Rebuild me
1 Capítulo único
Notas iniciais
AVISO: essa fic contém uma cena que descreve uma crise de ansiedade (embora não seja nada explícito demais); se isso te deixa desconfortável ou pode, possivelmente, ser um gatilho, por favor, não leia.
Sua mente,
Escapa por entre os dedos
Como água densa, fria; O resquício
De um abraço que o consume por inteiro: o envolve – o sufoca.
Não era a primeira vez que acontecia.
Aquele era basicamente o único fato que Jean conseguia registrar, o simples e conciso pensamento que apertava seu peito até expulsar todo o ar de seus pulmões, deixando-o angustiado, cego – desnorteado. Não era a primeira vez.
E com certeza não seria a última.
Na solidão silenciosa do corredor vazio, ele escorregou pela parede estar sentado no chão, a respiração deixando seu corpo em ondas, que faziam seus ombros tremerem, os dedos rígidos buscando o próprio rosto, tentando certificar-se de que ainda estava ali. De que seu corpo, de algum modo, não havia evaporado junto com sua mente.
Ele não ouvia vozes. Era apenas o silêncio descomunal, a sensação de que uma corda o puxava, enrolada em seu torso, para longe de tudo o que conhecia. Ele sabia que, se olhasse pela janela, veria os outros – Sasha, com Connie, provavelmente, as testas suadas pelo esforço brilhando sob a luz cruel de fim de tarde. Bertholt e Reiner; Annie, talvez.
Mas, se fizesse isso – se conseguisse, de algum modo, levantar os olhos...
Uma nova onda de tremores balançou seu corpo. Ele fechou as pálpebras com força, tentando bloquear (exatamente o que, ele não sabia). Mas o suor frio descia pelas suas costas, um contraste com a garganta seca dolorida.
— Jean.
O tom de voz não era inquisitório. Não estava se perguntando qual o rosto escondido por trás das mãos, encolhido no canto do corredor. Sabia perfeitamente bem quem era. Mas essa informação passou voando pela cabeça de Jean. A voz ressoou duas vezes antes que ele fosse capaz de registrar o que estava acontecendo. Que a voz era real. Que estava ocorrendo, do lado de fora de seu cubo semi-sólido de agonia.
Eren ajoelhou-se na frente dele; Jean o olhou com os olhos arregalados, tentando descobrir se aquilo estava acontecendo mesmo, embora o modo como a luz refletia nas órbitas esmeraldas do outro trainee não pudesse ser resultado de suas alucinações, ele sabia.
O rosto de Eren era duro, quase raivoso – nada novo. Mas Jean pensou ver algo diferente nas linhas de preocupação que ele tinha em torno dos olhos.
Devagar, mas não devagar demais, Eren pegou as mãos dele – com determinação o suficiente para não fazer com que Jean sentisse-se como um pedaço de vidro frágil e mais como um ser humano. A pele de Eren era ríspida e cheia de calos, bem como a dele própria.
— Respira comigo — ele instruiu, a voz objetiva.
O coração de Jean tentou escapar de seu peito, nervosismo e ansiedade tropeçando um no outro, jogando-o ao chão empoeirado e pisando no seu crânio. O rosto de Eren saiu de foco. A pele áspera tornou-se uma realidade distante, escapando das dele, como água evaporando de um poço – deixando Jean para morrer de sede, inclinado por sobre a borda, olhando desesperado para o fundo.
— Um — Eren contou, apertando com mais força e puxando Jean como âncora teimosa — respira comigo.
Jean se concentrou. Ele tentou – a primeira lufada de ar preenchendo seu peito, expandido sua caixa torácica, relaxando os ligamentos de seus ombros tensos.
— Você está indo bem — Eren comentou —, agora de novo. Respira comigo: um, dois.
Um, Jean inspirou. Dois.
Lentamente, Eren desceu as mãos deles até que estivessem pousadas sobre os joelhos de Jean, mas seus olhos não deixaram o rosto do outro garoto.
