Recém Casados

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Oi gente, tudo bom? Sobre o capítulo de hoje, ele é o mais tenso e sério de todos os que tivemos até agora, basicamente não é engraçado, mas muito importante para entendermos mais sobre a familia de nossos queridos personagens. Tem uns momentos super fofinhos do OTP então espero que gostem e aguentem que em breve tem beijo chegando.

Estávamos sentados no banco traseiro do carro preto que nos conduzia por Rogersville, o lugar onde nasci e vivi até meus 20 anos antes de sair de casa. Nada havia mudado, a cidade continuava a mesma pequena cidade de seis anos atrás. Sua população não chegava à miseras cinco mil pessoas e através da janela com vidros escuros eu observava as mesmas construções, as mesmas ruas monótonas e quietas. Minha antiga vida em Rogersville parecia apenas um sonho distante, como se eu não pertencesse aquele lugar.

Uma parte de mim agradecia por ter saído dali. A parte que estava satisfeita em ter conhecido metade do mundo, ter ganhado um Grammy, ter comprado uma boa casa em um bairro caro de Los Angeles, e rios de dinheiro o qual eu não mais possuía. Outra parte parecia sentir falta da calma e tranquilidade de minha cidade natal. A parte que se arrependia de ter se tornado famosa, a parte que desejava se reunir na mesa de jantar com a família e ter uma vida comum, a parte que odiava a parte da fama que é quando ela acaba e você volta a ser ninguém, mas não se lembra mais de como é ser ninguém.

Min Jun permanecia em silêncio ao meu lado. Eu não havia tocado no assunto de sua bebedeira e das coisas que ele havia me dito. Preferi manter tudo como estava, no esquecimento, mesmo que de alguma forma suas palavras mexessem comigo. Se ele não se lembrava, não seria eu quem tocaria no assunto e tornaria tudo estranho entre nós. No banco do carona Genna discutia ao telefone com seu ex-marido sobre ele cuidar de seus filhos enquanto ela estivesse fora.

Senti uma mão tocar a minha sobre minha coxa e olhei para o lado. Min Jun me observava tocando minha mão.

— Está tudo bem? – Indagou.

— Sim – Tentei sorrir – Apenas é estranho voltar aqui – Afastei minha mão e Min Jun acenou a cabeça desviando seus olhos de mim.

Notei quando as ruas se tornaram cada vez mais familiares, quando nos aproximamos da rua da casa de meus pais, quando por fim o carro parou e o carro atrás de nós com o restante da equipe fez o mesmo. Minhas mãos suavam e meu coração parecia querer sair pela boca, minha garganta estava seca e eu me sentia prestes a entrar em colapso. Mesmo que dissesse a mim mesma que tudo ficaria bem, eu sabia que não. Não estava preparada para aquilo, para vê-los novamente.

— Lisa, Min Jun, eu e a equipe de filmagem vamos na frente, precisamos de algumas imagens dos senhores Scott, quando eu der o sinal vocês saem do carro, certo?

— Sim Genna – Respondeu meu marido, mas apenas acenei concordando em silêncio.

Respirei fundo, eu estava em pânico. E ninguém além de mim sabia o porquê.

— Lisa! – Min Jun me fitou com uma expressão preocupada.

— Ahn?

— Tem certeza que está bem? Porque não me parece bem...

— Só estou um pouco ansiosa – Menti – Não é nada demais.

— Não acredito em você.

— Continue assim – Genna sinalizou para que saíssemos do carro e Min Jun segurou minha mão, abrindo a porta com a outra.

Saímos de mãos dadas, e apesar de não entender o porquê minha mente se preocupava com coisas mais importantes, como encarar meu pai depois de tudo o que havia acontecido.

Tudo ao meu redor estava em câmera lenta a cada passo eu dava em direção aquela casa branca com alguns arbustos que a rodeavam, com o mesmo velho banco de madeira na varanda e um gramado quase amarelado aparado recentemente. Nada havia mudado. Genna estava atrás das câmeras observando nossa aproximação. Minhas pernas tremiam e eu podia sentir que desfaleceria ali mesmo nas pedras que formavam um pequeno caminho até a entrada. Respirei fundo e olhei de soslaio rapidamente para o homem ao meu lado. Ele parecia tão nervoso quanto eu, sua mão estava gélida e sua respiração irregular.

