Bem,
não importava. A casa era dela, os incomodados que fossem embora.



-aquilo são anões ou um feitiço? –ele perguntou apontando
com o polegar para a sala.



-ah... –Hermione deixou a boca cair em surpresa. –nenhum
dos dois. –deu de ombros. –são trouxas normais.



-mas como eles couberam naquela caixa? –a essa altura os
olhos castanhos do menino estavam totalmente arregalados.



-eles não estão dentro da caixa. –Hermione sorriu,
realmente achando graça daquilo. –eles estão em um campo jogando, mas estão
sendo filmados...



-filmados! –Zabini assentiu como se estivesse entendo
completamente o que Hermione falava.



-é, sabe as fotos? –Hermione tirou o pedaço de torta de
dentro do microondas. Zabini assentiu minimamente. –então, é igual... Quando
tiram uma foto sua, ela se mexe, não é?



-sim...



-então, as fotos trouxas não se mexem, mas podemos filmar
as pessoas... –Hermione pegou um garfo dentro da gaveta. –é igual uma câmera
fotográfica, mas ela capta seus movimentos, daí manda para satélites e repassa
para a televisão dos trouxas.



-com magia? –Zabini abriu um sorriso. Hermione se
perguntou se ele havia realmente ouvido alguma coisa do que ela havia dito.



-acho que são ondas... –a menina deu de ombros, olhando
para sua torta e para o menino. –está com fome?



-um pouco, obrigado! –ele sorriu, ficando de lado para
dar espaço a ela.



Nunca em sua vida imaginou eu iria discutir sobre a
tecnologia trouxa com Zabini. E, para falar a verdade, qualquer um deles, já
que Crabbe e Draco haviam desistido de entender o jogo sozinhos e foram para a
cozinha também.



-então... Por que eles não usam vassouras? –Zabini
perguntou ajudando Hermione a colocar os pratos na mesa.



-porque eles são trouxas. –deu de ombros sorrindo. –eles
não devem saber que uma vassoura pode voar!



-e por que eles ficam correndo atrás de uma bola? –Draco
ergueu uma sobrancelha, sentado na mesa parecendo minimamente interessado.



-pelo mesmo motivo que vocês correm atrás de uma no
quadribol! –ela deu de ombros. –é um mistério!



Todos ficaram em silêncio tentando digerir as palavras da
menina. Crabbe ainda parecia não acreditar que havia apenas uma única bola no
jogo. Mas Hermione não faria esforço para explicar a ele.



-e como se ganha? –Draco perguntou de repente,
arregalando os olhos quando Zabini moveu a varinha ajudando Hermione na
cozinha.



-são dois tempos de quarenta e cinco minutos, ganha quem
conseguir fazer mais gols até o fim desse tempo. –ela pegou uma cenoura de
dentro da geladeira.



-que babaquice! –Crabbe chiou. Os outros dois meninos
fizeram uma pausa para fuzilá-lo com o olhar.



Passaram alguns minutos e continuavam discutindo sobre o
mundo trouxa. Crabbe disse que tinha que ir embora e ninguém quis saber o
motivo. Zabini continuou ajudando a fazer o jantar, enquanto Draco parecia
muito concentrado na faca que cortava sozinha os legumes.



Zabini contou a Hermione que Goyle estava no St. Mungus
após uma poção que explodiu em sua casa. Hermione tentou sentir pena dele, mas
nem Zabini, ou mesmo Draco, parecia muito ressentido com a coisa.



Quando finalmente o jantar ficou pronto, Zabini se juntou
a eles, o que Hermione agradeceu, assim pelo menos não teria que ficar se
martirizando pensando se tinha ou não que puxar um assunto com Malfoy.



-e você está trabalhando no ministério! –Zabini parecia
surpreso, olhou para Malfoy com o canto dos olhos e Hermione teve a impressão
que o loiro ficou vermelho.



-negociação com os trouxas! –ela sorriu colocando mais um
pedaço de carne na boca.



