Um suspiro pesado escapou dos lábios de Xiaoshi uma vez mais enquanto seu corpo jazia praticamente sem vida no sofá laranja em plena luz do dia. Mais um dia.

— Você deveria consultar um médico, Xiaoshi. Nunca te vi ficar sem dormir direito por tanto tempo. — recomendou a jovem.

— Um médico…? — ele resmungou em resposta, tirando o antebraço de cima dos olhos para olhar Qiao Ling, que estava organizando alguns documentos da loja na bancada.

— É verdade, já tem mais de um mês que não pegamos nenhum trabalho por conta disso. Não teremos dinheiro nem para o próximo aluguel se continuar nesse ritmo. — Lu Guang apontou despreocupadamente sem tirar seus olhos do livro, o que não condiz nem um pouco com as palavras ditas.

— Agende o médico hoje, ou vai se ver comigo, tá me ouvindo? — ela finalizou a organização da papelada e saiu logo após guardar tudo em uma pasta, sem realmente esperar uma resposta, com a porta batendo de leve para enfatizar sua raiva.

— Que saco… — ele se levantou devagar e seu lamento se tornou um bocejo no meio do caminho para alcançar o celular. Em alguns minutos ele já discava o número do consultório mais próximo. — Oi, boa tarde. Sim. Tudo bem. É Cheng Xiaoshi. Seria clínico geral para hoje, por favor. — de soslaio olhou para Lu Guang, que mantinha sua atenção no livro — Não, tá ótimo. Muito obrigado. — desligou a chamada e voltou a se deitar.

— Quer que eu vá com você?

— Não, é bem perto e vou voltar logo. Vai ser daqui uma hora, me acorda se eu dormir, beleza?

— Claro.

— Valeu, Guang-Guang.

***

— Boa tarde, doutor Wang. Com licença. — o jovem de cabelos pretos disse ao entrar meio encolhido e se sentar diante do médico que olhava para o computador e digitava alguma coisa.

— Boa tarde, Cheng Xiaoshi, certo? Qual é o problema?

— Então… Tem quase dois meses que não estou conseguindo dormir. Parece que o sono simplesmente não vem à noite e aí fico cochilando durante o dia e não consigo fazer nada.

— Passou por alguma situação estressante recentemente?

— Acho que não…

— Tem se alimentado bem? Excesso de açúcar ou cafeína?

— Eu como bem, geralmente. E não sou muito chegado a doces ou café.

As perguntas seguiram conforme o médico digitava e alternava seus olhos da tela para o paciente.

— Dorme quantas horas por noite?

— Atualmente umas… Duas.

— Pratica exercícios?

— Às vezes.

— Vida social?

— Tenho.

— Namora?

— Não.

Repentinamente, o doutor Wang parou de digitar. Um sorriso triunfante surgiu em seu rosto.

— RÁ! Cheng Xiaoshi… Encontramos o problema. Você só precisa dar uns beijos, rapaz.

— Hã?

— Ficar de chamego cura qualquer coisa. Você já está morando com alguém, não é? Então, por que não?

— Sim, mas eu não entendo como isso pode…

— Cheng Xiaoshi, beijos liberam dopamina, serotonina, oxitocina... Excelente para ansiedade e qualidade do sono. Os desejos reprimidos estão atrapalhando o ciclo do sono, certamente. Pode confiar, basta deixar a timidez de lado e ir pra cima, garoto.

— P-pra cima..?

— Essas coisas são naturais e mais comuns do que pensa. Volte comigo depois de uma semana, se não tiver melhorado. Mas duvido que isso vá acontecer. Haha!

E foi assim que um Xiaoshi embasbacado voltou para casa.

— E aí? O que ele disse? — Lu Guang estava sentado no sofá, mas dessa vez, usava seu celular para se entreter.

— Eu não entendi muito bem, na verdade… — levou uma mão até a nuca, sem perceber o nervosismo crescer somente com a ideia de explicar aquilo.

— Ele te receitou alguma coisa? — os olhos castanhos pairaram sobre ele por alguns segundos, mas o som do aparelho tomou seu foco novamente.

— Bem… É meio constrangedor, mas sim.

— Seja o que for, você deveria seguir à risca.