Então meus olhos os encontraram parados na varanda. Meu pai, minha mãe e minha irmã que havia crescido tanto desde a última vez que nos vimos.

— Elisabeth! − Disse minha mãe quando me aproximei e me puxou para um abraço. Eu não sabia mais como abraça-la, como tocá-la, permaneci imóvel espremida por seus braços quase sufocando.

— Mãe – Foi tudo o que disse a mulher de cabelos castanho escuros, e rosto magro, virei em direção a minha irmã a qual só me lembrava de uma garota com longas tranças escuras que adorava ouvir boyband inglesas e assistir realitys musicais para encontrar seu novo cantor favorito que fosse bonito o suficiente para que desejasse se casar um dia – Elaine – Eu não sabia o que fazer, ela me parecia uma estranha. Não era mais a garota de quatorze anos que vira da última vez, era uma mulher adulta com seus vinte anos, cabelos curtos e pintados de um tom de loiro quase branco.

— Não vai abraçar sua irmãzinha Lisa? – Indagou Genna nos bastidores.

— Cla-Claro – A abracei me sentindo como se estivesse abraçando um estranho.

— É bom te ver de novo Elisabeth – Assinalou Elaine com um grande sorriso nos lábios rosados e finos.

Por fim eu deveria cumprimentar meu pai. Ele estava ali, parado diante de mim com um olhar sério, fechado como sempre. Seu rosto mostrava mais linhas de expressão do que eu podia me lembrar e sobre seus lábios um bigode negro com alguns fios brancos.

— Pai – Disse sem força, mas ele sorriu e envolveu meu corpo com seus braços, me espremendo contra si e mal podia me mover.

— Eu senti tanto a sua falta Elisabeth!

Besteira.

— Sentiu? – O fitei séria.

— É claro, desde que ficou famosa nunca mais nos visitou – Arregalei meus olhos incrédula no que havia acabado de ouvir.

— A culpa foi minha, não é? – Antes que ele pudesse responder apresentei meu marido fictício à família – Esse é Hyun Min Jun, meu marido.

— É um prazer conhece-los − Curvou-se diante de cada um dos três e em seguida deu um aperto de mãos em cada um.

— Ah, você é japonês? – Indagou minha mãe com um sorriso forçado.

— Não...

— Ele é chinês, não percebe Elen? – Interrompeu papai.

— Na verdade sou coreano – Explicou embaraçado.

— Ah, coreano... – Mamãe não sabia fingir estar animada com nossa presença – Por que não entramos? Vocês precisam se acomodar – Nos convidou tomando a frente e a seguimos pela casa.

— Espero que não tenha se esquecido de sua antiga casa filha... – Dizia com uma animação forçada – Acredito que viva em uma bem melhor do que essa em Los Angeles...

— Sim, eu vivo, comprei uma grande casa, com uma grande piscina, o meu quarto mede a metade dessa casa, uma grande área para lazer, é incrível o que consegui com meu esforço – Sorri cínica quando ela se virou e me fitou por alguns segundos.

— A casa que vivemos no programa também é ótima – Min Jun continuou um tanto desconcertado – Tem uma piscina e um belo quintal nos fundos.

— Eu sempre quis uma casa com piscina – Comentou minha irmã – Quem sabe um dia eu a visite...

— Não precisa – Disse sem pensar e ela se calou sem graça.

— Não fale assim com sua irmã Elisabeth, vocês não se veem a tanto tempo e já estão implicando uma com a outra?

— Coisas de irmãos, não é o que dizem?

— Certo.... Vou leva-los até o quarto de vocês, soube que precisam dividir o mesmo quarto, acho que não haverá problema algum, afinal teremos câmeras, me acompanhem.

A casa não era muito grande, era apenas uma casa comum. Não havia um segundo andar, somente corredores com portas para cada um dos quartos. Seguimos mamãe pelo corredor até a última porta, a porta de meu antigo quarto. Eu não sabia se eles haviam tirado minhas coisas de lá, ou se ainda as mantinham como num memorial de sua filha, a ovelha negra da família.

— Este é o antigo quarto de Elisabeth – Dizia minha mãe para as câmeras – Não mudamos muita coisa desde que ela saiu de casa – Abriu a porta e entrou no quarto.

