Recém Casados
25 Capitulo 25
Notas iniciais
— Acelera Brie – Me joguei dentro do carro seguida por Min Jun.
— O que aconteceu com seu cabelo? – Me olhou com os olhos esbugalhados.
— Só acelera! – Pedia Min Jun ofegante, batendo no encosto do banco do motorista e olhando para trás a cada cinco segundos.
Brie deu partida enquanto nós dois buscávamos por oxigênio e observávamos os seguranças desistindo de nos seguir ao lado de um Bernard descabelado, com as roupas amarrotadas e rasgadas.
— Eu acho que serei processada – Resmunguei sem ar e dei uma gargalhada – E eu nem tenho dinheiro.
— Mas em que merda vocês dois se meteram lá dentro? Aquele era o Bernard correndo atrás de vocês...
— Um pequeno desentendimento – Assinalei tentando desembaraçar os cabelos com os dedos.
— Você avançou naquele cara, era como um predador atacando a presa, eu quase senti pena dele — O cutuquei irritada.
— Você fez o que? – Brie me olhou com fúria pelo retrovisor.
— Ele começou, pediu para relembrarmos os velhos tempos, dá para acreditar nisso?
— Eu ia fazer algo sobre isso... Ele poderia ter te machucado – Min Jun tentou ajeitar meu cabelo.
— Eu sei, mas você também poderia ter arruinado sua carreira, a minha já está arruinada e não será uma briga estupida que vai mudar isso.
— Mas que droga passou pela sua cabeça, quando decidiu ficar com alguém como ele, Lisa? – Indagou ele.
— Vai mesmo jogar isso na minha cara agora? A culpa é minha?
— Uma parte sim. Lisa, talvez se pensasse mais antes de agir e tomasse menos decisões por impulso...
— Pensei que já me conhecesse e soubesse como eu ajo.
— Talvez seja isso que ferrou tudo, não acha? Pra começar nem deveríamos ter ido aquele lugar.
— Mas você foi junto...
— Por que eu sei como você é, e que era melhor estar lá com você.
— Pelo visto, não fez muita diferença.
— Aish...
— Vocês dois, podem fazer o favor de parar de brigar por um minuto, mas... Mas que droga! – Brie bateu no volante resmungando.
Cruzei os braços e evitei olhar na direção dele que, parecia tão enfurecido comigo, quanto eu com ele.
— Vão ficar brigados agora? – Nenhum de nós respondeu – Quantos anos vocês têm? Cinco?... Ótimo, eu adoro isso.
***
Brie nos observava com insatisfação, como uma mãe que olha para os filhos que brigaram por cereal matinal e nessa história nós éramos as crianças que brigaram por cereal.
Seus olhos corriam de mim para Min Jun, com suas mãos na cintura e um bico nos lábios finos.
— Eu adoraria ficar aqui e evitar um eventual homicídio, mas tenho mais o que fazer e bom, de qualquer forma, a casa é repleta de câmeras, no caso de um possível julgamento, então pensem bem antes de fazer algo – Ela caminhou até seu carro – E se possível, evitem discutir perto de objetos cortantes, principalmente você, Lisa!
— Por que está dizendo isso para mim?
— Por que eu te conheço senhorita, por isso – Piscou o olho, colocou os óculos escuros e entrou no carro, sumindo de vista em seguida.
— Lisa, nós podemos conversar?
— Não – Dei de ombros e entrei em casa pisando firme e batendo a porta.
Nos evitamos durante o dia todo, era incrível como éramos tão diferentes, mas idênticos em nossa arrogância e teimosia. Nenhum de nós era humilde o bastante para pedir desculpas e assumir sua própria babaquice.
Evitávamos qualquer troca de olhares, mas quando isso acontecia, eram como tiros mortais disparados em um tipo de guerra silenciosa, onde ninguém estava disposto a levantar a bandeira branca e ceder.
Me deitei na cama de costas para ele que mantinha uma expressão indecifrável enquanto me seguia com os olhos.