-ah, é perto da repartição de Draco, não é mesmo? –Blaise
piscou os olhos inocentemente e Hermione imaginou o que ele estava querendo com
aquilo.



-um pouco. –ela admitiu.



-legal! –ele sorriu, mexendo na comida com o garfo e
sorrindo.



Hermione observou os dois meninos por um segundo. Malfoy
olhava feio para Zabini, que fingia não ver a cara do amigo. Hermione pensou
que talvez tivesse alguma coisa ali que ela deveria saber.



Antes que pudesse sequer abrir a boca para começar a
falar, alguma coisa começou a queimar na lareira. Hermione fez uma figa
imaginaria para que fosse Harry, porém, a pessoa que saia de lá era mais alta
que seu amigo, esguio, com os cabelos negros caindo em volta do rosto. O nariz
cumprido estava quase franzido e os olhos negros olhavam para o rosto de cada
um. Hermione se perguntou como Severo Snape poderia se parecer tanto com um
morcego e ainda assim não ser um.



-estou atrapalhando? –ele perguntou olhando diretamente
para Hermione como se a desafiasse a dizer que sim.



-Snape! –Draco engasgou. –que surpresa!



-surpresa maior seria se fosse seu pai entrando por essa
lareira! –o homem suspirou, dando dois passos em direção a eles.



Zabini não ousou abrir a boca. Olhou de um lado para o
outro e encontrou o olhar de Hermione que não era dos melhores. Não era segredo
para ninguém que ela não guardava bons sentimentos com relação ao ex-professor
de poções. E também não era novidade que Snape compartilhasse esse mesmo
sentimento com relação à menina. Mas ele não gostava de ninguém, e ninguém
gostava dele.



-veio a mando de meu pai? –Malfoy perguntou limpando a
boca com o guardanapo e depois se levantando.



-a mando não. –Snape fez uma carranca. –vim fazer um
favor a sua mãe.



-claro...



-vim ver se você estava bem... Ou vivo. –e, pela primeira
vez desde que tinha saído daquela lareira, Severo Snape olhou para Draco.
–parece que ela não tem com o que se preocupar.



-estou bem! –Draco disse entre dentes, como se a idéia
fosse absurda ainda para ele. –não preciso de ninguém atrás de mim.



-é claro que não! –Snape ergueu um canto da boca como se
fosse sorrir.



A menina se recusou a ser atingida pelo veneno do homem.
Voltou para seu prato e voltou a comer como se nada estivesse acontecendo.
Sabia que ignorá-lo iria irritá-lo mais do que qualquer outra coisa que pudesse
dizer.



-bem, se for só isso! –Draco cruzou os braços sobre o
peito, encarando o professor com seriedade.



-ah, claro! –novamente a voz do homem soou irônica. –não
queria interromper o jantar de vocês!



Severo voltou para a lareira e jogou o pó de flu. A
lareira novamente explodiu em chamas esverdeadas quando Snape falou o endereço
dos Malfoy. Hermione golpeou um rabanete com seu garfo.



-ele sabe como ser irritante! –Zabini notou, deixando seu
garfo cair com um tintilar no prato. Hermione e Draco bufaram juntos.



[...]



Olhou no relógio pela milionésima vez na ultima hora.
Odiava admitir aquilo. E se odiava apenas por pensar em um absurdo como aquele.
Mas estava preocupada com ele.



Quer dizer, ele já deveria estar em casa há duas horas! E
se ele tivesse se perdido nas ruas de Londres? E se ele tivesse pegado o trem
errado para vir para casa? E ele estivesse morto? Tentava se convencer que o
único motivo por estar preocupada com Draco Malfoy era que ninguém acreditaria
que ela não era culpada caso acontecesse alguma coisa com ele.



Quer dizer... Ele era irresponsável, mesquinho, arrogante
e tinha um péssimo senso de localização. Como poderiam esperar que ele fosse
sobreviver sozinho? COMO?