Houve uma pausa longa de sua atenção nos lábios do melhor amigo, um arrepio percorrendo sua espinha ao se imaginar, de fato, beijando-o. Será que aquilo era mesmo comum entre pessoas que moravam juntas, como o médico havia falado? Para ele, parecia totalmente bizarro.

— É… Eu vou tomar um banho. — caminhou mais rápido que o normal para o outro cômodo, a fim de tirar seu rosto vermelho da vista do mais novo, que por sorte, continuava distraído jogando.

Aproveitou seu tempo sozinho para buscar na internet alguma informação sobre chamegos e beijos, e como aquilo poderia estar relacionado com a cura de sua insônia. Ficou chocado ao descobrir que havia uma relação lógica por trás do que lhe fora dito mais cedo, e que aquele médico podia estar certo em prescrever tal coisa.

Seu banho foi tomado em segundo plano. A mente agitava-se em meio a lembranças, vasculhando cada uma das vezes em que havia beijado alguém e relacionando aquilo ao próprio bem-estar. Não era como se tivesse ficado com tanta gente, mas, pensando bem, costumava dormir muito bem depois. Claro que o álcool talvez tivesse uma parcela de culpa nessa matemática torta, mas essa hipótese sequer lhe ocorreu.

Era isso.

Faria o que fosse preciso para voltar a dormir, obedecendo a um profissional, exatamente como Lu Guang havia recomendado.

"À risca."

A solução parecia simples. Um beijo resolvia tudo nos contos de fadas; por que não resolveria uma insônia?

Será que seria diferente de beijar uma garota?

Bom... uma boca ainda era uma boca, certo?

E o doutor Wang parecia bastante convencido.

Terminou o banho e, antes mesmo de se vestir, abriu o celular para pesquisar "como beijar um cara". Bastaram poucos minutos para encontrar conteúdos que jamais imaginara existir.

Seu cérebro pareceu dar curto-circuito.

Fechou todas as abas imediatamente.

— Não. Vou seguir meu instinto. — murmurou para si mesmo. — Afinal... eu também sou um cara.

Vestido de roupas e de uma coragem bastante questionável, voltou para a sala.

Lu Guang continuava exatamente onde estava, concentrado em um vídeo no celular.

Sem dar tempo para si mesmo pensar melhor, Cheng Xiaoshi sentou-se ao lado dele, segurou delicadamente seu queixo e o virou em sua direção.

— Xiao...?

Foi tarde demais.

O selinho que pretendia dar acabou saindo forte demais, e ambos permaneceram imóveis por alguns segundos, com os lábios pressionados de maneira completamente desajeitada.

Lu Guang piscou.

Uma vez.

Duas.

Depois ficou olhando para a parede, como se o cérebro tivesse simplesmente dado pane.

— ...

— ...

— Cheng Xiaoshi.

Só então pareceu recuperar os movimentos e o empurrou alguns centímetros para trás, as orelhas já completamente vermelhas.

— O que foi isso?!

— O tratamento.

— ...O quê?

— O tratamento que o médico passou.

— O médico...

Lu Guang repetiu lentamente, como quem tentava montar um quebra-cabeça usando peças de caixas diferentes.

— Você... foi ao clínico geral.

— Fui.

— E ele mandou você...

— Beijar alguém.

Silêncio.

Mais silêncio.

Lu Guang respirou fundo.

Respirou de novo.

— Esse médico definitivamente não tem CRM.

— Tem, sim. A sala dele estava cheia de diplomas.

— Diplomas também podem mentir.

— Ele explicou tudo cientificamente.

— Cientificamente?

— Dopamina, serotonina... outra coisa terminada em "ina". Parecia importante.

Lu Guang levou dois dedos à testa.

A enxaqueca que Cheng Xiaoshi dizia ter parecia, de alguma forma, ter migrado para ele.

— Xiaoshi... você entendeu completamente errado.

— Entendi, sim.

— Não, você...

— Você mesmo disse para eu seguir a receita à risca.

Lu Guang congelou.

Tinha dito.

Droga.

— Mas eu não sabia que a receita era essa!

— Então você não vai me ajudar?

Cheng Xiaoshi fez um biquinho tão convincente que faria qualquer pessoa se sentir culpada.