Eu respirava com força e bufava hora ou outra, murmurando qualquer coisa, apenas para demonstrar toda minha irritação, vontade de socar sua cara contra a parede e queimar suas cuecas até ele ficar sem nenhuma.
— Lisa! – Ouvi sua voz, mas apenas o ignorei, resistindo a tentação de me virar e ceder a ele – Eu sinto muito, eu fui um idiota – Confesso que fiquei um tanto tocada com sua atitude – Não deveria ter dito o que disse, eu não pensei direito, não tenho nada a ver com seu passado, apenas não me odeie, por favor, porque eu sei que, não posso viver sendo odiado por você...
Certo, tudo bem, eu admito, foi tocante.
— Eu prometo nunca mais tocar nesse assunto, isso diz respeito somente ao seu passado, e eu não tenho nada a ver com isso.
Apesar de minha mente relutar, meu corpo tomou vontade própria e se virou, ficando de frente para ele, que me observou surpreso.
— Por que eu não consigo te odiar? Eu juro que tentei – Ralhei franzindo o cenho e fiz um bico.
— Deve ser meu charme irresistível – Seus lábios se curvaram, formando um belo sorriso torto.
— Ha ha – O provoquei – Está perdoado, mas não significa que não estou brava.
— Ainda vamos sair amanhã, não? – Sussurrou para não nos ouvirem e acenei concordando.
— Vai ser divertido – Movi os lábios em silêncio e segurei sua mão sob os lençóis.
***
Eu sentia a leve brisa em meu rosto, naquela manhã quente, enquanto Min Jun dirigia contornando as montanhas. Um amigo misterioso havia nos emprestado sua casa de férias, e eu agradecia a todos os santos por Genna não fazer a mínima ideia de seu endereço.
— Fica muito longe? – Apoiei meus pés no painel de seu conversível.
— O bastante para a senhorita Owen não nos encontrar.
— É a melhor coisa que eu poderia ouvir hoje, um dia todo sem Genna. É como o paraíso.
— Quem diria que para ficar a sós com minha namorada, precisaria criar toda essa história.
— Eu gosto disso – Ele desviou os olhos da estrada e olhou em minha direção – Significa que se importa com o que temos – Repousei minha mão sobre sua coxa e recebi um sorriso tranquilo.
Paramos frente à um grandioso portão de metal que se abriu com um comando de voz de Min Jun em uma caixinha na parede da entrada.
— O que acha? – Ele sorriu conduzindo o carro para dentro do lote, que mais se parecia com uma fortaleza.
— Parece incrível.
Avistei a grande casa e moderna casa com algumas paredes de madeira e outras do que parecia ser mármore. Observei as grandes janelas que se erguiam do chão ao teto, o jardim forrado de arbustos, flores e algumas árvores que circundavam toda a construção de dois andares.
— Fico feliz que tenha gostado – Abrimos as portas do carro e caminhamos em direção à casa.
Min Jun digitou um código numérico e abriu a porta. Me atentei as luminárias cilíndricas penduradas por finos cabos no teto da sala de estar de paredes brancas, sofás acinzentados e almofadas verde limão.
Ele saiu a frente, feito alguém que conhecia a casa como a palma de sua mão.
— Essa é a cozinha – Berrou e corri até o ambiente com uma lareira próxima a mesa de jantar.
— Seu amigo tem muito bom gosto e muito dinheiro também, essa casa é bem melhor que a minha e eu a comprei quando era rica.
— Eu vou te mostrar nosso quarto – Curvou os lábios e segurou minha mão, me conduzindo escadas acima.
Caminhamos por um longo corredor repleto de quadros nas paredes cinzas, até parar de frente para uma porta e girar o trinco.
— Vamos dormir aqui essa noite.
As janelas panorâmicas nos ofereciam a vista privilegiada do oceano e de uma piscina com borda infinita.
— Ou será mesmo que vamos dor... – Min Jun aproximou-se de mim, mas o ignorei me virando desesperada.