Mudou o canal da televisão e deu um pulo quando ouviu o
pio de uma coruja em sua janela. Arregalou os olhos e abriu para que ela pudesse
voar para dentro da sala.



A coruja era cinzenta, de olhos amarelados, cor de mel, e
extremamente frios. Duas penas altas pendiam para as laterais de sua cabeça.
Seu bico era preto e curvado. Ela voltou a piar mais uma vez, um som cortante.
Havia um pedaço de pergaminho amarrado em sua perna. Com cuidado Hermione
desamarrou o cordão de sua perna, temendo ser bicada. O animal, sem esperar por
uma resposta, voou novamente para a noite.



A letra era firme e corrida, Hermione demorou algum tempo
para ter certeza de que nunca havia visto aquela letra antes. Se prendeu então
ao que dizia o bilhete.



“Malfoy
está comigo! E vivo! Não se preocupe.



Blaise.



Ela amassou o
papel em sua mão sentindo uma nova onda de fúria lhe invadir. Preocupada? É
claro que ela não estava preocupada! Queria que ele fosse comido por um
explosivim!



Bufando, pegou uma coberta e se jogou no sofá, disposta a
colocar o prédio a baixo quando os pés do menino tocassem o chão do
apartamento. Foi até a cozinha e abriu a geladeira sem realmente ver o que
tinha lá dentro. Voltou para a sala com as mãos vaziam e ainda com mais raiva.



-ele poderia
pelo menos ter avisado. –rosnou, mudando de canal.



Bichento miou uma vez e pulou no sofá ao lado dela. Se Malfoy
estivesse vendo aquilo começaria a gritar com o gato no mesmo instante, dizendo
que não queria passar a noite inteira espirrando por causa dos pelos do gato.
Hermione quase caiu na tentação de esfregar Bichento por toda a extensão do
sofá. Afinal, era Malfoy que teria que dormir ali.



-sabe, Bichento, desconfio que sua vida seja uma
maravilha perto da minha. –ela murmurou pegando o gato.



Por alguma razão, olhar para o gato que parecia tão feliz
e tão aconchegado fez com que seu peito se apertasse. Ela estava mesmo se
comparando a um gato?



Como? Alguém seria
capaz de responder? Um dia ela tinha tudo o que sempre julgou que queria, e de
repente tudo parece desmoronar. Então ela pisca e... Está deitada no sofá
esperando para brigar com Draco Malfoy! Realmente, que expectativa de vida,
não?



Encostou a cabeça do braço do sofá mais melancólica do
que nunca. Gostaria de ligar para Harry, mas temia que ele pudesse estar com
Gina e essa seria a ultima pessoa que ela gostaria de ouvir a voz. Poderia
ligar para sua mãe, mas sabia que ela iria começar a reclamar de seu pai. E
quem mais sobrava? Apenas Bichento.



Acabou adormecendo no sofá mesmo, algumas lágrimas nos
olhos embaçaram a ultima visão que teve da televisão, enquanto outras molhavam
levemente o sofá.



[...]



Draco abriu a porta do apartamento lentamente. Olhou de
um lado para o outro como se esperasse algum tipo de bomba sendo jogada em sua
direção. Caminhou lentamente pisando apenas onde havia tapetes. A luz da
cozinha estava ligada, provavelmente a Granger havia deixado ligada quando ela
havia ido...



Mas ela não havia ido
dormir. Estava deitada no sofá, o rosto manchado, mas parecendo tranqüilo,
sereno, algo que há muito tempo não via nela.
O gato laranja se espreguiçou em cima de sua barriga, olhando para Draco
só por um segundo.



Era só o que faltava. Seu quarto ainda estava interditado
por causa do perfume quebrado (pelo menos a farinha e os limões a Granger havia
feito o favor de limpar) e agora ela estava lá... Deitada no sofá em que ELE
iria dormir. É claro, ainda havia a opção de dormir na cama dela, mas achava
que era muito novo para perder o pescoço. E também... Não poderia deixar ela
ali, no desconfortável. Oras! Ela não precisava acordar cedo para ir trabalhar!
Era justo que ela ficasse no sofá, não era? Não, não era!