— Três... — o peito de Eren se inflou quando ele exagerou o movimento, respirando fundo, e Jean teve mais facilidade em respirar o: — quatro.
Eles continuaram por mais incontáveis casas decimais, até as mãos de Jean não estarem mais tremendo, até ele conseguir respirar por si mesmo sem a contagem de Eren. Até a sanidade dele retornar, secando suas palmas do suor frio, fazendo com que Jean sentisse como se pudesse resgatar as gotas que haviam escapado como água corrente.
— Antes de entrarmos para o exército — Eren contou, em tom complacente. — Eu tive vários pesadelos. Armin aprendeu isso — ele gesticulou de forma aberta. Jean não soube exatamente à que estava se referindo. Isto? A contagem para acalmar? O segurar de mãos? O olhar apaziguador? — Para me ajudar. Mikasa sabe também.
Jean assentiu, incapaz de responder. Eren deslizou pelo chão até estar sentado ao lado dele.
Eles foram encontrados muito depois, quase ao cair da noite, e castigados com a limpeza do refeitório. Quando Eren finalmente conseguiu se enxotar uma Mikasa insistente em ajudar para o dormitório, metade parcialmente por Ymir, e os dois ficaram sozinhos com os esfregões e esponjas gordurosas, Jean engoliu em seco.
Ele se preparou para falar, engolindo o próprio orgulho, e...
— Não precisa agradecer — Eren o interrompeu, passando por ele.
Jean engoliu as próprias palavras de volta.
Para sua surpresa, Eren apertou seu antebraço com firmeza, mas também um pouco de... afeição? Havia algo sobre o toque que não parecia completamente amigável, mas nada tinha em comum com a hostilidade habitual.
E a mão de Eren ficou lá por apenas uma fração de tempo a mais — o suficiente para codificar a mensagem de que houvera sido itencional, conscientemente ou não.
Jean observou o rosto dele sob a luz da lâmpada à óleo, o modo como os feixes alaranjados refletiam na pele cobreada, acentuando as imperfeições, os lábios rachados, a carranca eternamente birrenta.
Mais tarde, em seu beliche, enquanto os garotos apostavam sobre qual seria a posição das pernas de Bertholt na manhã seguinte, Jean se encolheria junto à parede e se perguntaria o que diabos havia feito.
Naquele momento, no entanto, ele se inclinou.
Uma das mãos de Eren subiu, ficando suspensa tentativamente entre eles quando suas respirações se misturaram, um milésimo de segundo antes de suas bocas entrarem em contato e os dedos firmes encontraram o quadril de Jean.
E, embora a mão dele tenha permanecido suave e imóvel, o beijo de Eren era insistente, forte – objetivo. Exatamente como ele. Jean tentou acompanhar, as próprias mãos tremendo onde haviam pousado nos ombros dele.
Eren quebrou o momento, lentamente. Por um longo instante, eles ficaram perdidos.
Os olhos de Eren o envolvendo, abraçando-o sem tocá-lo, sufocando-o — sufocando-o com toda a calmaria que Jean houvera deixado escapar entre seus dedos naquela manhã e Eren o havia devolvido.
Quando eles voltaram para o dormitório e encontraram Connie e Marco discutindo energicamente sobre qual seria o resultado do dia seguinte, Eren lhes lançou um comentário amargo, mas logo juntou-se a conversa. E quando as luzes foram apagas...
Quando as luzes foram apagadas, Eren virou-se no colchão fino até estar de frente para Jean, o espaço entre as camas os separando, e estendeu uma mão até os calos de seus dedos estarem afagando de toda a forma gentil e nada... nada “Eren” as costas da mão esquerda de Jean.
E de alguma forma, Jean não se importou.
Ele adormeceu com a respiração calma, reconstruído.
Notas finais
Espero que tenham gostado e, caso estejam com vontade: comentários são sempre apreciados!
Fale com o autor