— É uma piscina com borda infinita!
— O que? – Levantou as sobrancelhas e olhou para fora – Aquilo? – Apontou.
— Sim, uma piscina com borda infinita.
— Mas você nem viu o quarto.
— E daí? – Corri até a porta – O quarto não tem uma piscina com borda infinita, e eu sempre quis uma dessas – Corri como uma criança corre atrás de seus presentes numa manhã de Natal.
Desci quase caindo das escadas e saí pela porta da frente, contornando a casa, num completo desespero para ver a piscina de perto. Corri até a beirada, onde a piscina terminava em um precipício.
— Deus, isso é tão alto – Senti um frio na barriga ao ver Los Angeles pequena de longe e a imensidão do oceano – Mas tão lindo.
Sorri sozinha, mas soltei um grito agudo quando, de repente fui surpreendida pelas mãos de Min Jun em me ombro.
— Seu idiota, eu poderia ter caído lá em baixo! – Berrei arfando e socando seu peito.
— Mas não caiu – Gargalhou e segurou minhas mãos, me puxando para si – Me desculpe, eu não pude evitar, mas você parecia uma criança, tem certeza sobre sua idade? Eu posso estar envolvido em algo ilegal sem saber.
— Você não entende, eu sempre quis uma dessas, mas minha casa não é nas montanhas.
— Por que não comprou uma nas montanhas?
— Você tá maluco? Essas casas são caríssimas, nem no meu auge eu faria uma loucura dessas, é muita grana. O dono dessa casa com certeza é podre de rico e adora gastar dinheiro.
— Não é bem assim não, meu empresário me disse que essa casa foi um investimento... Eta.
— O que quer dizer com isso?
— Então... É... Bom, bem, essa casa não é bem do meu amigo.
— Não? Nós invadimos a casa dos outros?
— Não, não, é claro que não, eu pensei que tivesse entendido que a casa é minha – Abri a boca, abobada.
— Sua? Essa casa é sua? – Arregalei os olhos e voltei a observar a grandiosidade do lugar – Tudo isso é seu? Você tem noção do quanto esse lugar é imenso?
— Filmes de ação lucram bastante – Deu um sorriso amarelo e desviou o olhar para o mar.
— Você não conseguiria um papel pra mim num desses filmes que você faz?
— Já atuou antes?
— Eu interpretei uma vaca num comercial de leite uma vez, as pessoas fazem “muu, muu” pra mim quando me veem na rua.
— Deixe a atuação apenas para mim, certo?
— Certo – Fiz um beiço e me sentei no chão, enfiando os pés na água e Min Jun fez o mesmo.
— Você deve se dedicar a sua música, Lisa.
— Queria que fosse tão fácil, eu vou recusar o convite que recebi para cantar no festival.
— Não pode fazer isso – Segurou minha mão e franziu o cenho.
— Eu não tenho o que cantar, Min Jun. Bernard me odeia mais ainda depois de ontem, não posso subir no palco só para dizer “olá” e ir embora.
— Você poderia escrever novas músicas, você escreveu as antigas.
— Eu ajudei a escrevê-las, não escrevi sozinha, a única música que tentei escrever sozinha, não está finalizada.
— Tente de novo – Apertei os lábios e cerrei os olhos – Tá bom, parei – Ele levantou as mãos – Só não quero que desista de tudo por causa daquele babaca da gravadora. Só não quero que ele vença.
— Ele já venceu.
— Não chegou nem perto – Sorriu e se pôs de pé.
— Aonde está indo?
— Caminhar um pouco, você vem? — Acenei e segurei sua mão.
Caminhei com meus dedos entrelaçados aos dele, junto ao seu peito. Não havia sons de pessoas, ou de carros, não havia câmeras nos vigiando vinte e quatro horas por dia, não havia Genna gritando pelos quatro cantos, apenas a tão almejada tranquilidade.
— Agora que sei o quanto é rico, o que mais esconde de mim, senhor Hyun?
— Nada, não escondo nada.