Coçou a nuca uma vez e pensou bem no que iria fazer. E,
naquele momento, o chão nunca pareceu tão confortável. Andou em passos longos
ate o sofá e se inclinou, passando uma mão por baixo dos joelhos da Granger e a
outra por baixo de seus ombros.



Ela gemeu baixinho e se mexeu inconscientemente para se
ajeitar, passando os braços ao redor dele e deitando a cabeça em seu ombro.
Draco parou onde estava e arregalou os olhos, olhando o rosto de Hermione. O
que manchara seu rosto eram lágrimas, agora podia ver bem.



O gato estúpido e alaranjado miou em seus pés e o menino
ralhou que ele ficasse quieto. Draco empurrou a porta do quarto da menina com o
quadril e deu uma boa olhada para dentro antes. Foi até a janela, ainda com a
menina segurando seu pescoço firmemente, e fechou a cortina. Colocou-a sobre a
cama e o aperto dos braços em seu pescoço se tornou mais firme e de repente seu
rosto estava escondido em sua jaqueta.



Draco olhou para Bichento como se pedisse o que fazer. O
animal apenas mexeu o rabo de um lado para o outro, como se o lembrasse que
havia o mandado ficar calado.



Draco deixou sua mão escorregar dos ombros para o meio
das costas da menina. Ela tremia levemente e ainda estava meio presa a ele.
Percebeu que ele não precisava exatamente mantê-la em seu colo. Ela estava bem
ereta e desconfiou que ela não estivesse tão inconsciente quando parecia antes.



-Granger? –chamou sussurrando.



Hermione apenas sacudiu a cabeça com voracidade, ainda
escondendo o rosto na jaqueta do menino. Draco olhou para bichento novamente,
dessa vez em desespero. Sentia que ela estava molhando suas roupas. Lágrimas? O
que ele ia fazer com uma mulher chorando em seu colo? Sentar e chorar junto?



Prendeu a respiração e se sentou na cama a mantendo em
seu colo em segurança. Deu algumas batidinhas em suas costas, pensando se
aquilo era bom o bastante. Ouviu um soluço e decidiu que não! Definitivamente
aquilo não estava funcionando.



Decidiu que era melhor não perguntar o que estava
acontecendo. Tinha uma boa idéia do que significava aquilo. Recostou-se na
cabeceira da cama e simplesmente ficou ali, esperando a crise de choro cessar.



-está tudo bem. –sussurrou próximo ao seu ouvido. –vai
ficar tudo bem, você vai ver.



Ela não respondeu, mas pelo menos assentia. Draco pensou
do que iria falar a seguir. Todas as suas frases feitas para consolo haviam
acabado e Hermione continuava chorando.



Ela então se afastou, espalmou as mãos na jaqueta dele
como se tentasse limpar as lágrimas que tinham caído ali. Draco passou a mão em
seu rosto, limpando as lágrimas que insistiam em escorrer e afastando os fios
de cabelo. Hermione sorriu meio sem jeito. Tinha até se esquecido que havia
ficado acordada apenas para ter a oportunidade de acertar a cara dele.



-obrigada! –ela sussurrou, pulando de seu colo para a
cama. Draco então fez a coisa mais impressionante do mundo: Sorriu com
sinceridade.



-está melhor? –perguntou a olhando com cuidado, prestando
atenção caso ela voltasse a chorar.



-acho que sim. –ela disse com a voz rouca.



-boa noite, Hermione. –ele sussurrou, dando um beijo em
seu rosto.



Hermione o abraçou outra vez, dessa vez em forma de
agradecimento. Ele parecia meio desajeitado, surpreso, mas acabou
correspondendo após alguns segundos. Ela sorriu envergonhada quando se
afastaram sem acreditar que ela tinha realmente chorado na frente de Draco
Malfoy.