Qualquer pessoa.

Lu Guang apenas fechou os olhos por um instante.

Como explicaria que o verdadeiro motivo de estar em completo pânico era outro?

Aquele tinha sido seu primeiro beijo.

E, para piorar… na pessoa por quem estava apaixonado havia anos.

— Isso... — murmurou, cobrindo o rosto com uma das mãos. — Isso ficou muito mais complicado do que uma consulta médica deveria ficar…

— Você também sofre com insônia há anos, Guang-Guang. Isso beneficiaria nós dois, não é? — ele encosta na mão do outro, retirando-a com cuidado de seu rosto e dando um sorriso quase inocente.

— Eu… — desistiu de explicar que o costume o fizera não se incomodar mais com aquela situação. — Tch. Certo, vou te ajudar. — mal acreditava nas palavras que proferia.

Contudo, o brilho que surgiu nos olhos de Xiaoshi foi o suficiente para que o alívio tomasse o lugar de qualquer arrependimento que pudesse surgir com aquela escolha.

E foi exatamente desta maneira que ambos colocaram de modo pragmático em sua rotina o momento de “chamego”, da mesma forma que fariam com alguma outra tarefa ou compromisso.

O empenho de Xiaoshi era claramente mais intenso, no entanto.


Primeiro dia


Cheng apareceu às 20h.

Olhou o relógio, levemente impaciente pelo motivo do outro ainda estar jantando.

— Guang-Guang.

— ...

— Tá na hora.

— Na hora... do quê?

— Do tratamento.


Segundo dia


— Xiaoshi, você colocou um alarme? — seu tom oscilava entre irritação e incredulidade.

— Claro. — deu de ombros.

— O nome do alarme é "Beijar Lu Guang"?!

— Só pra não esquecer.


Terceiro dia


— Xiaoshi.

— Hm?

— Você colocou um cronômetro..?

— O médico falou para seguir à risca.

— O médico não disse nada sobre vinte minutos, disse?

— Vai que ajuda, né.


Quarto dia


— Vocês dois ficaram super estranhos essa semana. — Qiao Ling articulou parada em frente à TV para encarar os dois.

— Não ficamos, não. — eles responderam em uníssono.

E nem se deram o trabalho de disfarçar que estavam evitando contato visual.


Quinto dia


— Guang-Guang.

— ...

— Acho que ontem não fez efeito.

— Por que acha isso?

— Porque dormi só por oito horas.


Sexto dia


Qiao Ling adentrou o estúdio.

Os dois se afastaram do sofá na velocidade da luz.

Ela olhou.

Olhou de novo.

— ...

— ...

— Fala a verdade, vocês quebraram alguma coisa, não foi?

Era nítida a mudança no comportamento do mais velho e sua ansiedade para aquela hora do dia chegar. Uma criança de cinco anos seria capaz de identificar tal sentimento.

Mas não Cheng Xiaoshi, que após um mês retornou com o doutor Wang para se queixar de um novo problema, acompanhado de Lu Guang dessa vez.

— Tenho esquecido as coisas com frequência, parece que tenho estado sempre distraído, sabe?

E após algumas perguntas, veio uma um tanto suspeita de ser inapropriada para um profissional da saúde.

— Vocês estão praticando o intercurso quantas vezes na semana?

— A gente não faz nenhum curso... — Xiaoshi tinha as sobrancelhas unidas em confusão. O que aquilo teria a ver com sua memória ruim?

O doutor Wang ajeitou os óculos lentamente.

Respirou fundo.

Abriu um sorriso enorme.

Encostou as duas mãos na mesa.

— RÁ.

Lu Guang fechou os olhos e murmurou, desacreditado.

— Eu sabia que esse homem era um problema desde o primeiro diagnóstico.


Notas finais
Espero que tenham gostado e se divertido com essa humilde fic. Logo mais volto com mais uma! E, por conta do fandom de LC ser incrivelmente pequeno, eu criei um grupo no whats para a gente poder interagir e surtar juntos. Quem quiser entrar, deixo o link a seguir. Beijinhos e bebam água! https://chat.whatsapp.com/JTYaRo2V4wO6XQmexO9PBu
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!