— Tem certeza? Não é nenhum filho do rei da Coréia fingindo ser um cara normal como naqueles filmes? Ou na verdade você é mulher?
— Você mais que ninguém, sabe que não sou mulher, e não há rei na Coréia, não mais.
— Hum, então não é um príncipe? – Brinquei – Mas é tão arrogante quanto.
— Não, Lisa, não sou um príncipe, mas posso ser o seu.
— Ah, por Deus, isso é tão brega!
— Eu sou brega, você ainda não tinha percebido?
— Percebi, mas não gosto de apontar os defeitos alheios.
Ele riu e passou o braço livre em minhas costas me trazendo para mais perto.
Min Jun deitou-se sob a sombra de uma árvore e apoiei minha cabeça em seu peito. Sua mão ainda segurava a minha, a acariciando com seu dedo e com a outra mão afagava minha cabeça.
— Posso perguntar uma coisa? – Indagou e apoiei meu queixo em seu peito, acenando em concordância – Por que gosta de mim?
— Por que pergunta isso? – Franzi o cenho.
— Curiosidade, você me odiava até um tempo atrás.
— Eu nunca te odiei, você sabe disso, apenas fingia. Mas eu nunca pensei na razão de gostar de você, talvez seja sua inocência.
— Me acha inocente?
— Você é. Eu gosto disso, não me lembra ninguém que eu conheça, muito menos os outros caras que, me descartavam como se eu não fosse nada. Sinto que posso confiar em você e isso é bom. Sua vez, por que gosta de mim? – Mordi o lábio.
Ele apertou os lábios em uma linha fina e fechou um dos olhos, fazendo uma careta.
— Você não precisa saber – Olhou para cima desconfortável.
— Não é justo! – Protestei com um leve soco em seu antebraço, mas ele apenas gargalhou e continuei o estapeando à medida que suas gargalhadas aumentavam.
— Pare, por favor, eu estou sem ar – Pediu cansado e subi em suas pernas, segurando seu rosto entre minhas mãos – Se parar eu digo – Disse entre risos e afastei minhas mãos, aguardando sua resposta – Não, eu não vou dizer – Gargalhou outra vez se retorcendo debaixo de mim.
— Você é um completo idiota! – Resmunguei e cruzei os braços;
— Então termine comigo! – Parou de rir e me encarou sério.
— O problema é que eu realmente gosto desse idiota.
Sorri e sua mão me trouxe para si, me fazendo deitar sobre seu corpo e meu nariz tocar o seu. O fitei de olhos arregalados com sua atitude inesperada.
— Você não era assim.
— Você me ensinou bem.
Min Jun sorriu maligno e inclinou a cabeça para frente, me beijando com calma. Suas mãos seguravam minha cintura com firmeza e deslizaram sob minha camiseta, enquanto eu enfiava minha mão em sua calça.
— É melhor pararmos por aqui – Min Jun retirou minha mão de sua calça.
— O que? Por que? – Me afastei e sentei na grama.
— Eu não tenho certeza, mas não confio em Genna. Ela pode ter mandado alguém para nos seguir e não quero nossos momentos íntimos expostos na internet.
— Funcionou com a Kim Kardashian — Ele sorriu cínico – Certo, o que faremos agora, alguma ideia?
— Por que não vemos um filme?
— Um filme seu.
— Um filme meu? – Riu – Sim senhorita, vamos ver um filme meu.
***
Analisei a prateleira de DVD’s, procurando por algo “assistível” em meio a todos os filmes de ação com nomes extravagantes.
“Perseguição Implacável em Alta Velocidade”, Adrenalina Extrema em Tóquio – O inimigo agora é outro”, “Perseguição Implacável e Perigosa 12 – Mais Perigosos Ainda”.
— Você fez o mesmo filme umas 10 vezes.
— Não são o mesmo filme, apenas do mesmo gênero – Protestou sentado no sofá.
— Mas não sente vontade de fazer algo diferente, mais desafiador, talvez mais dramático, com cenas de dor e choro?
