Recanto das Gaivotas

4 Capítulo Quatro: Sweet Child O’Mine


Notas iniciais
Espero que gostem o/

Eu tinha uma namorada no Ensino Médio. Bom, não era bem uma namorada. Ela era minha amiga. Minha melhor amiga. A gente se pegava às vezes. Mas ela sempre foi boa demais pra mim. O nome dela era Angie. Ela sonhava em ser professora aqui. em Silent Shores.

Eu me lembro de perguntar pra ela porque o sonho dela era ser professora aqui, no meio do nada. E ela me disse uma coisa que nunca vou esquecer.

— As pessoas esquecem que os jovens são apenas jovens em cidades pequenas como essa. Os jovens daqui não tem tantas oportunidades como os jovens das cidades grandes, Rapha. Você sabe bem disso. — Ela estava sentada na areia rindo para o oceano. — Eu quero ser a pessoa que incentiva eles a irem atrás, mesmo contra todas as probabilidades. Eu quero ser como a âncora de um barco. Firme se eles precisarem. E maleável se eles quiserem zarpar.

Eu gostava do cabelo encaracolado castanho-escuro dela, dos olhos amendoados, da pele dourada e de seu sorriso grande e caloroso. Gostava de sentir seu corpo ao meu quando nos abraçávamos assistindo ao pôr-do-sol. E também do seu cheiro inesquecível… Amêndoas e caramelo.

Foi esse cheiro que acabou me acordando. Eu tinha passado a noite na praia e dormido na areia. Meu corpo estava duro como pedra, dolorido até os ossos e meus olhos lutavam para se ajustar à luz.

— O senhor está bem?

— Mamãe, acho que ele morreu.

Uma mulher estava de pé ao meu lado com duas… uma…? Algumas crianças. Suas feições borradas. Consegui me sentar quando finalmente me virei para vê-la melhor. Era uma mulher de mãos dadas com uma criança e um bebezinho no colo. A mulher me estendeu a mão para me ajudar a levantar. Amêndoas e caramelo.

— Obrigado. — respondi já de pé chacoalhando a areia das minhas roupas.

— RAPHAEEEEL! — Ouvi alguém gritar o meu nome.

— Raphael? É você!? — E então eu a reconheci.

— Angie!?

Antes que Angie pudesse reagir, Poppy me viu e correu em minha direção. Ela usava uma camiseta preta furada, com um top vinho por baixo e shorts pretos de lycra. O cabelo escuro com mechas verdes preso num rabo de cavalo.

— Ah, tô vendo que você encontrou a sua namoradinha. — ironizou Poppy.

— Do que ela tá falando mamãe? — perguntou a menina que usava um vestido cor-de-rosa com alcinhas.

— Ela só tá brincando, querida. — respondeu Angie afanando a cabeça da filha.

— Quem é ele, mamãe? — A garotinha perguntou novamente. Uma metralhadora de perguntas.

— Um amigo antigo. Ele é irmão da tia Poppy.

Tia Poppy? Eu acho que não aguento mais saber de filhos meus espalhados pelo mundo.

— Muito prazer, senhor. — A criança estendeu a mão — Por que o senhor tava dormindo na praia?

— O prazer é todo meu. — Apertei a mãozinha dela. — Eu tava dormindo aqui porque… Eu gosto da brisa do mar.

— Também posso dormir aqui, mamãe?

— Nem pensar.

— Poxa!

— Foi bom te ver de novo, Rapha. — Angie se dirigiu a mim. — Vamos marcar alguma coisa qualquer dia desses. Agora eu preciso levar minhas meninas para casa.

— Claro, vamos marcar alguma coisa, sim.

— Bom, se você tiver livre essa noite vai ter um happy hour lá no meu bar. Só bebida de primeira. — Poppy se intrometeu.

— Bom. Vamos ver. — disse Angie. — Até mais.

Assistimos Angie se afastar ouvindo o som das ondas do mar e das gaivotas rondando pela praia. Poppy colocou uma mão em meu ombro e começou a me puxar para o outro lado.

— Vamos. — disse ela.

— Para onde? — perguntei.

— Você vai ver.

Poppy me levou até o seu carro antigo, caindo aos pedaços, pintado de amarelo. Talullah estava dentro, no banco ao lado do motorista, com os pés descalços sobre o painel cantarolando a música que saía do rádio. Reconheci na hora. Sweet Child O’Mine.

She’s got eyes that it seems to me

Reminds me of childhood memories

Where everything was as fresh as the bright blue sky

Entrei no banco de trás e Poppy deu umas três partidas no carro antes que ele pegasse. Saímos do estacionamento indo em direção a avenida principal da cidade. Era uma tarde de domingo, então havia mais movimentos de pessoas do que de carros.

