Recém Casados
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Após um jantar silencioso e entediante onde apenas as falas roteirizadas eram pronunciadas, Genna nos convidou para uma conversa séria.
Ela andava de um lado para o outro com as mãos na cintura e um olhar fuzilante sobre nós.
— O que eu faço com vocês?
— O que quer dizer com isso? – Levantei a mão.
— Vocês não estão seguindo a droga do roteiro, ele está lá apenas de enfeite. Estamos recebendo as filmagens diárias e vejam só, não temos quase nada para aproveitar, vocês simplesmente ignoraram o roteiro e fizeram o que bem entenderam. Vocês deveriam ser um casal harmonioso e companheiro, mas nós só vemos vocês dois implicando um com o outro como duas crianças de oito anos de idade.
— Eu não sou muito boa em seguir roteiros, gosto de mais liberdade...
— Esse seu gosto pela liberdade te levou ao fracasso esqueceu? – Urrou.
— Você não precisa gritar com ela – Interferiu Hyun Min Jun – Grite comigo também – Levantei as sobrancelhas espantada com sua atitude.
— Vocês não entendem que o programa estreará em três dias e teremos que colocar tudo no ar? Até as partes não roteirizadas porque se cortarmos tudo não haverá nem quinze minutos de programa.
— Vamos lidar com isso, e prometemos seguir o roteiro de hoje em diante – Dizia ele com calma.
— Eu não prometi nada não hein! – Me pronunciei sentindo-me excluída.
— Nós vamos seguir o roteiro! – Reafirmou me lançando um olhar cortante.
— É o que espero, mas isso não evitará os primeiros episódios irem ao ar com as partes não roteirizadas, é um preço que terão que pagar.
— Todos já sabem o quanto sou fracassada, isso não vai mudar nada. Talvez afete mais o Min Jun.
— Está tudo bem, estamos juntos nesse show, vamos apenas seguir as regras.
— Por que está tão tranquilo? Estranho.
— Eu sou tranquilo, você é quem me tira do sério – Sorriu e saltou da cadeira – Podemos ir agora produtora Owen?
— Estão liberados e não me decepcionem, estou dando uma chance.
— Sim senhorita Owen – Respondeu ele se curvando em respeito à mulher e tentei imitar sua atitude de forma desengonçada.
***
Quase uma semana havia se passado, mas para mim aqueles dias mais se pareciam com um mês. Nós não conversávamos muito, éramos apenas dois estranhos sob o mesmo teto que seguiam algumas ordens de vez em quando.
O programa estrearia naquele fim de tarde e eu preparava meus lanches para comer enquanto acompanhasse nossas idiotices televisionadas. Levei tudo para a sala e preenchi a mesinha de centro com dezenas de lanchinhos, salgadinhos e cerveja. Liguei a televisão, faltavam apenas dois míseros minutos para minha grande estreia depois de todos os escândalos e decadência. Eu estava novamente na ativa e meu coração parecia querer sair pela boca.
Ao contrário de mim, meu marido não parecia dar a mínima para tudo isso e atravessou a sala com o celular em mãos, bermuda, regata e óculos escuros indo em direção à piscina.
Mas quem se importava, eu estava ali para me ver outra vez na televisão sem ser em matérias de programas matinais sobre artistas que caíram no esquecimento.
— Vai começar, ai meu Deus do céuzinho, vai começar! – Vibrei ansiosa enfiando batatinhas na boca compulsivamente.
— Nesta nova temporada de Recém Casados iremos conhecer o mais novo casal de famosos da América...
Sim ele disse famosos.
— Ou melhor, pelo menos um deles ainda é famoso!
Isso foi totalmente desnecessário. Completamente.
— Nesta tarde ensolarada de verão em Los Angeles, conheceremos o nosso noivo e sua noiva. O que será que eles estão pensando? – Continuava o narrador quando Min Jun apareceu na tela sentado no café onde nos encontramos pela primeira vez.
— Olá, eu sou Hyun Min Jun, ator Sul Coreano, participo no filme “Perseguição Implacável Explosiva em Alta Velocidade 16” e estou no Recém Casados... Eu estou bem ansioso para falar a verdade – Ele parecia tímido – Eu não sei muito bem o que fazer, sei apenas que ela é uma cantora, talvez seja Lady Gaga, Britney, Selena Gomez, seria incrível – Deu um sorriso retraído.
— Nosso participante não faz ideia de quem será sua nova esposa à partir de hoje, com certeza ele se surpreenderá – Então apareceram imagens de mim no estacionamento reclamando do suor com Brie debaixo do Sol tórrido.
— Eles não fizeram isso – Reclamei de boca cheia.