Min Jun balançou a cabeça em negação.
— Eu realmente gosto dos filmes que faço. Saltar de prédios e carros em movimento soa bem dramático para mim, e filmes de drama só me dão sono. Não veria meus próprios filmes.
— Pelo menos temos isso em comum – Sorri e voltei a conferir os DVD’s – Que tal esse? “O Atirador implacável”.
Sugeri um filme com Min Jun em destaque na capa, exibindo uma expressão de garoto mal, segurando duas armas nas mãos e um carro esportivo logo atrás, acompanhado por faíscas e uma explosão aleatória, apenas para deixar tudo mais másculo.
Ele sinalizou para que eu me acomodasse ao seu lado e me joguei no sofá. Atentei-me as cenas de perseguição e correria, onde Min Jun parecia a pessoa mais incrível em todo o planeta. Capaz de saltar de telhados sem ferimentos e de uma ponte em construção com um carro velho.
Não era nem de longe algo que eu apreciava assistir, mas eu queria vê-lo em ação. Era divertido pegá-lo olhando sorrateiramente para mim a cada dois minutos, aguardando por alguma reação ou comentário. Era bom sentir sua mão hora ou outra segurando a minha e a aproximando de seus lábios, de forma quase impensada e automática.
Min Jun apertou o botão de pausa do controle remoto quando um vulto de uma mulher de cabelos escuros e corpo esguio entrou em cena.
— O que foi? – Resmunguei.
— É... Bom, é que essa moça é meu par romântico e em breve teremos uma cena um tanto quente – Explicou sem jeito, tornando se tão vermelho quanto um tomate.
— Sério? Não... Que demais, eu quero ver! – Tentei tomar o controle de sua mão, mas ele o afastou.
— Não está com ciúmes, ou ódio?
— É seu trabalho, eu devo respeitar isso. Afinal você já é meu namorado na vida real e eu tenho você todo para mim.
— Estou surpreso.
— Por que?
— Pensei que surtaria e faria alguma daquelas coisas loucas que você sempre faz.
— Do que jeito que fala parece até que sou doida.
— Você é doida.
— Vamos apenas terminar o filme – Voltei a olhar para a televisão.
A mulher tornou-se mais nítida e então vislumbrei o rosto que me era tão familiar. Ela se aproximou cada vez mais de meu namorado e sua boca tocou a dele.
Jenny Diamond. Beijando. A. Boca. De. Min Jun.
— Jenny Diamond – Cuspi as palavras com repulsa, torcendo o nariz para a cena onde ambos se atracavam com voracidade sem motivo algum na história.
— Você a conhece, não é?
— Conheço – Olhei para ele – Minha arqui-inimiga. Eu nem posso pronunciar o nome dela novamente.
— Vocês não se dão bem? – Eu ouvia os gemidos dela ao fundo.
— Pode tirar essa droga de filme? Ela está gemendo com você numa cama!
— Me desculpe – Desconcertado, Min Jun desligou a televisão.
— Essa mulher roubou meu Grammy e desde então nos tornamos inimigas declaradas, pelo menos da minha parte.
— Ela roubou seu Grammy? – Concordei e as lembranças daquela noite fatídica regressaram à minha memória
Cerimônia do Grammy – 2013
Era o intervalo da premiação, antes do anuncio do prêmio principal de Álbum do Ano e eu concorria nesta categoria assim como Jenny.
Obviamente eu era uma cantora superior aos meus concorrentes. E me sentava na primeira fila do teatro. Eu era a grande favorita da noite.
— Olá Lisa! – Jenny apareceu em minha frente com um sorriso de orelha a orelha.
— Olá... Você é? – Eu sabia seu nome, mas eu era importante demais para admitir isso.
— Jenny, Jenny Diamond. Também estou concorrendo ao Álbum do Ano, por sorte ou destino eles gostaram do meu primeiro disco – A olhei de cima a baixo com pesar – Você já venceu esse prêmio duas vezes, certo?