Tudo estava intocado. As coisas que deixei para trás estavam no mesmo lugar, minha antiga cama, meu guarda-roupas com algumas poucas roupas que havia deixado, na parede azul, os mesmos quadros e pôsteres de cantores que eu costumava me inspirar.

— As coisas de vocês podem ficar aqui, podem se acomodar e ficar à vontade, avisarei quando o jantar estiver pronto – Sorriu e saiu do quarto me deixando a sós com Min Jun e dois cinegrafistas.

Me sentei na pequena cama de solteiro enquanto a equipe trazia nossas bagagens. Min Jun se sentou ao meu lado soltando um suspiro pesado. Pegou em minha mão sem dizer nada e a segurou com as duas mãos sobre sua coxa.

Ele não disse uma palavra sequer, somente permaneceu calado e sentado junto a mim sob as lentes das câmeras. Eu não sabia se era tudo atuação ou se Min Jun realmente se importava e entendia minha situação mesmo que eu não tivesse dito nada.

Não demorou muito até que minha mãe nos chamasse para jantar com um sorriso de orelha a orelha no rosto.

A mesa estava farta, havia comida para um batalhão. A equipe de filmagem certamente comeria no hotel, mas mamãe havia preparado tudo apenas para mostrar às câmeras.

— Sentem-se, reservamos cadeiras lado a lado para vocês – Disse papai educado.

— Elisabeth, você ainda não conheceu Robin – Apontou para o jovem rapaz loiro de olhos verdes e camisa pólo ao lado de Elaine, era como ver o Ken e a Barbie em suas versões humanas – Ele é o noivo da sua irmã.

— É um prazer conhece-la Lisa, já ouvi falar muito de você na televisão quando eu era mais jovem.

— Apenas na TV? – Olhei para Elaine que abaixou a cabeça quieta.

— Não costumam falar sobre a filha e irmã que saiu de casa para tentar fazer a vida na cidade grande? Seria uma ótima história para contar aos amigos não acham?

— Hyun Min Jun? – Papai chamou meu marido desviando a conversa – Este é o seu nome, não é, é tão diferente.

— Sim senhor.

— O que acha de estar conhecendo seus sogros?

— Ah, é... é diferente, eu nunca fiz nada igual antes.

— Você nunca conheceu os pais de suas namoradas? – Indagou meu pai.

— Eu nunca namorei antes – Respondeu sem graça dando uma garfada em uma batata.

— Você parece ser um bom moço, é importante que nossas filhas se relacionem com boas pessoas – Disse mamãe olhando para Elaine e seu noivo.

— Como se isso importasse – Murmurei.

— O que disse querida? – Indagou minha mãe.

— Nada, apenas pensei alto – Forcei um sorriso e continuei revirando a comida em meu prato, meu estômago embora vazio estava embrulhado.

— Conte nos mais sobre você Hyun Min Jun – Prosseguiu papai com seu interrogatório.

— Eu sou um ator, acredito que já devam ter visto algum filme que participei – Dizia nervoso – Eu costumava fazer dramas na Coréia, mas decidi que queria crescer mais profissionalmente e contratei um empresário que pudesse me ajudar nisto, então viemos para a América.

— E está gostando de viver aqui, deve ser muito diferente de seu país! – Indagou Elaine curiosa.

— Sim, eu aprecio viver aqui, é um ótimo país e sim é uma cultura bem diferente, mas nada que eu não possa me acostumar.

— Querido, me diga uma coisa – Começou mamãe – Por que nunca namorou antes, alguém bonito como você deve ter milhares de pretendentes.

— Bom, eu...

— Isso é pessoal mãe, você não precisa responder Min Jun.

— Eu só estava perguntando...

— Pergunte outra coisa! – Afastei o prato e cruzei os braços.

Meus pais continuaram seu longo interrogatório. Hora ou outra riam juntos e faziam piadas como uma família alegre, feliz e normal. Falavam sobre minha infância para Min Jun, sobre eu ter entrado para a faculdade de contabilidade e sobre meu primeiro namorado quando tinha quinze anos. Mas minha cabeça apenas girava e girava, cansada, enojada. Tudo o que eu queria era gritar e sair dali.