-boa noite.



Draco esperou atrás da porta até ter certeza de que
Hermione estava totalmente adormecida. Não sabia ao certo o que faria. Nunca,
em toda a sua vida, havia imaginado uma situação como aquela.



Mas, felizmente havia uma solução. E, embora não gostasse
nem um pouco, não havia alternativa se não tentá-la. Suspirou e foi até o tal
telefone, o encarando como se ele fosse seu pior inimigo no mundo. Procurou
pelas gavetas da estante por alguma coisa que pudesse lhe dar uma dica de como
usá-lo. Seria como o pó de flu? Bastava gritar o lugar que queria ir? Ou será
que o “negócio” podia ler pensamentos?



Encostou lentamente o telefone no rosto e esperou, mas
tudo o que ouviu foi o irritante barulho constante de “TU”. Bufou, voltando a
procurar nas gavetas. Por sorte, uma pequena cardeneta havia algumas coisas
anotadas.



“Telefone Potter”



Arregalou os olhos. Tinha que discar todos aqueles
números que não faziam sentido nenhum? Bufou, mas resolveu que iria tentar.
Apertou um botão de cada vez e se surpreendeu com o fato de que o TU constante
havia parado e agora só aparecia em intervalos regulares.



-Alô? –uma mulher atendeu. Deveria ser Lilian Potter,
Draco pensou.



-ahn, Boa noite, eu poderia falar com o Potter... Harry
Potter? –Quase se bateu por sua idiotice. Se estava chamando a residência dos
Potters, qualquer um que atendesse seria Potter, certo?



-ah, não acho que ele poça falar no momento. –seu tom de
voz era preocupado e quase de desculpas. –é algum assunto urgente?



-um pouco. –o menino engoliu seco.



-então eu vou chamá-lo. Só um minuto. –Draco quase pode
ouvir o sorriso nascer no rosto da mulher.



Ainda estava impressionado que o telefone tinha
funcionado com ele quando o Potter-filho falou. Draco quase pulou em seu lugar.



-alô? –ele estava bravo. Sua voz era forte e irritada.



-Potter?



-Malfoy? –Harry berrou. Draco pensou ter ouvido os berros
dele ecoar pela cidade.



-não pense que me agrada falar com você, Potter, é só
que...



-o que aconteceu com Hermione? –Harry o cortou no mesmo
instante.



-ah, bem, então...



-estou chegando aí! –e então o telefone voltou a fazer o
som constante e irritante.



Malfoy se sentou no sofá, bufando. Afrouxou o nó da
gravata e forçou seu cérebro a se lembrar de como ligava a televisão. Não teve
muito tempo para pensar, já que o som da lareira novamente anunciava que alguém
estava entrando. Ótimo, pensou, mais visitas.



-o que fez com ela? –Harry entrou pelo corredor, o olhar
vidrado, o rosto vermelho. Draco piscou os olhos.



-o que você acha que eu posso ter feito com ela? –revirou
os olhos. –eu não sou o que você pensa, Potter!



-infelizmente, Malfoy, você é exatamente o que eu
acredito que é! –Harry franziu a testa e cruzou os braços. Usava uma roupa
casual trouxa. –e então, o que aconteceu?



-eu... –Draco o olhou por um segundo, sem acreditar no
que iria fazer. –eu cheguei um pouco tarde hoje, fiquei preso no ministério, a
mãe de Blaise teve um problema e eu estava tentando ajudar e...



-Hermione, Malfoy. –Harry se sentou no sofá, ainda com a
testa franzida, porém mais relaxado.



-quando cheguei em casa ela estava dormindo no sofá! –ele
suspirou se lembrando da cena. –eu fui levá-la para a cama e... Não me olhe
assim, apenas a levei para a cama, você pode ir lá ver se quiser!



-prossiga! –o moreno tentou desfazer a cara de
desconfiado.