— É, eu ganhei sim – Tentei não soar tão esnobe – Posso te dar uma dica de amiga?
— Amiga?
— É claro, somos cantoras, somos irmãs de profissão e você ainda é uma novata nesse mundo, por isso quero te ajudar.
— Tudo bem.
— Quando anunciarem o vencedor e disserem o meu nome, não fique triste, nem chore, além de borrar sua maquiagem, fica feio na filmagem e vão pensar que você é uma bebê mimada e chorona. Apenas siga o fluxo, por que ninguém sempre acerta de primeira, mesmo que eu tenha vencido na minha primeira vez, isso é algo para poucos – Wendy? – Chamei minha antiga assistente – Como está minha maquiagem? Boa o bastante para receber meu prêmio no palco?
— Sim, sim senhorita, está radiante.
— É claro que estou – Mexi em meus cabelos até então pretos com mechas brancas – Irão anunciar o prêmio em breve, é melhor voltar pro seu lugar Jenna.
— É Jenny.
— Tanto faz.
— Nos vemos na festa dos vencedores! – Disse ela empolgada.
— Eu acho que não, já preparei minha festa particular da vitória, mas foi bom te conhecer Jenny Esmeralda.
— Jenny Diamond.
— É, isso – Sorri prepotente.
— Infelizmente quando anunciaram o vencedor, não foi o meu nome que chamaram e sim o de Jenny Diamond – Pronunciei seu nome com desprezo – Claro que tem toda a parte que eu armei um barraco e saí carregada pelos seguranças, mas isso não vem ao caso agora. De qualquer forma, aquele foi meu último Grammy e meu último álbum.
— Você foi muito má.
— Não fui não!
— Você simplesmente a tratou como se ela não fosse ninguém.
— Eu era diferente naquela época, mas por que está defendendo ela?
— Não estou do lado de ninguém, é apenas a verdade. É por isso que a odeia, porque ela ganhou o Grammy e você não? – Ele abriu um sorriso como se tivesse feito a descoberta do século – Agora entendi, o motivo de ter ficado irritada no dia em que nos conhecemos. Tudo faz sentido agora.
— Mas aquele deveria ter sido meu Grammy.
— Ninguém vence o tempo todo, Lisa, você mesma disse isso a Jenny.
— Como se não se importasse em vencer. Nunca se imaginou ganhando um Óscar ou qualquer outra coisa do tipo?
— Já, mas desencanei quando percebi que, o tipo de filme que eu faço não concorre ao Oscar e estou bem com isso. Não me importo. Tenho coisas mais importantes para me preocupar.
— Tipo o que?
— Minha namorada que odeia alguém sem um motivo decente.
— É um bom motivo! – Min Jun negou com a cabeça e o dedo indicador – Oppa! – Resmunguei manhosa.
— Não começa Lisa – Ele fechou a cara e me encarou sério – Sabe como odeio isso.
— Por isso eu disse! – Sorri de forma maligna entortando o canto dos lábios – Talvez eu atribua a Jenny a ideia de que aquela foi minha última chance de vencer algo e ela tenha roubado isso de mim.
— Não diga isso...
— Eu quis acreditar que poderia voltar e me reerguer, eu até entrei nessa droga de programa estupido, mas sequer posso cantar minhas músicas no evento que fui convidada.
— Por isso repito que, deveria escrever músicas novas, ninguém além de você terá direito sobre elas.
— Você faz parecer fácil – Sorri com pesar – Escrever músicas não é algo simples...
— Mas não significa que não consiga.
Ele se ajoelhou no tapete, diante de mim e segurou minhas mãos, olhando dentro de meus olhos.
— Sobre o que eu deveria escrever, Min Jun?