Tomei minha última dose de coragem e subitamente me levantei batendo as mãos espalmadas sobre a mesa, chacoalhando os copos e assustando todos ao meu redor.

— Já chega! – Meu peito subia e descia rapidamente – Já chega! – Todos voltaram seus olhares para mim – Que merda é essa?

— Elisabeth, o que está acontecendo? – Mamãe se levantou tentando me acalmar.

— O que está acontecendo? O que está acontecendo? Pare de me chamar assim, Elisabeth está morta! – Papai abriu e fechou a boca calado – Não é pai? Não foi o que disse quando me expulsou de casa seis anos atrás? Que sua filha estava morta pra você, que não queria me ver novamente nunca mais, por que eu decidi que não queria ser uma contadora como você, porque eu queria mais que isso? – Apertei os olhos e cerrei os punhos – Como podem simplesmente fingir que nada aconteceu? Como podem me olhar nos olhos e perguntar se está tudo bem? – Mordi meu lábio com força – Eu sequer tinha pra onde ir, mas eu consegui, eu venci, eu ganhei, eu me tornei tudo o que vocês disseram que eu nunca seria – Fitei minha mãe – Desde quando se importa com quem eu namoro? Você não estava lá quando descobri que meu ex era casado, Brie estava, você sequer a conhece, mas saiba ela é melhor do que você um dia será. Onde minha adorável família estava quando eu caí? Quando o mundo virou as costas para mim e eu não sabia o que fazer? E vamos lá, vocês sequer assistiram algum episódio do meu programa? Porque se tivessem assistido saberiam quem é Hyun Min Jun e que ele não é japonês ou chinês, saberiam que ele é um ótimo ator, por que não param de fingir que são boas pessoas e apenas mostrem o quão detestáveis vocês realmente são?

— Lisa! Não precisa de tudo isso! – Elaine segurou meu braço e a empurrei irritada.

— Cale a boca, desde quando se importa comigo? Não é mais uma criança, nunca falou de mim ao seu noivo, eu nem sabia que você iria se casar? Quando pretendia me dizer? Quando tivesse seu primeiro neto? Eu apenas não posso mais ficar aqui – Afastei a cadeira e saí porta afora sem um rumo certo.

As ruas de Rogersville eram familiares, já havia caminhado por todas elas, eu só precisava encontrar um lugar calmo.

— Lisa! – Ouvi uma voz familiar há poucos metros atrás de mim – Lisa! – Min Jun corria tentando me alcançar.

— O que é? Eles te pediram pra eu voltar e continuar as gravações como se nada tivesse acontecido?

— Não, eles não pediram nada, eu só não quero te deixar sozinha.

— Tem medo que eu faça alguma coisa errada?

— Não quero ser como eles! – Apontou para minha casa e parei no mesmo instante – Não quero te deixar sozinha quando mais precisa, somos amigos lembra?

As lágrimas simplesmente vieram e não havia nada que eu pudesse fazer para segurá-las, minhas pernas cederam e meus joelhos tocaram o asfalto de concreto e Hyun Min Jun me envolveu em um abraço. Suas mãos deslizavam em minha cabeça até minhas costas então ele segurou meu rosto entre as mãos e me fitou.

— Você é importante, saiba disso – Ele parecia tão angustiado quanto eu jamais vira e o abracei apoiando minha cabeça em seu peito.

— Eu preciso sair daqui – Me afastei e enxuguei o rosto com as mãos – Eu preciso ir pra outro lugar...

— Aonde quer ir?

— Eu não sei, só não quero ficar aqui – Me levantei e comecei a caminhar pensando nos lugares que encontraria aberto naquela cidade que costumava fechar às sete.

Caminhei em busca de um bar aberto, não havia muito o que fazer em Rogersville além de beber até tarde ao som de música country. Não demorou muito para que eu encontrasse um bar aberto. Min Jun caminhava ao meu lado e observava tudo ao seu redor atentamente.

— Um bar? – Indagou quando entramos no lugar que tocava clássicos dos anos noventa.

— Qualquer lugar é melhor do que aquela casa – Procurei por uma mesa vazia e me sentei na primeira que meus olhos alcançaram – Não vai se sentar? – Indaguei ao meu marido que observava até o teto do ambiente.