Now and then when I see her face

She takes me away to that special place

And if I stare too long, I’d probably break down and cry

Poppy dirigiu por alguns minutos até entrar em uma chácara no pé da serra onde costumávamos ir quando éramos jovens. Alguns adolescentes se reuniam em volta da piscina conversando animadamente, enquanto universitários tomavam conta da grelha. Tomara que esse lugar seja a prova de incêndios. Peter estava reunido com Sawyer e uma outra amiga deles. Saímos do carro e Talullah foi em direção deles.

— Louisa! — gritou Talullah acenando para a outra garota.

— Tia, o que cês tão fazendo aqui? — perguntou a garota vermelha de vergonha.

— Viemos assistir a peça da Sissi, é claro. — disse Talullah dando uma risadinha como se fosse óbvio.

— E o que ELE tá fazendo aqui? — Peter me lançou um olhar mortal.

— Para com isso, filhote de cruz credo. — sussurrou Poppy para Peter.

— Como assim? — Sawyer jogou uma mecha de cabelo por trás dos ombros. — Ele é o pai de vocês, oras. É claro que ele veio ver a peça da NOSSA Sissi. — Ela revirou os olhos. — Tudo bem que ele passou bastante tempo fora, mas EU acho…

— Olha só, por que vocês não vão indo pegar nossos lugares? — interrompeu Poppy.

— Mas vai demorar uma eternidade pra começar! — reclamou Louisa.

— Então vamos lá ver a comida, que tal? — sugeriu Talullah.

— O que a gente quer, aposto que você não vai aprovar, — desafiou Sawyer.

— E apostou certo, queridinha. — disse Talullah. — Vem galera, vou arrumar comida e bebida de menor idade pra vocês.

Peter, Sawyer e Louisa reviraram os olhos juntos, mas seguiram Talullah até onde alguns universitários estavam bebendo e reunidos em volta da grelha. Poppy me puxou pelo braço até uma cabana antiga nos fundos do terreno. Tudo estava mudado.

Da última vez que estive lá, era apenas um lote vazio com uma cabana abandonada que algum dia pertencera a senhora Hamming, mas agora a prefeitura decidiu revitalizar o lugar como um centro de socialização e agora em cima da velha cabana Hamming tinha um letreiro escrito: “TEATRO COMUNITÁRIO LEONORA HAMMING”.

Dentro havia um pequeno palco, coberto com cortinas azuis nos fundos e nas laterais. Havia cinco filas de cadeiras desmontáveis viradas para o palco, algumas delas já ocupadas. Ouviam-se risos, gritos e movimentações por trás das cortinas.

— Não, não, não! Parem com isso suas pestinhas miseráveis! — Uma voz fanha masculina reclamava e depois ouvi-se um grito de pavor. — É ISSO! EU DESISTO! EU DESISTO! ME DEMITO!

Um homem com cerca de uns 60 anos de idade e um xale pendurado no pescoço saiu choramingando de trás do palco. Logo em seguida, Sissi vestida com uma saia de época e um pano na cabeça começou a correr atrás dele.

— Não senhor, espere! Elas só tavam brincando! Era brincadeira! — exclamou Sissi.

— Brincadeira? Vocês são um bando de animais selvagens, isso sim! C’est une tragédie! Qu’ais-je fait pour mériter cela? Jamais! Jamais! — Ele saiu esbravejando outras coisas em Francês que pareciam xingamentos e maldições.

Sissi se sentou na beirada do palco e soltou um suspiro longo. Logo em seguida, jogou os dois braços pro alto e repousou as mãos nos olhos se jogando para trás, deitando sobre o chão elevado de madeira. Poppy fez um gesto para que eu ficasse onde estava e se aproximou lentamente de Sissi. Sentou-se ao seu lado em silêncio e repouso sua mão em um dos joelhos da garota.

— Tá tudo acabado! Tudo acabado! — choramingou Sissi entre suas mãos que repousavam agora em sua boca.

— Vão ter outras peças. — disse Poppy tentando consolá-la.

— Não vão. Não como essa. E tudo por causa… Por causa dessas meninas idiotas! Tá tudo uma merda.

— Ei! — Eu finalmente me pronunciei, meio incerto sobre o que eu ia falar.

Sissi se levantou em um pulo fazendo os babados da saia se chacoalhar e cair sem jeito sobre o tecido claro. Ela me fitou com a ferocidade de um gatinho doméstico, mas pude sentir Poppy me fuzilando com o olhar.

— É que… Bom… Não é nenhuma peça da Brodway, né? — Isso é sério? É o melhor que eu consegui pensar?

— Isso é o melhor que você conseguiu pensar? — criticou Sissi mudando de um triste para um assovio de raiva em instantes. — Pra que você veio então? Por que você VOLTOU? Devia ter ficado em Nova Iorque se acha que só peças da Brodway são dignas de serem vistas… Quer saber? Saí daqui!