-e ela... Bem, ela estava chorando antes e começou a
chorar outra vez. –Malfoy voltou a sentir o mesmo desespero de antes. Mas dessa
vez não podia pedir ajuda para Bichento.



Harry relaxou no sofá, olhando para o vidro de gel para
cabelo em frente à televisão. Era só isso então, pensou. Harry olhou para Draco
como se eles não se odiassem. Como se fossem iguais. Bruxo para bruxo.



-ela ainda está meio abalada com o que aconteceu. –Harry
deu de ombros.



-Weasley? –chutou, mais interessado.



-é, é por isso que Kingsley a afastou do ministério! Ele
teme que aquele lugar possa deixá-la pior. –Harry puxou o controle da TV do vão
do sofá e a ligou.



-então ela só está sofrendo pelo namorado morto! –Malfoy
soltou um som azedo.



-você não a conhece, Malfoy. –Harry riu sem humor algum.
–ela está sofrendo sim, mas de culpa!



-ela o acertou com feitiço ou com um vaso? –Draco ergueu
uma sobrancelha se divertindo. Harry riu um pouco mais alto.



-horas antes de ele morrer, Hermione havia terminado com
ele. –Harry disse por fim, fitando os olhos cinzentos.



Draco ficou em silêncio pelos segundos que se seguiram.
Harry foi até a cozinha o deixando sozinho para pensar por alguns instantes e
quando voltou carregava duas cervejas amanteigadas na mão.



-é difícil de acreditar, eu sei! – o Potter deu de ombros
olhando para a televisão. –mas já não havia o que ser salvo entre eles.



Foi difícil para Draco colocar cada pensamento no lugar.
Então ela não sofria porque ainda amava no namorado que havia morrido, mas sim
porque se sentia culpada de sua morte, já que havia terminado com ele horas
antes. Era uma coisa absurda e ao mesmo tempo totalmente possível para a
Granger.



Malfoy aceitou a cerveja que Harry o entregava e deu um
gole longo, sem se importar se estaria envenenada ou não. Olhou bem por um
segundo para o rosto do outro menino e percebeu que seu rosto continuava
vermelho.



-tem a marca de uma mão em seu rosto, Potter. –ele o
avisou. Harry corou violentamente.



-ah, sim, e obrigado por isso também! –bufou. –me salvou
de continuar uma discussão inútil com Gina.



-salvei sua pele, Potter? –ele perguntou malicioso antes
de dar outro gole em sua bebida.



-é, sim, salvou... Obrigado por isso, já disse. –Harry
falou carrancudo fazendo o outro rir.



-então continua saindo com a Weasley! –Malfoy notou,
olhando diretamente para as imagens da TV. –o que aconteceu com a Lovegood?



Harry não respondeu de imediato, apenas fitou Draco
Malfoy totalmente incrédulo. Malfoy também o olhou por um segundo, sem saber
exatamente o motivo do espanto do outro.



-o que foi? –o loiro piscou os olhos.



-Lovegood? –Harry perguntou em tom cético.



-é, quer dizer... –Draco deu de ombros, incomodado. –ela
é louca e tudo o mais, mas tem personalidade!



-Gina também tem! –Harry soou meio ofendido, mas ainda
parecia não acreditar no que Draco havia dito.



-é claro, é claro... –o loiro revirou os olhos. –a
propósito, o que tem acontecido no quadribol?



[...]



Quando Harry finalmente havia ido embora, Draco tomou um
banho rápido e vestiu o pijama. Mas, antes de ir para a sala aonde iria passar
mais uma noite, ele foi até a porta de Hermione e a abriu com cuidado.



Ela dormia tranquilamente. Seu rosto ainda estava
manchado, mas parecia sereno, quase feliz. Draco sorriu um pouco para a cena e
fechou novamente a porta, temendo acordá-la. Foi para a sala e tentou dormir.
Tinha que levantar dali poucas horas...

Notas finais
O que acharam do capítulo??? ++ comeeentem!!! ++ beeeijos