— Sim, claro – Acomodou-se na cadeira à minha frente – Está se sentindo melhor?

— Não, mas não quero mais morrer – Tentei abrir um sorriso, porém meus olhos ainda queriam chorar – Como é ter uma família normal?

— Por que acha que tenho uma família normal?

— É o que parece, que foi criado em uma bela família que não te expulsou de casa.

— Não ser expulso de casa não significa que minha família é perfeita.

— Conte-me mais sobre como sua família não é perfeita, talvez saber que não a única fodida aqui levante meu astral...

— Lembra quando te disse que não beijo nem saio com ninguém a menos que eu esteja verdadeiramente apaixonado por essa pessoa?

— O que isso tem a ver com sua família ser uma droga?

— Eu tinha nove anos, meus pais eram um casal aparentemente feliz, meu pai amava minha mãe, ela era como sua rainha e ele era capaz de qualquer coisa por ela, era o tipo de amor que você podia ver apenas no olhar – Ele abaixou a cabeça e suspirou – Em uma tarde minha mãe deveria me buscar na escola, porque meu pai estava trabalhando, então a esperei no mesmo lugar que a esperava todos os dias. Passaram-se minutos, e esses minutos se tornaram em horas. Até que alguém chamou a polícia e me levaram à delegacia, eu chorava desesperado, porque achei que minha mãe havia se esquecido de mim. Eles chamaram meu pai e ele me buscou. Ela não havia me esquecido, ela havia partido. Ela apenas saiu de casa com um cara que conheceu e nunca mais voltou, um tempo depois eu entendi que ela nunca foi apaixonada por meu pai e fugiu com outro homem na primeira oportunidade sem sequer se importar com seu filho. Eu nunca mais a vi, e já fazem quase vinte anos.

— Eu sinto muito.

— Meu pai me criou bem, mas eu quase não me lembro do rosto dela. Quando eu tinha onze anos jurei que não seria como minha mãe, não me envolveria com alguém sem sentir nada por ela. E tem sido assim desde então.

— Você é um homem obstinado senhor Hyun.

— Eu quero ter filhos um dia, não quero que passem pelo mesmo que eu, e não quero fazer o mesmo que ela fez com eles.

— Então eu realmente não sou a única com uma família ferrada, infelizmente isso me conforta – Ele abaixou a cabeça rindo.

— Apenas não chore por eles novamente, eles não merecem. Você é melhor que isso – Segurou minha mão sobre a pequena mesa redonda de madeira e moveu a cabeça analisando meu rosto – Você ainda não me parece bem o bastante – Min Jun se levantou e caminhou até a Jukebox antiga. Seus dedos percorreram entre as dezenas de teclas enfim apertando duas delas e virou-se em minha direção abrindo um sorriso.

Ele veio até mim estralando os dedos acompanhando a melodia de uma música de quase vinte anos atrás que fizera parte de minha infância e costumava embalar milhares de casais apaixonados da época.

— Me concede esta dança? – Estendeu a mão em minha direção.

— O que está fazendo?

— Te animando, é uma droga te ver sofrendo, então o que acha de dançarmos um pouco?

— É uma música romântica.

— Não faz ideia da luta interna que estou tendo agora mesmo, mas era a única música americana antiga que eu conheço.

— Tudo bem – Revirei os olhos e segurei sua mão sendo guiada até o meio do bar onde outros dois casais mais velhos dançavam.

— Eu não sei dançar direito, então já peço perdão por futuras pisadas em seus pés.

— Agora que me diz isso?

— Desculpe – Sua mão esquerda segurava minhas costas e a outra segurava minha mão.

Em pouco tempo nossos corpos eram apenas guiados pela melodia da música. Min Jun parecia constrangido tentando evitar contato visual, talvez pela grande proximidade, talvez pela música romântica, talvez porque apenas estivesse com pena de mim.

— Eu sinto muito – Comecei e ele me fitou.

— Pelo que?

— Por ter te envolvido em toda essa merda com a minha família, você não tem nada a ver com isso.

— Estou bem...

— E tem outra coisa... – Sua testa se franziu ­– Me desculpe por ter falado coisas ruins sobre seu país no dia em que nos conhecemos, por ter dito que preferia o Jackie Chan, eu sei que ficou com raiva de mim por isso – Abaixei a cabeça envergonhada, pedir desculpas não era o meu forte.