— Não. — Eu disse. — Eu não vou sair.

— Por que não?

— Porque… — Eu procurei por uma boa razão por alguns minutos, antes de voltar a falar. — Independente de vocês terem me deixado, no mínimo, bravo com vocês por toda essa palhaçada de “pai”... Vocês são a minha família e precisam de mim.

— Não preciso de você! — cuspiu Sissi. — Eu poderia contar pra todo mundo a verdade agora mesmo só pra me livrar de você!

— Ah é? Então prove.

— Tipo… Agora?

— Exatamente agora.

— Minha peça acabou de ser cancelada, poxa! Você não tem coração, não?

Eu ri. Garota esperta.

— Tudo bem. Vamos fazer um acordo então.

— Que tipo de acordo?

— Eu deixo você e o Peter continuarem essa farsa toda aqui… SE vocês me prometerem que isso não vai vazar na mídia e ficarem me devendo um favor.

— Que tipo de favor?

— Eu sei lá, a hora que o favor aparecer eu falo.

— A gente promete.

— Quero promessa de cuspe.

— Isso é sério, Raphael? — Poppy finalmente se manifestou.

— Promessa de cuspe é promessa feita.

— Tudo bem. Já que é assim. — Sissi cuspiu na mão dela.

Eu também cuspi na minha e juntos selamos nossa união.

— Acho que eu vou vomitar. — disse Poppy enojada.

— Agora vamos. — Eu disse.

— Pra onde? — perguntou Sissi.

— Comer. — respondi.

— Eu sei de um ótimo lugar! — comentou Poppy.

Saímos do teatro e nos encontramos com Talullah, Peter e as outras meninas que pareceram surpresos em nos ver. Sissi explicou toda a situação e Peter lançou um olhar de preocupação em sua direção, mas durante todo o tempo ela estava comunicativa e sorridente. E assim acabamos no “Lady’s Night” bar da Poppy e da Talullah.

Peter e Louisa foram jogar bilhar assim que chegaram, Sawyer sentou-se no balcão e ficou empenhada em convencer Poppy a lhe dar uma bebida, Talullah preparava a comida, enquanto Sissi se sentou numa mesa mais afastada, tirou um velho caderno da bolsa e começou a desenhar. Eu fui me sentar junto a Sissi que nem percebeu que eu estava lá.

Talullah terminou de cozinhar e todos se juntaram na mesa dos fundos. Ao ver que todos se aproximavam, Sissi rapidamente guardou o caderno na mochila e ao ver que eu estava do seu lado ela corou e começou a mexer nas mangas da blusa. Talvez se perguntando se eu tinha visto alguma coisa.

Os hambúrgueres eram gigantescos, enormes e com porções de batata frita para acompanhar. Peter pegou o frasco de katchup e começou a despejar aos montes no seu prato.

— Pega leve no katchup, mocinho. — adverti.

— Quem você acha que é? Meu pai?

Louisa e Sawyer lançaram um olhar estranho. Como se estivessem falando “mas ele é seu pai”. Então eu pude perceber uma vantagem nisso tudo. Ah, por essa ele não poderia esperar.

— Exatamente. Seu pai.

Peter me olhou nos olhos e lançou uma careta. Eu cruzei os braços e dei uma risada discreta. Poppy e Sissi estavam rindo em silêncio também. Peter soltou o frasco de ketchup e o entregou para Louisa que o cutucava.

Continuamos comendo e conversando. Descobri que Sissi, Peter, Sawyer e Louisa costumavam pegar um ônibus para San Francisco sempre que tinha algum musical que queriam assistir.

— Não é como se fossem musicais da Broadway… — comentou Sawyer. — Mas foi como nossa Sissi descobriu que queria ser atriz. — Sawyer passou o braço pelos ombro de Sissi e a garota corou.

— Bom, e agora isso parece meio impossível já que o Jean-Jacque desistiu de dirigir a peça da escola.

— Ah que se foda o Jean-Jacque! — exclamou Peter. — Aquele cara é mais frouxo que calça de peão em rodeio.

— Garoto de onde você tira suas comparações, hein? — perguntou Poppy abestada.

— Da Tevê!

— Aí eu já sei! — exclamou Sawyer. — Por que não pede pro seu pai dirigir a peça?

— Quê?

— Quê?

— QUÊ!?

— É… — continuou a garota. — Quero dizer… Ele é músico, né? Ele deve saber alguma coisa de músicais?

Não faço a mínima ideia, mas todos se viraram pra mim com expectativa. Os olhos de Sissi brilharam.

— Eu…

Os olhares aumentaram sua intensidade.

— Eu…

Todos se reuniram para mais perto.

— Tudo bem. Eu aceito.

— VIVAAAAAA!

Notas finais
Espero que tenham gostado o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.