— Olá, sou Lisa Scott, cantora, dona dos sucessos “My sister is a Bitch” e “I hope that you die soon”, acho que vocês já sabem disso já que elas tocavam em todo lugar, vocês lembram não é? É claro que lembram. Eu estive em um filme também, não fez muito sucesso na época, era um filme de drama, mas um dia ele vai virar Cult e todos falarão sobre ele e eu vou estar lá – Eu parecia uma completa idiota – Eu soube que meu marido é um ator asiático, então acredito que seja o Jackie Chan, ou aquele cara do The Walking Dead, mas com certeza deve ser o Jackie Chan – Fiz alguns movimentos de artes marciais com as mãos, e sons de luta com a boca parecendo uma retardada mental e dei uma risadinha boba.
Eu procurava algo com que pudesse cobrir meu rosto, pois a vergonha que sentia era maior do que tudo no universo. As pessoas deveriam estar rindo de mim em todo o mundo. Eu podia imaginar o quanto o editor de vídeo riu editando essa droga.
Continuei assistindo ao episódio de quase duas horas tentando não gritar comigo mesma da televisão. Eu não fazia ideia de como era idiota. Talvez eu fizesse, mas não sabia que era tão idiota.
Então a cena onde Min Jun chegava tarde e dormiu no sofá finalmente apareceu. Ele não parecia bêbado como havia dito, nem chegado tão tarde. As imagens o mostravam chegando em casa tranquilamente e caminhando até nosso quarto, parando em frente à cama ficando lá por alguns segundos me observando em seguida pegando um lençol e voltando para a sala. Ele viu um pouco de televisão, foi para o banheiro e deitou no sofá se cobrindo com o lençol.
Por que ele havia mentido? Era para que descontassem do meu salário por não termos dormido na mesma cama?
E outra vez lá estava ele, sentado de frente para um fundo preto olhando para a câmera.
— Lisa estava incomodada porque eu ronco enquanto durmo e havia reclamado de não ter dormido nada na noite anterior, então eu comprei tampões de ouvido, mas fiquei com medo de que ainda pudesse incomodar. Quando eu cheguei e notei que ela já dormia preferi deixa-la descansar e dormir na sala foi a melhor opção – Sorriu acanhado e apertou os lábios ao mesmo tempo em que eu arregalava meus olhos pasma com o que tinha acabado de ouvir e ver.
Ele estava preocupado comigo.
Como o homem mais idiota e frio do universo estava preocupado comigo?
Me coloquei de pé sacudindo os farelos de minhas roupas e marchei para fora da casa à procura do meu marido. O avistei deitado em uma espreguiçadeira rindo feito uma hiena assistindo à algum vídeo na internet. Prossegui marchando até ele e ouvi algo familiar.
“Oh, oh,oh, oh Rich, my sister is a bitch...”
Ele estava rindo de mim!
— Ah meu Deus como isso é engraçado – Seus pequenos olhos se fechavam enquanto curvava seu corpo gargalhando alto – Mas que droga de cabelo era esse? E essa dança? – Ele mal podia respirar em meio as risadas e deboches. Senti o sangue ferver e todo o sentimento de gratidão que sentira alguns minutos antes se esvaiu em segundos dando lugar à irritação. O mundo inteiro já ria de mim, porque ele deveria rir também?
Roubei o telefone de suas mãos e me afastei olhando para o que ele tanto ria. Meu clipe de “MSIAB” realmente não era o melhor do mundo e meu cabelo preto com mechas brancas também não me favorecia em nada, mas isso não lhe dava o direito de rir da minha pessoa.
— O que está fazendo? Devolva meu telefone! – Pediu sério.
— Não, você estava rindo de mim – Me justifiquei levantando o celular para o alto.
— O celular é meu e eu vejo o que bem entender na internet.
— Mas não isso, você pode ver qualquer coisa, menos isso – Ele se aproximou e andei para trás.
— Lisa, por favor, apenas devolva meu celular, isso é infantilidade sabia?
— Se prometer não rir de mim novamente...
— Não vou prometer nada – Continuou andando até mim e continuei andando de costas até não sentir mais o chão – Lisa não... pise aí...
Senti meu corpo ser envolvido pela água e bati os braços tentando sair de lá. Min Jun não se ofereceu para me ajudar, sequer pulou na água para me resgatar. Ele apenas estava lá, parado na borda da piscina de braços cruzados e cara fechada assistindo minha cena.
Me agarrei à borda e juntei minhas forças para sair de dentro da água ainda segurando seu telefone o qual eu desejava com todas as minhas forças que ainda estivesse funcionando, pois eu não teria dinheiro para pagar por outro igual. No máximo um daqueles com tela em preto e branco que pesavam quase um quilo.
Meu marido não me ajudou a me recompor ou me levantar, mas suas mãos se esticaram em minha direção para salvar a vida de seu precioso telefone celular.