— Sobre seu ódio por Bernard e como ele a fez sofrer. Seria uma boa forma de mostrar o seu lado da história, Taylor Swift ficou milionária com isso. Escreva sobre perder o Grammy pra uma novata, sobre Genna ser inconveniente, sobre o quanto eu costumo te irritar, sobre nós, sobre como seu namorado é charmoso e como nos odiamos no primeiro momento em que nos vimos, mas por alguma razão isso já parece tão distante, porque estou perdidamente apaixonado por você – Mordeu o lábio e senti meus olhos marejados – Se eu soubesse cantar ou escrever músicas, escreveria sobre como eu adoro acordar ao seu lado e como fico imaginando o motivo de estar sorrindo durante o sono. Sobre você sempre tenta me provocar, apenas para não parecer sentimental demais.
— Se continuar com isso, vou acabar chorando feito boba – Min Jun riu e se inclinou para beijar minha testa.
— Saranghaeyo.
— Pode parar de falar dessa tal de Sara? Quem é ela por acaso pra enfiá-la no meio das nossas conversas? Ela é tão especial assim? – Min Jun gargalhou alto – Por que está rindo? – Ele rolava no chão com a mão na barriga, reclamando sobre seu estomago doer – Isso não é engraçado!
— É sim.
— É quem você fica tocando no nome de outra mulher e ainda ri da minha cara.
Min Jun se recompôs e sentou ao meu lado com um ar sério, soltando um longo suspiro.
— Como eu poderia te dizer? É uma expressão da minha língua, não o nome de uma garota.
— Se não é um nome, o que significa?
— Eu não vou dizer.
— Como assim não vai dizer? Eu não entendo coreano – Uma luz se acendeu em minha cabeça – Espere, eu vou descobrir agora o que é isso.
Saltei do sofá e acelerei meus passos descalços, escadaria acima, em busca de meu telefone que havia ficado esquecido em nosso quarto. Vasculhei as superfícies e cada canto, até encontra-lo jogado sobre a cama, ao lado de uma almofada.
— Certo, eu só preciso repetir o que ele disse... Sara, saraneio? Sarangue? Sarará? Sarangueio? – Me recusei a voltar e perguntar a Min Jun e insisti falando com o celular – Isso o mais próximo que consigo, sarangueo, isso, o que significa sarangueo?
Uma voz feminina inexpressiva repetiu as palavras e em poucos segundos exibiu os resultados da pesquisa.
***
Senti minhas mãos úmidas enquanto descia os degraus, um de cada vez, tentando me equilibrar sobre as pernas bambas. Min Jun estava de pé, olhando para fora pela janela, com as mãos nos bolsos da bermuda. Caminhei até ele, tomando mais fôlego a cada passo, e então o envolvi em meus braços encostando minha cabeça em suas costas.
— Eu pesquisei o que aquela palavra significa – Minha voz soou mais como um murmúrio.
— Pesquisou?
— Uhum – O apertei com mais força e senti sua respiração pesada – Eu acho que também te sarangueio.
— Saranghaeyo.
— É, isso aí, eu acho que também essa palavra – Apertei os olhos e ouvi Min Jun rindo.
Sua risada aumentou e então tornou-se em soluços.
Min Jun chorava como se toda a tristeza do mundo estivesse acumulada em seu peito. Suas mãos tremiam enquanto buscava fôlego entre soluços.
— Eu disse algo ruim? Algo de errado? Por que está chorando? – Ele caiu ajoelhado sobre o chão de madeira e o abracei atônita – Só me diga por que está chorando, certo? – Segurei seu rosto.
— Não é nada.
— Como não é nada, você... Olhe pra você... – Meus lábios tremiam, assim como minhas mãos – Eu nem sei direito o que está acontecendo. Eu não devia ter dito aquilo, se eu soubesse...
— A culpa não é sua, estou feliz, é por que estou feliz.
— Por que, apenas não me diz? – Ele olhou para o chão e secou o rosto com as mãos.
— Eu não sei o que deu em mim, me desculpe.
— Se emocionou demais, quando eu confessei como me sinto?
Min Jun me olhou com olhos tristes e me abraçou sem dizer nada e tudo o que eu sentia era, a plena certeza de que não estava tudo bem.
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