— Me desculpe por ter dito que preferia alguém mais famosa para participar comigo no programa.

— Admita que realmente queria, você sequer tinha ouvido falar de mim...

— No começo eu não queria, mas agora estou feliz por ser você e não outra pessoa.... Sentirei sua falta quando tudo isso acabar, vou sentir falta de suas implicâncias e provocações, de nossas discussões idiotas, de ouvir sua risada e de suas loucuras sem sentido. Eu sentirei sua falta Lisa, por isso eu gosto do agora.

Eu não disse nada. Não sabia o que dizer. Minha mente havia entrado em colapso e em silêncio aguardei a música terminar.

— Vo-você quer toma um ar? – Pediu desconcertado e acenei concordando.

Hyun Min Jun me conduziu para fora do bar e pensativa me sentei no meio fio, ele se juntou a mim sentando-se ao meu lado, sua perna hora ou outra se encostava na minha e seus ombros estavam quase colados aos meus. Estava esfriando e cruzei os braços sentindo a brisa gelada contra meu corpo.

— Eu não devia ter dito aquilo antes, eu não quero que pense nada errado...

— Você é meu amigo, sentirá minha falta – Tentei convencer a eu mesma − Min Jun fez que sim com a cabeça e olhou para o céu. As ruas estavam desertas, o único som vinha de dentro do bar e dos grilos − Não há nada aqui, nunca houve, por isso eu sempre sonhei em sair desse lugar, eu queria mais do isso.

— Você seria uma ótima contadora – Sorriu olhando para mim se encolhendo de frio.

— Não, não seria, eu odiava matemática, fiz essa faculdade pelo meu pai, quando eu decidi que tentaria algo maior fui chutada de casa.

— Por que não contou à Genna sobre essa situação com sua família? Quero dizer, ela poderia ter cancelado a nossa vinda para cá – O fitei olhando dentro de seus olhos que pareciam ter reflexos dourados mais escuros à meia luz.

— Eu não sei. Acho que parte de mim sentia falta de casa, essa parte queria ter a oportunidade de ver os pais novamente, de dormir em sua antiga cama e saber se sua irmãzinha estava bem. Acho que esta parte não me permitiu dizer nada a Genna.

— Entendo... – Seu braço passou por minhas costas me trazendo para si e apoiei minha cabeça em seu ombro.

***

Voltamos para casa tarde da noite, a equipe de filmagem já havia voltado para o hotel e toda minha família nos aguardava sentados na sala de estar. Pareciam consternados, minha irmã estava abraçada ao noivo e meus pais de mãos dadas como se sua filha tivesse sido sequestrada.

— Elisabeth! Você voltou! – Mamãe se pôs de pé e andou até mim quase desesperada – Não sabe como ficamos preocupados quando saiu daquele jeito, sente-se conosco, vamos conversar...

— Estou muito cansada, vou dormir. Até amanhã – Me dirigi até meu quarto acompanhada por meu marido.

Havia um colchão no chão ao lado de minha cama para Min Jun, tudo estava pronto para que apenas nos deitássemos. Vasculhei uma de minhas malas e peguei algumas peças de roupas e comecei a cobrir todas as câmeras instaladas no quarto.

— O que está fazendo?

— Quero privacidade, eu só não quero ser filmada hoje – Me expliquei passando minha camisola pela cabeça ainda vestida. E então retirei minhas calças jeans e a blusa que usava. Min Jun abaixou a cabeça enquanto seu rosto se pintava de vermelho.

— Precisa fazer isso na minha frente?

— Não estou pelada, e não me importo nem um pouco em te ver se trocar – Me deitei no colchão do chão.

— Não vai dormir na cama?

— Quero ficar aqui, se importa?

Ele abriu e fechou a boca algumas vezes pensativo e negou acenando. Deitou-se calmamente ao meu lado e observei cada detalhe de seu rosto que era possível enxergar apenas com a luz do abajur.

— Acho que não consigo mais dormir sozinha.

— É... – Sorriu constrangido e apagou o abajur.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim, os comentários que ainda não respondi, calma que responderei gente com muito amor. Um beijo e até mais!