— Você é uma garota de sorte!
— Por experiência própria posso dizer que não sou não – Me levantei encharcada com as roupas pesadas.
— Pra sua sorte esse telefone é a prova d’agua, caso contrário você estaria muito ferrada.
— Não foi de propósito – Eu torcia minha camiseta e meus cabelos.
— Não importa, deve arcar com as consequências de suas ações.
— Me desculpe, eu só estava me sentindo mal com toda a sua risada e tudo mais... – Ele continuou parado me observando – Você não vai me pedir desculpas também?
— Você não está falando sério não é?
— Não? – Ele franziu as sobrancelhas – Não, eu estou brincando, hahaha – Disfarcei e passei por ele vagarosamente e tomando o celular de suas mãos outra vez e correndo em disparada para dentro da casa.
Ele corria trás de mim gritando para que eu parasse e devolvesse o que era dele, mas a única coisa que eu podia fazer era rir até meu estômago doer, acabar tropeçando na mesinha de centro e cair no sofá ainda gargalhando.
Min Jun saltou sobre mim segurando meus braços e pegando de volta seu telefone tão adorado lançando sobre mim seu olhar fuzilante.
De alguma forma aquilo tudo parecia divertido o bastante para eu tocasse seus lábios com um rápido beijo e continuasse gargalhando. Seus olhos se arregalaram e se afastou imediatamente como se meu beijo fosse algum tipo de repelente masculino.
— Por que fez isso? – Indagou com um olhar confuso e assustado.
— Foi só uma brincadeira – Respondi rindo – Não significa que eu te amo nem nada – Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro com uma expressão perturbada.
— Não se sai por aí beijando por brincadeira.
— Ah, vamos lá, foi divertido.
— Não, não foi. Beijos devem envolver sentimentos Lisa!
— Vendo assim, você nem parece o cara pegador dos filmes que faz, o homem pelo qual as mulheres se derretem com apenas um sussurro no ouvido.
— Eles são personagens, eu não sou um personagem, sou real e na vida real não saio beijando garotas por diversão – Concluiu sério.
— Então quer dizer que não beija uma mulher a não ser que esteja apaixonado por ela?
— Parece que agora você entendeu.
— Então realmente não quer que eu o beije nunca mais. Poderia apenas ter dito isso antes.
— Não foi minha intenção, é apenas algo que carrego comigo e que aprendi com meu pai – Ele parecia baixar a guarda.
— E quantas vezes já se apaixonou? – Inquiri curiosa.
— Por que quer saber?
— Pra saber quantas mulheres já beijou. Se me dizer, conto com quantos homens já dormi.
— E se lembra de todos eles? – Indagou arrogante.
— Ei, não é bem assim que a banda toca não. Eu não sou a prostituta que a mídia pintou. De acordo com os sites e revistas eu dormi com metade da população da China. Mas essa não é a incrível Lisa Scott que está aqui na sua frente – Apontei para mim mesma.
— E quem é a incrível Lisa Scott? – Ainda receoso se sentou ao meu lado.
— Eu namorei apenas dois caras em toda minha vida, um antes da fama e outro no meu auge, mas ele era um babaca que prefiro esquecer que um dia existiu. Sabe, eles criaram essa imagem minha de mulher atrevida, e eu apenas aceitei calada. A ideia daquele maldito vídeo clipe nem foi minha.
— O que destruiu sua carreira?
— Esse mesmo. A ideia foi da minha agência que dizia que minha imagem ainda não era safada o bastante. Quando o barco afundou eles me deixaram morrer na praia, colocaram a culpa toda em mim e cancelaram meu contrato. Então tudo acabou. Contratos publicitários, ensaios fotográficos, novos álbuns, tudo foi por água abaixo. Claro que a parte de dirigir alcoolizada foi culpa minha, mas quem nunca fez isso não é?
— Eu nunca fiz isso.
— Você não conta. Você é todo certinho e acha que sabe de tudo – Então pela primeira vez ele riu. Comigo. E não de mim – Olha pra você, rindo de algo que eu falo e não de mim. Parece que fizemos um avanço já que você sempre anda com a cara fechada. Como seus amigos te suportam?
— Não tenho amigos na América. Meus amigos estão na Coréia.
— Espere, você não tem nenhuma namorada secreta no seu país e por isso se zangou com meu beijinho inocente não é?
— É claro que não.
— Obvio, você é chato demais pra ter uma namorada. Mas está tudo bem senhor, digo oppa!
— Onde viu isso? Oppa?
— No Google, eu vi que as garotas do seu país te chamam assim. O-ppa! – Disse o provocando.
— Não me chame assim – Fechou o rosto outra vez.
— Porque não oppa?
— Apenas não me chame assim – Olhou para o celular e caminhou de volta para fora da casa.
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